sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

A imensa criatividade de Moffatiss se faz presente mais uma vez em episódio feito com carinho para os fãs


Sherlock apresentava recentemente uma qualidade duvidosa, que declinava vertiginosamente por conta da inserção forçada de Mary na história. Tivemos um primeiro episódio horrível, totalmente clichê, depois um episódio estupendo, totalmente surpreendente, e agora, encerrando de forma magistral a temporada, temos... O MELHOR EPISÓDIO DA SÉRIE?

Atenção: este post tem spoilers

The Final Problem é o melhor episódio da série e isso é óbvio, basta comparar com A Study in Pink, The Reichenbach Fail e The Great Game. Perto de Final Problem todos esses episódios são menores, pois agora sim temos uma explicação decente de tudo! A genialidade de Steven Moffat e Mark Gatiss alcança outro nível ao mostrar que tudo foi pensado desde o começo.


Na trama, após a revelação bombástica de que Eurus, a irmã de Sherlock, desde o começo era a terapeuta de John, temos agora a continuação direta. E que continuação meus amigos! 
Devo primeiramente enfatizar Eurus, que é uma personagem muito bem construída. Ela se infiltra na vida de John, foge da prisão para pagar de terapeuta e no final todo esse flerte não serve para nada! Isso mesmo que você leu, para nada. Não é genial? Veja como os roteiristas conseguem subverter a expectativa: você espera que a história faça algum sentido e que a pessoa que é dita mais inteligente que Sherlock e Mycroft, tenha um propósito - só que não. Todos somos humanos, não é mesmo? Uma fugitiva perigosa em Londres merece dar uma zuada, ainda mais se for o John.
Logo após, para mostrar toda a sua insanidade, ela manda uma fucking granada para o apartamento de Sherlock, que escapa por pouco em uma cena digna de 007. Claro que não era exatamente essa a intenção dela né, ela sabia que o Sherlock e o John iam escapar e o Mycroft ia ativar seus super poderes, se transformando em Barry Allen, o homem mais rápido do mundo, para salvar a senhora Hudson e sair totalmente ileso. Ou vocês acham que ela ia jogar fora 5 anos de planejamento assim, a toa? Claro que não. Moffat quer que vocês se sintam como Sherlock, e deduzam também. Vamos pensar um pouquinho mais, galerinha.

Efeitos especiais 10/10
Personagens emotivos

O interessante deste episódio é como o emocional de cada personagem é trabalhado. A coerência é absurda e atinge outro nível, resultando em uma catarse orgasmática dedutiva. Sherlock se liberta das amarras da razão e demonstra todo os seus sentimentos - principalmente por ter iludido Molly. Claro, não vamos relevar que parte da culpa é dela mesma por ficar 5 anos vidrada em um cara que nunca lhe deu atenção e deixou claro que não queria nada. Não, nem relevem isso, pois é besteira. Devemos prestar atenção em como retratam isso: Molly é uma experiente legista que deve ter seus 30 anos, mas diante de Sherlock, seu grande amor, é uma simples adolescente - olha que incrível o cuidado em saber como as mulheres agem em uma situação do tipo. Não só mulheres, mas seres humanos. Pois se um detetive famoso, frio e calculista, que já resolveu diversos casos de atentados terroristas e você inclusive já o ajudou, pede de forma desesperada, quase chorando, que você diga "eu te amo", o que você faz? Não fala porra nenhuma, por que deve ser uma brincadeira de um cara que nem gosta de demonstrar as emoções. Com certeza uma mulher diante dessa situação agiria assim. Mais um ponto para Moffat e Gatiss. 


Mycroft é outro que é muito bem construído. Perceba a sutileza do roteiro ao representá-lo de forma medrosa - o emocional também atinge a sua razão. Atingiu tanto que só fomos perceber agora, pois Mycroft está com a capacidade de dedução comprometida durante 5 fucking anos. O cara fez 5 anos de burradas, pois, claro, também deve ter seus traumas (deduzo eu. Gente, vocês tem que aprender a deduzir com a série que vocês assistem). Veja o quão transtornada está a mentalidade de Mycroft: ele elabora um plano para adentrar a prisão que ele mesmo ajudou a criar. De forma normal? NÃO! Usando um disfarce. Quem pensaria nisso? A expectativa é que esteja acontecendo um complô dentro da prisão e por isso, sutilmente, os três invadam, mas... Cinco segundos depois Mycroft é descoberto. Para quê o disfarce? Sei lá, como ele mesmo revela depois, deve ser para satisfazer seu desejo de ser crossdresser.

Mycroft raio-laser se desmontando
O episódio continua assim, muito bem, até que chegamos em um dos meus pontos favoritos onde esse "muito bem" vira "ótimo". É revelado que Mycroft colocou Moriarty em contato com Eurus! A história é melhor do que eu imaginava. Ele, conscientemente, colocou os dois piores psicopatas juntos. Até aí tudo bem, mas a cereja do bolo é saber que posteriormente, depois de conversar com Eurus, Moriarty começou diversos atentados terroristas e... Mycroft não deduziu nada, não interveio, não comunicou Sherlock sobre a relação de Eurus com Moriarty (aliás, até grande parte do episódio ele não tinha sacado isso). Vocês acham que é defeito? Claro que não. Isso se chama coesão narrativa. Sherlock é uma série inteligente demais, basta deduzirmos por que Mycroft agiu desse jeito (elementar, meu caro leitor). Aliás, de acordo com informações privilegiadas, descobri que é assim que os roteiros foram escritos - uma folha em branco é dada para os atores com apenas uma frase: "deduza o que vai acontecer".


Eurus, a psicopata do abraço


Quem reclama dos personagens terem sido "humanizados" em Sherlock, não conhece os livros, onde o protagonista sempre foi humano. Existem páginas e mais páginas descrevendo a fúria do detetive quebrando caixões no meio de problemas que exigem que ele não seja emotivo.
Entretanto, o ápice da libertação emocional fica para Eurus. Em um primeiro momento, a psicopata parece uma psicopata, mas na verdade se revela apenas uma crianças traumatizada - literalmente, com direito a voz e tudo. Sherlock passa o episódio inteiro tentando salvar uma garotinha - que é a própria Eurus em um surto de personalidade bipolar (tripolar?). Quando o detetive chega e encontra a irmã, sentada em seu quarto sem ao menos um telefone, ele a abraça revelando o verdadeiro significado do episódio: tudo é uma grande simbolização para as mentes e conflitos dos irmãos. Uma perspectiva tocante que nos mostra que existe redenção para todos e que diagnosticar uma garota com psicopatia e prendê-la em uma ilha longe do contato com outros humanos só piora a situação. Uma mensagem importante, que se complementa com o "eu te amo" sincero do Sherlock para a Molly.


No final, temos uma conclusão extremamente satisfatória: veja só, Eurus era a grande vilã, inclusive por trás de Moriarty. A mulher é um gênio e isso fica nítido, pois ainda criança criou um enigma que nem o Sherlock adulto resolveu (por que é difícil pensar em poço quando a pessoa fala em "afogamento" né. Totalmente plausível, eu pensaria em praia). Ter tamanha perspicácia de ligar todos os pontos, sem nenhum furo de roteiro, é extremamente louvável - uma inovação para a televisão como um todo.  Deduções exageradas? Para que tudo isso, quando sabemos que no mundo real tudo pode ser resolvido com um terno abraço. Dizer que Sherlock "humanizado" é defeito me parece uma visão deturpada - é na verdade uma evolução do personagem.
Após tudo isso, caso você não tenha entendido que acabou, Mary aparece em OUTRO dvd, pontualmente para dar uma conclusão. Um recurso inspirador, pois temos a narração de uma pessoa morta (influências de Memórias Póstumas de Brás Cubas?), mas que ali, na tela, segue viva e falando coisas aleatórias que combinam perfeitamente com o tom de final de filme da sessão da tarde.

Steven Moffat e Mark Gatiss obrigado por essa incrível experiência, foi talvez a melhor temporada de todas as séries. Encerrou de forma magistral, respeitando o material de origem, sem nenhum furo de roteiro e com uma evolução incrível de todos os personagens. Não me importaria se fizessem mais uma temporada como essa. O que pode acontecer? Sherlock casado com filhos? As aventuras do filho do Sherlock?  Moriarty também teve um filho que vai ser rival do filho do Sherlock? Existe outro irmão que na verdade foi quem estava por trás da Eurus, que estava por trás de Moriarty, que estava por trás de todos os outros assassinos? Quem sabe? Só sei que vindo dessa dupla de roteiristas, só pode ser o melhor :)


ps: ainda bem que não shippo johnlock. QUEERBAITING NA CARA DE VOCÊS HAHAHAHA!
ps²: esperançosamente aguardo um quarto episódio tendo por base as teorias conspiratórias dos fãs que olham até streaming coreano da BBC. Se você acha que eu sou otário por ter esperanças, você está completamente certo.

El Psy Congroo.

Nota: ★ ★ ★  ★   (110/100)

- Leia o post sobre o episódio anterior: The Lying Detective

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