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Destaques

O terror como punchline humorística em Get Out

O cinema tem como principal função apenas entreter, assim como qualquer outra forma de arte. Você pode dar "n" motivos para uma obra ser boa, mas se ela não entretêm, ela não serve para nada. Tendo isso em mente, eu sinto falta de um cinema um pouco mais descompromissado; eu sinto falta de contos e crônicas sinceras, coisas que só vemos em produções independentes que em sua maioria se quer chegam por essas bandas. Portanto, ver um filme como Corra fazendo sucesso tanto entre o público de nicho e o público geral, acabando por ser exibido com certa relevância, chega a emocionar. Não que isso automaticamente torne o longa bom, mas é que a sua proposta é tão simples e ao mesmo tempo tão cheia de nuances e propósitos, que é difícil não torcer para que dê certo. Corra deu certo e não só isso, é um respiro no gênero tanto de terror quanto de comédia. Ele não é inovador, mas a sua exótica combinação de gêneros culmina em uma história bem executada, sem a necessidade de ser megaloma…

[Indies que você tem que jogar] Cupid e as faces mais obscuras do amor

Cupid é uma visual novel que me pegou de surpresa, sinceramente eu não esperava muito de um jogo gratuito e que claramente não dispunha de um vasto orçamento. Essa é uma história muito peculiar com uma forma de narrativa criativa, que a primeira vista me fez pensar porque diabos decidiram contar a história assim, mas ao final de tudo era fácil entender que muito carinho e dedicação foram colocados em cada aspecto desse jogo, o transformando em uma verdadeira gema para fãs de visual novels.

"O amor é um veneno tanto quanto uma cura, é igualmente a faca e o remédio"

O enredo inicialmente se trata de Rosa, uma garota que chega machucada e triste na porta de uma igreja na França do século XVIII. Aparentemente Rosa sofreu abuso sexual e chamava muita atenção por ser extremamente atraente, o padre sai da sala para pegar algo e é aí que o jogo mostra sua primeira surpresa. Rosa fala com uma voz que parece vir da sua cabeça, e essa voz clama ser sua mãe, fato que a menina endossa, e o mais surpreendente disso tudo é que você não escolhe as decisões de Rosa ao longo do enrendo, mas sim as da voz, você controla as palavras da mãe. Ótima ideia para dar um ar de novo para um gênero tão difícil de se inovar como as visual novels, a primeira conclusão seria de que Rosa é doida, mas o jogo não é tão simples assim. Os diálogos entre as duas são extensos, complexos e muitas vezes a mãe é uma figura extremamente racional e cética, uma voz imaginária bastante detalhada para ser só uma alucinação. Aliás, a Mãe é um dos personagens mais interessantes de todo o enredo porque ela possui uma dualidade muito clara, você pode fazer ela ser uma mãe que é violenta, dizendo que maltratando Rosa você a está ajudando, ou uma Mãe mais amorosa, com palavras mais gentis e calorosas, tendo um efeito totalmente diferente no crescimento dela como pessoa.


Muito tempo se passa e ainda jovem, Rosa é praticamente adotada pela família de Catherine, uma criança de coração bom que viria a se tornar sua melhor amiga. Porém, Catherine também é uma grande admiradora do Marquês Guilleme de Gul, o homem que lhe deu a oportunidade de seguir uma carreira na música tendo em vista os talentos de Catherine.
Tudo feliz até que a minha segunda surpresa apareceu, do nada um time skip enorme acontece e ambos Rosa e o Marquês estão de luto pela morte de Catherine muitos anos no futuro. Foi algo tão abrupto que nem consegui entender o que acontecia naquele momento, mas também não foi difícil de compreender conforme continuei lendo. Cupid conta uma mesma história de forma paralela, mostrando passado e presente ao mesmo tempo, uma ideia bastante estranha mas que, conseguiu servir muito bem ao seu propósito. As cenas de Catherine e Rosa crescendo juntas, se tornando família se acabam tendo muito mais impacto quando ao final do capítulo você vê a tristeza que a morte dela gerou, a tragédia que seguiu uma relação que durava há tantos anos, e principalmente o suspense, afinal, a Mãe diz que quem matou Catherine foi o Marquês, pois a presença dele a perturbava profundamente em seus últimos dias de vida.

Não, isso não é spoiler, ta na sinopse do jogo que ela morre.


Essa narrativa estilo puzzle que vai se revelando aos poucos, sempre me deixava interessado em tudo que estava acontecendo, o enredo conseguiu apresentar uma quantidade muito grande de perguntas sem atordoar o jogador, te deixando consciente de tudo que você precisa saber para entender a situação e começar a criar suas próprias teorias e interpretações do que está acontecendo neste enredo.

Através desse vai e vem, Cupid adota um contraste muito forte, os tempos estranhos, porém felizes, do passado e o suspense e tragédia do presente. Vale ressaltar que os personagens são muito bem construídos e humanizados, Catherine foi nos apresentada como tendo a bondade de um anjo, mas ela invejava a relação da sua irmã mais velha com o Marquês e após começar um relacionamento com ele, adotou um comportamento paranoico com um ciúme que chegava a ser abusivo. O Marquês também não é nenhum santo, ele não parece ter problema em se envolver com a irmã de sua ex, que é muitos anos mais nova que ele, além de em certas ocasiões poder até ser considerada uma espécie de irmãzinha ou enteada. E no meio disso tudo temos a inocente Rosa, que só quer ficar junto dos dois e aproveitar a primeira "família" normal que ela conseguiu em sua vida.


Com o nome Cupid eu esperava algum romance trágico e clichê, mas em vez disso fui recebido com uma história cheia de personagens perturbados pelos seus sentimentos, que possuem mais de uma faceta e deixam aflorar tanto o lado bom quanto o lado ruim do seu amor, seja ele erótico ou algo mais como família, sendo que a Mãe desempenha um papel muito importante nessa caracterização do que é o amor. Dependendo das duas escolhas de comportamento temos visões bem diferentes sobre  ela, e nenhuma está menos certa do que a outra, aí que está genialidade dessa história, não é tudo dado de mão beijada para você, muito menos difícil de se desenvolver uma interpretação própria, praticamente tudo nesse enredo se encontra em uma área cinza onde dificilmente teremos a mesma visão sobre esses personagens, porém não é uma obra que exagera no pseudo-intelectualismo e deixa algumas pessoas pensando "o que diabos acabou de acontecer?".


Esse caráter ambíguo se apresenta com maestria nos diversos finais da obra. Cupid possui o bad ending mais excepcional que já vi em uma história do tipo, pois ele faz você sentir que esse poderia muito bem ter sido o verdadeiro final, você não resolve a situação procurando soluções mirabolantes, fazendo uma quest pra pegar um item milagroso, no final tudo depende do seu desempenho como a Mãe, porque o estado mental da Rosa, ao final do enredo, é o que define o caminho a ser seguido - este que varia da compreensão e amor, até obsessão e loucura.

Gostaria de falar sobre partes mais especificas do enredo, mas esse é um tipo de história que cada surpresa vale a pena. Totalmente recomendado para quem gosta de visual novels e histórias sombrias.

Only darkness will remain.

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