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Conversa Paralela #1: O amor e a diversidade de Steven Universo

Olá pessoas, bem-vindos ao primeiro Conversa Paralela!

Estreia da nova temporada de Sherlock surpreende, mas nem de longe é a mesma série

Apesar de estranhar a terceira temporada de Sherlock, eu estava bastante ansioso para a próxima. Ao todo, mesmo com seus deslizes, foi uma produção satisfatória, com certa deturpação dos personagens, mas dentro do limite de coesão. Ao final, quando tudo parecia magistralmente encerrado (especulava-se que a terceira temporada seria a última), um cliffhanger audacioso foi inserido para nos fazer ficar vidrados no que estava por vir. Estaria Moriarty vivo?

Atenção: este post tem spoilers

The Six Thatchers não tem a menor pretensão em abordar o enredo envolta de Moriarty, muito menos explicá-lo. Pelo o que parece, o cliffhanger vai se estender ao longo da temporada inteira para ser revelado no final. A preocupação aqui é dar continuidade direta ao enredo de Mary, esposa do nosso querido Dr. Watson, que se revelou uma habilidosa agente secreta.
Vou ser sincero: nunca engoli essa história da Mary. Para quem é fã dos livros do Sir Arthur Conan Doyle, desde o começo esse enredo era uma lambança de conceitos malucos, sem pé nem cabeça, que não combinavam em nada. Mesmo assim aceitei a trama, pois ainda que deturpasse certos personagens, se bem executada, não haveria problema nenhum em seguir adiante (coisa que já aconteceu algumas vezes). Entretanto, essa boa execução nunca aconteceu, e era tragável por estar inserida em um enredo maior que camuflava os erros. Pois bem, o que decidiram fazer? Tornar essa história - tão inverossímil, forçada e maluca - no enredo principal do primeiro episódio da quarta temporada.
Não havia nem necessidade de contá-la, já que a trama de Mary tinha se fechado bem em His Last Vow. O pior é que não tem como disfarçar: a história não está inserida em outra maior (como foi o caso do Charles Magnussen) e nem é episódio transitório fraco do meio da season (que é o caso de O Cão dos Baskerville e The Blind Baker). O plot de Mary é foco principal e terá influência em tudo o que está por vir.


Em diversos momentos a história parece confusa e monótona; sem metade da inteligência que já tivera. A construção do enredo é clichê, colocando Sherlock como um Deus Ex Machina irônico ao final de cada revelação, mesmo que certas obviedades sejam negligenciadas por ele. Sherlock nunca foi aleatório, ao contrário disso, mas aqui, por enquanto (digo por enquanto, por que tudo pode mudar até o final da temporada) é uma junção de momentos aleatórios. Para quê tornar os enredos tão intrincados criando relações inexistentes? É o caso, por exemplo, do garoto morto no carro, que não tem nada a haver com a história, mas é pontapé inicial para que o detetive desate um fio que leva a um emaranhado maior. As histórias de Doyle são simples e é essa simplicidade que sempre nos atrai. Watson e Sherlock se envolvem em um caso diferente a cada conto/livro e isso é o que importa - a explicação em demasia desfigura a premissa. Entendo a necessidade dos roteiristas criarem sua própria versão e até histórias novas, mas enredos como o primeiro episódio, Um Estudo em Rosa, uma adaptação fiel que engenhosamente transporta a história do século 19 para o século 21, funcionam melhor.
Outro ponto que me preocupa há um bom tempo é a personalidade de Sherlock. Até certo nível, é completamente coerente transformá-lo em um sociopata funcional, mas a trama envereda pelo fetichismo contemporâneo por personagens desajustados, socialmente estranhos e geniosos. O pior é quando, além de trazerem a tona esse clichê, decidem humanizá-lo. De um lado tem esse Sherlock lógico e racional, semelhante ao original, do outro tem esse Sherlock clichê, com bordões bonitos, trazendo para si a alcunha de herói. Sem contar na infantilidade desmedida para com as relações sociais: quando conhecemos o Holmes de Doyle, ele é um homem adulto formado, muitas vezes cavaleiro, mas que não é averso à sociedade, é apenas um apaixonado pelas ciências.


A fotografia está excelente. Não que Sherlock tenha algum episódio com fotografia ruim, mas aqui fica perceptível a evolução. Há momentos até mesmo emblemáticos, principalmente de enquadramento, que dão um simbolismo maior. A narrativa pode parecer boa, mas ela só consegue engrenar e nos convencer por conta do visual. O irônico disso é a edição ser tão irregular. Se por um lado há essa fotografia linda, que dá um tom simbólico para as coisas mais banais, por outro há uma edição sem ritmo, que acerta algumas vezes, porém acaba confundindo os conceitos. É tudo muito brusco; rápido. As inserções visuais (como por exemplo mapas e coisas do tipo, adereços que sempre existiram) estão cafonas e até infantis. Se antes era um complemento a toda inteligência de Sherlock (como esquecer do Palácio Mental?), agora são artifícios baratos, lembrando derivações genéricas como Elementary.


O ponto positivo principal fica para os diálogos e interações dos personagens, que sustentam o episódio. A química entre Martin Freeman e Benedict Cumberbatch continua ali, forte como sempre, e as divagações dos dois são a melhor coisa. Sempre existiu na produção uma ironia aparente, mas agora essa ironia cresceu e tomou a forma de comédia. Isso é ruim? Em alguns momentos soa descompassado, com piadas infames para impactar (como eu disse, bordões bonitos), mas ao todo o saldo é positivo - talvez, muito mais pelo timing dos atores do que pela história.
Os produtores tem consciência de qual é o ponto forte da trama, tanto que boa parte do episódio se trata desses diálogos interessantes. Isso seria muito bom, se não resolvessem enfiar uma história megalomaníaca para causar impacto. É como se a simplicidade não bastasse. O que me atraiu em Sherlock, e acredito que boa parte dos espectadores, sempre foi a forma inteligente e casual dos acontecimentos. Qual o enredo de Um Estudo em Rosa? Uma mulher que morre em condições estranhas. Esse tipo de enredo parece não importar mais, tanto que é citado diversas vezes, com o protagonista meio que rebatendo "ah, já resolvi isso".

A história original, The Six Napoleans, tem um enredo fácil para ser adaptado e deveras interessante. Seria um prato cheio para contar a história do desaparecimento das pérolas, com inserções de tecnologias  e referências atuais (a adaptação para Margaret Thatcher já foi um bom começo). Mas a tentativa de ser maior do que pode, humanizando desnecessariamente os personagens, deixa o roteiro cafona; semelhante a uma novela mexicana. Talvez os roteiristas tenham percebido o tiro no pé que foi colocar Mary e assim, arrumaram uma desculpa para tirá-la de cena. Só que mesmo fazendo um samba do crioulo doido, o episódio não tem sustância, andando pra lá e pra cá, sem levar realmente a alguma coisa. É o caso da subtrama de John que não acrescenta em nada, a não ser deturpar a personalidade do personagem. Qual o sentido de colocá-lo como infiel? Deixá-lo mais humano e mostrar que o casamento dele não estava dando certo? (quando aparentemente estava dando certo, já que a própria Mary fala que foi o melhor período da vida dela) E a raiva final desmedida contra Sherlock? O que foi aquilo? A mulher do John morre e ele decide culpar o Sherlock, o cara que fez de tudo para salvá-la? Sem contar na velha psicopata. Sherlock faz uma sucessão de deduções que claramente vão levar àquele final e ele como bom detetive sabe disso. Tanto que Mary o alerta para parar e ele não para. Por fim, não era nenhum plano - achei q pelo menos ele estaria com um colete. Não! É uma desculpa esfarrapada para dar um tiro em Mary. Que resolução preguiçosa, diga-se de passagem.


Conclusão
Realmente não sei o que esperar. O especial de natal foi um delicioso aperitivo, mas esse primeiro episódio foi uma fanfic destoante. A qualidade de Sherlock vem decaindo desde a metade da terceira temporada - acredito que a morte de Moriarty tenha prejudicado a trama -, mas ao todo, mesmo apelando para clichês, os episódios se sustentavam. Há bastante material para adaptação, resta saber se Steven Moffat e Mark Gatiss vão honrar esse material e usá-lo devidamente.
Entretanto, ainda que leve todos esses defeitos, o saldo final é positivo por conta da execução. Como já disse, a fotografia está excelente e a apresentação dos fatos é cativante (por mais que a edição seja desregular). Em comparação com outras séries, Sherlock teve um bom episódio, não ótimo, não incrível e não horrível, apenas bom. Mas comparando com a própria série, é uma morte terrível para importantes histórias que gostaríamos de acompanhar. Veremos o que nos espera até o final da temporada e se uma dedução "fantástica" como revelação final pode desvalidar essas críticas. Sinceramente, acho difícil.

El Psy Congroo.

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