Pular para o conteúdo principal

Destaques

O terror como punchline humorística em Get Out

O cinema tem como principal função apenas entreter, assim como qualquer outra forma de arte. Você pode dar "n" motivos para uma obra ser boa, mas se ela não entretêm, ela não serve para nada. Tendo isso em mente, eu sinto falta de um cinema um pouco mais descompromissado; eu sinto falta de contos e crônicas sinceras, coisas que só vemos em produções independentes que em sua maioria se quer chegam por essas bandas. Portanto, ver um filme como Corra fazendo sucesso tanto entre o público de nicho e o público geral, acabando por ser exibido com certa relevância, chega a emocionar. Não que isso automaticamente torne o longa bom, mas é que a sua proposta é tão simples e ao mesmo tempo tão cheia de nuances e propósitos, que é difícil não torcer para que dê certo. Corra deu certo e não só isso, é um respiro no gênero tanto de terror quanto de comédia. Ele não é inovador, mas a sua exótica combinação de gêneros culmina em uma história bem executada, sem a necessidade de ser megaloma…

Os youtubers estão roubando o lugar dos autores nacionais?

Nova onda de livros de youtubers tem chamado a atenção e levantado algumas questões: isso é literatura? E como fica os autores nacionais?

Vamos falar de um tema polêmico? Livros de produtores de vídeo para internet; vulgo youtubers. Entre os leitores, tem rolado uma grande polêmica sobre o fato de se estar deixando de lado a "literatura real" para dar lugar a uma "literatura superficial". Venhamos e convenhamos, o Brasil não é lá essas coisas se tratando de leitura - apesar de nos últimos anos o número ter aumentado (de acordo com o Publish News, o número de leitores aumentou de 50% em 2011, para 56% em 2016), nosso mercado editorial não é tão sólido. Entretanto, há uma vontade imensa em sermos polo de criatividade literária. Os números de títulos produzidos, por exemplo, saltou da casa dos 30 mil em 2004, para 50 mil em 2015.

Paralelamente a essa vontade de ser melhor, vem também o que chamo de elitismo literário. Estamos acostumados a valorizar certas coisas e demonizar outras, simplesmente por que não é "intelectualmente importante". Não vejo problema nenhum em um garoto querer ler um livro sobre o jogo que ele gosta ou do youtuber que ele assiste - o problema não está aí, mas no que fazemos com isso. É uma vergonha a fantasia brasileira não ter espaço e pessoas que nem escrevem seus próprios livros vendendo bastante? Com certeza. Mas não devemos generalizar. A generalização tende a tornar qualquer pessoa em ignorante, pois ignora as variáveis básicas para análise. Devem ter livros bons de youtubers, assim como devem ter livros ruins. Querendo ou não minha gente, o dinheiro fala mais alto, ainda mais quando em 2015, mesmo com o aumento significativo da relevância do mercado editorial, o preço do livro inflacionou, resultando em uma recessão nos lucros. Claro, estamos em crise, então de que forma as editoras deveriam responder a isso? Livros de youtubers asseguram o mercado e deixam a peteca não cair; infelizmente, essa é a verdade. O jeito de mudar esse cenário não é xingando quem gosta ou boicotando quem fez o produto; se existe é por que tem quem compre, simples assim.

Na foto, o youtuber Rezende Evil, sucesso entre a garotada
"ah Maeister seu bobão, então você quer dizer que a culpa não é de ninguém?"

Se você diz culpa pelo mercado editorial ser assim, não necessariamente. É um tema mais complexo do que simplesmente youtubers teens ganhando dinheiro. Você tem aí toda uma análise histórica de um pais que em grande parte da sua história teve a maior parte da população analfabeta, e deu mais valor para o que vinha de fora. Tivemos um pouco de nacionalismo exacerbado, ali, nas produções como Iracema, mas a globalização, o pós-modernismo e os EUA, trataram de nos submeter a outras influências. Sendo assim, se pararmos para fazer um balanço, o saldo é positivo. Nossa nação tem uma democracia muito nova e o acesso livre a informação e ao conhecimento tem se construído agora. É uma caminhada longa, mas já estamos dando o primeiro passo: os pequenos estão lendo. Não sou do time que diz que qualquer leitura, apenas por ser leitura, é boa, mas é um passo importante quando a massa está interessada. Entende? Não tem como ficar comparando com outros países, que tem uma construção social bastante diferente da nossa. Quer ver como uma simples característica muda tudo? Por exemplo, religião.

O Estados Unidos é um país protestante enquanto o Brasil é um país católico (digo, em sua formação base). "Tá, mas e daí?" - No protestantismo a salvação vem direto de Cristo, sendo importante o entendimento próprio da palavra sagrada. A busca pelo caminho até o céu é individual e única dependendo da sua interpretação da bíblia - a leitura é essencial. Por isso, nos tempos de escravidão, os escravos eram ensinados a ler.
No Brasil, a coisa foi diferente. Com uma herança colonial, de um país deveras atrasado como Portugal, a salvação se fazia por intermédio das igrejas e não do próprio indivíduo. No catolicismo, bastava pagar ou seguir as palavras do padre, para ganhar seu lugarzinho no céu. Percebe? Escravos não tem que interpretar, apenas obedecer.

Dei como exemplo uma coisa simples, mas existem milhões de variáveis que interferem nisso - repito, não tem como comparar.

"você tá sendo otimista"
Sim, estou. Mas tenho por base minha experiência e lembro que crianças que liam bastante eram exceções (e basta ver os número citados lá em cima. Trinta mil para quase sessenta mil é uma diferença enorme) . Ver a garotada louca por um livro de Minecraft me deixa feliz, pois querendo ou não, elas estão adentrando o maravilhoso mundo da imaginação por meio dos livros. O decorrer disso e desenvolvimento, terá seu saldo por conta dos pais, mas é complicado; como vou instruir meu filho a ler, quando nem mesmo eu gosto de leitura? É um embate difícil, mas necessário, entre as gerações e como se constrói o conhecimento.

Machado de Assis observando essa treta e marcando
presença no post só pra causar mais polêmica
"Então você ta dizendo que não tem problema nenhum?"
Ao contrário, há sim muitos problemas, mas nada é tão simples. Existe a clara negligência das editoras, entretanto, elas tem que ganhar dinheiro. Se eu fosse dono de uma editora, não faria diferente, porém, minha critica se faz quando a ganância salta aos olhos. Quando o cara que tá lançando o livro nem sabe o que tá escrito (pois não foi ele quem escreveu), os produtos são de baixa qualidade, e indo para o outro lado, traduções e diagramações são ruins, somado ao preço, aí temos que conversar.
É contraditório o que estou dizendo? Talvez. Mas apenas estou tentando entender para poder julgar sabiamente. Tem seu lado bom essa onda de leitura teen, mas tem seu lado ruim, que não deve ser diminuído, muito menos incriticável. Se você é da galerinha que critica só porque é um livro de minecraft, um jogo "bobo", que está fazendo sucesso, saia do planeta, pois qualquer coisa "massiva" vai ser boba. Ou você acha que trocentas séries de distopia adolescente não é bobo? Claro que é! A diferença se faz no cuidado e no conteúdo. Há uma preocupação com o mínimo de qualidade, pois do contrário o leitor não vai comprar. Aí fica a dúvida, essas pessoas que compram livros de youtubers são realmente leitores?

"Tá, então qual a sua solução?"
Não estou comparando, 
longe disso, mas só para motivo 
de reflexão, Stephen King foi 
considerado pelos críticos um 
escritor de segunda mão, ex-
tremamente superficial
e inútil para a literatura.
Aí pergunto: o que de 
fato seria literatura?
Vou usar aquele velho ditado: se você quer algo bem feito, faça você mesmo. Okay, ninguém é obrigado a apoiar, mas temos autores brasileiros relevantes e um mercado de verdade, longe das superficialidades massivas, se formando. Sair denegrindo e pregando o apocalipse da literatura brasileira não vai ajudar em nada, até por que não é isso que está acontecendo. Apenas é um processo natural, firmado por uma coisa chamada dinheiro. É triste não ter espaço para quem realmente quer escrever? Sim. Mas você não vai mudar as coisas tentando enfiar na cabeça das pessoas o que é bom ou o que é ruim. Paralelo a isso, o jeito é tentar firmar o que é "certo" (como se alguém pudesse dizer o que é melhor, mas enfim). Se por um lado há essa revolta por coisas banais ganharem tanta atenção, por outro, há uma oportunidade, antes inexistente, para um mercado editorial decente. Pense bem, os youtubers não estão "roubando" o lugar de quem merece, pois antes esse lugar nem existia!
Não acho difícil um garoto ou garota, que hoje se interessa pelas aventuras escritas de seus jogos, se interessar daqui uns anos por uma fantasia bem construída. Jamais vou demonizar isso - meu único pedido é que sempre seja preservado o espaço para quem quer fazer algo maior, melhor e mais complexo, e vejo isso acontecendo, mesmo que de forma tímida. Tenho escutado muitas criticas a bienal desse ano, que tem dado espaço demais para os youtubers; mas você procurou saber sobre o número de autores brasileiros que vão estar lá? A Bienal tem que se pagar e anteriormente, já tinha até área de games, normal isso. O problema seria se jogassem pra escanteio qualquer chance de alguém brilhar - mas não é isso que acontece. O evento está MUITO maior e o número de autores independentes e atenção para estes também. Claro que o foco vai acabar sendo, em partes, os famosos da internet, mas ainda vai estar lá, para quem quiser, os trocentos estandes com descontos e lugar para seu autor preferido dar autógrafos.
Vamos continuar criticando sim, não vamos ficar acostumados, mas se for pra criticar, critique com argumentos e embasamento. Nessa incrível aventura que é o mercado livreiro, ainda estamos apenas no começo.

El Psy Congroo.

Este artigo faz parte da coluna Analisando Argumentos - leia os outros posts

Nos siga nas redes sociais: Facebook e Twitter
Me siga também no Twitter: @SirM_

Postagens Relacionadas:

Comentários

Postagens mais visitadas