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As teorias de Westworld: mente bicameral e a evolução

Entenda melhor sobre as influências e teorias acadêmicas contidas na série

Westworld é uma série que surpreendeu a todos, até mesmo quem estava positivo sobre a produção. A proposta, desde a concepção inicial de fazer uma adaptação do clássico de 1973, sempre foi bem vista, ainda mais por conta da produção: Jonathan Nolan, responsável pelo roteiro de filmes como O Cavaleiro das Trevas e Interstellar, e J.J. Abrams, diretor de Star Trek e Star Wars. Entretanto, ao longo da jornada para dar à luz a essa história, diversos empecilhos surgiram: para vocês terem ideia, o piloto foi filmado em 2014. Parecia que uma produção desse porte não iria acontecer e o medo se atenuou quando em 2016, os roteiristas (Jonathan e sua esposa Lisa Joy) pararam temporariamente para terminarem e revisarem os últimos episódios.
Felizmente Westworld foi ao ar e não só isso, deu muito certo. Desde os cenários à trilha sonora, tudo surpreendeu, mas o ponto-chave, aquele que conquistou a todos, foi o roteiro. Cheio de nuances, o texto de Nolan e Joy é bastante afiado, até mesmo se comparado com livros. Filosofia, sociologia, estruturas narrativas complexas e etc, são abordados com certa hermeticidade. Por isso resolvi delinear um pouco das influências que notei. As influências que devem ter levado os criadores a escreverem os episódios, sejam elas inspirações claras e diretas ou apenas suposições por similaridades. Esse não é um post sobre o que vai acontecer em Westworld, mas das teorias que compõe essa primeira temporada.

ps: Dividi o artigo em quatro partes que abordam diferentes teorias. Não é necessário ler as outras partes para entender essa e vice-versa.
Devo avisar o óbvio: este post tem spoilers. Leia por sua conta e risco.


As Teorias de Westworld
- A Mente Bicameral  e a Evolução -


Um dos conceitos mais explícitos (mas que fica realmente evidente no último episódio, que inclusive tem o nome da teoria) é o da mente Bicameral. Apesar de ser uma teoria acadêmica, criada em 1976 por Julian Jaynes, tem mais aspectos de ficção científica do que de fato uma suposição real (pois ignora diversos preceitos da neurologia).
A mente bicameral se trata de uma distinção a respeito da consciência humana; uma mistura entre psicologia e evolução. Para entendê-la devemos nos perguntar: o que é a consciência? Você já se perguntou por que nós, seres humanos, somos conscientes a respeito daquilo que somos, enquanto outros animais não? O que nos levou a adquirir essa consciência?
Se faça essa pergunta e tente achar uma resposta. Conseguiu? Não se preocupe, não existe nenhum consenso sobre isso desde a Grécia antiga. Atualmente a maior contraposição se faz entre a biologia e a psicologia. A teoria mais aceita é a evolutiva, de Charles Darwin, que caracteriza a consciência como um movimento natural do processo evolutivo; às adaptações do homem ao meio ambiente. Julian Jaynes não concorda totalmente com isso.
Não é como se Jaynes desqualificasse a teoria da evolução, muito pelo contrário. Ele apenas a questiona e coloca não a evolução em uma análise profunda, mas o próprio conceito de consciência. Veja bem, consciência, de acordo com a Wikipédia, se trata de “uma qualidade da mente, considerando abranger qualificações tais como subjetividade, autoconsciência, senciência, sapiência, e a capacidade de perceber a relação entre si e um ambiente”, entretanto, contrapondo parte dessa ideia, o ser humano responde mais a estímulos do que a si mesmo. Até mesmo suas escolhas de compras estão associadas a determinadas condições biológicas. Portanto, Julian sugere que a consciência surgiu recentemente. Com base em textos antigos, ele faz uma análise da escrita e conclui: por muito tempo não tínhamos se quer a palavra ‘eu’. Como definir consciência sem o “eu”?
Se há uma evolução do animal enquanto ser físico, também há a sua evolução enquanto ser psicológico. A escrita é colocada como o grande marco do inicio da consciência. É a partir dela que o homem se desenvolve diretamente pela "mente" e não mais está a preso a oralidade. Então foi aí que surgiu a consciência humana? Não, esse foi apenas o inicio.
Aos poucos, conforme a produção cultural se tornava mais refinada, a percepção do homem sobre si foi crescendo até resultar, aí sim, na consciência. Jaynes se apoia em um extenso material para construir sua teoria, o que a torna verossímil.

"A hipótese de Jaynes é que, se numa linguagem não existe a palavra “eu” (e seus pronomes), seus falantes não terão uma mente ou consciência no sentido em que nós a temos. A ausência de uma representação de “eu” na linguagem escrita é indício de que em uma determinada época ou cultura não havia nada parecido com uma “consciência”, talvez nem mesmo em sua tradição oral."
(...)
"A análise dos textos antigos para verificar quando eles começaram a representar algo parecido com um “eu” entre seus símbolos possibilita situar o surgimento da consciência com mais precisão. Até a época das primeiras versões escritas da Ilíada, ou seja, em 800 a.C., ainda não aparece nada parecido com um “eu” ou com uma consciência. Éramos marionetes dos deuses. Não havia introspecção."

Agora, ao tentar explicar como se formou a consciência, é quando Jaynes envereda pelo caminho da ficção.


De acordo com a sua hipótese, inicialmente a mente humana era bicameral - dividida em duas partes. De um lado havia a resposta direta; automática aos estímulos. Do outro a imaginação, muitas vezes alucinação, caracterizada como o divino. Muitas das ações do primeiro lado eram respostas às alucinações do segundo lado. Os homens eram reféns dos deuses.
Porém, em algum momento, a mente bicameral vai sendo desintegrada, resultando no declínio dos deuses. Não mais eles são gente como a gente, interagindo diretamente, mas se tornam seres superiores, omissos e julgadores (daí o conceito de pecado). Mas por que acontece essa desintegração? A resposta é óbvia: o ser humano percebe que a segunda parte de sua mente, a qual ele respondia para realizar suas ações, a parte imaginativa/alucinatória, não se trata de outro ser, mas apenas de si mesmo. É aí que ocorre o colapso da mente bicameral. Por isso existe a necessidade de se encontrar "Deus", por que ele fugiu há muito tempo. O homem não sabe o que fazer ao perceber que só existe ele ali e não mais ninguém. A constatação de Nietzsche, no século 19, não poderia estar mais certa: Deus está morto.

"Ao identificar a consciência como fenômeno posterior à linguagem, Jaynes diz que o seu surgimento é um upgrade no software mental dos humanos."

Então é nessa concepção que a série e seus próprios personagens, como Robert e principalmente Arnold, se apoiam. A consciência não é algo que pode ser dado, mas apenas conquistado. O parque é então um grande laboratório evolutivo, com narrativas que buscam direcionar os robôs para a "iluminação". A voz de Arnold seria a voz de Deus. De um lado os androids respondem aos estímulos, ao destino que lhes foi ordenado, do outro uma voz, considerada divina, lhes dita coisas para fazer. É criado até mesmo uma religião. A voz leva à dissonância cognitiva, tema do próximo post, que por sua vez leva muitos, como explicitado por Ford, à loucura.
Lembra da jornada de Dolores em busca da cidade perdida? Ela não sabe distinguir o que é real, memória e imaginário. Algo assim já é difícil para nós, seres humanos, imagine para um robô com capacidades cognitivas tremendamente superiores?
Por isso quando ao olhar a foto da moça em Nova York, em um primeiro momento aquilo não quer dizer nada. Para compreender, Dolores teria que ter a capacidade de entender o "eu" para questionar o que forma o seu mundo. O conceito de consciência em Westworld é tão complexo, que Ford chega a sugerir que muitos seres humanos não a tem:
"Não há um limiar após o qual nos tornemos mais do que a soma de nossas partes. Um ponto de inflexão onde nos tornamos totalmente vivos.
Não podemos definir autoconsciência, porque ela não existe. Os humanos gostam de crer que há algo especial no modo como percebemos o mundo e mesmo assim, vivemos em ciclos tão rígidos e fechados como os dos anfitriões.
Raramente questionando nossas escolhas... Em geral, satisfeitos com que nos digam o que fazer em seguida. Meu amigo (Bernard), não há nada que lhe faça falta."


Por isso a todo momento ficamos vidrados frente a tela afirmando: "ah, então fulano já é consciente", mas aí, SURPRESA, vemos que ele não é consciente. Por quê isso? Pois o suposto ser (robô, no caso), pode questionar o quanto puder e ter até certa percepção de seu cenário, mas só quando forma a ideia de "eu" é que a consciência se forma, quebrando qualquer outra narrativa.
O ápice dessa ideia chega, logicamente, no episódio final, quando Dolores percebe que a voz que ela sempre ouviu e buscou durante tanto tempo não era de seu criador, este já morto (nesse caso, literalmente Deus está morto), mas apenas de si mesma. É quando Arnold se apresenta como Dolores e ela enfim abraça todos os lados de seu próprio ser, que se torna consciente. Já dizia Descartes, "Penso, logo existo", então não basta abrir os olhos e estar vivo para "existir", é preciso pensar por si mesmo. O grande trunfo da série é criar uma relação com o espectador, que acaba se auto analisando e questionando o que de fato ele pensou por si. Nós apenas criamos a ilusão de consciência, quando muitas vezes repetimos ciclos.

El Psy Congroo.

Confira a parte 2: Westworld - Existencialismo e a dissonância cognitiva (em breve)

Citação e recomendação de leitura:
http://pos-agoristas.blogspot.com.br/2010/12/religiao-e-mente-bicameral.html

Referências: 
https://en.wikipedia.org/wiki/Bicameralism_(psychology)
http://www.alisterhardysociety.org
https://es.wikipedia.org/wiki/Mente_bicameral_(Psicología)
http://www.julianjaynes.org
http://bibliotech7.blogspot.com.br/2011/05/origem-da-consciencia-subjetiva-ou-da.html
http://www.uel.br/grupo-estudo/processoscivilizadores/portugues/sitesanais/anais7/Trabalhos/A%20evolucao%20da%20consciencia.pdf

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