Pular para o conteúdo principal

Destaques

Steven Universo: reflexões sobre o papel educacional de um desenho

Vivemos em um mundo de conflito, onde olhamos primeiro as diferenças e depois as semelhanças. Por essas e outras eu fico feliz de ter assistido quando criança desenhos que falavam sobre alguém excluído por ser diferente. E por causa disso acredito que Steven Universo, entre outros desenhos atuais, são mais do que recomendáveis para crianças e para qualquer um, pois eles possuem uma mensagem que pode potencialmente melhorar o caráter de alguém.

Representação social: até que ponto uma obra deve estar comprometida com a diversidade?

Debate atual tem questionado como histórias podem influenciar nas ideologias sociais
Para mais informações sobre este tema, leia a parte 1

Lhes apresento Legend of the Galactic Heroes, o melhor anime que vi nos últimos anos. Se trata de uma história espacial sobre guerra que se inspira tanto no nosso mundo que chega a ser assustador. Ele faz coisas que tantos anos depois ainda não vi outro anime fazer, além de apresentar a dicotomia política mais interessante que já vi, afinal, o anime inteiro é um gigantesco ensaio político. Também possui as guerras mais descritivas que já tive o prazer de presenciar numa história, o pensamento militar e as táticas fazem todo o sentido, aliás, muitas delas são tiradas de registros históricos. Depois de Galactic Heroes não consigo mais olhar para histórias militares da mesma forma, influência essa que me faz desgostar muito de Game of Thrones, pois nas últimas temporadas guerras não eram vencidas com astúcia, proeza intelectual e planejamento; eram lutas genéricas com desenvolvimento quase mágico e soluções milagrosas. Galactic Heroes não tem isso, ao longo do enredo todo mundo vence e perde lutas por diversos motivos. Porém, o que faz ele relevante ao tema são seus traços machistas evidentes, sendo que o elenco enorme da obra é majoritariamente composto por homens. Mas não se precipitem que a questão não para por aí.


Em Galatic Heroes a cultura militar é algo proeminente, especificamente inspirada muito no Japão imperial, pegando muitas coisas de lá, tais como a  noção de honra e dever com a pátria. Por estar quase sempre em um contexto militar, é coerente o domínio masculino. Apesar de termos naves de guerra, o nível social da história é algo bastante arcaico, coisa que o próprio anime explica através de documentários e eventos que moldaram o mundo no que ele se tornou. Mas pera lá, eu disse que faz sentido o domínio masculino de um ponto de vista histórico, pois a sociedade não é tão avançada nesse sentido - não que homens são melhores que mulheres, uma confusão mais do que comum, porque se tivéssemos uma história militar no qual a todo momento mulheres são desprezadas e rebaixadas como inferiores, digo que ainda assim daria pra fazer uma história ótima, só que aí ia depender da perspectiva e direção da narrativa. É possível contar uma história assim com o diretor direcionando tudo para nos fazer entender que isso é errado, que as personagens mulheres ali estão sendo injustiçadas e não merecem nada disso, mas sobre Galactic Heroes, ele não é assim, em nenhum momento ele faz alegações pejorativas em relação ao sexo feminino; o que temos é um reflexo de ideologia onde homens estão mais presentes em cargos de poder, ponto. Isso sim da pra analisar e é relevante até certo ponto, porém toda a reflexão política e as guerras mais bem feitas que já vi se tornam ruins só porque ele reflete um certo tipo de visão de mundo? Por isso que eu digo que machismo nem sempre é igual, nem sempre representa a mesma coisa, tem o mesmo peso ou é necessariamente algo prejudicial. Quem já estudou ciência mais a fundo sabe que dois lados opostos e absolutos é bobagem, temos várias nuances e níveis para se medir coisas e até que nível coisa X se torna prejudicial. Por isso que em uma análise séria não da pra usar o termo genérico machismo como determinista de prejudicial ou benéfico, afinal, machismo é só uma espécie de rótulos e temos que tomar cuidado para não usá-los como coisas absolutas que são sempre o suficiente para entendermos o mundo. Rótulos tendem a ser superficiais, sei que o ser humano tem a necessidade de se rotular para se posicionar de forma confortável ao mundo, mas como estudante de linguística, eu sei que o valor de um nome é proporcional a importância e a interpretação que você dá a ele, e um nome as vezes se divide em vários significados distintos para que possamos compreender melhor o mundo.



Por conta disso que apesar de LOGH ser machista ele não fere a integridade da mulher, não diz que ela é incompetente, uma espécie de individuo inferior ou menos merecedor de reconhecimento. Digo isso com firmeza,  pois as duas melhores personagens femininas do enredo personificam isso muito bem.

Primeiro temos a Hilda: ela é tão inteligente e racional que os almirantes a serviço do protagonista Reinhard tem um certo respeito por ela. O próprio Reinhard queria promover ela a um cargo muito alto no qual os almirantes iriam responder a ela e ela responderia só a ele, mas a própria Hilda meio que recusa dizendo que o Império ainda não estava pronto para isso e que ela, não sendo membro do exército em um governo militar, não seria o suficiente para impor respeito como fazem os almirantes em frente aos soldados e grande parte da população. Uma decisão inteligente e calculada numa situação que o protagonista queria promover uma mulher acima do cargo de outros homens. Aliás, a Hilda em alguns momentos se prova como mais inteligente que o próprio Reinhard. Para não spoilar, vou dizer que ela resolve de forma muito mais prática um dilema que ele enfrenta durante todo o enredo. 
Agora uma crítica coerente é que as personagens femininas tendem a cair numa posição de suporte, por exemplo, a Hilda é secretária-chefe de assuntos de governo e trabalha diretamente sob o comando do Reinhard. Mas cuidado com os rótulos de novo, toda a inteligência e caráter dela são perdidos por ela ser secretária dele? Ela procurou essa posição por opção, diga-se de passagem.
No enredo, o Reinahard possui uma espécie de carisma messiânico que consegue cativar a todos praticamente, que foi formado e reconhecido através de anos de esforços na carreira militar e um intelecto muito desenvolvido, o tornando um dos táticos e políticos mais respeitados da história do Império. A Hilda reconhece tudo isso e quer ajudar ele, oficialmente ela é secretária chefe, algo que alguns veriam como um cargo abaixo, mas ela não anda atrás ou abaixo de ninguém, ela trabalha ao lado do Reinhard e dos outros almirantes em várias situações, pois como eu disse, ela conquistou a admiração deles e sempre provou ser uma mulher extremamente competente, chegando ao ponto dele a levar para algumas batalhas como conselheira. Pode-se dizer que na verdade o Reinahard, no contexto deles, sempre está acima de todos, mas isso é parte da reflexão política da história e aqui não é lugar para explicar o tipo de monarquia que aparece em LOGH.

E não e só ela que recebe respeito. Apesar da posição de suporte que é muito comum para as mulheres, como esposas ou trabalhando para um superior que é homem, em nenhum momento alguma mulher sofre preconceito por ser mulher no âmbito político e militar. Como uma história sobre estrategistas, a maioria dos personagens possui uma capacidade intelectual elevada para entender que esse tipo de preconceito não faz sentido. Geralmente as mulheres são sempre tratadas com cortesia e respeito, algo mais típico de cavalheirismo, o que faz todo o sentido tendo em vista o ano que criaram essa obra.


A outra personagem feminina muito boa é a Jessica, que de novo começa em uma posição machista. Ela é um viúva e seu noivo morreu sob comando de alguns dos almirantes mais imbecis que aparecem na história. Mas ela não fica chorando no canto como uma vitima, ela não se deixa levar pela tristeza. A Jessica é professora de uma universidade e entende que muitas alegações do governo em relação a essa guerra já não fazem mais sentido e só prolongam o sofrimento da população. Não dizem que muitas mulheres morrem para desenvolverem personagens masculinos? Acontece mesmo, mas não é algo necessariamente ruim, aqui o seu marido morreu para que ela conseguisse avançar no enredo. Entendo que essa posição de ferramenta de roteiro acaba caindo nas mulheres porque a história é sobre o homem, mas é ainda assim uma ferramenta muito interessante para se desenvolver um personagem, e funcionou muito bem com ela.

Jessica se torna a cara do movimento ativista contra a guerra. Instiga esperança naqueles que não suportam mais ter seus entes queridos tomados por uma luta sem sentido e tenta até entrar na política para mudar a situação, sempre enfatizando que um caminho com menos violência é melhor.

"Você acha que está tudo bem cometer uma atrocidade desde que você esteja preparado para morrer?
Você acha que está tudo bem cometer ações estúpidas e horríveis desde que você tenha convicção?
Como você consegue justificar sua visão pessoal de justiça através de violência?!" 

Declaração de Jessica Edwards a um governo que mandou seu marido para a morte e depois disso, faria o mesmo muitas milhares de vezes se fosse pelo ideal da liberdade. O que obviamente é balela de políticos.



Ou seja, levando em conta tudo que eu disse até agora, ficou bem claro que o valor das coisas é muito mais que o nível da relação que ela estabelece com certos tipos de visões de mundo, ideologias ou representações. Ou você vai me dizer que a Jessica não daria um herói perfeito para o movimento feminista? Ou a história da Hilda que anda junto do personagem com a maior presença carismática em todo o enredo? Claro que existem casos onde a mulher é rebaixada de propósito numa obra e isso é um problema, mas nem toda obra com tendência machista o faz, na verdade elas sequer se propõem a incluir essa questão de discussão social porque estão, como no caso do Galactic Heroes, muito preocupadas falando de outros assuntos muito complexos e se empenhando neles. E sabe porque é relevante colocarmos em pauta a representação nas obras? Não porque isso melhora a sociedade, outra falácia desse povo, eles estão indo na ordem contrária - A arte reflete a sociedade então é preciso resolver problemas da sociedade para mudar a arte. Claro que também existe uma troca na qual a arte contribui para influenciar a sociedade, mas não é tão simples nem tão potente como muitas pensam que é. Para chegar nesse resultado de "Falou que mulher não presta no seu livro e agora todo homem fala que mulher não presta!" é preciso um contexto muito extremo para que a culpa caia na ideologia de uma obra artística, e não no cara que é otário. Esse discurso isenta as pessoas das merdas que elas falam porque elas são otárias, "é culpa da sociedade", "é culpa do incentivo da mídia". É culpa das pessoas, elas tem que assumir as bostas que ela fazem, não um livro, uma propaganda. Claro que é possível condicionar um comportamento por influência social, mas é algo como eu disse, extremo. Existem vários casos de homossexuais que tentam viver como héteros - por diversos motivos a sociedade não os aceita, eles não tem apoio da família, não sabem onde encontrar outros homossexuais, são perseguidos e mortos só por serem gays. Eu diria que nesses casos eles praticamente sofrem uma lavagem cerebral ou poderíamos dizer que eles se forçam em uma lavagem cerebral auto-induzida para reagir com o tanto de pressão que é posta neles. Algo muito diferente de olhar um filme com traços machista e do nada se tornar machista.

Imagem de uma produção cinematográfica que mostra muito bem o que um gay passa, no caso um mundo invertido. Assista o vídeo aqui

A falta de representação significativa de deficientes em obras não dá a eles menos direitos em relação a constituição, menos respeito que as mulheres deveriam receber, nem nada parecido. Esse tipo de coisa é relevante, pois pode ajudar a melhorar a qualidade das obras e não a consertar concepções erradas da sociedade. Mas não me entenda errado, apesar de eu dizer que melhora a qualidade, não se preocupar com essas coisas também não torna uma obra pior, porque se você ignora um tema você tem valor nulo e não negativo. Se a mulher é rebaixada e retratada de uma forma que ela seja biologicamente inferior, dizendo que ela é burra e incapaz por ser mulher, isso sim é valor negativo. Agora, se temos vários tipos de personagens complexos com várias etnias, sexos e posições sociais, é um bônus muito bem vindo, pois tem potencial para desenvolver um enredo de maneira muito mais heterogênea, logo melhorando a qualidade do enredo, além de permitir uma maior identificação com personagens que façam parte do seu grupo.

Only darkness will remain.

- Para mais informações sobre este tema, leia a parte 1
- Conheça também a coluna Analisando Argumentos.

Nos siga nas redes sociais: Facebook e Twitter

Postagens relacionadas:

Comentários

Postagens mais visitadas