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Steven Universo: reflexões sobre o papel educacional de um desenho

Vivemos em um mundo de conflito, onde olhamos primeiro as diferenças e depois as semelhanças. Por essas e outras eu fico feliz de ter assistido quando criança desenhos que falavam sobre alguém excluído por ser diferente. E por causa disso acredito que Steven Universo, entre outros desenhos atuais, são mais do que recomendáveis para crianças e para qualquer um, pois eles possuem uma mensagem que pode potencialmente melhorar o caráter de alguém.

O machismo de How I Met Your Mother

Falar de machismo dentro da comédia é muito relativo, pois se trata não somente de uma mensagem que está sendo dita, mas também de uma piada - e como piada, a função principal é fazer rir. Sendo assim, não é errado dizer que a comédia, principalmente a stand-up, parte do princípio de um alvo. Algo ou alguém são subvertidos para dar lugar a uma nova concepção de mundo, as vezes boba, as vezes exagerada.
Mas e aí, como denotar o que é válido? É a famosa pergunta: qual o limite do humor?
De um lado, temos minorias enfurecidas que não vêem graça em nada - a perspectiva de um abusado é diferente de um abusador. Do outro, temos pessoas que acreditam que o mundo está ficando chato e toda essa balbúrdia não passa de "mimimi" - a supressão das palavras pode dar poder ao preconceito. Portanto, é difícil definir algo certeiramente, pois se trata não de uma mensagem direta, mas subjetiva, que depende das referências do receptor para ser entendida. Se eu fizer algum trocadilho a respeito de Harry Potter, só quem assistiu Harry Potter vai entender.
Pensando nisso, quero deixar claro que vou tentar ser o mais lógico possível, usando, como sempre, a análise dos recursos narrativos, mas um pouco de "achismo". É a primeira vez que faço isso, porém, é necessário - não há nenhum trabalho teórico relevante sobre a comédia e principalmente sobre sua relação com a semiótica (olha aí, tema de tcc). Não há quem referenciar e muito menos um consenso a respeito do que pode ou não dentro dela. Basta fazer rir? Mas e quem não estiver rindo? O objetivo é agradar quem está dentro desse "círculo de referências"? Isso seria propulsor para fomentar preconceitos?
Muitas perguntas - vou tentar elucidar uma parcela delas, usando por base a primeira temporada da série How I Met Your Mother. Se você ainda não a assistiu, recomendo que pare por aqui: este post tem spoilers.

O Machismo de How I Met Your Mother


A trama de How I Met Your Mother aborda a história de Ted Mosby, um homem, no ano de 2030, que resolve contar para os filhos como conheceu a mãe deles. Deste modo, somos inseridos em uma espécie de "flashback eterno", onde, conforme o Ted do futuro conta suas histórias, as representações vão decorrendo. A premissa em si é genial justamente por isso: ao colocar tudo como aspecto ficcional do passado - as histórias de um adulto quase velho -, a trama ganha um dinamismo surpreendente, não havendo limites para as piadas, que tem como uma das desculpas a seguinte ideia: "éramos apenas jovens, loucos e inseguros".
Logo, somos apresentados aos personagens principais: Robin, Lily, Marshall e Barney. Cada qual tem uma faceta diferente, mas para esse post, o personagens de destaque são Barney - para quem não se lembra, ele é o playboy do grupo; o pegador ~avassalador~ - e claro, o protagonista Ted.


Se deparar com Barney é uma mistura conflitante de sentimentos: de um lado você dá risada por conta das sacadas, do outro fica um pouco enojado por conta das perspectivas. Em Friends, o pegador do grupo era Joey - mas este não aplicava juízo de valor. O que eu quero dizer? Ele tratava as mulheres como objeto, mas por sua natureza gentil (e ignorante), não havia espaço para jogar piadas exageradamente sujas. Sendo assim, Barney é a desculpa perfeita para isso: o personagem foi estereótipadamente criado para atender a essa necessidade. Colocar um personagem comum, como Ted Mosby, para agir de forma tão "repugnante" seria dar um tiro no pé (apesar dele agir também de forma machista, mas falaremos disso depois).
Portanto, basicamente temos: a narrativa contada, permitindo alterações de acordo com a memória do interlocutor, e a caracterização exagerada de um playboy babaca, que tem influência em todos, mas ao mesmo tempo é "repudiado" (ainda que nunca esteja fora do grupo). No mundo real, os Barney's tem efeito nas pessoas, muito mais do que simplesmente uma história que terminará em risadas - e é aí que How I Met acerta.


Sim, há o machismo exacerbado escondido no humor do playboy, pois enquanto ele é repudiado, continua sendo aceito e muitas de suas ações tem influência nos outros. Seria a dita conivência; não concordam, mas dão risada do que ele diz e em alguns momentos, até seguem a mesma conduta. Entretanto, a grande sacada surge quando, primeiramente, esse personagem é caricato, e depois, quando resolvem fazer piada justamente pelo fato dele ser assim - nunca é levado a sério pelos outros e seu passado revela alguém muito traumatizado.
Então eu poderia dizer: "AHÁ! How I Met Your Mother é machista pois Barney age deste jeito", porém, logo emendaria, "m-m-mas espere... Eles estão fazendo piada com ele..."
- Entende? É a desculpa perfeita para destilar piadas machistas e, ao mesmo tempo, contra o machismo.

O problema em si se dá com Ted. Diferente de Barney, ele não é caricato e muitas vezes tem aspecto de "nice guy", aquele cara engraçadinho que conquista pelo humor. Entretanto, Ted é extremamente romântico - e suas atitudes românticas, por mais que possam ser visualmente bonitas, são machistas. Todas elas dizem: "olha como sou legal, você DEVE ficar comigo", com o roteiro dando uma "ajudinha".


Na primeira temporada, Ted não está conquistando Robin, ele a está perseguindo. Não importa os "não's" da moça, ele continua batendo na mesma tecla. E Robin? Fica brava, mas instantaneamente atende às necessidades do roteiro, como por exemplo, quando Ted "faz" chover. Foi a pior atitude não atitude que alguém poderia ter, pois vejam só: quando a jornalista revela que não quer ficar com ele e vai viajar com outra pessoa, o que ele faz? Resolve achar algum jeito de fazer chover. Claro, a chuva não é nociva, mas substitua isso por outra coisa, tipo prender ou maltratar. A intenção de Ted é acabar com os planos de Robin, para que este, claro, o sujeito "perfeito", possa ter outra chance. Quando você gosta de uma pessoa, o ideal seria que você queira o melhor para ela, prezando por sua liberdade - e isso inclui se afastar dela, mesmo que haja todos os argumentos possíveis para "conquistá-la".


Até aí tudo bem, essas coisas acontecem em uma história; o personagem principal pode ser cinza. Porém, Ted não é representado como cinza. Robin, ao invés de ficar horrorizada ou simplesmente estranhar, de repente resolve aceitá-lo. É como se ela dissesse: "olha como você é louco, me perseguiu, teve como intenção acabar com meu final de semana, talvez com a minha carreira, mas é tudo zoeira. Venha cá e vamos iniciar um relacionamento a qual eu fui contra desde o começo".
Existem mulheres assim? Existem. Todavia, a proposta é inverossímil, visto que Robin é uma jornalista com personalidade forte, segura de si.
Sobre o discurso

De acordo com Paulo Freire, conceituado pedagogo e filósofo, não existe imparcialidade em qualquer mensagem e temos dois tipos de discurso: inclusivo e excludente. O discurso inclusivo, como diz o nome, busca propor uma reflexão e incluir. O excludente é fechado em si e não leva nenhuma reflexão ao receptor. Sendo assim, não importa o que está sendo dito, mas o "como" e o "por quê". Para mim,  a piada parte do mesmo princípio: com que intenção aquilo foi criado? E quais os efeitos?

“Não existe imparcialidade. Todos são orientados por uma base ideológica. A questão é: sua base ideológica é inclusiva ou excludente?” - Paulo Freire

Por isso estou de acordo com o fato do Barney existir e ter tanto destaque, pois o seu tipo de discurso é aberto. A piada acontece tanto com as outras pessoas (ele falando sobre mulheres), quanto com ele (as mulheres falando sobre ele). Os dois lados estão em pauta. Você não precisa concordar com suas convicções, apenas dar risada ou fazer cara feia (como eu fiz algumas vezes). Nessa primeira temporada, há piadas sujas e forçadas, que não levem a lugar nenhum - mesmo assim, elas são "válidas" (como definir o que é válido?) por ter esse caráter interpretativo e autoconsciente. Em nenhum momento estão dizendo que o lado de Barney é o melhor, apenas ele quem diz isso - e a todo momento é refutado de algum jeito.


Agora, as atitudes de Ted se quer são piadas, são momentos de romance, e não ficam presas ao personagem, pois têm uma "forcinha" do roteiro para acontecerem. Já li alguns textos que buscam comparar Ted a Ross, de Friends. Discordo totalmente. A única semelhança talvez seja a postura "nice guy", mas Ross nunca foi colocado como um cara "romântico". Sua caracterização era exagerada e ridiculamente brega, mostrando claramente que as coisas que lhe aconteciam eram fruto de suas atitudes. Já Ted, age de forma machista e cínica, encobertado pelos amigos e pelo roteiro, que não mede esforços em mostrá-lo como 'coitado'. Tática para causar identificação? Talvez, mas não deixa de ser ridículo quando a trama se subverte para criar uma imagem falsa. É uma comédia? Sim, mas essas partes estão contidas (na maioria das vezes) no romance.


Essa primeira temporada é cheia de clichês e descompassada. Ironicamente, Barney é o meio termo, mas a maior parte das coisas estão inseridas em juízo de valor. É uma crônica machista sobre as desventuras de um grupo de amigos; seria como se não houvesse uma diferença clara entre as piadas internas e externas. Não estou dizendo isso sob a perspectiva de haver coisas que somente um tipo de pessoa vai entender, mas sob a ideia de que certas coisas não devem ser ditas na TV. "Como assim? Você está falando de censura?"
Não, muito pelo contrário. Estou falando de bom senso. É diferente quando estou falando com meus amigos no bar, de quando estou fazendo um discurso. Eu entendo a confusão de How I Met, pois é fácil distinguir as coisas quando, por exemplo, um dos discursos é informal e o outro formal. Mas e quando o que está sendo veiculado é a representação fiel de um momento coloquial? No mundo real existem diversas pessoas machistas, bebendo e falando de mulheres (nem digo que são somente homens) - mas na TV (pelo menos no século 21), você não está somente falando com esse grupo. E aí, o que fazer?
Por ser uma comédia, a melhor tática é a autodepreciação, pois assim todos dão risadas e o discurso não se torna alienante. Infelizmente, não é isso o que acontece nessa temporada, havendo uma visão de mundo retrógrada contida subliminarmente. Para muitos (eu), terminá-la foi uma sofrência.
Entretanto, por sorte (na verdade, habilidade mesmo), os criadores mostraram quem tem consciência de seus erros e todas essas minhas criticas se tornaram inválidas nas temporadas seguintes (ou a maioria delas). É quando surge a época "áurea" da série, com episódios bem construídos que subvertem a nossa noção do comum. Mas isso, já é tema para outro post.

El Psy Congroo.

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