terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

[Album Review] Wings não é revolucionário, mas com certeza é um dos melhores atos do Kpop


Prometi a mim mesmo que não falaria mais de kpop neste humilde blog. Por quê? Por que já tem blogs suficientes fazendo este trabalho e de forma muito melhor (até por que sou apenas um entusiasta). Entretanto, Wings é mais que um mero álbum de capope e tem um conceito reflexivo interessante que merece ser analisado, diferente até mesmo para a música como um todo. Então não veja esse post como uma redenção capopeira, mas como apenas outra análise musical (um lado pouco explorado na Divisão Paralela), que vai julgar assim como julgaria qualquer outro disco pop. 
Portanto, eu começo com a pergunta: será que os Bangtan Boys são de fato tudo isso que falam?

Primeiramente, preciso começar denotando o viés da minha análise. Apesar da música ser universal, existe uma clara diferença entre quem acompanha e quem não acompanha algo (um fã e um não fã), resultando em uma falsa objetividade vinda de ambos (o fã, por estar mais conectado com aquilo que tanto ama, vai ter outra noção; não digo nem parcialidade, apenas uma identificação maior. Enquanto o não fã provavelmente vai estranhar). O que eu quero dizer com isso? Que eu sou fã do BTS e por isso, desde o lançamento do Wings tenho uma conexão com o álbum. Acompanhei a revelação da primeira imagem oficial do conceito, surtei com o lançamento dos curtas (uma prévia das músicas de cada membro) e bolei teorias com os fãs. Meu hype estava lá em cima e ainda que os novos caminhos do grupo fossem estranhos, pareciam um crescimento incrível . Só que de marketing barato o mundo tá cheio, então o conteúdo do álbum poderia não ser lá essas coisas mesmo com toda essa apresentação intelectual. Nada mais justo que conferir - e eu conferi diversas vezes. Odiei certas músicas, amei algumas outras, inverti e odiei as que amava, amei as que odiava, deixei o álbum de molho por semanas e agora, depois desse afastamento, ouvi de novo. Segue então a minha análise final:

Wings: Faixa por faixa

O disco abre com Boy Meets Evil, seguindo a tradição de cada rapper fazer uma intro solo nos álbuns. Dessa vez é a chance de J-Hope brilhar e ele não decepciona. Sinceramente nunca gostei da voz do Hope, pois sempre me soou exageradamente forçada. Na primeira vez que ouvi One More Dream fiquei pensando que era alguma zueira ou aquele moleque de fato acreditava que tava sendo fodão com aquela voz esganiçada, beirando ainda a puberdade. Mas aos poucos me acostumei e o próprio rapper amadureceu. Aqui ele encontra o tom certo, soando convincente e impactante. A letra também não decepciona, continuando o conceito dos curtas com uma pegada teatral. Isso se complementa muito bem com o vídeo, em que J-Hope agrega mais valor por conta de sua dança. Vocês sabem que Hip-hop não é só um estilo de música, mas um movimento né? BTS parece entender isso e resolveu criar em todas as vertentes - Boy Meets Evil e Blood Sweat &Tears são a melhor síntese da junção entre dança, música e artes visuais.
Porém, ainda que leve o conceito do álbum, não sei se a faixa funciona bem como intro, pois musicalmente falando, existe uma diferença destoante entre ela e Blood Sweat & Tears. O erro ficaria para qual das duas músicas? Não sei dizer.


Como já dito, a faixa seguinte é o single Blood Sweat & Tears. Na primeira vez que ouvi, ela não me cativou tanto, ficando mais na cabeça a batida reggateon e os "manhi manhi manhi". Mas, aos poucos, a faixa foi crescendo e a cada ouvida eu notava algo diferente. Hoje em dia acho uma grande música pop, que faz uma boa junção coerente do BTS como unidade (ainda que tenha que suprimir Rap Monster). Dancehall em 2016 ficou bem batido, entretanto, a forma como o grupo trabalhou isso é que foi interessante. Sobre o MV, achei muito bom, com um existencialismo e dualidade gritantes. De um lado você tem uma música animada com ritmos latinos e uma fotografia colorida em um vídeo cheio de fanservice (as pegada no pinto foi o ápice hahaha), do outro você tem uma letra dark de sofrência de corno, com uma história existencialista baseada em um livro confuso.


Depois do single, começam as faixas individuais. Begin é um R&B simples com influências do Purpose (falam tanto desse disco influenciando o kpop que parece que ele inventou a roda. Não, não inventou. Mas aqui as influências são nítidas). A batida simples ganha cores pela bela voz de Jungkook. Algumas pessoas esperavam ele mostrando toda a sua potência musical soltando o vozeirão, mas eu gosto dessa forma contida. Sem contar que combina muito bem com a letra, uma confissão juvenil tocante. Outra vez, na primeira ouvida não gostei muito, mas a faixa foi crescendo em mim por conta da minuciosidade e parcimônia com que se desenvolve.

Lie já parte do pressuposto contrário - se Begin é calma, ela é teatral e impactante desde o inicio. A voz fina de Jimin adentra nossos ouvidos, criando um misto de sensualidade dançante e tristeza. A faixa em si é bem simples na construção (segue a fórmula básica), mas o instrumental diferenciado e a levada expressiva adicionam uma identidade interessante. 

Stigma é um puro R&B sensual - de longe, uma das melhores faixas do disco. A voz grossa de V é impactante e as mudanças de tom, com high notes, exploram toda a sua capacidade. Neste estilo, rivaliza fortemente com House of Cards, porém Stigma tem uma pegada mais anos 2000, com jeitão de black music.

First Love é a pior música do disco. Ela é ruim? Não. Mas também não é boa, apenas ok. Suga realiza uma comovente confissão, mas o instrumental acaba atrapalhando e confundindo o tom. Ao fundo você tem uma soundtrack cinematográfica que vai crescendo aos poucos, entretanto, no vocal surge apenas uma rajada de palavras sem nem mesmo um flow; parece apenas uma conversa (e que agonia desse menino! Sei que ele tem a língua presa, mas aqui tá angustiante). Suga já fez muito melhor dentro desse estilo, com, por exemplo, Never Mind e a intro do Young Forever, e isso por que nem estou levando em conta sua mixtape. Ou seja: First Love é uma sobra. Facilmente poderia ser cortada. Não agrega muito ao conceito e nem ao solo do próprio Suga.


Reflection, por outro lado, mostra um lado novo de Rap Monster. Ano passado fiz um post sobre a mixtape do rapper e dito isto, essa faixa poderia muito bem estar nela. A música é também uma mescla interessante de elementos. Um rap sem ser rap. Um canto sem ser canto. E pra complementar tudo isso, temos um envolvente instrumental que se expressa por si só. Uma produção minimalista que merece mais do que uma ouvida. Num primeiro momento a faixa pode soar simples demais e eu mesmo pensei isso, mas com o tempo você percebe novos elementos e se levarmos em conta a letra, a música cresce bastante.

J-Hope volta com MAMA, um hip-hop com elementos oldschool e pegada jazz animada. A música é uma declaração de peito aberto do garoto para sua mãe. O interessante é que, ao invés de transformar isso em uma canção forçadamente emotiva, como é o caso de Suga, Hobi usa de todo o seu bom humor característico e traz uma vibe comemorativa. Fica perceptível que ele funciona melhor com produções próprias, pois sempre parece ofuscado por Rap Monster e Suga. Até em Blood Sweat & Tears, onde o rapaz tem grande destaque, não o acho tão interessante assim. Por mais produções solos dele, feito Boy Meets Evil, MAMA e 1 Verse.

Jin, o vocalista injustiçado, encerra a sequência de solos. Awake é uma dramática música, ao melhor estilo musical da Disney, que explora toda a capacidade vocal do cantor. Isso é muito bom, pois Jin não só ganha a chance de brilhar, como prova para todos que não está no BTS a toa. Se fosse para mensurar, ele seria o membro mais avulso; até mediano. Entretanto, fica claro, que assim como Seungri no Bigbang, esse esquecimento não se dá por falta de capacidade. 
Interessante notar também como Awake é uma música que cresce aos poucos, até explodir em um poderoso refrão. Aquela dor de corno depressivo que junta a galera toda pra cantar junto com o isqueiro no alto.


Lost vem para dar uma refrescada nessa sequencia, com a vocal line em um som gostosinho de se ouvir. É uma das melhores músicas, muito bem produzida, com uma ótima química dos cantores, MAS ela não funciona dentro do conceito do disco. Seria melhor se fosse lançada na versão estendida, pois dentro de Wings não combina em nada, soando mais como o Young Forever. Em síntese: é uma grande música, porém não dá certo junto com o todo.

Cypher parte 4 também é um elemento totalmente avulso, até mais que Lost, que não deveria ter sido incluída aqui. Ela quebra totalmente a experiência e coerência auditiva do álbum. Por quê não lançaram na versão estendida? Seria muito melhor e até daria um foco merecido. Colocada aqui nesse meio, fica uma bagunça louca de singles, solos e raps. A única coerência é o fato de terem dividido entre: música da vocal line e música da rap line. SÓ. De resto é descartável.
Agora sobre a música em si: ela é boa, porém é a pior Cypher, tendo uma ótima produção, só que pouco inspirada. Qualquer pessoa que esteja em contato com o rap/hip-hop (precisa nem ser americano pode ser brasileiro mesmo) já está saturado de músicas do estilo e sendo assim, essa parte 4 é apenas mais do mesmo. Sem contar na letra, que sinceramente me decepcionou. Claro, mandar indireta pra haters durante 4 músicas deve esgotar a criatividade. Eles até tentam e Suga, como sempre, é destaque com seu flow rápido e feroz, mas fica apenas um produto com o selo "SWAG" que tem mais intensidade pelo refrão. Cyphers não deveriam ser farofas - essa não chega a ser (teria de ser mais pop), mas tá ali, pelo menos como farinha.

Am I Wrong é uma música maluca, uma colagem de elementos, que acredite se quiser, são harmônicos. Gosto muito quando o BTS vem com essa vibe mais alegre e engraçada, remete muito a fase 2 Cool 4 Skool. Sinceramente, preferia Am I Wrong como single do que BST, mas entendo a escolha do outro.Aqui tudo se encaixa, tendo cada membro seu espaço (menos o Jin, como sempre).


21 Century Girl segue o mesmo conceito de Am I Wrong, com até umas influências árabes (apropriação cultural?). É bacana essa coisa existencialista do album, mas é bom espairecer né? Um popzão/hip-hop sobre uma garota gostosa feminista, e é isso aí. Nada mais nada menos. Som pra tocar nas balada e festa de debutante.



Two! Three! é a música oficial das ARMYS e é uma ótima música. Colocar as cartas na mesa do jeito que o BTS faz é uma atitude louvável; uma confissão sincera para os verdadeiros fãs. Ela funciona só com quem tem intimidade com o grupo e por isso, classifico como uma ótima escolha terem seguido uma vibe mais alegre e não tão dramática. A música não é divertida, mas também não é uma fossa. Tá mais pra autoajuda. É gostosinha de ouvir.

Por fim, surge a baladinha EDM Wings Interlude. Muita gente já tá torcendo o nariz pra EDM, mas eu ainda curto. A faixa é boa, bem pra cima e causa uma dicotomia: o disco inicia depressivo e dark, mas termina feliz e dançante. Ou seja, ao longo do caminho acompanhamos uma transformação musical, culminando em uma catarse emotiva que indica os caminhos para o próximo trabalho. Entre trancos e barrancos, acertos e erros, o saldo final de Wings é positivo. Não é uma obra prima como muitos estão falando, muito menos revolucionário, mas imprime sim sua marca no kpop, sendo um ato criativo com qualidade acima da média.

BÔNUS: You Never Walk Alone

Nem sei se merece fazer um faixa por faixa disso, mas vamos lá.

Spring Day: a música funciona melhor com o MV, sozinha mesmo ela é boring demais. Okay, não sou fã de músicas românticas, porém, BTS já fez muito melhor e com faixas que nem se tornaram destaque (Let Me Know e Tomorrow tão aí pra provar). Essa música se quer parece do BTS, tem um tom genérico e ainda que a letra seja interessante (entendi que fala sobre morte, não?), não ameniza esse gosto de produção qualquer, que estaria sendo lançada por um grupo novo da Big3.



Not Today: uma farafona, remix de Fire, e melhor do que a original. Seria uma Fire mais enxuta, com versos menos inspirados, mas ainda sim repetitivos. Se tocar na baladinha todo mundo dança, mas não é a melhor farofa do BTS e na verdade é bem esquecível (Fire pelo menos era grudenta). Me lembra muito aquelas músicas autotunadas do Flo-Rida ou do Lil Wayne.

Outro: Wings: não entendi qual o sentido de alongar a interlude com um break desnecessário e incoerente, que na verdade só da um loop na própria faixa, sem acrescentar nada novo. Fico com a Interlude mesmo, ainda que seja curta.

A Supplementary Story: You Never Walk Alone - não é sobra nem do Wings, mas do Young Forever mesmo. É uma boa música sim, mas morna. Realmente gostei dela, entretanto, o refrão não empolga e já temos todo um álbum nesse estilo, que por sinal, se sai muito melhor. Ela não é tão importante, apesar de que se estiver na minha playlist, não pularia.

Conclusão
You Never Walk Alone é as sobras do Wings e por ser as sobras, até que está de bom tamanho. BTS pode fazer MUITO melhor, porém, dentro da empreitada que é o Wings, eles já fizeram. O trabalho já foi cumprido - isso aqui é só um bônus que não mancha a carreira deles, mas também não acrescenta. Indica um grande potencial pro próximo disco, só que, por enquanto, são só resquícios de músicas que poderiam ser melhores. Claro, a BigHit vai vender como um grande ato e até quem não é fã vai acabar comprando o "álbum completo". Na minha opinião, eles deviam ter tirado Cypher e Lost do álbum principal, juntado com essas músicas e lançado um mini album. Mas né, a crista da onda é o Wings - o momento atual. Entendo perfeitamente fazerem isso. Só que olhando com o olhar geral, as coisas não ficam tão bonitas. Por enquanto é possível ignorar, espero que isso não influencie em um próximo ato. De longe, BTS segue ainda sendo a boyband mais interessante de se acompanhar - tomara que isso não mude.

El Psy Congroo.

ps: Se você gostou da postagem, comente. Estou relutante em abordar kpop aqui no site, mas se tiver um feedback, quem sabe?


Nome: Wings

Estilo: Hip-Hop, Rap, EDM, Kpop, R&B, Dance-pop

Lançamento: 10 de outubro de 2016

Gravadora: Big Hit Entertainment

Nota: ★ ★ ★ ★ ★ (70/100)

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