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Destaques

O terror como punchline humorística em Get Out

O cinema tem como principal função apenas entreter, assim como qualquer outra forma de arte. Você pode dar "n" motivos para uma obra ser boa, mas se ela não entretêm, ela não serve para nada. Tendo isso em mente, eu sinto falta de um cinema um pouco mais descompromissado; eu sinto falta de contos e crônicas sinceras, coisas que só vemos em produções independentes que em sua maioria se quer chegam por essas bandas. Portanto, ver um filme como Corra fazendo sucesso tanto entre o público de nicho e o público geral, acabando por ser exibido com certa relevância, chega a emocionar. Não que isso automaticamente torne o longa bom, mas é que a sua proposta é tão simples e ao mesmo tempo tão cheia de nuances e propósitos, que é difícil não torcer para que dê certo. Corra deu certo e não só isso, é um respiro no gênero tanto de terror quanto de comédia. Ele não é inovador, mas a sua exótica combinação de gêneros culmina em uma história bem executada, sem a necessidade de ser megaloma…

Battle Royale, a batalha dos sexos na distopia asiática

Sanguinário, macabro, complexo, romântico, controverso e polêmico. Battle Royale, a obra prima de Koushun Takami 

Foi em 2013 que escrevi minha análise sobre o filme Battle Royale, baseado no romance de mesmo nome. Na época eu só conhecia o mangá e por isso, achei a produção razoavelmente boa. Agora, três anos depois e muita bagagem cultural adquirida, não tenho vergonha de dizer: o filme é ruim. E não importa o fato de Tarantino reverenciá-lo como uma ótima produção, tudo é péssimo. Okay, algumas coisas se salvam e o pioneirismo na temática é o que surpreende, entretanto, esse pioneirismo está no livro - só levaram adiante, de forma atrapalhada, a mensagem. Ainda sim, mesmo com o enredo aparentemente idêntico, há um abismo entre as duas mídias, que tentarei evidenciar nesta análise.

[Sinopse] A cada ano uma sala de aula, de alguma escola diferente, é escolhida para o programa Battle Royale. O programa consiste em colocar 42 adolescentes em um local isolado e lhes dar apenas uma ordem: matar. O objetivo é sobrar apenas um aluno. Para facilitar a matança, um saco com suprimentos e uma arma aleatória (podendo ser desde uma metralhadora a uma panela) é concedida a todos.
Na trama, acompanhamos a classe de Shuya Nanahara, um estudante fascinado por rock 'n roll, que se vê surpreso, assim como seus amigos, quando é selecionado para o mórbido projeto. A história se passa em um futuro incerto, bastante semelhante a 1984, onde formou-se a República da Grande Ásia Oriental, um governo distópico e totalitário. Os motivos desse programa não são especificados, mas fica subentendido que é para suprimir as revoltas usando os jovens como exemplo. O livro acompanha esses jovens e suas ações frente uns aos outros: desconfiança, tristeza, suicídio, muito gore, paixões platônicas e muito mais, permeiam as páginas daquela que foi considerado a obra literária japonesa mais polêmica dos últimos tempos.

Um livro simples
A escrita de Battle Royale é, em sua maioria, em períodos curtos ou simples. "Como assim?" Período curto é quando temos apenas uma oração na frase. A junção de mais orações formam períodos longos, chamados de períodos compostos, que geralmente são mais confusos. O período curto é principalmente usado na linguagem jornalística, pois acaba por facilitar o entendimento. Segue a máxima: na dúvida coloque um ponto. Sendo assim, é exatamente este estilo adotado por Koushun Takami, mesclado com a descrição. É uma dualidade interessante. Descrições tendem a ser longas por misturar orações; por vezes, em livros de fantasia adultos, é fácil se perder a respeito do assunto tratado. Portanto, a escrita com períodos curtos é mais frequente, depois do jornalismo, em livros infanto-juvenis e no recente estilo Young Adults, soando, dependendo do escritor, superficial.
Mas Battle Royale não é um livro infanto-juvenil e nem mesmo se assemelha às distopias young adults (nem sei se ele se caracteriza nesse gênero). As problemáticas, apesar de tratar de adolescentes, são profundas e ainda que o visual seja importante, existe ali uma complexidade existencialista a respeito dos traumas de cada um. Então temos um livro complexo, visualmente chamativo por conta das descrições detalhadas, porém, com uma linguagem simples e rápida. Em uma página muita coisa pode acontecer, mas sem deixar de ter um ótimo ritmo; nem apressado ou lento demais.

"O ferimento na perna direita de Takako pulsava. Ela podia sentir quase toda a perna abaixo da coxa molhada de sangue. Ela não aguentaria muito mais naquela condição. Também notou um som ofegante. Sentiu que escapava de seus lábios." - exemplo de uma descrição em período curto.

Um autor bastante conhecido neste estilo, que nota-se inclusive uma boa dose de influência, é Stephen King. Não sei se o desenvolvimento seria o mesmo, mas com certeza BR é uma ideia que King facilmente teria e escreveria com a mesma dose de acidez. Acidez essa que deve ser comentada: mesmo se tratando de um drama, existe humor. O livro inteiro é permeado por ironias, nas situações ou nas opiniões das personagens. Essa ironia se mescla com a narrativa e com a construção do psicológico de cada um: adentramos a mente dos alunos de forma profunda, mas o livro não é em primeira pessoa. 
Esse humor presente não é por menos: a essência da obra é uma sátira macabra. Takami disse que a ideia do livro surgiu da premissa de uma luta livre onde todos se matavam. Um reality show da morte. Outro conceito inicial também foi o professor psicopata - o autor simplesmente imaginou alguém falando para seus alunos se matarem com um sorriso irônico no rosto.

Escolha seu personagem preferido
Lista de alunos contida nas primeira páginas
O interessante também em Battle Royale é que não existe um enredo delimitado; o que importa é o desenvolvimento. Não existe exatamente uma sucessão de acontecimentos que vão resultar nisso ou aquilo, como podemos ver, por exemplo, em Jogos Vorazes. Isso abre alas para uma liberdade maior ao autor, que nos surpreende a todo momento: não sabemos o que esperar. Esse é um daqueles livros raros onde só a escrita basta para cativar e assim, podemos ler mais mil páginas da história, que ainda continuaria coerente e aconchegante de acompanhar. Isso é um feito incrível, já que diferente de muitas obras, não existe "time skip" ou qualquer outro artificio; o tempo é corrido. A trama inteira acontece em alguns dias, com quase cada detalhe a respeito dos principais participantes relatado.
Facilmente uma história assim tenderia a ficar monótona e chata - e de fato, existem momentos entediantes - mas o que sustenta cada página são os traumas apresentados. Uma garota, por exemplo, se esconde em uma casa; a descrição física, ou visual, não tem muito o que dizer, mas o seu interior está turbulento, cheio de temores e perspectivas a respeito do que fazer.

Se fosse para descrever o enredo em poucas palavras, além de "sátira macabra", eu diria que se trata de uma "metamorfose". Veja bem, todos passamos pela adolescência, agora imagine passar pelo período mais confuso de uma vida tendo que matar os amigos? A evolução é constante. Se no inicio todos estão amedrontados, no final constantemente bolam estratégias para sobreviver.
Shuya Nanahara não é um bom protagonista, ele é neutro demais. Mas dentro do contexto isso se torna positivo, pois abre espaço para outros personagens ganharem foco, envolta deste ser ingênuo e honrado. Se for para descrever, eu diria que Shinji Mimura é uma versão melhorada do protagonista. Shuya é, como eu diria, "branco demais", sem tonalidade cinzas interessantes. Shinji, por outro lado, está a todo tempo se questionando e errando; sua personalidade é peculiar. O contraste de Shuya pode ser feito também frente a Kazuo - este é deveras "branco", mas acaba rumando para o lado negro da força. Não existe uma explicação exata de suas ações, e nem acho que deveria. Ele apenas decide matar todo mundo e pronto.
Sendo assim, temos dos dois lados extremos: o garoto ingênuo e bonzinho, e o rapaz frio e sanguinário. No meio desses extremos é que fica a parte importante: as tonalidades cinzas; os amigos se descobrindo do pior jeito possível e decidindo se vão se aliar ou degladiar até a morte.
Existem personagens para todos os gostos: desde a menininha inocente à puta manipuladora. Essa diversidade é coerente e nos trás melhores perspectivas da história. Um fato pode ser uma coisa para uma pessoa e outra coisa bem diferente para outra pessoa. A interpretação varia da cada um.

mapa da ilha onde acontece o jogo
Se em uma história normal nós acompanhamos as lutas, as reações dos espectadores e como rola essa relação, aqui nós somos os espectadores. É como se a narrativa fosse uma câmera onisciente que vai nos mostrando diversas telas: na tela um temos Noriko e Shuya. Na tela dois, Kazuo matando os amigos. Na tela três, Hiroki procurando Takako. E assim por diante.
E o que acontece nessas telas? Quebra de expectativas. É assim que o enredo funciona. Alimenta um acontecimento, para nos impactar ao subvertê-lo. Shinji quem o diga, a realidade o atinge assim como atingiria o mais esperto de nós. Qualquer erro pode ser fatal.

A maior crítica fica pela confusão de nomes. Nem sei se faz sentido até mesmo para os orientais, mas para nós ocidentais é uma loucura associar o nome ao personagem. Some a isso às descrições esparsas do autor sobre as características físicas. A descrição existe, mas é feita "a prestação"; alguns personagens mal conseguimos imaginar direito, pois não há tempo para serem descritos. Tirando o núcleo principal que conseguimos identificar por sobreviverem durante mais tempo, acaba que todos soam parecidos fisicamente. Ou seja, é necessário uma atenção especial ao nomes. Como sou lerdo, até a metade do livro ainda ficava voltando pra tentar lembrar quem era tal pessoa.

Momentos importantes
Separei aqui alguns momentos importantes que acho que devem ser comentados. São momentos que definem mais ou menos todo o enredo.

1- Morte de Yoshitoki: é o primeiro impacto psicológico e visual que temos, ocasionando a mudança definitiva do ambiente escolar convidativo ao horror macabro. Também é o que une Noriko e Shuya, funcionando como combustível de "vingança".

2- Kazuo matador: que Kazuo é estranho já percebemos desde o primeiro momento, mas sua frieza vai a um nível extremo. O mais impactante não é nem o fato dele não se importar com ninguém, mas o contexto criado envolta. Na maioria das vezes todos tem uma história, que até faz você torcer por determinado personagem, mesmo que ele seja "mal".

3- Farol das loucas: para mim aqui é quando as tensões atingem o ápice. Exatamente tudo que foi criado anteriormente é usado neste momento. Alianças, atritos e muita desconfiança. Kazuo funciona como um inimigo externo a todos (enquanto, como já dito, Shuya é o salvador), mas dessa vez ele nem precisou apertar o gatilho. O próprio jogo, as próprias pessoas, tratam de matar umas às outras.

4- Trama do Shinji: enquanto mil tretas acontecem, temos uma trama paralela envolvendo Shinji Mimura e Yutaka Seto. Essa é a maior mostra de "abertura" do livro, descrevendo o governo e construindo um enredo político de conspiração. Ficamos entretidos com tudo e queremos saber mais; ingenuidade nossa. Como Koushun já disse, ele não tem interesse em falar sobre política; então já sabem, tudo acaba servindo para outro objetivo (vulgo mortes criativas).

5- Paixão: é o amor que une muitos estudantes, como o casal que se suicida (sorry não lembrar o nome deles), ou a relação platônica entre Takako e Hiroki. E claro, as mil garotas apaixonadas por Shuya, nosso protagonista lerdo e honrado. Vejo isso como parte do fetiche japonês: a ideia de harém. Shounen e ecchis constantemente abordam isso, com um protagonista bobão igual ao Shuya. Mas a diferença é que aqui todo mundo morre.


Um romance às avessas (ou comparando com o filme)


Substancialmente já temos uma diferença básica que pode ser confundida por muitos. Enquanto o filme de BR se transforma facilmente em um romance, principalmente por buscar empatia com o espectador, o livro não tem preocupação nenhuma em parecer uma história de amor. Ter romance não caracteriza uma obra como tal - ele existe apenas por que seria inverossímil abordar a personalidade de adolescentes sem tocar no assunto. E mesmo assim, fica totalmente como segundo e até terceiro plano, sendo usado como trampolim para criar conexões entre os participantes e depois distorcer a perspectiva de algo que poderia dar certo. Temos até mesmo uma narrativa omissa: ainda que violento, Battle Royale carrega consigo a barreira cultural oriental a respeito das relações entre homem e mulher. Em um cenário um pouquinho mais crível, sexo seria inevitável. Pode parecer simples, porém sexo e/ou erotização não é só um ponto, mas um tema complexo que envolve diversas perspectivas; ou seja: abordá-lo enriqueceria a obra (tornando-a ainda mais polêmica). Entretanto, o que vemos algumas vezes, sempre no que remete a essa relação entre homens e mulheres, é uma representação ingênua e caricata. Há somente pinceladas do que poderia acontecer, como quando Kazushi Niida tem interesse em estuprar Takako Chigusa ou Mitsuko Soma se insinua para obter vantagens. Rapidamente o momento é encerrado para dar lugar a uma violência desmedida. É como se o autor dissesse: "não temos tempo para falar sobre esse assunto", mas claramente é uma desculpa para, "não sei como abordar isso e  vou omiti-lo". Necessariamente não quer dizer que é um defeito - Koushun Takami é um aficionado por literatura e portanto, sabe bem que não deve falar daquilo que não sabe. Um bom autor reconhece seus defeitos e os contorna. É isso que Takami faz, não prejudicando a leitura, apenas causando, principalmente para nós ocidentais, um certo estranhamento. Logo, esse estranhamento vai embora por estarmos tão conectados aos pensamentos e problemas das personagens.
Já o filme, é bem diferente.

Kinji Fukusaku (o diretor) transpõe de modo errôneo a perspectiva da narrativa. No quesito violência está no ponto certo, mas o enredo em si é pífio por não saber como lidar com as emoções das personagens. Por não ter a escrita, o longa se sustenta nas atuações e essas são deveras ruins. Ainda que BR seja um festival de atrocidades, para cada uma dessas atrocidades há um contexto para causar maior impacto. Esse contexto não existe no filme, seja nas expressões dos alunos ou na própria história. O resultado final é uma mescla bizarra de gore com romance inocentemente brega.


Sobre a edição
Nunca imaginei que um livro japonês pudesse ter tanto cuidado e vindo de uma editora como a Globo Livros. A edição é ótima, com um custo benefício justo. Não é uma produção de luxo, mas ao mesmo tempo é atenta aos detalhes, como por exemplo a capa, que diante da luz mostra um relevo que forma o mapa usado pelos estudantes. Sem contar na ilustração: simples e chamativa. Eu namorei esse livro durante meses; só pegá-lo já me dava uma alegria. É um daqueles livros que você quer ter para enfeitar sua estante, mesmo que não seja uma produção impecável.
Sobre a tradução não posso dizer muito, pois não tenho com o que comparar, mas por tudo que li, classifico como um bom trabalho. Termos desconhecidos ganharam notas de rodapé, como deve ser, ao invés de serem adaptados ao jeitinho brasileiro. Me irrita ver mangás que insistem em adaptar os sufixos -kun, -chan, -san, -sama e etc, de forma forçada ou errônea. Outra coisa que me surpreendeu foi que a tradução é direta do japonês - ou seja, mais uma vez indica o cuidado especial. Caso você não seja familiarizado com o funcionamento de uma tradução, muita coisa se perde de uma língua pra outra e portanto, ao traduzir para o inglês, a língua universal, perde-se um tanto da escrita do autor por ser uma língua mais simples. É bem mais fácil traduzir do inglês para outras línguas do que o contrário. Por isso me admirei. O português é uma língua complexa e rica em palavras, então traduzir diretamente do japonês, ao invés do inglês, agrega muito à nossa leitura e compreensão comparado ao idioma original.
Na mesma edição ainda tem espaço para lista com nomes do estudantes (não que isso ajude muito) e mapa para entendermos por onde eles se locomovem.

Conclusão


Battle Royale é muito mais que um livro sobre uma batalha sanguinária, existe sentimentos importantes colocados na obra, ainda que eles se apresentem de forma irônica. É uma obra prima japonesa da nova literatura, que merece ser lida e relida. Engraçado ver como uma escrita simples e direta, sem firulas, pode impactar tanto e ser bastante complexa. Quem vê apenas o festival de sangue, não consegue perceber as construções importantes e coerentes a respeito da adolescência. Existe uma crítica social? Talvez. Fica a cargo do leitor perceber isso, mas o foco é o entretenimento, como um bom livro, independente do gênero, deve ser. Só pela escrita do autor eu ficaria lendo essa história por mais mil páginas.
Apesar de começar lento e por vezes confundir por causa dos nomes, Battle Royale vale a pena. É uma edição que merece estar na sua estante, principalmente se você gosta de distopias.

El Psy Congroo.

Nome: Battle Royale

Ano: 1999

Autor: Koushun Takami

Gênero: distopia, suspense

Páginas: 664

Editora: Ohta Publishing/Globo Livros

Nota: ★ ★ ★  ★ (100/100)



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