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Destaques

O terror como punchline humorística em Get Out

O cinema tem como principal função apenas entreter, assim como qualquer outra forma de arte. Você pode dar "n" motivos para uma obra ser boa, mas se ela não entretêm, ela não serve para nada. Tendo isso em mente, eu sinto falta de um cinema um pouco mais descompromissado; eu sinto falta de contos e crônicas sinceras, coisas que só vemos em produções independentes que em sua maioria se quer chegam por essas bandas. Portanto, ver um filme como Corra fazendo sucesso tanto entre o público de nicho e o público geral, acabando por ser exibido com certa relevância, chega a emocionar. Não que isso automaticamente torne o longa bom, mas é que a sua proposta é tão simples e ao mesmo tempo tão cheia de nuances e propósitos, que é difícil não torcer para que dê certo. Corra deu certo e não só isso, é um respiro no gênero tanto de terror quanto de comédia. Ele não é inovador, mas a sua exótica combinação de gêneros culmina em uma história bem executada, sem a necessidade de ser megaloma…

Get Down, a série definitiva sobre o hip-hop

Produção da Netflix busca dar um olhar diferenciado para a história do hip hop e não só homenageia, como cria uma trama envolvente, repleta de referências

Tratar sobre o hip-hop é uma tarefa difícil, principalmente pelo fato de estar inclinado a voltar-se para os clichês. Violência, drama, música e superação, já vimos essa história milhares de vezes e não acho que exista espaço para mais uma produção dessas, ainda mais focada em música. Geralmente, as produções do tipo que me deparei, eram galhofas; com os problemas típicos de uma dramatização exagerada. Por sorte (ou habilidade mesmo), Get Down consegue seu próprio espaço de forma única, sem precisar ser exageradamente didática ou chorosa - acima de tudo, entre erros e acertos, a série é original, e mesmo na cena mais clichê, busca trazer algo novo, confirmando a ideia de que a Netflix tem olhos para onde ninguém está atento e deste modo, cria tendências.


Bem vindo aos anos 70

A nostalgia tem tomado conta; parece que a nova ação de negócios da Netflix está focada nisso. Depois de Stranger Things retratando os anos 80, temos Get Down com os anos 70. O interessante é esse olhar apurado - se Stranger Things dá pinceladas na retratação da cultura nerd, Get Down vai para outro extremo, focando agora na cultura do hip-hop. Na trama, conhecemos Ezekiel Figuero, um jovem do sul do Bronx que tem grande habilidade com as palavras. Por meio dele, vamos sendo inseridos no ambiente, conhecendo o contexto da época e as transformações em curso que o afetam, enquanto, ao mesmo tempo, ele as afeta. É simplório, por exemplo, quando este, fascinado por poesia, resolve dar um tom mais corrido e falado diante da platéia, ao invés dos típicos gritos de animação dos outros MC's.

O mestre, Grandmaster Flash, ensinando
Em um primeiro momento, Get Down é ruim. Isso mesmo, ruim. O começo é confuso, caricato e extremamente desinteressante. Você não dá a mínima para a maioria das personagens, a mistura com aspectos ficcionais não acrescenta em nada e a história é tão previsível, que a todo momento eu revirava os olhos. O primeiro episódio foi uma tortura e logo pensei em desistir - porém, entretanto, todavia, contudo, tenha paciência.
Aos poucos, conforme a trama vai se assentando e você vai se identificando com cada arco, a história toma ritmo próprio e forma, com cuidado, uma sinfonia. As vezes essa sinfonia pode parecer desnecessária e inaudível, mas se usares da emoção, vai conseguir entender a proposta e toda a magia. Talvez eu não esteja apto a julgar; sinceramente, é difícil dizer se Get Down é boa. Sou fã de rap e hip-hop e, minha família inteira está inserida no meio, ou seja, para mim foi um deleite acompanhar a transformação da música disco para um novo cenário, dessa vez mais complexo e diverso. Porém, para alguém de fora, que simplesmente não tem apreço por se quer funk, não sei se a experiência será a mesma. Sendo assim, é perceptível que a produção é feita da fã para fã, ainda que tente ser aberta a todos.


É lá pelo episódio três que as coisas começam a mudar e se tornam coerentes. Pode-se dizer que Get Down é uma lambança de conceitos, que vão se misturando e encontrando o próprio caminho. Há um interessante traço de nonsense, talvez característico em homenagear as produções da época e retratar a visão dos garotos. Vemos isso, por exemplo, na mitificação de Shaolin Fantastic, um famoso grafiteiro, que está sempre dando socos e pontapés ao melhor estilo Bruce Lee. Conforme a trama avança e conhecemos Shao a fundo, vemos que ele é só mais um perdido no meio do mundo das drogas. Essa dualidade se torna característica, mas o que também me surpreendeu, é que o aspecto fantasioso não vai embora - não é como se Get Down buscasse subverter o gênero para no final dar uma cara nova. Mesmo quando conhecemos o lado escuro do lendário grafiteiro, continuam ali, as poses e a direção fantástica (no sentido fantasioso), que nos leva a compreender o que foi esse universo. Para quem está de fora, o Bronx poderia parecer apenas mais um bairro cheio de delinquentes, mas para os garotos, vivendo aquele contexto, era um mundo mágico com suas próprias aventuras. O comum ganha, então, novos contrastes para dar mais dinâmica e um timing inesperado. As vezes esse timing, que mescla a história/documentário com a, digamos, "licença poética", soa brega e descompassado, porém, ao final, a musicalidade ganha asas e o saldo é extremamente positivo. Sabe quando você percebe os erros, mas as surpresas e emoção são tantas, que nada disso importa? Então, isso é Get Down.


Uma série sobre transformações

Mesmo com essa tendência a se tornar brega, a série poderia pender para o clichê ao retratar as mudanças, seja na sociedade ou na própria música. Entretanto, é exatamente nesse aspecto que ela não erra e aliás, acerta em cheio. As mudanças são bem sutis e totalmente coerentes. Boo-boo, por exemplo, em certa cena, quando os garotos formam um grupo e precisam ensaiar para uma competição, começa a dançar e cantar como os Jackson V. Logo após, pede desculpas e fala que não vai mais fazer isso no meio da música - todos estão estarrecidos e o olham boquiabertos. É aí, aos trancos e barrancos, que percebem que a coisa pode ir além de simplesmente "riscar" discos. Inconscientemente, as pessoas vão adicionando suas influências e formando algo novo, fruto da necessidade de se destacar. Books (ou Ezekiel) praticamente cria o rap, tendo como base a pura poesia - ele é o criador principal? Não, vemos que é um movimento e isso acontecia paralelamente por todo lado. Mylene, interesse amoroso do protagonista, tem que ser a nova musa da "disco" e sua alternativa acaba sendo juntar o latino com o religioso, formando um novo estilo. Eu poderia ficar horas só destacando essas sutilezas, essas pequeninas coisas, que no final formam um interessante emaranhado. São as pinceladas, muitas vezes imperceptíveis, desenhando, por fim, uma grandiosa obra.

Outro ponto interessante a se destacar, é que Get Down não se trata somente sobre música - aliás, a música é consequência. A série se trata acima de tudo sobre pessoas, com seus anseios e desejos, problemas e motivações, que as levam a diversos caminhos. Essa conduta, de abordar o todo, é magnífica! Pois temos não somente o rap ou a "música hip-hop", mas todo o momento. Lógico, o foco principal acaba caindo sob os DJ's e MC's, porém, sem precisar ser didático, naturalmente percebemos como cada ação, cada movimento, faz parte do cotidiano. Alguém, em algum dia e em alguma hora, teve a grande ideia de "riscar" vinis para mixá-los. Alguém teve a ideia de mexer as pernas de forma diferente. Alguém teve a ideia de animar as festas de forma diferente. Alguém teve a ideia de expressar-se com uma lata de spray. Tudo já estava lá, até que, de novo, alguém acabou pensando: "que tal juntarmos tudo?".


Consequentemente, se estamos falando de mudanças, o que surge é o embate. A velha geração não entende, e claro, vai renegar. Esse embate se apresenta em diferentes formas, seja em Mylene rebelando-se contra o pai religioso ou Books, vivendo uma vida dual enquanto percebe aos poucos que a música é sua vida, mas, obviamente, sem seus responsáveis aceitarem. São feridas abertas em uma geração que não tem perspectivas de vida e resolve refugiar-se em diversos ambientes - isso tem influência então na própria geração antiga, acabando, estes, por se verem envolvidos em embates, dessa vez não com os adolescentes, mas com outros adultos.
Exponencial, o desenvolvimento cresce com bastante cuidado. O ápice para mim é quando, surpreendentemente, cultura LGBT é abordada. Talvez me irrite um pouco Jaden Smith ser o ator para esse importante momento, mas mesmo sua cara sem expressão, não diminui o personagem Dizzee e suas descobertas. É aqui que vemos que estamos diante de um produto singular, ainda que use de todos os clichês possíveis. O modo como trabalha esses clichês, assim como Stranger Things, é que dita o ritmo e sendo assim, termina por optar em arriscar na originalidade. A estrutura do enredo não é algo incrível, revolucionária ou qualquer coisa do tipo - é previsível; porém, a execução dessa histórinha, talvez mamão com açúcar, a transforma em algo forte pronta para dialogar não com a mente, mas com o coração.


Conclusão
Get Down merece uma atenção especial, pois não é apenas mais uma série sobre o gueto; pode-se dizer, desde já, que se tornará a série definitiva sobre o hip-hop. Sua pretensiosidade é exagerada e pode parecer maluca, mas aos poucos, ao voltar-se para si mesma e construir um caminho único, consegue cumprir tudo isso e muito mais - sem precisar apelar para o drama (ainda que possa soar brega) ou violência em demasia. Está tudo lá, de forma natural, assim como os passos de dança, os raps, o grafite, os DJ's e a representação crível documental, passando pelas festas clandestinas e contexto sócio-político.

Em determinado momento, Jack Moreno senta ao piano e começa a tocar sua música. Ele não tem nada, aliás, nem sabe o que está fazendo. A loucura e a insanidade exalam de sua postura egocêntrica, resultando em uma junção desconexa de retalhos - apenas barulho. Ninguém entende nada; ele quase chora, sabe que está perdido. Porém, para a sua surpresa, as coisas vão tomando outro rumo e ele, como bom malandro, não perde tempo e resolve tomar uma atitude. Gradualmente a criatividade toma conta e, no improviso, ele começa a criar uma obra prima. Parece, no inicio, amador, mas ao final, há uma gloriosa mescla de ritmos, que formam algo que ninguém ouviu antes - Jack sorri, ele sabe que está salvo.
Por que descrevi essa cena? Porque ela sintetiza o que é Get Down: entre erros e acertos, simplesmente uma gloriosa sinfonia.

El Psy Congroo.

Obs: a série foi dividida em "dois atos", sendo este de apenas 6 episódios e o próximo está por vir em 2017, formando assim a primeira temporada. Até lá, só aguardando mesmo (infelizmente).
Obs²: informação irrelevante para a análise, mas a série foi uma das mais caras, sendo orçada em 120 milhões de dólares o.O Espero que usem todo esse dinheiro hein.

Nome: Get Down

Ano: 2016

Criada por: Baz Luhrmann

Episódios: 6 (metade da primeira temporada)

Gênero: drama, comédia, hip-hop, musical

Elenco: Justice Smith, Shameik Moore, Jaden Smith, Herizen F. Guardiola, Skylan Brooks, Tremaine Brown Jr. e etc

Nota: ★ ★ ★  ★ (80/100)

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