sexta-feira, 16 de setembro de 2016

AnoHana - ainda não sabemos o nome da flor que vimos naquele dia (vol. 1)

Dramático e reflexivo, adaptação do anime de 2011 surpreende por sua capacidade de envolver o leitor

Eu nunca assisti o anime de Ano Hana. Já ouvira falar muito bem, como um dos melhores dramas já realizados e que a obra comove qualquer um, arrebatando uma derradeira lágrima mesmo do mais durão dos espectadores. Lembro muito bem que ele estava contido na ótima leva de animes do ano de 2011 e que fiquei de vê-lo; o tempo passou, minha procrastinação alcançou outro nível e por fim, não consegui se quer dar uma olhada. Passado esse tempo, recentemente, ao navegar no site da FNAC, descobri que havia um mangá da obra e que este estava sendo publicado no Brasil, pela JBC. Imediatamente tratei de colocar essa pendência em dia , ainda que fosse aparentemente uma obra "inferior". Sabe como é, adaptações pecam em vários pontos, aqui ou acolá, então mesmo que fosse "ruim", eu poderia posteriormente comparar com o anime. Entretanto, era muito mais do que eu esperava.

Ainda não sabemos o nome da flor que vimos naquele dia

Anohana conta a história de Jinta Yadomi, um adolescente comum que logo de cara se depara com um evento sobrenatural assolando sua vida - sua amiga, Menma, morreu há vários, mas, para a sua surpresa, ela surge sem mais nem menos em seu quarto. É o bastante para o protagonista achar que está ficando louco e que o trauma de ter perdido sua melhor amiga de infância, o está afetando.
Sendo assim, o mangá não tem firulas. O contexto vai surgindo aos poucos, conforme outros personagens vão surgindo. Logo de cara temos o problema fantasioso e o desenrolar crível dado a ele nos impacta. Seria como quando A Metamorfose de Franz Kafka começa - a história é sobre um homem que se tornou um inseto, mas não existe construção do passado deste e nem de sua personalidade. O enredo já inicia com um impacto, empurrando de vez a história.
Então não há tempo para comprarmos a ideia de Menma; ela está ali e pronto - o importante é o desenrolar. Com cuidado, vamos sendo apresentados aos diversos problemas . Por seu caráter existencial e filosófico, Anohana é uma daquelas obras em que não existe spoiler - você precisa experimentar com os próprios olhos para entender como essa narrativa é envolvente.


Não sei como a direção do anime complementa esse enredo deveras reflexivo, mas no mangá o desenho é primordial. Lógico, em um mangá o traço vai ser importante, porém, em Anohana tudo flui muito bem, complementando organicamente as falas e gestos. Realmente, fiquei muito surpreso com a arte, que é minimalista e realista, mas sem deixar de ser "bonitinha". A disposição dos quadros também influencia muito - não existe uma ordem exata, tudo depende do que está acontecendo, dando mais destaque ao conteúdo. Tem horas que os personagens chegam a sair dos quadros ou as partes se complementam.
O que acontece então, é uma perfeita habilidade em ditar o ritmo. Claro, é uma adaptação, mas talvez, simplesmente transpondo para o papel, o ritmo não funcionasse - fica obvio que Mitsu Izumi (o ilustrador) tem consciência de que é outra mídia e vai além, mostra total poder em como elaborar a trama. Deste modo, as descobertas mais banais, acabam tomando outro tom, enquanto os personagens constantemente vivem em embate, sem a necessidade daquele velho recurso do "pensamento existencial" ser usado a cada instante - basta as expressões e atitudes frente ao outro.

Crédito: blog Leitor Cabuloso
No passado, Jintan  foi líder do grupo Super Peace Busters, onde ele e seus 5 amigos viviam por aí brincando - fazendo loucuras como qualquer criança. É justamente a morte de Meiko Menma que cria uma fissura no laço que todos tinham - e é a aparição desta que vai tratar de aproximá-los. Ainda sim, com todo esse traço magnífico e ritmo impecável, Anohana é sutil; não é um dramalhão como deveria ser. Há espaço para todos os sentimentos, desde a comédia até a raiva. É apenas a representação verossímil, com aspecto de fantasia, da reação de crianças diante da morte.
Deste modo, cada uma delas vai tendo seu próprio desenvolvimento. Em síntese, Menma aparece para trazer a tona traumas enterrados e assim, o mangá não só é uma comovente história, mas uma interessante trajetória para exorcizar "demônios". A sutileza principal está em não abordar um tema tão complexo de forma difícil - qualquer um pode entender e captar a mensagem, fazendo com que a emoção fale mais alto.
Esse primeiro volume é uma perfeita introdução, instigando a conhecermos mais. O drama está presente, mas muitas vezes na forma de comédia, o que nos ocasiona certa melancolia - hora damos risada, hora ficamos reflexivos. Menma não tem tanta importância assim, pois o seu ser está ligado ao envolvimento dos amigos; sendo assim, gradativamente a personagem vai ganhando peso emocional, principalmente por conta dos flashbacks, até que no final decide "aparecer". Já sabemos como Jinta reage ao fantasma, mas como os outros reagirão? Quais traumas e problemas podem surgir disso? - são incógnitas que serão respondidas apenas no segundo volume.

Sobre a edição da JBC

É uma edição comum, em papel jornal e brochura. Sei que papel jornal é mais barato e por isso é o padrão do mercado, mas sou meio xiita e fico um pouco receoso quando vejo qualquer título sendo publicado assim. Se não houver um cuidado especial, tanto da gráfica quanto do design, a coisa pode ficar muito feia. Ainda bem que a JBC soube equilibrar tudo muito bem, oferecendo um material barato e extremamente bonito. A gramatura está no ponto certo, fazendo com que as páginas não sejam transparentes - o que dá um brilho especial ao desenho. Não sei dizer até que ponto é mérito do ilustrador ou da edição, mas realmente a achei bonita. Sem contar nos desenhos coloridos, coisa que eu não esperava em uma edição tão barata.
Minha critica vai para a ideia em si - por um mangá tão pequeno, de apenas 3 volumes, e com periodicidade bimestral, poderia ser um pouco mais caro e consequentemente, com uma qualidade "maior". Seria legal ter esse mangá em capa dura, né?
Mas enfim, dentro da proposta que foi oferecida, cumpre muito bem as expectativas.
Ah! Quase me esqueço de falar sobre o design - muito bom! Principalmente as capas, que não tem poluição visual. Assim como o mangá, são sublimes e simples, de uma beleza estonteante. Não sei qual é a equipe da JBC nesse quesito, mas é a segunda vez que elogio fortemente o design. Sério, parabéns por todo o cuidado.

Conclusão

Vale a pena ler Anohana?
Sim, vale. Mesmo para quem já assistiu o anime.
Não tive contato com a animação, mas é perceptível como o mangá de forma maestral envolve o leitor. Claro, o enredo tem papel importante, porém, a forma como ele é desenvolvido dita todo o tom e identificação. Seria fácil colocar coisas reflexivas e tentar impactar, mas tornar isso comum já é outra história.
Não espere uma edição maravilhosa, em termos físicos ela é simplesmente boa. Agora, esteja pronto para um design de qualidade, que valoriza cada página. Talvez haja uma relação: uma produção simples para uma história simples, que tem em seu miolo e essência uma forte complexidade a respeito da típica solidão japonesa. Não é a melhor obra do gênero, mas com certeza, desde esse primeiro volume, é uma das mais envolventes.

El Psy Congroo.

Confira o teaser:
(ps: nunca tinha visto isso sendo feito. Apoio mais teasers de mangás. Ficou bem legal)


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