domingo, 25 de setembro de 2016

One Punch Man e a desconstrução do shounen

Entenda por que One Punch Man não é um shounen qualquer
Análise dos três volumes de One Punch Man lançados no Brasil

Quando decidi comprar o mangá de One Punch Man, a expectativa já estava lá em cima. Depois de conferir a magnífica produção da Madhouse, eu não esperava outra coisa se não dar boas risadas. A minha grande dúvida era: será que ele se sairia tão bem como quadrinho? Ou será que é uma daquelas obras que funciona melhor como animação?
Para a minha sorte, não só dei risada, como gargalhei.


Sendo uma adaptação, One Punch Man reúne o melhor de dois mundos. Criado em 2009 por ONE (pseudônimo do autor original) e lançada como webcomic, a obra destoava por seu tom humorístico e, sendo assim, mesmo os desenhos feios, quase rabiscos infantis, conquistaram diversos fãs. Tudo isso então foi maestralmente ampliado pela arte detalhista de Yusuke Murata. Se antes havia uma obra escrachada, por meio dos novos desenhos ela ganhou novos contornos e ironias. Realmente é um shounen, com suas batalhas e explosões surreais, mas também é uma comédia, que não mede esforços para tirar sarro de si mesma.
Na trama, conhecemos Saitama, um sujeito que se diz ser "um herói por hobby". De rosto redondo, careca e magrelo, ninguém imagina a força que ele guarda dentro de si - basta um soco para derrotar qualquer oponente. Porém, ao invés de satisfação, isso acaba gerando tédio. Saitama está cansado de não ter alguém a sua altura, e por isso, a todo momento busca um novo desafio - é a partir daqui que a história se inicia, já propondo uma inversão de gênero. Enquanto o shounen tradicional se trata da jornada do ser comum em busca de um objetivo, se fortalecendo ao longo do tempo conforme se depara com novos desafios, One Punch Man já inicia com o protagonista totalmente poderoso, enquanto continua sendo uma pessoa comum. Nisso pressupõe-se que será uma história de flashbacks, mostrando como ele chegou até ali, mas esses flashbacks ao invés de seguirem finalmente a jornada do herói, subvertem-a mais ainda. Ora, quando descobrimos a origem da determinação de Saitama, não há nenhuma comoção dramática: ele era um simples assalariado que se revoltou contra um monstro lagosta que decidiu matar um garoto por desenhar mamilos em sua carcaça. 
Tudo bem, a história de como ele chegou até esse poder vai começar agora. E começa... Quando percebemos, acabou. Usando as palavras de Genos, o rapaz se tornou poderoso simplesmente fazendo um treinamento comum (que nem é tão árduo assim).
Portanto, desde o começo já fica perceptível que estamos diante de algo diferente. É uma sátira enquanto realmente tem uma história importante por trás, cheia de complexidade, mas... Continua sendo uma sátira! Arrisco a dizer que One Punch desconstrói até mesmo o gênero da comédia, pois geralmente o estranho é quem envolve o protagonista, que sendo normal, se vê em diversas situações cômicas. Aqui o estranho é Saitama - mas ao mesmo tempo ele é extremamente normal. Complicado dizer isso, mas ele é anormal justamente por sua extrema normalidade. É o rosto sem expressão, o traço mais simples frente aos complexos monstros e as frases sem sentido, fruto da preocupação cotidiana da vida adulta, que denotam a ironia, pois tudo isso está inserido em um universo caótico, onde o conceito de herói e até de vilão, atinge outro nível.



Nos três primeiros volumes não temos uma história fixa. É uma sucessão de acontecimentos perigosos, enquanto há outras preocupações em segundo plano. Por exemplo, surge uma organização do mal, chamada A Casa da Evolução, que quer sequestrar Saitama para fazer experiências. Essa organização tem décadas de existência, e se adquirir poder, pode acabar com o mundo. Em paralelo, Saitama conhece Genos, que está preocupado em se tornar um herói. Genos seria o cérebro e Saitama os músculos, já que sua ingenuidade o impede de ser um herói melhor; porém, as preocupações dos dois são extremamente comuns. Aí está a piada: o ser mais poderoso do planeta é extremamente vulnerável.
Assim, presenciamos o punch line de diversas formas. Para quem não sabe, punch line é um conceito da comédia que se refere ao momento da surpresa, no caso, o "soco" dado que ocasiona a risada. A piada se constrói pela normalidade, até que o comediante subverte isso com uma observação surreal. Ou seja, se for para definir uma estrutura para One Punch, essa estrutura seria a da piada - puramente assim; não a da jornada do herói, a do romance e etc (apesar de estas estarem contidas nas subtramas), apenas da piada.
Ficamos entretidos por páginas e mais páginas acompanhando os planos maléficos da Casa da Evolução, para tudo ser resolvido sem nenhum ritmo. O momento que seria o ápice do combate em um shounen qualquer, quando os dramas começam a ser desenvolvidos, Saitama percebe que confundiu os dias e aquele seria o dia certo da promoção no mercado. "Como assim promoção?", isso mesmo, promoção. Ele está preocupado em comprar comida barata e deste modo, encerra a luta com um soco e vai embora. Todas aquelas ideias anteriores se tornam ridículas. Aí vem a risada.


Tendo consciência disso, o autor sabe que facilmente a estrutura se repetiria - o problema da piada é que dificilmente você vai rir do mesmo jeito ao escutá-la uma segunda vez. O que acontece então é uma aposta nas subtramas, que aliás, quase chegam a serem tramas mesmo. Se você excluir Saitama, você tem um mangá shounen muito bom, que já é diferente do próprio jeito. 
Então a "piada do soco" se desmembra, criando mil alternativas. Até chegar no derradeiro final do arco, acompanhamos diversos enredos, damos muita risada com outras coisas e consequentemente esquecemos do "objetivo principal". Até que de repente, Saitama surge de novo com seu glorioso soco - nunca sabemos quando será, nem como, mas ele surge e assim damos mais gargalhadas. 

One Punch é bem sucedido por oferecer uma proposta aberta, que nos instiga a imaginar diversas possibilidades, enquanto realiza essa proposta. Podemos acompanhar uma emocionante aventura, um slice of life ou, claro, uma sátira - que não deixa de acrescentar nos dois gêneros anteriores. O maior exemplo disso é no segundo volume, quando o foco se dá em Speed-o'-Sound Sonic, um ninja mercenário que acaba tendo como maior objetivo destruir o protagonisra. Sua história toda é uma alusão à, obviamente, Naruto e consequentemente todos os outros shounens. Entretanto, ele está ligado ao enredo que envolve um grupo terrorista, que por sua vez roubou tecnologia de um laboratório secreto. Fica claro que tudo está interligado e assim, não há como saber o que esperar. O ápice desse momento é quando, prestes a iniciar a luta, Sonic começa a contar sua triste história. Saitama logo rebate: "você só quer testar suas habilidades. Consigo ver esse seu sorriso". Em suma, a excentricidade de Sonic é não controlar o sorriso maléfico. 
Nonsense, mas profundo: temos aqui uma caracterização surreal e sem sentido, mas que visto dentro do gênero, é uma "critica" aos mangás que passam horas e horas enrolando, quando na verdade o objetivo daquela ladainha toda é a luta. 

Complexidade

One Punch Man é complexo, até mais do que deveria ser. Seu gênero principal é a comédia, mas nela são inseridos conceitos importantes que estruturam o próprio mundo. Não basta a "piada do soco", para esse soco ter poder, você precisa entender o quão forte ele é. Sendo assim, temos uma escala detalhada de poderes, começando pela organização dos heróis. Esse detalhamento é interessante por si só, resultando em uma coesão absurda. Mais uma vez, é como se a todo momento o terreno fosse preparado para o surreal e o melhor jeito de externar isso é sendo crível. Antes do punch, temos uma base extremamente sólida e mesmo no derradeiro momento, somos surpreendidos com novos conceitos. No meio de tudo pode surgir um drama, sem mais nem menos. É o caso interessante, por exemplo, das side-stories - aqueles extras que teoricamente não acrescentariam em nada, mas dão uma nova dimensão para acontecimentos superficiais do anime. Ou seja, o mangá acrescenta uma vibe diferente, até mesmo mais escrachada, com alguns novos enredos.
(ps: não assisti os OVAS, então não sei se adaptaram esses "extras")

Sobre a edição da Panini

Sinceramente, é a melhor edição de mangá que eu já tive em mãos. Claro, estou excluindo "edições de luxo", que com certeza têm todo um cuidado especial. Mas se analisarmos o preço e o fato de ser uma "edição normal", derruba qualquer outra comparação. O papel é off-set, mas a transparência não atrapalha nenhum pouco, pois a gramatura foi muito bem dosada. As capas são lindas e vem com orelhas, coisa que me surpreendeu. São essas pequenas coisas, simples cuidados, que fazem toda a diferença. É gostoso pegar em mãos e tranquilamente você pode guardar o mangá em qualquer lugar sem perigo de amassar.

Conclusão

Vale a pena comprar One Punch Man? Com certeza! Se você não tem muito dinheiro e está em dúvida sobre qual mangá escolher para acompanhar, essa é a pedida certa. A história é para todos os públicos, muito inteligente e descompromissada, enquanto a arte é incrível e merece até um vislumbre mais detalhado. Meus parabéns a Panini, pois conseguiu realizar um trabalho excepcional, tanto no design quanto na publicação. Claro, há uma diferença enorme entre a Panini e as outras editoras por conta da verba, mas ao todo, isso mostra um avanço no nosso mercado editorial nipônico.
Em cada página é com um soco que somos recebidos - mas um soco de qualidade. Vale a pena dar a cara a tapa e receber esse golpe de surpresa. Garanto que a sua maior preocupação vai ser controlar o riso.

El Psy Congroo.

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