terça-feira, 18 de outubro de 2016

Analisando Argumentos #6: Precisamos falar sobre o estupro da Caska


Esta postagem é um texto resposta ao post do blog Leitor Cabuloso. Antes de tudo, quero deixar claro que o meu objetivo não é impulsionar tretas, mas apenas o livre debate. Claro que um certo atrito é inevitável, entretanto, a função de colocar esse tema em pauta não é para causar balbúrdia - em um assunto tão extenso e complexo, é preciso diferentes visões sobre a mesma coisa para chegarmos em uma conclusão satisfatória (ou algo perto disso).

Atenção: este post tem spoilers.

Berserk é uma obra cruel e deveras realista sobre a história de Guts, um espadachim que busca vingança. Em síntese, a primeira parte do mangá, a chamada Era de Ouro, desenvolve-se na base dessa vingança, para depois explodi-la em puro ódio - sendo assim, desde o começo, desde o primeiro momento em que o protagonista aparece trucidando pessoas e consequentemente salvando o elfo Puck,  o clima sombrio se faz presente. Nada faz sentido; é tudo surreal. Você apenas sabe que algo deu errado e logo somos imersos em um extenso flashback.

Leia também: Vamos falar sobre estupro? (Game of Thrones)

Achar que algo poderia dar certo é uma esperança vã, já que no inicio o pessimismo denota o tom da obra: um épico sobre vingança ao melhor estilo O Conde de Monte Cristo. Assim como Game of Thrones, Berserk é uma fantasia inspirada na nossa época medieval; muitas vezes duramente realista. Apesar de ter uma inclinação ao surreal, é necessário que o real exista para tudo isso ter coerência - portanto, o autor não pode bagunçar a própria estrutura para parecer mais "legal" ou "bonito".
Berserk tem sim traços machistas, mas muito mais pelo fato de focar mais no desenvolvimento masculino do que no feminino, porém, até nisso a obra se retifica. Temos que atentar para duas coisas: a sociedade japonesa, analisando o todo, é bem conservadora, e o gênero do mangá é seinen. O seinen não tem a intenção de agradar o público feminino, já que é um gênero adulto voltado para homens.

"Então Maeister, seu bobão, isso dá carta branca para a obra mostrar mulheres sendo estupradas?"

Claro que não. Entretanto, não podemos desvencilhar a análise do contexto - e mais uma vez, qual o contexto de Berserk? Um mundo medieval patriarcal e sujo, onde a moral e a ética são totalmente relativas. Mesmo assim, um enredo do tipo poderia se tornar defeituoso se pretendesse retratar o estupro de forma fantasiosa e focado apenas nas mulheres (em suma, misógino). Mas Berserk é justamente o contrário: ele é democrático ao distribuir toda a sua crueldade. Ninguém está a salvo, principalmente o protagonista. Guts, durante a infância, foi vendido e estuprado, Griffith oferece o próprio corpo em troca de favores para um sujeito claramente pedófilo e assim por diante. Por fim temos Caska, uma mulher forte que durante a infância quase foi estuprada, sendo salva por Griffith, o seu cavaleiro branco. 

Glamourização do estupro?


Como bem sabemos, durante o eclipse Griffith se torna um demônio; o quinto membro da Mão de Deus (God Hand) e realiza um ato horrendo: estupra Caska. O acontecimento em si ganha diversas páginas, com o clímax sendo Guts assistindo a tudo isso, totalmente enfurecido, ao ponto de arrancar o próprio braço. Nisso, surgem algumas onomatopeias que supostamente indicariam que Caska estava tendo prazer e que toda aquela "demonstração" seria uma sexualização machista do autor, fazendo parte da chamada Cultura do Estupro.

"Você só precisa entender que foi uma cena desnecessária e muito, muito errada! Precisa aceitar que Miura errou feio, errou rude"

Vamos com calma destrinchar toda essa ideologia. 
Primeiro: ninguém PRECISA entender que foi uma cena desnecessária. Não sei se essa foi a intenção da autora do texto, mas partindo dessa ideia, o leitor simplesmente deveria aceitar que a cena não foi "certa" e pronto. Sendo que não é bem assim, as coisas não são tão preto no branco e precisam ser debatidas. O machismo, principalmente nas obras orientais, se faz presente e precisa ser colocado em pauta. Mas discordo da abordagem; achei um tanto quanto extremista dizer que Berserk incentiva a cultura do estupro. É como se eu dissesse: "olhem aquele corpo! A arma está na mão direita do sujeito, então claramente ele si matou". É necessário, antes de tudo, uma perícia detalhada, que envolve mil situações para entender o que realmente aconteceu. Aqui não é diferente.

Vamos enumerar os argumentos que corroboram (de acordo com o texto) que Berserk incentiva a Cultura do Estupro?

1- Caska parece gostar do que está acontecendo e geme quando Griffith a penetra. 
2- Ela é uma personagem feminina forte criada para ocasionar uma reviravolta

Para por aqui. Sim, os argumentos são apenas esses dois. De acordo com as palavras da própria autora: "Não há necessidade alguma dessa cena de estupro"e "A única mulher da obra com um papel importante, precisava ser estuprada para acontecer a grande virada do mangá!".
Sobre essa última parte, eu concordo. A única mulher importante foi estuprada para acontecer a virada do mangá e isso é um fato, não há como negar. Entretanto, dar destaque a isso sem explicar o contexto, é uma desonestidade intelectual; pois se houver uma contextualização, o segundo argumento rapidamente se transforma.


Caska, Guts e Griffith vivem um triângulo amoroso. Caska ama Griffith, o seu salvador, e Guts se apaixona por Caska. Griffith, por sua vez, ama apenas a si mesmo, mas nutre uma paixão, muito mais parecida com o sentimento de posse, por Guts. Essa confusa relação vai sendo desconstruída aos poucos, com Guts, traumatizado por sua infância, se entregando de corpo e alma para uma mulher e Caska, também com seus traumas, vendo uma nova face do futuro espadachim negro. A garota, depois de todas as burradas de Griffith, começa a desiludir-se - e tudo isso começa antes mesmo deste ser preso e torturado. Começa quando ela e Guts ouvem a conversa entre Griffith e a princesa, durante a festa no castelo. A mudança se dá para todos.

No campo de batalha, Caska era vista por seus colegas como uma exímia guerreira, mas era uma exceção. Pelos outros, principalmente o inimigo, era apenas uma mulher que deveria ser estuprada. Mesmo assim, temos toda uma construção da sua personalidade e história. Quando Griffith a estupra, ele não só está cometendo um ato horroroso, como está deturpando a própria imagem. Primeiro, se coloca a nível de igualdade com os outros demônios - ou seja, agora é um ser das trevas. Segundo, age de forma irônica, já que foi ele quem justamente salvou Caska de um estupro. É o abandono de tudo aquilo que ele foi, sacrificando os seus amigos e violentando a sua melhor amiga. Existe ali um vínculo; uma história sendo destrinchada para nos causar horror. 
E por fim, terceiro: se vinga. 
O objetivo dele era matar a todos, incluindo Guts, e estuprar Caska, aquela, que teoricamente, se aliou ao seu ex-amigo (que o abandonou). Quando foi salvo, depois de ficar um ano sendo torturado, Griffith queria primeiramente se matar, sendo o que causou esse complexo de inferioridade foi a impotência. Temos até uma cena em que ele tenta estuprar a Caska. Em sua cabeça, ele não estava realizando um ato hediondo, mas provando quem é para os outros. Ao ser facilmente rejeitado e ver aquela que o idolatrava nos braços de outro, ele perde a cabeça; sente que é um inútil. Sendo assim, quando vira um demônio todas as suas concepções morais vão embora; resta apenas seus desejos, mesmo aqueles irracionais. Sua primeira atitude como ser superior é provar; mostrar-se para aquele que o subjulgou e aquela que também o abandonou. Acabar com o único sonho de Guts, assim como ele "acabou" com o seu.
Temos assim uma exímia relação do trio construída, que vai sendo destrinchada para causar impacto e se mistura de forma incrível. Portanto, com toda essa bagagem emocional em plano, como é possível afirmar que a cena foi criada para sexualizar Caska? Não faz sentido dizer que a cena não tem necessidade, afirmando logo em seguida que ela serve para ocasionar uma reviravolta. Ora, então ela tem uma necessidade!


Sobre os gemidos, existem mil alternativas, mas não vou justificar nada, apenas coloco que fica a cargo da interpretação. Em nenhum momento fica explícito que ela está sentindo prazer; na verdade ela chega a chorar (na maior parte dos quadros ela está chorando) e fica pedindo para Griffith parar. Sem contar que a mesma fica extremamente traumatizada após o ocorrido, ao ponto de não conseguir falar e aparentemente volta a um estado de infância. Miga, desculpa, mas existem mais argumentos para dizer que a cena claramente foi criada para ser desconfortável e repulsiva e não bonita e excitante. Os gemidos são estranhos sim, mas dentro de todo esse contexto, para mim representam apenas uma reação ao ocorrido. Gemer não significa sentir prazer, assim como você mesma afirmou que o simples fato de penetrar não significa que a mulher está gostando. Sem contar que Caska não está sendo estuprada por um "homem" qualquer, mas por um membro da Mão de Deus e só o simples contato de um ser deste tipo com um marcado, já ocasiona diversas reações, imagina um estupro?

"Ah, mas Maeister seu boboca, ter o estupro no mangá como ferramenta de roteiro é um reflexo social"  

Partindo desse pressuposto, tudo o que é colocado em ficções seriam um reflexo social. Claro que não! Eu entenderia críticas ao modo como Miura retratou o acontecimento, dependendo do ângulo pode parecer estranho, mas ele trabalha dentro do limite, não chegando a ser um incentivo. Sendo redundante, a cena não é bonita; nem sexualizada - é triste, impactante e repulsiva. Se você viu algo excitante, desculpe lhe informar, mas o problema é com você, pois diante de todo esse contexto e momento em si, com a garota chorando, Guts tentando arrancar o braço e Griffith se transformado em um demônio, não tem como achar que foi "bonito". A ideia de cultura do estupro é usada em obras que não se importam com personagens femininas, usando-as apenas como objetos, principalmente sexuais. Caska não é um objeto, pois do contrário, seria muito mais fácil apenas matá-la para Guts seguir com sua vingança. Ela serve para causar reviravolta no roteiro? Sim! Assim como os outros personagens mortos. Não vejo ninguém problematizando o fato do Guts ter sido estuprado para isso ser a base de seus traumas.


É um mundo medieval, agora adicione a isso demônios - a coisa fica muito pior. Sem contar que essa é a única cena de estupro detalhada em todo o mangá; precisaria de um pouco mais para ser considerado incentivo. Rebaixa a personagem de Caska a um nível inferior? Concordo, mas isso não torna a obra misógina. Diria que é até mesmo duramente realista.
Existem obras orientais com problemas de retratação da mulher, mas decidiram problematizar justamente o mangá que é coerente em toda essa representação. Repito mais uma vez: Berserk é democrático em toda sua crueldade, não tente ser seletivo com ele, pois ele não é seletivo com você.

El Psy Congroo.

E o Prêmio de Comentário Sensato vai para: daniel ott

"Pelo que eu vi Miura tava querendo arrumar motivos mais obscuros para o ódio de Gutts, e usando o estupro ele meio que conseguiu deixar esse ódio como uma chama que nunca apaga e sempre que o protagonista lembra se seu ódio aumentaria. Só a morte da Caska não iria causar tanto efeito ao meu ponto de vista.Vi que o Miura quis empaquetar de um jeito forte e foi esse o jeito que ele achou.Não podemos que foi uma forma de dar status a tal prática pois com essa cena Miura deixou explicito qual o objetivo que ele queria, que era que todos tivessem ódio pela personagem de Griffith.
Como podemos dizer que estupro é cultura se é um dos crimes mais odiados por todos? Quando a casos, as pessoas na maioria se revoltam, muitas atacam o estuprador e todas querem ver a justiça e repugnam esse crime com todas as forças, é um crime nojento e horrivel e a maioria das pessoas pensam do msm jeito. Então não podemos chamar de cultura de um lugar algo que é rejeitado e odiado pela maioria das pessoas daquele lugar.
Miura só quis dar um impacto na obra e que o ódio do Gutts pelo Griffith tivesse algo a mais.
E é só um mangá, temos várias obras com o mesmo tema, antes de falar precisamos ver se isso realmente foi usado com o fim de banalizar a obra ou como contexto para a história."

Este artigo faz parte da coluna Analisando Argumentos - leia os outros posts

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