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Steven Universo: reflexões sobre o papel educacional de um desenho

Vivemos em um mundo de conflito, onde olhamos primeiro as diferenças e depois as semelhanças. Por essas e outras eu fico feliz de ter assistido quando criança desenhos que falavam sobre alguém excluído por ser diferente. E por causa disso acredito que Steven Universo, entre outros desenhos atuais, são mais do que recomendáveis para crianças e para qualquer um, pois eles possuem uma mensagem que pode potencialmente melhorar o caráter de alguém.

As reflexões sobre bullying e depressão em Koe no Katachi


Inicialmente eu ia falar de Horimiya, que tem algumas reflexões legais sobre depressão e bullying, mas o problema é que Horimiya não é uma história muito boa para analisar a depressão, pois ela tem uma veia cômica muito forte e sempre parte do principio que as coisas vão dar certo, desenvolvendo-se de forma praticamente ideal para os personagens. Por isso vou falar de outra história pouco conhecida em que as coisas tendem a dar errado.

Koe no Katachi e as reflexões sobre o bullying e a depressão


Koe no Katachi logo de cara já me surpreendeu por apresentar-se falando de uma menina surda, porém o ponto de vista da história é de Shouya Ishida, um menino que quando criança deparou-se com uma nova aluna "estranha" chamada Shouko Nishiymia. O garoto começa sendo a pessoa que abusa dela junto dos seus amigos, e como crianças que são, eles não acham que estão fazendo algo errado, ninguém acha. Primeira reflexão interessante da obra: crianças não tem noção de coisas que seriam óbvias para um adulto com algum senso de empatia, e isso fica bem claro, pois o Ishida não faz ideia do que a Nishimiya sofre; ele implica com ela simplesmente por ser "diferente". Já vendo essa situação, me lembrei dos meus tempos de escola em que coisas muito parecidas aconteciam - quem sai da norma é excluído e vira alvo de piada. Os meus colegas faziam merda sem entender o peso de suas ações, comigo incluso nesse grupo as vezes, o que gerou alguns arrependimentos que tenho até hoje.


Ele implica tanto com a Nishimiya que chega num ponto que o aparelho de surdez dela quebra e sua mãe vem pra escola reclamar. O diretor diz que se a pessoa que o quebrou confessar a escola pagará o preço caríssimo do aparelho. Neste momento, todos os "amigos" entregam Ishida como bode expiatório, e ele finalmente entende o que a Nishimiya estava passando porque agora o alvo é ele, percebendo como ele estava errado. A partir daí, ele passa toda sua vida escolar sendo excluído e sofrendo bullying nas mãos de colegas que ele antes pensava serem seus grandes amigos. A reação óbvia dele a tudo isso é se fechar para o mundo.
A autora veio com uma sacada muito legal pra essa parte - todo mundo que está fora da "realidade fechada" do Ishida tem um X no rosto, pouquíssimas pessoas que ele tem alguma consideração aparecem sem a marca. Outro detalhe que pode passar batido é que os professores não faziam nada para parar esse abuso, aliás, até onde foi mostrado, eles nem gostavam de ter que dar tratamento especial a uma menina surda, e isso é um problema gigantesco. Professor não é babá, mas pelo menos deveria ser responsável por manter alguma ordem entre seus alunos. Entretanto, é algo que vi pouquíssimas vezes durante minha vida escolar, geralmente eles não ligavam mesmo e deixavam os alunos fazerem o que quiserem. Depois têm a cara de pau de dizer: "são só crianças fazendo criancices". A realidade de uma criança normal na escola já pode ser difícil, imagina um deficiente que não recebe apoio nem do corpo docente?

 Como é que um traste desse vira professor?

Então Ishida, agora em sua adolescência , totalmente remoído por anos de arrependimento, sente-se como um incômodo vivo e essa é uma das sensações mais comuns de alguém que tem depressão: que você não tem nenhuma importância no mundo e tudo o que você faz é atrapalhar. Ele decide se desculpar com a Nishimiya e então se matar, sendo essa a premissa inicial da história. Transformar o ativo do bullying no passivo foi uma ideia inteligente, porque logo nessa primeira parte algo tenta ficar bem claro: esse tipo de pessoa não é necessariamente maligna, porém, não muda o fato de que quem faz bullying consegue facilmente estragar a vida de uma pessoa, afinal eles pensam que suas ações "não são nada demais".


Essa proposta de fazer essa inversão de valores, poderia ter dado muito errado se a autora não tivesse muito cuidado em retratar cada emoção do protagonista e da Nishimiya. Apesar de tudo, Koe no Katachi é uma história de superação e não uma pra vangloriar o estado de tristeza nem nada do tipo, aliás, tenho uma teoria de que pessoas que acham "cool" ser triste e melancólico por causa de bandas hipsters, não fazem ideia do que é depressão, ou talvez seja só a forma mais irritante do mundo delas lidarem com seus problemas. Esse estado de mudança pra melhor é muito mais gradativo e demorado do que em Horimiya - Ishida decide não se matar porque ele aparentemente faz amizade com a Nishimiya e decide viver em prol de se redimir por causa de todo o sofrimento que ele a fez passar. Esse acaba sendo um motivo um pouco triste para se continuar vivendo, porque ele pouco se importa consigo mesmo, e fora da sua relação com a Nishimiya e sua mãe, parece haver um grande vazio no coração dele, o que causa uma sensação conflitante durante todo o enredo. Se o roteiro tivesse sido escrito de qualquer jeito, teria ficado algo superficial estilo, "vamos ser amigos!", coisa que não acontece, pois a narrativa detalhista cria um contexto muito profundo e coerente.


A parte do enredo que mais me surpreendeu em todo o mangá, é como a característica menos mencionada da depressão é tão bem retratada - o silêncio. A depressão é silenciosa acima de tudo, as pessoas não reparam, afinal quem sofre tende a não se abrir e a vida continua indo para um caminho melhor ou pior, sem ninguém se importar. Teve um capítulo que eu quase chorei quando isso ficou claro. Como cheguei a dizer no meu post de Horimiya, você melhora nesse tipo de situação quando sente que fez amigos de verdade, ou que tem algum apoio sólido em algo ou alguém. Não posso explicar em detalhes porque seria um spoiler gigantesco, mas posso falar do que se trata esse capítulo que me emocionou:

Sentimentos ruins que as pessoas nunca compartilham e continuam destruindo elas por dentro, junto dos efeitos que isso tem na pessoa. E o fato de  NINGUÉM os haver percebido deixava tudo mais triste. Isso me fez lembrar de certos momentos muito difíceis na minha vida e pessoas que eu conheci, foi uma experiência muito mais pessoal do que eu poderia imaginar.




Algumas das conclusões mais profundas que eu já havia chegado antes, foram complementadas por praticamente tudo que vi em Koe no Katachi. Provavelmente, a mensagem mais importante é: pra superar esse tipo de coisa você precisa se apoiar em algo ou alguém, sem apoio, é impossível. Não importa o que seja, roubando palavras do Shane Dawson, nem que seja seu cachorro a te dar suporte emocional! Se te faz feliz ou te dá alguma satisfação, quem são as outras pessoas para falar que você está vivendo errado? Elas estão ajudando no seu problema? Então pro inferno com a maioria dessas concepções do senso comum que de nada servem nessas situações. Nunca fui ao psicólogo porque quando eu era mais novo vivia em um estado de negação e não gostava de admitir que minha vida era uma bosta, então logo nunca fui diagnosticado para saber se eu realmente passei por depressão, mas ainda assim consegui me identificar muito com os personagens dessa obra e o que eles passaram, e hoje entendo que teria sido melhor se eu tivesse aceitado e pedido mais ajuda naquela época.
Continuando o assunto: se você quiser ajudar alguém com depressão, tome cuidado como trata a pessoa; você pode acabar piorando a situação. Por exemplo: muitas vezes nossos pais demonstram seu amor de forma que não nos ajudam nem um pouco, isso está muito presente na obra, tem muita coisa que não mencionei porque seria spoiler e quero que mais pessoas leiam Koe no Katachi, mas vou dizer que a mãe da Nishimiya realmente ama sua filha, porém, ela teve uma vida difícil e acaba sendo um pouco frígida demais, o que pode passar sensações erradas para a garota. Todo mundo já diz que ela é um incômodo, então ela não quer receber essa sensação da mãe também.


E uma última ressalva seria para quem vai tentar ajudar: a menos que você seja algum santo que faz tudo porque é o certo, coisa que eu não vejo ninguém fazendo, quando for tentar ajudar alguém passando por isso, tome muito cuidado para não ser puxado para um abismo no meio do processo. Você se torna mais íntimo da pessoa, ela de você, a relação pode virar algo além de amigos, talvez não, mas o que pode acontecer na maioria dos casos é a pessoa que ajuda acabar se tornando extremamente ligada de forma emocional à pessoa a qual ela está tentando ajudar, e isso é perigoso. Isso também está na história, afinal, vemos Ishida se preocupando mais em ajudar a Nishimiya do que com seu próprio bem estar. E não falo isso só pela história, mas por experiência pessoal também, porque eu já caí nesse abismo uma vez e demorei meses para superá-lo.

Koe no Katachi também tem um anime que ficou sensacional! Vale a pena conferir.

Only darkness will remain.

*Essa postagem faz parte do Setembro Amarelo, o mês de combate ao suicidio e a depressão. Para mais informações, acesse: www.setembroamarelo.org.br

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