quinta-feira, 1 de setembro de 2016

The Witch and the Hundred Knight: uma visão mais sombria da Nippon Ichi

Pra quem não conhece, a Nippon Ichi é uma empresa focada em um nicho hardcore de jogadores. Faz 20 anos que ela vem desenvolvendo jogos de estratégia e é conhecida principalmente pela franquia Disgaea e seu multiverso de jogos relacionados. Witch é um jogo um tanto peculiar da parte deles, provavelmente fruto da sua política de inovação - falando que eles não estão só satisfeitos lançando continuações para franquias já estabelecidas, criar novas patentes e desenvolver novas ideias é algo que eles querem oferecer ao seu seleto grupo de consumidores.


Witch faz parte do multiverso de Disgaea, onde vários mundos diferentes são interligados, porém não é preciso ter conhecimento prévio do multiverso para aproveitar os jogos. A característica mais conhecida da empresa é provavelmente seu humor escrachado e a sua constante subversão de valores. Por exemplo, Disgaea geralmente é uma história sobre demônios e anjos, o jogo diz várias vezes que demônios tem que ser maus e os anjos bons, jogando vários clichês do tipo na sua cara, sendo que diversas vezes ele se contradiz de propósito mostrando que demônios, anjos e até humanos, não são tão diferentes assim, e sem esquecer do humor aleatório característico deles.

Vindo dessa empresa, se esperava que Witch fosse um jogo na mesma pegada, mas não é. Ele ainda mantém parte do tom cômico e o estilo artístico de Disgaea, porém, o enredo em si é muito mais sombrio e violento, tanto que gerou até uma controvérsia acerca de como o jogo tratou estupro em algumas situações - vamos dar uma olhada nesse caso.

 

O jogo é sobre a Bruxa do Pântano Metallia. Desde o começo, uma coisa fica clara: a Metallia não é nenhum tipo de herói, ela é claramente meio doida e pouco se importa com qualquer tipo de moral. Os protagonistas de Disgaea tendem a ser anti-heróis na maioria das vezes, mas a Metallia é nos apresentado como vilã mesmo. A escrita é bastante detalhista, logo no começo já percebi muitas coisas sobre esse jogo - a Metallia não é uma pessoa muito feliz e ela vive há muito tempo em isolamento, pois algum tipo de circunstância não a deixa sair do seu pântano. Ela tem um ódio profundo por uma pessoa que parece se importar com ela, provavelmente pensa que foi traída, e por último, admira muito o estilo de vida das bruxas. No jogo você é o Hundred Knight, um ser que a bruxa invocou enquanto tentava chamar uma criatura lendária capaz de realizar o desejo de espalhar o pântano pra que assim ela consiga deixar sua "prisão". Nada disso é explicito, tudo que falei agora foram coisas que percebi através de detalhes, e no final das contas todas elas estavam certas, a escrita desse jogo com certeza está acima da média e a proposta incomum consegue agradar mais ainda quem é fã de histórias mais sombrias.


Tendo isso em vista, quase dei uma gargalhada quando li análises falando que o jogo "incentivou o estupro" e que por isso não deveria ser jogado; que o enredo é ruim e a Metallia é uma personagem horrível. Depois li outras pessoas dizendo que a maioria desse povo nem zerou o jogo antes de tentar fazer uma review, e sou obrigado a concordar. O negócio do estupro foi o seguinte: a Metallia com toda a sua vilania, derrota a pessoa que eu mencionei antes, a que ela odeia e que supostamente é sua mãe, transformando-a num rato e depois invocando ratos do sexo oposto, fazem eles a perseguirem, enquanto diz, "se você é a minha mãe então me faça diversos irmãs e irmãos" e começa a dar risada. Vale lembrar que ela tava descendo o cacete na sua "mãe" antes disso, ao ponto dela estar cuspindo sangue. Claramente a Metallia estava fazendo algo horrível mas, onde diabos isso é incentivo ao estupro? Um vilão fazendo vilania é incentivo pra que as pessoas cometam atos deploráveis? Tudo bem as pessoas se sentirem sensíveis à forma como certos assuntos são tratados, mas pelo amor, quando vejo uma coisa dessa lembro porque falam que vivemos na geração do mimimi.

Talvez o que mais ofendeu estas pessoas foi o fato do tom cômico do enredo não se fazer totalmente ausente nessa situação, aliás o jogo inteiro é sarcástico e muito ácido; existem inúmeras troladas feitas pra você ficar chocado mesmo. Mas qual é o problema disso exatamente? A proposta do jogo não é ser engraçado, aliás a junção de tamanha violência com personagens que parecem sair do pastelão, que é Disgaea, acaba deixando certas situações mais perturbadoras do que já são, o que não é ruim, afinal, o objetivo aqui é ser uma história pesada mesmo.



Agora ficou claro que o aspecto mais impressionante do jogo é o enredo. A Metallia é uma espécie de anti-vilã que sem querer embarca numa jornada para se reconciliar com seus sentimentos conflitantes e seus traumas do passado, crescendo como pessoa e formando laços. Mas o legal disso é que ela não vira nenhum herói clichê no caminho, na maioria das vezes ela toma ações por motivos egoístas, pouco se importa com o bem comum e o estado do mundo. A "mãe" dela claramente se sente responsável pela personalidade ruim que ela acabou desenvolvendo, logo ela não a culpa pelas suas ações irresponsáveis.


O enredo vive alternando entre situações bobas em que a Metallia está fazendo algo idiota, até cenas de brutalidade, traição, tristeza e solidão. Mas apesar de tudo, ela acaba no final mudando um pouco por causa do clichê da amizade, e vale ressaltar que esse jogo possui uma galeria de personagens secundários muito interessantes, porém é justamente neles que o roteiro dá algumas pequenas deslizadas - nunca fica claro o suficiente porque Heintz, o princípe hipócrita, fez o que ele fez, e faltou algum tempo na tela para explorar todas as bruxas. Entretanto, ainda diria que o resultado foi satisfatório.


Por mais que eu tenha gostado do jogo, não da pra fazer vista grossa com o gameplay. A nippon ichi é expert em jogos táticos, ela até entrou no guiness como a empresa que mais lançou jogos de rpg estratégico, porém Witch é um action rpg com elementos de Diablo. Ao entrar num gênero pela primeira vez, erros são esperados.

O Hundred Knight tem cinco ataques customizáveis com diferentes armas: espada, lança, martelo, uma espécie de lança feita para ataques giratórios e cajados. Os inimigos possuem resistências e as suas propriedades das armas, que são: slash, blunt e magic. Diversas vezes você precisa trocar a arma pois o inimigo só toma dano de algo especifico. As armas possuem níveis de qualidade do comum até o lendário. Assim como Diablo, a visão do jogo é isométrica e geralmente você sai por aí esmagando o quadrado até matar todo mundo. Existe também um esquiva especial, que se feita no tempo certo, deixa todo o jogo em slow motion por alguns segundos, semelhante ao Witch Time do Bayonetta. Você tem que ficar customizando as combinações de armas pra ver o que funciona melhor.
Existe uma energia, que vai sendo consumida aos explorar as fases, chamada de Giga Cal, que é uma espécie de timer que você pode consumir mais rápido para ativar um estado em que o Hundre Knight fica mais forte, como o Devil Trigger de Devil May Cry. Você pode comer os inimigos com pouca vida para recupar GCals, além de possuir poderes chamados tochkas, com vários usos variados, geralmente como uma espécie de suporte.



Os conceitos em si são muito bons, o problema é a aplicação deles, por mais que o jogo tenha um combate complexo, ele fica manjado muito rápido - o que acaba gerando tédio num gameplay repetitivo. Acredito que a principal razão para isso seja a forma como os inimigos são padronizados, muito difícil eles terem comportamentos diferentes e te surpreenderem; parece que a única coisa que muda é a skin deles, de resto você sempre está fazendo a mesma coisa. Eles são criaturas tediosas ligadas sempre no modo kill, o aspecto Diablo é suprimido porque Witch é jogado muito mais como um hack'n slash, com combos muito limitados, do que um jogo de grinding e builds complexas. Outro grande problema, é que você pode fazer diversas combinações de armas, mas elas não passam a sensação de serem realmente únicas, o jogo te diz que você pode jogá-lo de várias formas, mas você acaba descobrindo o que melhor se adequa ao seu estilo de jogo e depois praticamente nunca precisa trocar a sua formação de armas.


O que eu quero dizer com um gameplay mais único? Já que o jogo pega tanta coisa de Diablo, ele poderia pegar builds também. Diferente de Disgaea, que você gerencia mais de 10 personagens, aqui você só tem o Hundred Knight - uma boa adição seriam itens com efeitos mais surpreendentes que afetassem de formas extremamente significativas o seu jogo, dando a impressão que as suas escolhas como jogador estão moldando o Hundred Knight para ser o SEU Hundred Knight, algo parecido com o que Dark Souls faz. Na questão dos efeitos eu olho mais pra Diablo 3 mesmo, pois você tem equipamentos que afetam as suas skills - por exemplo: o sorcerer consegue, com um anel especial, invocar uma hidra gigante, o witch doctor tem itens que fazem suas invocações serem mais numerosas e não desaparecerem e o Cruzado possui um set que aumenta muito a eficácia de suas skills, permitindo que você inunde a tela com hordas espectrais. Essa é uma das builds possíveis para cada um desses personagens, e acredito que um pouco disso teria feito maravilhas a esse jogo, por mais que ele seja complexo, não chega perto da proeza de customização que a Nippon Ichi conseguiu em seus jogos de estratégia.


Outra coisa irritante é a forma como os cenários são construídos e os inimigos são espalhados. Logo no capítulo 3, tem um castelo tão irritante que eu passei correndo por ele tranquilamente só indo nos objetivos e ignorando todos os inimigos, aliás, eu fiz isso durante a maioria dos cenários do jogo praticamente. Por mais que os mapas sejam grandes e seja recomendado explorá-los para pegar itens e leveis, eles ainda são muito pouco variados e o sistema de Giga Cal acaba sendo um incomodo se você decidir explorar. Esse sistema poderia ser totalmente retirado do jogo que não ia fazer falta nenhuma.
Assim como o combate, você não tem uma sensação de verdadeira mudança de um cenário pra outro, com exceção de alguns mapas interessantes, como a torre das bruxas. Pra resolver esse problema, acredito que deveriam ter caprichado mais na parte artística dos cenários - porque eu iria me importar ao explorar cenário genérico após cenário genérico?. O gráfico já é bem abaixo da média em potência, mas ele não consegue ser bom nem em design pois os modelos 3D possuem poucos detalhes e não impressionam nem um pouco. Um uso melhor de mecânicas de plataforma, NPCs mais interessantes, construções mais genuínas e uma criação melhor de mapas, poderiam melhorar bastante a exploração. Tem alguns mapas enormes que não possuem nada de interessante, além de mais inimigos chatos para você matar e vilarejos genéricos.


E o último problema com o gameplay é a curva de dificuldade, esse jogo não é balanceado, para os dois lados, ou seja, tem horas que se você entende bem o sistema e o jogo fica muito fácil, e horas que mesmo entendendo bem o sistema, você vai ficar tomando hitkill de inimigos comuns. Do capítulo 11 pro 12, tem um aumento absurdo na dificuldade, que praticamente todos os inimigos comuns te matam com dois hits na dificuldade normal. Além de alguns inimigos colocarem tanta poluição visual na tela, que você não entende o que está acontecendo ou como diabos deveria ser capaz de ter visto aqueles ataques; certos bosses e até inimigos comuns possuem combos bizarros que você perde toda a sua vida sem poder reagir. Pense num hack'n slash comum, por exemplo, quando você é derrubado e está se levantando, quase sempre da pra dar uma esquiva pra não levantar e cair de novo. Nesse jogo existem ataques que fazem exatamente o contrário, você levanta e cai diversas vezes em um laser do inimigo e fica se perguntando o que você poderia fazer para sair dessa situação, o problema é que a resposta é nada, situações frustrantes vão acontecer em que você vai morrer por conta disso, provavelmente em alguns bosses específicos.


Ainda tem uma porra de um bug maldito que faz o jogo crashar na versão do PS3, dois anos depois e a Nippon Ichi não lançou um patch consertando isso. Pelo menos a versão de PS4 veio sem bugs.
Esse não é o único caso de bug em um jogo do estúdio: Disgaea D2 sofria do mesmo crash, porém, felizmente tiveram a decência de lançar um patch. É um bug muito irritante e aconteceu duas vezes enquanto eu lutava contra um boss, no total rolou umas quatro vezes comigo, o que me fez ficar paranóico com saves, afinal, o jogo não tem save automático. Talvez não tenha tempo para que você possa dar load e fazer diferentes finais, mas não seria mais fácil te dar uma opção depois de fazer um final, algo como:

"Você completou um dos três finais, gostaria de voltar ao momento de escolha para decidir outro destino para a história?"

Simples. Fazendo isso da pra ter save automático, algo que pouparia muita dor da cabeça com aquele crash.


O gameplay tem muito potencial, uma das lutas conceitualmente mais interessantes do jogo é em que você luta junto da Metallia contra outras bruxas. Em questão de enredo é um bagulho épico, a Metallia liga o poder do foda-se e começa a tacar o terror, e é uma das partes mais interessantes da história, mas em gameplay não vingou. Eu não sentia que era uma luta em conjunto, tudo que a Metallia fazia era jogar meteoros que pareciam acertar lugares aleatórios, aliás, esse meteoros dão dano no Hundred Knight, o que pode acabar te atrapalhando mais do que ajudando. Uma chance tão boa de fazer a melhor boss fight do jogo foi desperdiçada.

No final das contas, The Wicht and the Hundred Knight possui vários prós e contras bastante variáveis, porque se você é um fã de jogos japoneses, jogos de nicho, histórias sombrias e da Nippon Ichi, esse jogo vale a pena, apesar de todos os problemas. Agora, se você é muito sensível a certos tópicos polêmicos e não tem apreciação pelas coisas que mencionei, passe longe desse jogo.

Only darkness will remain.

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