sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Star Vs The Forces of Evil - Como passar uma mensagem sem ser chato

Animação recente da Disney aborda questões sociais do mundo moderno sem ser panfletária ou maçante

A história de Star Vs The Forces of Evil fala sobre a princesa Star Butterfly do Reino mágico de Mewni, herdeira do trono, portadora de uma varinha com poderes enormes e possuidora de uma  natureza rebelde e aventureira, que a fez ser mandada para a dimensão "Terra", um mundo seguro e pacifico para que consiga amadurecer. Consequentemente, ela acaba aparecendo na casa de Marco Diaz, um garoto que se torna seu melhor amigo. O problema é que Star não sabe controlar muito bem sua varinha e logo diversas situações malucas e acidentais acontecem, transformando a vida dos dois em um monte de coisas - menos segura e pacifica.

Marco Freud, o psicólogo

Um dos pontos mais positivos de toda a obra é a relação de Star e Marco. Os dois constituem uma dicotomia, pois a garota é compulsiva, extrovertida e destemida, enquanto o garoto é hesitante e raciocina muito mais. Acaba se tornando uma relação prejudicial e beneficial ao mesmo tempo, porque em diversas situações Star acaba colocando Marco em situações perigosas por sua falta de controle e em outras dá o empurrão para Marco se divertir mais, enquanto este tenta fazer o papel de voz da razão, mostrando à Star o valor da responsabilidade - não como uma pessoa com raiva, mas como um amigo. Os dois são carismáticos e funcionam bem juntos, conseguindo dar uma visão diversa em suas desventuras enquanto aprofundam cada vez mais sua relação. Eles não são um casal, mas podem vir a ser no futuro, pois vêm se aproximando cada vez mais ao longo dos episódios.


O que mais me surpreendeu foi o humor. Uma crítica que eu faria à Hora de Aventura, por exemplo, é que este não é mais engraçado. Com o tempo o enredo se tornou tão complexo e profundo que raramente dá espaço para piadas, meio que abraçando o publico adulto que assiste o desenho - Star vai na linha contrária, ele tem o suficiente para agradar pessoas mais velhas, porém não abre mão de sua natureza cômica em nenhum momento, aliás, a personalidade dos personagens já é moldada em algo mais engraçado, como em Apenas um Show. A maioria das situações vem do descontrole da Star com sua varinha, o que gera as coisas mais inesperadas e criativas, o que é bom, pois sempre te pega de surpresa. Houve episódios que começaram com o Marco atrasado, daí ele quebra o braço sem querer e pede pra Star curar ele, acontece um acidente na magia e o braço vira um tentáculo gigante que tem consciência própria e começa a influenciar a mente do Marco para que ele espanque seu rival, um garoto de 10 anos.


As expressões dos personagens são quase um show a parte. Isso acontece porque o estilo artístico e a animação estão muito acima da média; geralmente desenhos do tipo tendem a abrir mão de um design detalhista para se focarem mais em enredo ou uma animação fluída, Star não abre mão de nada, é tudo muito bem desenhado e animado, pois cheguei a ver por fora que o processo de produção para cada episódio é muito demorado, e parece que cada temporada demora dois e anos e meio para ser finalizada, mostrando um empenho muito melhor em manter o formato do produto além do seu conteúdo.

Deem uma olhada na abertura que é uma amostra da qualidade técnica.


Entretanto, Star possui uma qualidade que apreciei em sua direção desde o começo, mas que não era explícita a ponto de eu entender o que exatamente me atraía para essa história. É um desenho que advoga em muitas áreas das lutas sociais sem ser panfletário ou maçante. Veja bem, um dos maiores problemas que percebo com as lutas sociais hoje em dia, é que certos indivíduos com uma natureza agressiva transformam uma boa mensagem em algo que ninguém quer levar a sério por causa da forma como essa mensagem foi passada; é como se eles falhassem totalmente em convencer as pessoas, praticamente piorando a situação em alguns casos. Star faz tudo isso e ainda consegue ser divertido sem abrir mão de quase nada, ele pega a essência de muitas dessa reivindicações e as aplica não porque elas são politicamente corretas, mas porque é o que mais respeita nossas liberdades e direitos como pessoas em relação ao mundo, que, penso eu, deveria ser o objetivo das causas sociais. Aliás, não posso nem afirmar que o desenho faz isso de forma consciente ou se só absorve aqui e ali parte da visão de seus criadores. E isso é bom porque dá um ar extremamente moderno e interessante para quase tudo que aparece na tela.


Daron Nefcy, a criadora do desenho, disse que foi muito influenciada por obras japonesas no estilo mahou shoujo, onde temos personagens femininas fortes. As semelhanças com Sailor Moon são notáveis e o fato de Marco praticar Karatê foi confirmado como influência de Dragon Ball, outro desenho que Nefcy disse que gosta muito. A junção da visão moderna de mundo junto a essas influências tiveram como resultado a Star: ela é uma princesa que não abre mão de sua feminilidade, adora seu estado como mulher, porém não vê nenhum problema em pegar uma marreta e quebrar a cabeça de um monstro, coisa que é até encorajada pelo seu pai - quando percebi isso minha mente explodiu. A Star é uma das personagens que melhor personifica a ideia de igualdade, liberdade e aceitação nesse contexto moderno do feminismo, e o mais importante de tudo, eu nem percebi isso durante muito tempo assistindo.


A relação com seus pais também é muito importante e diz muito sobre o posicionamento do desenho. Primeiramente, o Rei e a Rainha estão em pé de igualdade - eles andam lado a lado e parecem ter poder político semelhante. O Pai sempre incentivou a natureza brincalhona e aventureira da filha, porque é exatamente assim que ele é, quando percebi isso lembrei daqueles comerciais que uma menina era impedida de estudar engenharia porque isso não era coisa de mulher - não nesse desenho. O Rei é um personagem amável e divertido que adora a natureza da filha, sempre a incentivando e se sentindo orgulhoso quando ela segue seus passos. 


A Rainha só pude entender na segunda temporada. Ela é a personagem mais séria de toda a história, logo ela tende a não aparecer muito, pois não há lugar para ela contribuir em uma situação cômica. É ela quem valoriza a responsabilidade e as boas normas e tenta ensinar isso a filha, o que me fez ver ela como frígida, mas não é bem o caso, ela também gosta muito de sua filha, porém as duas são muito opostas, logo tendem a se distanciar. A Rainha tenta fazer Star amadurecer, o que acaba gerando muito atrito; porém não faria sentido ela não gostar da filha, pois ela é igualzinha ao seu marido, então porque ela estaria casada com ele se não apreciasse um emocional mais expressivo? Esse é o tema de "Flags", um dos melhores episódios que tem a Rainha em foco, aliás, parece que todo o poder mágico da Star vem da mãe, a varinha é passada de mãe pra filha, o que subverte bastante essa ideia de domínio masculino, porque em questão de força parece que o Rei não teria chance contra a magia da Rainha. Mas não é nada como aquele feminismo que prega uma "igualdade" que não é igual porra nenhuma, que a mulher pode espancar um homem e ele não pode falar um ah, nada disso, ela é forte, mas não precisa jogar isso na cara de ninguém para manter sua postura e maturidade.


A Star é a que fica mais em evidência, mas de resto todos os personagens levam um pouquinho dessa visão de mundo. O Marco Diaz, por exemplo, é claramente descendente de latinos, algo que pode não chamar muito a atenção de nós brasileiros que vivemos em uma sociedade tão multi-cultural, entretanto, o termo pardo nem existe nos Estados Unidos, que tipo de grupo social você é se nem uma definição descritiva da sua raça é reconhecida pela sociedade? Eu já vi muitos programas feitos nos Estados Unidos para se valorizar a cultura afro-americana, mas e os latinos que muitas vezes nem são considerados "americanos"? É uma adição muito interessante e sutil ao enredo. Além disso, na escola temos vários personagens que fogem do padrão que se vê em representações genéricas, em que todo mundo é branco, as meninas se vestindo com roupas femininas, sendo resguardadas e clichês do tipo.

 A família Diaz

E também tem os demônios e monstros que caem nessa visão modernista. Quem disse que todo monstro é mal? Um dos maiores focos da histórias são as interações da Star com estes seres, por exemplo: o ex-namorado dela é um demônio raivoso, se fosse algo mais preto no branco ele seria sempre maligno, mas não, Tom é um cara que tem consciência que sua raiva afasta as pessoas, mas ele não quer ficar sozinho e valoriza muito o que ele teve com a Star, lutando para superar sua raiva fazendo terapia - o demônio faz terapia, esse desenho é genial. Outro vilão que é primeiramente apresentado como pastelão total é Ludo, ele vai bem na ideia genérica de querer poder, mas seu segundo em comando, Buffrog, já é diferente. Gostei muito do que fizeram com ele, o transformando num pai solteiro, o que é hilário. Esse desenho possuí potencial para crescer muito nos anos que virão.


Sabe, sempre penso que desenhos com o público-alvo mais infantil precisam de boas mensagens para ensinar coisas importantes de uma forma divertida - até agora já falei de mensagens sobre igualdade, preconceito, aceitação e liberdade. Eu mesmo fui muito influenciado moralmente por Inuyasha quando eu era criança, além de jogos onde seus companheiros eram criaturas não humanas. Aprendi cedo que o mal não é exclusivo de um grupo especifico de pessoas ou criaturas inteligentes, nem deve ser o bem. Por isso eu apoio com todas as minhas forças a tendência desse novo estilo de cartoon, pois além de manter um enredo sequencial, eles conseguem apresentar e discutir de forma benéfica algumas das questões que geram tanto atrito no nosso mundo atual, preparando de forma sutil as crianças para reflexões que um dia vão ser pauta em suas vidas.

Only darkness will remain.

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