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Conversa Paralela #1: O amor e a diversidade de Steven Universo

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O fanservice inteligente de Nisemonogatari


Pode não parecer, mas Nisemonogatari é muito diferente de Bakemono - e talvez seja isso que tenha causado certa aversão a essa empreitada, já que Nise é considerado por muitos o pior anime da série. Ele é ruim? Não, apenas tem uma perspectiva diferente, deveras descompromissada, que se constitui de um festival de conversas aleatórias, comédia pastelona e muito ecchi. Mas não se engane, há muito mais em Nisemono além do fanservice exagerado.

Comparando com Bakemono

As mudanças nesta fase são sutis – aparentemente é o mesmo anime que Bakemono, com o mesmo estilo em tela – entretanto, aos poucos os rumos dados para a história destoam do anterior. Você pode odiar Nise, mas é aqui que Monogatari firma sua identidade. A diferença já começa pela estrutura: em Bakemono tínhamos um enredo pautado em pequenos arcos, tendo como estrutura a jornada do herói. Koyomi Araragi, o personagem principal, entra em contato com o sobrenatural e passa a ajudar diversas garotas, conhecendo suas histórias e as auxiliando no processo de cura (vulgo redenção). Os diálogos rápidos, tão característicos, estão presentes, mas não de forma clara – o que eu quero dizer? Eles se escondem por traz de uma trama maior; um perigo iminente típico do gênero shounen. Em Nisemonogatari os diálogos não são elementos secundários – são elementos principais. Aqui, a história vai para o segundo plano e as divagações ganham foco principal. Percebe a diferença?

Monogatari é um amontoado de referências e clichês do mundo dos animes e é isso que o torna tão especial, porém essa característica não fica tão evidente no primeiro anime. É o problema da ironia, geralmente demora um tempo para as pessoas pegarem que aquilo é uma piada. Sendo assim, existe uma dualidade que passa batido em Bakemono: é a estrutura típica dos shounens sobrenaturais que torna a história tão interessante, mas ao mesmo tempo existe uma realidade palpável que constrói um ritmo um tanto quanto estranho: lento, vazio e simples. Nisemono resolve então deixar claro, como se dissesse: “olha, isso aqui é uma grande piada”. Claro, como uma boa obra, não diz isso explicitamente, pois explicar a piada é o mesmo que matá-la.
Daí temos uma brincadeira com os gêneros slice of life, hárém e ecchi – culminando, consequentemente, em fanservices. Se antes o sobrenatural era protagonista, aqui ele se torna um fato qualquer; apenas outro problema que gera discussões. Portanto, o plot de Nisemono é fraco – dividido em duas histórias, temos Senjougahara e as Irmãs de Fogo VS o trapaceiro Kaiki, e Kagenui VS Karen Araragi. São tramas desinteressantes, sem muito a acrescentar na mitologia da série, mas o diferencial está na execução e aí vêm os famosos diálogos. É criada toda uma expectativa, por exemplo, em torno da figura de Kaiki e do embate que ele terá com Araragi. Assim como em uma música pop, é inevitável existir uma ponte que alimenta o clímax principal, que logo explodirá no refrão; em uma narrativa não é diferente. A sacada de Nise é brincar justamente com isso: se o ávido otaku está aflito por um embate fenomenal de um meio vampiro contra um ocultista, ele simplesmente fica com cara de tacho ao perceber que tudo é resolvido com uma conversa sem pé nem cabeça, às vezes filosófica demais, às vezes idiota demais, que toma metade do episódio. Para completar, a batalha fenomenal que tanto esperávamos rola aleatoriamente entre Araragi e sua irmã enquanto discutem sobre a vida.  

Fanservice


Ao mesmo tempo, se há tanto nas entrelinhas (coisa típica de uma sátira), pode não ter nada no superficial. Como assim nada? NADA! Apenas o aleatório, o bizarro e o erotismo tomam conta. Claro, quando se tem uma premissa inteligente, mesmo que o autor não esteja consciente das suas ações a história ganha um duplo sentido. Temos um episódio inteiro de Araragi “escovando” os dentes de sua irmã, em uma clara alusão à masturbação (uma sugestão tão direta que nem sei se é apenas sugestão). Em partes você pode olhar sob a perspectiva de um crítico intelectual e perceber as nuances a respeito da sátira sobre os ecchis e as polêmicas relações incestuosas – seria um fanservice sobre fanservices. Mas também, não é errado dizer que pode ser apenas loucura do Nisio Isin (o autor) e aquilo não quer dizer nada – é só uma forma inteligente de mostrar putaria sem ser explícito.

Esse fanservice inteligente acaba permeando toda a obra. Em um surto lolicon, Araragi abraça descontroladamente Hachikuji; no momento seguinte a garota está falando sobre qual calcinha deveria usar para seguir com o estereótipo de seu personagem. Isso se chama metalinguagem. Só que, diferente da maioria das obras do estilo, ninguém está 100% consciente. São surtos loucos no meio de diálogos rápidos e aleatórios; como se o autor dissesse: “eu sei o que você está esperando”. Sendo assim, é uma quebra de expectativa a todo segundo, constituindo-se de um vai e vem entre desenvolvimento das personagens (seus anseios, desejos e traumas), comédia e ação. Pode não parecer, mas Nisemono é um interessante trabalho de como criar personagens imensamente singulares e humanos. Se o sobrenatural existisse, seria mais ou menos aquilo que aconteceria: uma troca de informações sem filtro entre seres com realidades diferentes. Não a toa, a maior alegria de Shinobu, uma vampira milenar que mora na sombra de Araragi, é comer Donuts. 


Assim sendo, simplesmente não entendo quem reclama do fanservice: é a melhor parte! A reclamação deveria se voltar para a trama sobrenatural, essa sim não tem grande valor (pelo menos antes do último arco), servindo apenas para bater cartão e atestar a existência do gênero inicial proposto. 

Ato Final

Uma das grandes capacidades da série Monogatari é ser tudo e nada; mudar da água pro vinho de forma natural. E é isso o que acontece. No ato final, todo o fanservice é deixado de lado para iniciar uma trama dramática que envolve a eterna questão filosófica: de onde vem a maldade? E mais, do que é feito um ser humano? Então voltamos para a atmosfera de Bakemono com um acréscimo inteligente à mitologia do anime - talvez seja aqui que quem criticou o fanservice se encontre. A dinâmica entre os três ocultistas (Kagenui, Kaiki e Oshio) é muito bem acertada, instigando a nossa curiosidade. Pode até ser clichê, mas é interessante ver perspectivas diferentes a respeito do mundo sobrenatural. Então, sendo assim, mesmo para quem não aguentava mais tanto "fanservice", o final compensa e coloca o enredo nos trilhos, rumando para um futuro interessante. Resta saber o que virá depois. Com toda a certeza logo irei conferir, pois o melhor da série parece que ainda está por vir.

El Psy Congroo.

Nome: Nisemonogatari

Ano: 2012 

Estúdio: Shaft

Gênero: sobrenatural, comédia, romance

Baseado: light novel

Direção: Akiyuki Shinbo

Roteiro: Fuyashi Tou, Akiyuki Shinbo

Nota: ★ ★ ★  ★ (80/100) 

Recomendação de leitura: Nisemonogatari, por quê ele é o melhor da temporada?

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