sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Breves comentários sobre La La Land e o complexo de hipster


Eu não ia falar de La La Land. Não é perfil da Divisão Paralela fazer crítica de filmes recém-lançados e nem vou me dar ao trabalho de fazer, existem trocentos sites que você pode acompanhar e de forma mais profunda até. Caberia talvez um post sobre as referências? Creio que não tenho tanto conhecimento de cinema para escrever algo do tipo e já tem por aí, nos Buzzfeeds da vida. “Então por que caralhos você tá escrevendo isso Maeister?”, bom, navegando pelos comentários da interwebs, percebi certa guerra sobre a qualidade de La La Land frente às 14 indicações ao Oscar – de um lado, gente que se emocionou e diz esse ser o melhor filme do mundo; do outro, gente que não viu nada de mais e tem como missão tentar abrir os olhos das pessoas comuns. Fica aqui meus dois centavos totalmente parcial sobre o filme.

Primeiro ponto: sério mesmo que vocês ainda levam o Oscar a sério? Aliás, sério mesmo que vocês ainda levam qualquer premiação a sério? Já não basta o número gigante de filmes injustiçados e a revelação (não tão reveladora) de que a academia é elitista?  La La Land pode não ser o melhor filme do mundo, mas tem uma qualidade acima da média e conquistou o grande público – vai ganhar muitas indicações sim, pois é uma das poucas chances em que a academia pode agradar ao público e a crítica. Sem contar que tem aquela ode ao cinema, que automaticamente torna uma obra cult. O filme pode ser uma merda, mas se tiver umas referências bacanas já pode ser indicado.
Segundo ponto: você, você mesmo, Sr. Hater, já parou pra pensar que talvez esse não seja o seu tipo de filme? Apesar do longa ser um sucesso e agradar pessoas que não gostam do gênero (eu), continua sendo um romance musical. O que você espera de um romance musical? Por mais surpreendente que seja, o certo seria esperar uma história de romance com música. Dificilmente terá um drama densamente profundo e adulto, pois isso fugiria da proposta e na verdade, seria bem estranho. Mesmo assim, La La Land tem sim um drama bem construído, que eu vou falar no próximo ponto.

Terceiro ponto: infelizmente La La Land tem uma qualidade que pode ser um defeito: ele exige que você tenha certa referência para apreciar o filme. Não estou falando de referência cinematográfica, nessa parte não tem problema, você pode ir assistir tranquilo e se pescar algo a mais é um bônus. Estou falando de referência emocional.
Li um comentário em algum lugar falando que se você não deu um sorriso e não se emocionou com o final, você está morto. Tendo a acreditar nessas palavras, com uma ressalva: talvez essa pessoa que não se emocionou não tenha uma referência na memória. Como assim? Se você achou o final bobo e esperava uma reviravolta melhor no enredo, ele simplesmente não foi feito para você. Só quem passou por um término ou viu uma pessoa de perto passar por isso, sabe que aquilo não foi um melodrama, nem uma história bobinha e chata – mas um desfecho duramente realista. Quem tem essa referência facilmente se identificou e se emocionou pela própria simplicidade da história, que ao mesmo tempo é caricatamente poética – como só uma obra de arte pode ser.


Quarto ponto: complementando o terceiro e o segundo, se você não gosta de romance musical e não tem referência, por quê caralhos vai no cinema assistir 2 horas de uma história sobre os altos e baixos de um casal????

Quinto ponto: “ah! Mas é apenas um plágio, já vi filmes melhores” Não posso julgar com propriedade, por que não tenho todas as referências visuais apresentadas no filme, mas isso me cheira à saudosismo. Daqui 30 anos vai ter uns idiotas que vão ficar falando: “ain, esse musical é uma cópia de La La Land, e La La Land é muito melhor. Foi feito há 30 anos e nem se compara com essa história aí”, o ciclo se repete. Me mostre que La La Land foi o plágio de um único filme? Provavelmente você não conseguirá provar isso, por que não é o que acontece. La La Land é uma colcha de retalhos feita de arquétipos e influências, o que torna ele em... Adivinha? Original. Nada é puramente único e pior ainda nos tempos atuais. Agora, será que os críticos deveriam ficar comparando de forma saudosista com filmes antigos? Você tem em tela um filme que pega arquétipos de filmes clássicos, os revitaliza, dialoga com a nova geração, referencia sem plagiar e ainda cria algo novo que aponta para o futuro, dando fôlego a um gênero saturado e considerado de segunda linha. Você sabe o quão difícil é fazer isso? Não é qualquer um que faz – e nem veremos acontecer nos próximos anos.


Sexto ponto: talvez seja o melhor filme do mundo, talvez não seja, talvez seja o melhor filme pra ganhar o Oscar, talvez não seja, quem se importa?  As pessoas tem que parar de querer ganhar respaldo nos seus achismos. La La Land já mostra ter uma qualidade acima da média, seja na fotografia ou no roteiro (com a parte do roteiro ganhando atenção especial dependendo do seu contexto), o resto varia de acordo com cada opinião e percepção. É saudável discutir por meio de argumentos qual filme deveria ganhar o Oscar, mas ficar “ain não é tudo isso”, só por que todo mundo tá falando bem e rasgando elogios, mostra apenas uma das piores doenças do século XXI: o complexo de hipster. A pessoa tem que ser a diferente, tem que saber mais. Tem que saber do filme tal da puta que pariu que é melhor que todos esses que todo mundo tá falando bem. Amigo, valorização a determinada coisa é algo extremamente pessoal. Ganha respaldo com as partes técnicas, mas temos muitos filmes com roteiro, atuações e direção ótimas, ou seja, o  resultado final nunca é totalmente conclusivo. A voz do povo não é a voz de Deus, mas quando o povo e os críticos falam bem, algo importante deve ter nessa obra.

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