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Steven Universo: reflexões sobre o papel educacional de um desenho

Vivemos em um mundo de conflito, onde olhamos primeiro as diferenças e depois as semelhanças. Por essas e outras eu fico feliz de ter assistido quando criança desenhos que falavam sobre alguém excluído por ser diferente. E por causa disso acredito que Steven Universo, entre outros desenhos atuais, são mais do que recomendáveis para crianças e para qualquer um, pois eles possuem uma mensagem que pode potencialmente melhorar o caráter de alguém.

[Indies que você tem que jogar] Dex


Quem já leu meus posts de jogo sabe que eu adoro encontrar indies desconhecidos que são muito bem feitos, Dex não é diferente, aliás me surpreendo por um jogo com tanta maestria em vários aspectos não ter nem metade do reconhecimento de certos indies horrorosos.

Primeiro temos que falar da ambientação, o jogo se passa numa espécie de Terra alternativa onde no futuro a tecnologia está tão avançada que criam-se formas de inserir a mente de programadores dentro de um espaço cibernético, para assim hackear e controlar informações. No geral, eu diria que tudo lembra muito filmes cyberpunk antigos, mais especificamente Blade Runner. Sempre vi essa ideia de distopia futurista como uma visão pessimista, que representa os problemas da nossa sociedade intensificados num futuro que ainda não conseguiu os resolver. Geralmente o uso indevido da tecnologia também é um tema importante, até onde a ética humana enxerga? Até onde certas pessoas serão humanos no futuro? Tendo em vista que implantes que transformam as pessoas em ciborgues são uma realidade.


Harbor Prime, a cidade do jogo, é um cenário incrível, ela passa uma sensação de estar realmente viva, ou em certos casos, de estar morrendo. Isso é possível porque houve um carinho muito grande com a pixel art de todo o jogo, os modelos ficaram bonitos e detalhados, as paredes das cidades são recheadas de rachaduras, sujeiras, propaganda e existem muitos cidadãos andando por aí, tocando suas vidas e interagindo com Dex, protagonista que da nome à obra.




O melhor adjetivo pra descrever Dex é ambicioso - este é um jogo que tenta fazer muita coisa ao mesmo tempo e é bem sucedido em quase tudo. Dentro dessa cidade o jogo é uma mistura de metroidvania, plataformer e RPG, mas se me pedissem uma característica diria que Dex acima de tudo é um RPG. Durante o jogo houveram momentos que a única coisa que eu fiz foi andar e conversar, aliás existem quests que podem ser terminadas sem uma única luta, ou seja, Dex pega um aspecto mais clássico de RPG. Durante minha experiência fiquei lembrando bastante de Fallout 1 e como algumas quests eram parecidas. Por exemplo:

No RPG mais moderno, que se transformou bastante pra agradar as massas, você fala com um cara, vai do ponto X ao Y e termina a quest. Sem querer generalizar todos os RPGs modernos, porém é geralmente assim que a tendência segue.

Em um RPG com estilo clássico, você fala com o NPC da quest, as vezes pode trocar de lado no meio da quest ou pode recusar de inicio - em Dex, houveram algumas vezes que eu podia espancar o cara logo de cara e pular a quest. E o desenrolar tende a ser mais complexo que ir de X a Y, no ponto X por exemplo você pode encontrar informações que possam te liberar um caminho e continuar a quest no ponto Z, ou você pode ignorar tudo e continuar no ponto Y, ou chegando no ponto Y você decide que não quer mais ir pro pronto Y e lhe é dado uma escolha que te leva ao ponto H. Meio confuso, mas RPG é isso não é? Um jogo de escolhas, não tenho certeza até onde os caminhos divergem em Dex, mas posso dizer que toda quest tem pelo menos dois desfechos. Não menos importante é o fato de os NPCs importantes estarem marcados, existe uma quantidade enorme de gente no jogo, mas só os que importam interagem com você, alguns fãs mais xiitas reclamariam disso dizendo que a exploração fica menor, já eu por outro lado não aguento mais diálogos inúteis e sem sentido de jogos como Final Fantasy. As vezes tem crianças falando "Pão é muito bom" e outras "Eu quero ser um cavaleiro!". Tipo, foda-se, você perde um tempo falando com um monte de gente inútil, não que NPC vivos que reflitam o seu cenário seja algo ruim, mas e quando os NPC não fazem isso? Tem muito nego que não fala nada que presta em certos RPG, quando os desenvolvedores cortam suas opções nesse caso a informação é apresentada de forma filtrada sem ter que ficar um tempo muito grande conversando com todos, e ainda por cima esse tipo de abordagem te permite realocar os recursos usados em NPC inúteis para os NPC úteis, se eles já eram bons antes podem ser até melhores dessa forma.


Até que o jogo tem bastantes armas, mas elas funcionam quase que da mesma maneira, e sinceramente eu só usei a magum durante quase o jogo todo, não senti necessidade de diversificar muito, geralmente isso não seria algo ruim, o negócio é que a Magnum em si não é difícil de conseguir e as outras armas parecem que são muito mais fracas, então não havia razão para eu ter que comprar mais armas. Fora o sistema de tiro, existe o combate corpo a corpo, que recomendo que não seja menosprezado como eu fiz, ele é extremamente útil e upgrades nele se fazem muito importantes mais pra frente, pois munição é cara e sair no braço ajuda muito a economizar. Por último, existe a abordagem stealth: ao se aproximar dos inimigos por trás é possível finalizá-los com um único ataque. O combate não é ruim, longe disso, só que quando você pensa em um RPG, geralmente se pensa em diversidade de poderes, armas e coisas do tipo, algo que Dex parece não oferecer em grandes quantidades.


Separadamente não há nada de especial nos aspectos mencionados, mas a junção de todos eles, em adição ao design dos cenários, produz um gameplay muito interessante. Por exemplo: descobri em vários mapas passagens secretas que me colocavam atrás dos inimigos, me deixavam passar totalmente despercebido ou simplesmente me colocavam numa posição melhor para atirar. Não vejo RPG como só a abordagem da história, os melhores RPGs que joguei também deixam você tomar uma abordagem própria no gameplay, como proceder em certas situações, o que fazer na build e como derrotar seus inimigos. Se um jogo pode dizer que existem várias formas de passar de uma parte, então ele tem algo para se orgulhar, isso valoriza a decisão do jogador e dá muito mais profundidade a experiência.

Mas nem tudo são rosas... Se eu tivesse que retirar algo desse jogo seria o mini-game de hackear, o jogo tenta ser tantas coisas que tem até esse mini-game de navinha que parece totalmente fora de lugar, tendo em vista o que o resto do jogo é. Um mini-game mais simples daria conta do recado, mas não, eles tiveram que fazer fases inteiras em que você fica hackeando, o último "boss" é uma porra dum programa por causa dessa insistência em manter o hacking presente. Parcialmente até entendo porque fizeram isso, um dos temas do jogo é o cyber espaço, e você consegue alguns poderes que tem a ver com esse mini-game, você pode hackear uma maquina de compras pra conseguir dinheiro, hackear um inimigo pra atordoar ele. Entretanto, há momentos em que esse mini-game é extremamente anti-climático, você limpa todos os inimigos da área como a badass que a Dex é, pra se ver perdendo várias vezes para um computador com bolas de neon atirando em você. E o pior é que não da pra tentar evitar isso e seguir outro caminho, se você deseja fazer todas as quests, algumas vão te empurrar para um maldito hacking, esse que é o grande problema, eu ser empurrado num estilo de jogo que eu queria evitar, penso que a abordagem hacker deveria ser opcional assim como a stealth, pois ela necessita que você invista numa árvora de skills próprias, como eu não investi a dificuldade aumentou bastante.




Outra coisa que me decepcionou um pouco em Dex é o enredo, mas não no sentido convencional. Não se pode dizer que Dex tem uma história muito ruim, na verdade a forma como todas as quests se interligam com o contexto e as vezes até com a main quest, é algo muito bem feito, o problema é a falta de afeto pelo que está acontecendo na sua frente. Esse não é um RPG que você pega um personagem genérico ou customizável, a Dex tem personalidade própria e vem com uma série de coisas pré-estabelecidas que parecem não importar no final, pois o jogo funciona mais como se você jogasse com um personagem folha branca como em Fallout ou Skyrim, pronto pra você escrever o que quiser em cima dele. Quem é a Dex? Quem você quiser que ela seja, da pra fazer ela transar com putas e ficar no puteiro transando com homens também, quando eu vi isso fiquei, "Peraí, eu posso realmente gastar todo meu dinheiro com prostituição?" e que efeito isso tem sobre a Dex? Nenhum, aparentemente tá ali pra dizer que você é livre, mas aí eu penso, que personalidade ela tem se eu posso fazer ela ser tão contraditória - eu posso em uma quest literalmente vender um cara pra prostituição e na outra ajudar uma mulher a conseguir um transplante de graça; isso são escolhas viáveis ao mesmo tempo. Um pouco mais de falas pra Dex, talvez uma dublagem pra ela, teriam dado conta do recado, tem muitos personagens dublados no jogo, mas a Dex geralmente só fala em cenas da main quest, e quando eu ouvi a voz dela fiquei muito surpreso, porque não parecia com a Dex que eu pensei estar jogando. Ela toda brincalhona com tom de manda chuva e ainda por cima dando em cima do seu amigo, mas você pode ser um filho da puta na maioria das quests ou ser uma pessoa ingênua, então como isso se concilia com a Dex da main quest? The Witcher possui um protagonista que cativa as pessoas, mas parece que nem era o objetivo dos desenvolvedores tentar fazer algo parecido com a Dex.


É por conta de jogos assim que eu curto indies, um jogo que tenta fazer o que os outros geralmente não fazem, que está livre para ousar e experimentar e criar sua identidade própria sem querer se encaixar em nenhum padrão. Apesar de no final eu ter pegado pesado com o jogo, ainda diria que Dex é uma ótima experiência, poderia ser um pouco melhor aqui e ali, porém o jogo consegue ser pelo menos bom pra ótimo em quase tudo que faz. Esse jogo tenta fazer muita coisa ao mesmo tempo, por isso o recomendo pra qualquer fã de jogos 2D e experiências imersivas.

Only Darkness Will Remain.

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