quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

The Lying Detective é Sherlock, Doctor Who e acredite se quiser, Death Note

Surreal, emotivo, inteligente e impactante. Episódio traz Sherlock de volta a boa forma e indica novos horizontes

Atenção: este post tem spoilers

Devo começar dizendo o óbvio, que só um louco hater discordaria e até mesmo eu, o crítico mimizento que fica comparando com os livros, deve enfatizar: The Lying Detective é ótimo. E para ser sincero, o melhor episódio de Sherlock em muito tempo. Desde que a série adentrou na trama de Mary, parecia que um declive inevitável se fazia presente na qualidade, mas agora, com a agente secreta fora do caminho, as arestas começam a ser cortadas e devidamente resolvidas. Lying Detective é tão bom, mas tão bom, que te faz pensar que The Six Thatchers também é bom. Não se enganem meus amigos, TST é ruim.
Na verdade, esse episódio corroborou parte das minhas críticas sobre o anterior: o capítulo estava deslocado de seu tempo. Em algum ponto, Moffat e Gatiss perceberam o pepino que tinham em mãos e decidiram dar um final para ele - mas como tirar Mary de cena, não só resolver sua trama, veja bem, mas tirá-la de vez da série (já que de algum jeito afeta a clássica dinâmica Sherlock e Watson)? O jeito é matá-la. Mas aí tem toda uma problemática que já foi gerada na temporada anterior e que obrigatoriamente deve ser resolvida. Por isso TST é deslocado de seu tempo - seria na verdade o quarto episódio da terceira temporada. Agora sim, com Lying Detective foi dada a largada: o segundo episódio é o verdadeiro começo.


Pois bem, vamos esquecer o começo confuso, apressado e exagerado. Aliás, esquecer não, apenas aceitar. Okay, Mary definitivamente morreu e John culpa Sherlock. Apenas aceite todos aqueles sentimentos forçados e mal apresentados que será muito melhor. 
A discrepância no tratamento dos personagens é absurda: o roteiro de Steven Moffat consegue transformar tudo o que era destoante em coerência, constituindo um episódio que, além de trazer a dose inteligente de dedução, é uma aula de estudo sobre construção narrativa e de personagem. Desde o começo existe uma problemática estabelecida, que é  resolvida aos poucos conforme cada situação surge.
Você tem inicialmente Sherlock e Watson em pontos distantes, cada qual imerso em sua própria vida, lidando com o luto. Aos poucos esse dois pólos, tão opostos, vão se reaproximando principalmente por aquilo que os fez se conhecerem: a aventura policial. Não, não existe isso nos livros (e nem vou comparar), mas é curiosa essa perspectiva de pegar o enredo básico de qualquer romance do Doyle e usá-lo como objeto de catarse para os sentimentos das personagens. A ideia é a mesma do primeiro episódio, mas aqui funciona melhor por dar destaque aos crimes; a trama policial dedutiva bem elaborada.


Se Sherlock, por toda sua imponência, virou um Deus Ex Machina (é a jornada do herói, meu amigo. A cada provação, o herói fica mais forte e necessita de desafios maiores, cada vez mais longe da concepção humana), Moffat resolve assumir esse conceito e como qualquer história do tipo, os feitos espetaculares servem então para desenvolver os personagens secundários - nesse caso estamos falando de John. Em contraponto, o próprio Sherlock precisa ser desenvolvido, mas sem quebrar de forma incoerente a sua aura messiânica de máquina dedutiva - é aí que surge outra ideia deveras interessante: colocá-lo como debilitado. Desde o começo, nos deparamos com um Sherlock emocionalmente instável (ainda que no final seja revelado que essa instabilidade foi calculada para um propósito), que sofre os efeitos do vício em drogas. Portanto, temos um ser com capacidades além do normal, mas que em alguns momentos se apresenta apenas como um mero mortal; um adulto que sabe demais. E devo enfatizar o adulto, já que Holmes não mais é caracterizado apenas como uma criança autista.

Inimigo a altura

Culverton Smith é um inimigo a altura. Não por suas ações, muito menos inteligência, mas pela forma como é apresentado. Toby Jones consegue encontrar o tom perfeito para o personagem, passeando entre o sarcasmo inocente e aparência ameaçadora. O espectador sente ódio de Smith simplesmente pelo jeito que ele se mexe. Na cena do hospital, se pararmos para analisar apenas o roteiro, ele não está dizendo nada demais - porém, é a atuação de Toby que cria um clima completamente medonho, onde parece que a qualquer momento ele pode matar alguém.

A direção deve ser elogiada. O tom em muitos momentos é surrealista, por estar viajando na mente de Sherlock. Só essa perspectiva conceitual, que destoa de qualquer outro episódio, já é louvável, mas a coisa fica mais interessante quando a concepção ganha sentido. Inicialmente somos imersos em uma história aparentemente confusa, visualmente interessante, mas sem nenhuma coerência. Como é de se esperar, Moffat dá sentido para as mínimas coisas, abrindo o leque de referências. Intencionalmente diversos pontos são deixados em aberto para serem resolvidos no final. Ainda que experimental, Lying Detective segue uma fórmula básica de jogar questões no ar, resolver a maioria delas, nos fazer esquecer de algumas e resolver tantas outras no final - que se tornam mais mil questões, suscitando em teorias. Quem assiste Doctor Who já deve estar careca de saber como é o método "Moffat". Por enquanto, a história pode até mesmo ser previsível, mas não deixa de ser inteligente e nenhum pouco cansativa.


No post anterior também evidenciei como a morte de Moriarty havia afetado a qualidade da série. A falta de um antagonista tornava o tal "jogo" menos interessante. Imagine o Batman sem o Coringa? A solução óbvia seria investir em novas aventuras (enredo da Mary) e explorar outros possíveis vilões que conseguissem se equivaler ao protagonista. A última proposta é deveras difícil, já que você tem não só um nível de inteligência alto, mas uma caracterização a ser realizada. Moriarty chamava atenção pelos trejeitos e criar uma nova persona exige criatividade - com o devido cuidado para não soar cafona (alguém lembra dos derivados genéricos de House? Então...). Tendo tudo isso em mente, Moffat e Gatiss resolveram apostar em um conceito clichê e ao mesmo tempo totalmente original para as histórias do detetive: o irmão perdido (no caso irmã).
Não sei se foi essa a influência, mas na hora que Eurus se revela, lembrei de Near e Mello, em Death Note. É uma sacada simples, até demais, mas muito inteligente: quando L morre, o jeito de continuar a história seguindo no mesmo nível de dedução, é adicionar os "irmãos" deste. Uma medida impactante, mas que claramente os autores fizeram para alongar um pouco mais o mangá e consequentemente ganhar mais dinheiro. Aqui não é diferente. Obviamente Sherlock deveria ter acabado (ou era esse o plano), entretanto, por algum motivo, que não vou arriscar dizer qual (nem sei se só dinheiro importa), resolveram alongar - aí entra Eurus, a irmã perdida que ninguém nunca ouviu falar (nem mesmo Sir Arthur Conan Doyle). E junto dela, veio uma revelação surpreendente que fez tudo aquilo que foi ruim no começo ter algum sentido.
Meu medo é Moffat querer intrincar demais a história, ligando com os episódios do começo e criando algo megalomaníaco, típico dele. Já rolam teorias sobre Moriarty ser um subordinado de Eurus... Olha, sinceramente espero que não. Seria o efeito Mandarim em Sherlock.
Mas falando simplesmente do que aconteceu: que final fantástico! Ele não surgiu a toa ou de forma gratuita, mas em uma sucessão de expectativas e no momento em que menos se esperava. Se o Moffat vai estragar essa história não sei, só sei que esse episódio foi uma bela aula de construção de narrativa.

Conclusão

The Lying Detective entra facilmente no top 5 melhores episódios de Sherlock. É uma aventura clássica do detetive e ao mesmo tempo um avanço considerável para a narrativa, inserindo novo fôlego. Eurus, desde já, é emblemática. Ponto para Moffat, que querendo ou não, saber criar um bom símbolo.

Após a morte de L, muita gente reclamou de Death Note, principalmente por conta da ação. Antes era um mangá focado apenas na batalha mental, que virou um enredo com bastante movimento, usando dos derivados do antagonista. Porém, mesmo com todas as reclamações, se analisarmos com cuidado, veremos que a inserção de Near e Mello não é ruim e ao contrário do que disseram, essa parte tem uma das melhores narrativas, inclusive melhor do que alguns momentos de embate entre Kira e L. Com Sherlock não será diferente. Terá sempre quem reclame retomando o passado (cof cof eu), mas qualidade está acima da nostalgia. Por enquanto, apenas por enquanto, Sherlock parece estar nos trilhos certos. Estou ansioso pelo final e irei assistir com apenas uma exigência: me surpreenda!

ps: aproveitando o momento, seria interessante uma adaptação de Death Note escrita pelo Steven Moffat. Fica a sugestão que nunca acontecerá.
ps(2): Mary como fantasma funcionou muito bem, não me importaria se aparecesse mais vezes. As coisas fluíram melhor do que quando ela estava viva.
ps(3): as referências estão demais! Como esquecer de Sherlock mais famoso que John? (clara referência a Sherlock ter sido considerado o personagem que "engoliu" o autor)
ps(4): estou shippando Sherlock e Eurus - "AIN COMO ASSIM? ISSO É INCESTO". FODA-SE. Vocês shippam Sherlock e John Watson, me deixem ser feliz com meu shipp hetero.
ps(5): falando em hetero - Mycroft pega mulheres???? QUE PORRA FOI ESSA?
ps(6): com certeza eu esqueci muita coisa, sorry. Não vou ficar analisando frame por frame.

El Psy Congroo.

- Leia a review anterior: Sherlock, The Six Thatchers

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