Pular para o conteúdo principal

Destaques

Steven Universo: reflexões sobre o papel educacional de um desenho

Vivemos em um mundo de conflito, onde olhamos primeiro as diferenças e depois as semelhanças. Por essas e outras eu fico feliz de ter assistido quando criança desenhos que falavam sobre alguém excluído por ser diferente. E por causa disso acredito que Steven Universo, entre outros desenhos atuais, são mais do que recomendáveis para crianças e para qualquer um, pois eles possuem uma mensagem que pode potencialmente melhorar o caráter de alguém.

Golden Boy, a putaria como ensinamento motivacional


Apesar de ter certo conhecimento sobre comédia e de fato curtir pra caramba o cenário brasileiro de stand-up (diferente de 90% dos meus amigos), eu sou uma pessoa de riso difícil. Lembro muito bem de estar sentado na sala de vídeo da pré-escola junto de trocentas crianças assistindo Barbie Lago dos Cisnes e a cada trapalhada, cada tombo, todos caíam na gargalhada - menos eu. O pequeno Maeister ficava ali, no meio, sem entender por que riam tanto, se sentindo um completo alienígena. O mesmo se seguia em outros filmes, por exemplo da Pixar, onde a cada acidente forçado, meus coleguinhas riam mais e mais. "Será que eu não sei rir?", pensei enquanto forçava uma risada para não acharem que eu era estranho. Porém, aos poucos algo diferente aconteceu e logo constatei: eu sabia rir e muito bem, só não achava graça das mesmas coisas que eles. Não foram poucas as vezes em que me peguei querendo gargalhar, mas segurava o riso pois percebia que ninguém estava sorrindo junto.
Sendo assim, se você, assim como eu, tem um tipo de humor peculiar, e não se importa com o tal "limite da piada" e nem com situações notavelmente toscas, garanto que vai adorar Golden Boy.

A história de Golden Boy é simples: Oe Kintaro é um jovem de 25 anos que largou tudo, faculdade e família, para viajar pelo Japão com a sua bicicleta tendo por objetivo sempre aprender (inclusive leva consigo um diário para anotar tudo). No decorrer dos lugares, ele conhece pessoas e se envolve em situações inusitadas, sempre tendo como ponto central belas mulheres. Pode parecer uma trama totalmente descompromissada, e de fato é (como uma boa comédia deve ser), mas, acredite se quiser, existem profundas mensagens.


É impossível colocar parâmetros universais para toda obra, já que cada uma tem um estilo diferente, então para falarmos de Golden Boy é preciso ter em mente a quem se destina: Oe Kintaro's de 25 anos. Fica perceptível a influência básica do shounen que constitui a parte aventuresca - um rapaz aparentemente sem nenhum atrativo, assim como o espectador, se lança pelo mundo para buscar ser uma pessoa melhor. Uma atitude nobre que permeia até o mais ranzinza de nós; se colocar como peregrino não é uma ideia nova, porém continua atual, já que conhecer o exótico, o diferente, fugir do cotidiano, continua como um conceito fixo em nossas mentes. Aí já temos uma estrutura pronta, que inclusive está contida na jornada do herói e na maioria dos shounens: o personagem principal coloca o pé na estrada, conhece pessoas novas e logo se mete em problemas. Esses problemas são objeto de catarse tanto para ele, quanto para os personagens secundários, que independentemente das suas intenções, sejam elas más ou ingênuas, amadurecem e completam um ciclo de redenção. Kintaro de fato não muda, assim como Luffys, Gokus e Meliodas da vida, mas leva consigo a mudança.

Em contraponto a essa jornada, que de fato é levada a sério e usada como estrutura dos dramas, vem a sátira. A cada processo da jornada dos arcos, tem uma quebra de expectativa imensa, colocando Kintaro como um ser completamente normal, muitas vezes imoral, com qualidades e defeitos que trazem identificação. Não é esse um dos pontos principais da piada? Não adianta falar sobre determinada coisa se ninguém sabe o que é. Sendo assim, o absurdo é construído no comum; naquilo que todos conhecemos (pelo menos jovens a partir dos 20 anos). O melhor exemplo dessa quebra de expectativa é a cena abaixo:


Recentemente ela rodou diversas páginas de humor, que inclusive não tem nada a ver com anime. Essa é apenas uma mostra do que é Golden Boy, sintetizando o espírito de toda a obra. Perceba: no gif é colocada uma situação claramente problemática e logo após, o protagonista prestes a intervir. A primeira coisa que nos vem a cabeça é o clichê do herói salvando o velhinho, mas vem a quebra: nada de extraordinário acontece. Kintaro simplesmente vira a rua. E de fato, é o que a maioria de nós faria na vida real - ninguém sairia lutando loucamente contra a máfia. 
Entretanto, existe muito mais e ele está no contido no pós-gif. Kintaro é um herói, ele salva o velhinho da máfia, só que os métodos dele não são convencionais, aliás, são totalmente convencionais, mas não para uma aventura. Ele se esforça, do próprio jeito, para salvar aqueles com quem se importa e assim cativa a todos. A surpresa surge inclusive para nós, espectadores, que não esperamos nada. Ou seja, é a simplicidade que estabelece a narrativa e nos conforta com a impactante mensagem: passamos minutos vendo o protagonista tentar superar de forma cômica uma instrutora de natação, para no final entendermos que as habilidades não são o problema. Aí entra de novo o clichê japonês da força de vontade, mas diferente dos absurdos de uma obra como Naruto, aqui soam realistas. Kintarou conquista a todos por que não se importa com a opinião alheia e dá valor para as pequenas coisas, não por que é especial ou busca ser assim. Cria-se então um misto de comédia escrachada, com direito a tombos e expressões bizarras, junto da motivação típica de autoajuda, mas que não tem a menor pretensão em converter ninguém a uma nova perspectiva.


Chegamos então ao terceiro ponto, que é parcialmente alheio à aventura em si, mas que se mescla indistinguivelmente com a comédia: o ecchi. Há de se levar em conta o contexto, aqui chamado anos 90, uma época onde a internet ainda não existia como conhecemos e consequentemente o consumo de pornografia. No Ocidente ainda tinha o escape por meio de revistas e vídeos, mas no Japão, um país sexualmente atrasado, a perspectiva era outra. Se o grande objeto de punheta dos marmanjos brasileiros era a playboy, lá, por conta da censura, eram as revistas de maiô/lingerie. Ou seja, o explícito nunca é permitido, apenas a insinuação. O refúgio acaba por ser os quadrinhos, onde existe uma liberdade maior, adicionando conceitos irreais para a sociedade japonesa (mulheres com peitões e bundões, e fetiches "bizarros". Existe uma relação entre o excesso de respeito e o efeito oposto caracterizado no sexo imaginário. Não a toa, hentais de incesto e relações entre pessoas mais velhas com mais novas e vice-versa, são os temas mais famosos). Golden Boy faz parte desta época e segue fielmente a cartilha de clichês para um produto adulto, ao mesmo tempo que, novamente, subverte essa expectativa. É uma tiração de sarro total com o modo como se constrói a relação entre homem e mulher - num primeiro momento, Kintarou, como qualquer jovem, se apaixona pelas belas moças e fantasia com estas. No momento seguinte, sua fantasia o leva a colar a cara em privadas. Um tipo de humor nonsense e escatológico, mas que é impactante por si só; o tal plot twist.


As mulheres, por sua vez, são geralmente figuras fortes e de dominação, apresentadas superficialmente como perfeitas; gostosas que deixam qualquer cara caidinho, não só por suas curvas, mas pela personalidade. Entretanto, novamente, essa perfeição é levada ao extremo, resultando na bizarrice. Até o enredo que foge dessa estrutura, o terceiro episódio, é marcado pela extrema ingenuidade da personagem que quase leva a família à falência por conta dos planos maléficos de um playboy.


É aqui, na bizarrice, que o protagonista se torna especial. Facilmente ele descobre esses defeitos, os aceita e resolve os problemas em cima deles (mesmo quando foi ele quem criou esses problemas). É quando ocorre a redenção: as garotas magicamente percebem o incrível sujeito que é Kintarou e se apaixonam, insinuando ou explicitamente dizendo mesmo, que querem transar. Querendo ou não, acabamos torcendo para o personagem principal, não só por ele ser o protagonista, mas por ser um fracassado. Quando as garotas se rendem a ele, nos colocamos em sua pele e ficamos ansiosos pelo o que está por vir - seja uma deliciosa putaria ou uma enfática declaração de amor. Só que aí surge novamente a quebra de expectativa: o protagonista nunca alcança o objetivo da safadeza plena, estando a mercê da própria ingenuidade. É como se o interesse por determinada mulher acabasse e ao invés de corresponder devidamente, ele age como deveria agir em uma comédia: de forma caricata. A escolha de colocar um enredo relevante, até sério, é acertada, pois não sabemos o que esperar. Quando estamos acostumados com a tal "autoajuda", lá vem de novo a piada, situação ou expressão extremamente bizarra.

Conclusão
Golden Boy surpreende pela comédia orgânica, nenhum pouco forçada, que vai e vem entre o drama, a aventura e a putaria. Sinceramente, o considero uma obra prima diante daquilo que se propõe e muito mais - não esperava me sentir sentimentalmente tocado por um enredo tão banal e caricato. Pode parecer idiota piadas tão toscas envolvendo bundas, calcinhas e privadas, mas acredite, há muito mais. O maior defeito, diferente da maiorias dos animes, é não ter uma continuação. As aventuras de Kintarou davam caldo para mais histórias ainda, sem ficar cansativo ou repetitivo. No último episódio, cabe até mesmo um exercício de metalinguagem, colocando na tela piadas internas que apenas os mais atentos dos espectadores conseguem pegar.
Se é um produto claramente clichê, segue como uma quebra de paradigmas, abordando temas que até hoje não são tratados direito. Mesmo com a internet e a confirmação de que existe espaço sim para consumo de uma obra adulta do tipo, o Japão não parece estar interessado em produzir coisas como Golden Boy. Uma pena, pois realmente faz falta.

El Psy Congroo.

ps: me limitei a falar apenas da narrativa, mas fica aqui meu comentário sobre a animação: muito bonita! Dá um banho em muita animação atual e se levarmos em conta que foi criada numa época que o uso de computador era mínimo, olha, ganha mais méritos ainda.

- Screenshots roubados do post do Elfen Lied Brasil. Leia a review deles, é uma opinião bem diferente da minha.

Nome: Golden Boy

Ano: 1995

Estúdio: Production I.G

Gênero: comédia, ecchi, aventura, OVA

Baseado em: mangá

Direção: Hiroyuki Kitakubo

Roteiro: Tatsuya Egawa

Nota: ★ ★ ★ ★ ★ (90/100)

Nos siga nas redes sociais! Facebook e Twitter

Postagens Relacionadas

Comentários

Postagens mais visitadas