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Steven Universo: reflexões sobre o papel educacional de um desenho

Vivemos em um mundo de conflito, onde olhamos primeiro as diferenças e depois as semelhanças. Por essas e outras eu fico feliz de ter assistido quando criança desenhos que falavam sobre alguém excluído por ser diferente. E por causa disso acredito que Steven Universo, entre outros desenhos atuais, são mais do que recomendáveis para crianças e para qualquer um, pois eles possuem uma mensagem que pode potencialmente melhorar o caráter de alguém.

Desventuras em Série não é perfeita, mas é a melhor adaptação da obra de Lemony Snicket

Grande parte da internet entrou em euforia com o anúncio de uma nova produção de Desventuras em Série. O público, que provavelmente nem se deu ao trabalho de ler os livros, tinha em mente aquele filme bizarro que deveria trocar o nome para "Jim Carrey perseguindo crianças". O motivo dessa euforia é simples: quem tinha 10 anos em 2004 hoje tem 23 - ou seja, tornou-se público consumidor e por meio da nostalgia, acabou criando a expectativa de uma série dark emo teletubbie criada pela santa Netflix. Só que a verdade é que Desventuras não responde a essa expectativa e para ser sincero, passa bem longe dela.

Em um primeiro momento, Desventuras parece apenas outra adaptação de uma mesma história: o visual soa similar, os atores principais são muito parecidos com os antigos e a trama principal continua igual - três crianças, Violet, Klaus e Sunny Baudelaire, perdem os pais em um terrível incêndio que consome a mansão onde moravam. A partir daí, a vida deles nunca mais será a mesma, pois Conde Olaf, um maldoso ator fracassado, entra em seus caminhos disposto a ter em mãos a herança deixada.
Mas as semelhanças param por aí. O enredo em si dos livros é bem simples, tendo como diferencial a execução - e é esse diferencial que cria um abismo entre as duas produções. No filme de 2004 temos um resumo das três primeiras histórias, com arestas cortadas e Carrey com uma liberdade imensa. Ainda que o Olaf de Jim tenha pequenos momentos sombrios, o que resta é uma divertida interação entre O Máscara/Ace Ventura/O Mentiroso/Grinch e crianças perdidas; nunca há de fato um perigo real, lembrando um cartoon onde o vilão tenta derrubar um piano no mocinho, mas de algum jeito, nunca acerta.
Agora, a produção da Netflix, apesar do visual colorido, com certeza é mais sombria. Entendo que tenha quem discorde, mas sugiro que você tente analisar além do aspecto visual. O único ponto que tem de sombrio no filme é a fotografia, as roupas rasgadas e o ambiente sujo, remetendo a influências steampunk (ou mendigo mesmo) que não fazem muito sentido. Se você teve sérios problemas em gostar da série, o seu problema não é só com a série, mas com a história original. 


Tirando alguns momentos estranhos de CGI (vulgo a Sunny nos últimos episódios. Até um boneco de argila era melhor que aquela animação do Dollynho), o visual da série é acertado. Isso é interessante, pois segue-se o pressuposto exatamente oposto da regra - os efeitos são extremamente nítidos. De um lado você tem uma história simples e realista, do outro uma representação fantasiosa cartunesca, beirando ao ridículo, mas totalmente coerente. Assim, há a junção de premissas opostas, que dão um tom agridoce: Desventuras, se fosse um anime, seria um slice of life, entretanto, ao mesmo tempo, há uma abordagem que passa do limite do realismo, quase caindo no pessimismo, ironicamente tendo uma aparência "bonitinha". São essas sutilezas, junto da fantástica metalinguagem por meio da montagem (você pode dormir a cada discurso do narrador Lemony Snicket, mas tem que reconhecer que suas interações com o ambiente são geniais), que tornam a produção em muito mais do que uma história infantil. Isso fica mais nítido ainda se olharmos para o roteiro.
Criar uma história pautada em spoilers é uma decisão arriscada para uma série, mas acaba funcionando muito bem. Se você prestar atenção, quase tudo o que acontece é previamente anunciado por Snicket. Mesmo assim, como um instinto natural humano, ficamos vidrados esperando que algo bom aconteça. Torcer pelos Baudelaire é uma atitude automática, que irá consumir até o mais cético dos espectadores. 
Em uma era onde o entretenimento infantil vive o totalitarismo dos blocos (vulgo Minecraft), ter uma obra para crianças que trata as personagens e o público como seres pensantes e não meramente doentes mentais que respondem a estímulos, é louvável, porém, mesmo sendo uma obra infantil, me pergunto: será que crianças se interessarão por isso?
Transpor quase que totalmente uma mídia para a outra tende a ser um desastre, e nesse caso, é a maior causa dos problemas de ritmo. Há uma dosagem desbalanceada, com monólogos as vezes grandes demais e cenas que poderiam ser enxutas - fica a ideia de que nada está acontecendo. Se para a maioria das produções falta calma, aqui existe em demasia. Reconheço que vivemos em um mundo onde tudo é muito rápido e crianças não querem mais saber de histórias simples de outras crianças vivendo aventuras palpáveis (nada de super poderes absurdos do Ben 10), mas quando até adultos cochilam no meio do caminho, aí sim temos um problema. O formato maratona prejudica Desventuras - minha recomendação é que se possível, assista de 2 em 2 episódios (2 episódios equivalem a um livro). 
Sendo assim, a série parece mais interessante para quem leu a obra original. Para quem não leu, fica nítido que é uma boa produção, mas que deve ser muito melhor ao ser abordada apenas por palavras.


Ainda sim, por fim o saldo é extremamente positivo. Não posso avaliar como uma criança, então sob a perspectiva de um adulto, eu ressalto: as ironias são o trunfo principal. O enredo e os diálogos são bobinhos, existindo sempre uma camada mais profunda - uma piada ácida que só percebemos depois, seja nos nomes dos personagens ou em suas ações. Ainda que não aponte para referências exatas, Desventuras dialoga com a infância, levando a uma nostalgia inerente. Dar foco para as crianças e não para o antagonista, Conde Olaf, torna a história mais interessante: como eu já disse, ninguém é retardado, então quando Klaus fica cheio de dúvidas, nos vemos ali também, em nossas versões infantis, questionando o mundo. Se soa idiota Olaf não ser reconhecido por ninguém, também soa, se analisarmos com mais calma, como uma crítica ao modo que os adultos tratam as crianças e ao mesmo tempo um meio do público infantil se sentir inteligente. Ou vocês acham coincidência o banqueiro ser o mais idiota e o patrão capitalista o malzão conivente com tudo? (algumas pessoas entenderão como uma critica ao mundo adulto que aliena as pessoas, mas se você for um direitista evangélico que assiste o canal do Nando Moura, provavelmente dirá que é doutrinação marxista. A interpretação é livre)
Atuações 

O trabalho de representar Conde Olaf acabou por ficar com o rei dos disfarces, Barney Stinson (Neil Patrick Harris, Barney, tudo a mesma pessoa. Todo mundo sabe que ele estudou na escola de teledramaturgia Wolf Maya). Não existem atuações incríveis, o próprio Neil não é lá essas coisas. Apesar de ter a oportunidade de ser maior, ele apenas cumpre bem o seu papel, usando todo o talento teatral e musical que tem, mas sem nunca sair dos próprios trejeitos. Quem assistiu How I Met Your Mother pode ter problemas com isso. Entretanto, no geral, aos poucos, nos acostumamos e somos imersos na persona de Olaf - um ser caricato, mas nem um pouco engraçado. Certamente a versão de Carrey é mais atrativa, porém, como já disse, não apresenta real perigo. A versão de Harris é tremendamente maléfica e seu maior efeito é nos causar irritação - ponto para ele. Olaf deve ser um antagonista, ou seja, se você odeia o personagem, é por que o ator e a produção fizeram algo certo.
Considerando que são novatas, as crianças se saíram bem. Violet e Klaus tem uma boa química que funciona, e mesmo quando um parece não ter expressão, o outro complementa. Difícil explicar, mas eu diria que a atuação dos "irmãos" deve ser avaliada como uma só. Ainda é só o começo, então há grande potencial para Louis Hynes e Malina Weissman brilharem na próxima temporada.

Conclusão
Desventuras em Série é a série mais fiel possível, mas não sei dizer com toda a certeza se é a melhor adaptação. Obviamente, tendo como conceito a ideia de que "melhor adaptação" é aquela que sabe se adequar à mídia ao qual foi transposta. Ao todo, como já dito, o saldo final é positivo, ainda que nos momentos finais haja certa confusão de ideias, já que Conde Olaf sai de cena e o próprio ambiente vira antagonista. Isso é bom, pois desenvolve com mais maturidade as crianças, entretanto, bagunça a perspectiva a respeito do direcionamento da história. Claro, esses detalhes podem facilmente ser acertados na próxima temporada, junto com a união dos pontos em aberto.
Desventuras não é perfeita, mas merece sim certo reconhecimento só pela originalidade (ainda que originalidade não seja sinônimo de qualidade...). Aos tropeços, encerra muito bem, sem um cliffhanger barato, mas que sutilmente nos instiga a querer ver mais. Resta saber se vão definir direito quem é o público: as crianças, os adultos ou apenas quem leu os livros?

El Psy Congroo.

ps: fica aqui minha sincera oração para que essa nova geração de atores mirins (núcleo de Stranger Things incluso nisso) não sigam o caminho da tia Lindsay Lohan.

ps²: metalinguagem é legal, mas ela não funciona quando você dorme no meio dela, né nom?

ps³: eu REALMENTE não sei como crianças vão gostar de Desventuras, já que o ponto forte são as ironias e criança nenhuma vai pegar, por exemplo, a ideia de que o tio da Serralheria e o sócio são um casal.

ps.4: sério mesmo Netflix que vocês criaram uma trama paralela só para enganar os espectadores? @_@

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