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O terror como punchline humorística em Get Out

O cinema tem como principal função apenas entreter, assim como qualquer outra forma de arte. Você pode dar "n" motivos para uma obra ser boa, mas se ela não entretêm, ela não serve para nada. Tendo isso em mente, eu sinto falta de um cinema um pouco mais descompromissado; eu sinto falta de contos e crônicas sinceras, coisas que só vemos em produções independentes que em sua maioria se quer chegam por essas bandas. Portanto, ver um filme como Corra fazendo sucesso tanto entre o público de nicho e o público geral, acabando por ser exibido com certa relevância, chega a emocionar. Não que isso automaticamente torne o longa bom, mas é que a sua proposta é tão simples e ao mesmo tempo tão cheia de nuances e propósitos, que é difícil não torcer para que dê certo. Corra deu certo e não só isso, é um respiro no gênero tanto de terror quanto de comédia. Ele não é inovador, mas a sua exótica combinação de gêneros culmina em uma história bem executada, sem a necessidade de ser megaloma…

Fullmetal Alchemist e o perfeito exemplo de como criar bons personagens


Existem diversas obras, em diversas mídias. A produção cultural atual é exorbitante e a todo momento estão sendo lançadas histórias, para todos os gostos e gêneros. Pra falar a verdade, fica até difícil acompanhar qualquer coisa, mesmo que você se foque 100% naquilo. Pois bem, mesmo com toda essa prolificidade de produção, percebi que é dificil achar alguma obra que dê tridimensionalidade a maioria de seus personagens. Não que isso signifique automaticamente que certas obras são ruins, mas sempre resta aquela criticazinha sobre construção de narrativa. Ainda que haja uma grande quantidade de lançamentos, é difícil separar um seleto grupo que consegue dar uma dimensão coerente para a própria história - Fullmetal Alchemist está neste grupo. Não que a obra seja isenta de defeitos, aliás, nada é, mas consegue fazer algo que a maioria das narrativas não consegue. Neste post vou desmontar a narrativa de Fullmetal, para tentarmos entender como se constrói uma história tão boa como essa.


Primeiramente, você sabe o que é tridimensionalidade narrativa? É um conceito que elaborei com base na compreensão do que é um símbolo. Usei esse conceito para analisar Star Wars e caso você não se lembre, vamos recapitular:

Uma história com certeza tem mais dimensões, mas o foco que vou dar vai ser na dos personagens. As três dimensões tem por base as dimensões do nosso mundo real (altura, profundidade e largura) e são apenas uma síntese do que compõe uma obra - claro que tem muito mais coisas e coisas que até mesmo não pensei ainda, que posteriormente podem ser acrescentadas. Bem, vamos focar apenas nesses três exemplos:

"1-  Psicológico: se refere, logicamente, ao interior do personagem. Ou seja, os pensamentos, dúvidas, anseios, considerações, personalidade e etc. Coisas que demonstram quem realmente a pessoa é e o que ela realmente acha do mundo

2- Contexto: está relacionado à história deste ser. O que o levou a chegar ali? Por que está fazendo determinada coisa? Quem é a sua família? De onde veio? - Tudo aquilo que está a sua volta e acaba influenciando-o. O contexto se aplica também ao mundo que este ser vive e como afeta sua vida

3- Relacionamento: essa seria a parte ligada muitas vezes ao emocional, mas corresponde também ao modo de agir diante dos outros. Sendo direto, esse é o modo como ele se apresenta. Os diálogos e ações são muito importantes. 

Sendo assim, já devem imaginar que esses três conceitos não são fechados e se relacionam quase sempre, pois influenciam uns aos outros."


É fácil encontrar algo ruim para usar de exemplo, mas e algo bom? Por isso escolhi Fullmetal.
Fullmetal Alchemist é um mangá lançado em 2001, finalizado em 2010, criado por Hiromu Arakawa. Na história, acompanhamos a jornada de Edward Elric e Alphonse Elric, dois jovens alquimistas que perderam seus respectivos corpos (ou parte dele) e agora tentam recuperá-los. Durante essa aventura, eles acabam se deparando com diversos problemas, formando um enredo de mistério mesclado com comédia. 
Percebam:a história de Fullmetal é extremamente simples. Você simplesmente acompanha dois irmãos tentando encontrar os próprios corpos. Nem mais, nem menos. O enredo, as situações em si, poderiam girar em torno de uma mesma coisa - o aprendizado da alquimia. Mas a autora exponencialmente vai fermentando e crescendo a história, dando cada vez mais complexidade. Geralmente, temos dois tipos de obras: aquelas em que o enredo acontece e os personagens estão inseridos nele, ou aquelas em que os personagens existem e o enredo acontece por conta destes. Fullmetal está no segundo tipo, pois são seus personagens, com suas loucuras, dúvidas e anseios, que movimentam a trama, influenciando uns aos outros.


Logo no começo, superficialmente, temos uma estabilização do relacionamento das personagens. Vemos quem é Alphonse, quem é Edward, e como reagem diante do mundo. Por ser um shounen, a caracterização é caricata e a autora opta por usar muito da comédia. Não só os protagonistas, mas também outros personagens vão tendo sua "aparência" exterior explicitadas. 
Em paralelo, o contexto vai sendo explicado. O que é alquimia? Um shounen é um mangá de luta e por isso, as regras e a coerência do mundo são importantes. É preciso deixar claro como funciona o poder neste lugar e o quão limitado são os personagens principais. Então, temos um foco na Troca Equivalente e qual a influência disso nas ações. A história, conflitos políticos e coisas do tipo, não são explicadas profundamente, mas tem seu inicio por meio de mistérios jogados no ar. O mundo parece até colorido e animado - quase perfeito. Claro que a arte é um elemento a ser considerado, principalmente quando o todo é algo criado com base no real: fica claro, sem a necessidade de explicação, a mistura da época medieval com a época moderna; há pinceladas de steampunk, e essas pinceladas não são a toa - elas influenciam. Por exemplo, Edward só consegue ser quem é por conta de seu braço automail; os constantes problemas mecânicos fazem parte de sua estratégia de batalha e devem ser resolvidos (para o sofrimento de Winry). 

Depois dessa boa base, firmada nos relacionamentos e no contexto (superficiais), começa então o desenvolvimento do psicológico. Não é regra, mas a melhor forma de desenvolver o psicológico em um shounen, é por meio das lutas. Naruto quem o diga, é o mestre dos flashbacks e das problematizações internas - Fullmetal não foge disso, mas diferente da história do ninja, não se perde em um dramalhão desnecessário e acima de tudo é cruel. Enquanto Sasuke foge da vila e todos choram, o enredo de Hiromu lida com questões mais importantes e complexas - mesmo tendo "magia", o conceito é justamente o contrário: trazer realismo. Você tem determinado poder e para usá-lo, existe certo sacrifício; mais uma vez, a lei da troca equivalente. Não é como se do nada a autora surgisse com uma carta na manga e pronto, você leitor terá de aceitar isso. Existem regras e mesmo quando quebradas, há um propósito. 
Imagine se Naruto, ao lutar contra seus inimigos, comece a se questionar o que é ser um ninja, destruindo a maior parte de suas crenças e notando algo muito maior dentro da própria vila em que ele serve - os inimigos seriam seus próprios amigos. É disso que Fullmetal se trata. Se superficialmente, no contexto e nos relacionamentos, você tem uma alegria desmedida, o combate adiciona questionamentos para desenvolver o psicológico.

Até aqui, tudo bem. Hiromu constrói uma boa obra, mas ainda não é genial. É quando tudo se mistura que a coisa ganha asas e alça voos por lugares inimagináveis. Ora, se é dificil encontrar uma produção que consiga cumprir a tridimensionalidade BÁSICA dos personagens, imagine brincar a todo momento com esses conceitos, misturando-os sem medo do que pode acontecer? 
Perceba, os questionamentos ativam a memória dos irmãos e isso leva a mais explicações. Vamos entendendo o que os levou a chegar ali e como suas personalidades se desenvolveram a partir disso. E o mais incrível? Os coadjuvantes também tem tridimensionalidade. Chega a ser surreal, por que coadjuvantes e secundários não necessitam terem mais que duas dimensões, servindo quase sempre apenas ao propósito da história - o modo como isso vai ser feito que torna a história boa ou ruim, mas é bem normal não ir além. Veja o exemplo:
Antes de enfrentar o Padre Cornello, Edward e Alphonse conhecem Rose, uma jovem garota que acredita fielmente nos milagres do charlatão e tem a esperança de reviver o namorado. Temos no relacionamento sua atitude enérgica de uma crente, no psicológico sua tristeza com a morte do amado e esperança em talvez voltar a vê-lo e no contexto a história em si da perda, com base na vila. Ao acompanhar os acontecimentos, sua fé é totalmente abalada, resultando em uma atitude nervosa - tudo que acreditou era uma mentira e o psicológico é destruído, resultando por fim na redenção. Não a utópica "o dia vai ser melhor amanhã", mas a realista "ninguém sabe o que vai acontecer, mas você não precisa de uma fé para viver". Percebe como isso tudo foi trabalhado? E em uma personagem que não necessitava de foco; apenas uma dimensão já estaria de bom tamanho. O engraçado é que as transações de dimensões vão entre um personagem e outro, não só em si mesmos, resultando em novas perspectivas nos protagonistas.






Posteriormente, esses impactos emocionais vão se aglomerando, formando uma insatisfação. É oferecido a ideia de que é normal a injustiça - Nina Tucker quem o diga. Nós, os espectadores, acreditamos nessa ideia - ora, é um mundo diferente e até mesmo nossas próprias vidas são assim. Os Elric tem que lidar com a constante aceitação dos problemas, já que não podem fazer nada. Entretanto, sempre seguem em frente. O contexto principal fica nebuloso, sendo clareado apenas por sugestivas pistas - temos personagens com o psicológico abalado, com um contexto sombrio influenciando-os. Eles tem essa influência, o que provoca reações nos relacionamentos, que ficam mais próximos ou distantes. Veja bem: o psicológico é profundo e a formação das relações também, mas o contexto é superficial, explicando apenas o necessário para o mundo funcionar. Entretanto, como um remédio, vai sendo aos poucos aplicado, em dosagens diferentes. Tem um embate aqui, "opa, surgiu uma informação estranha", outro acolá, "agora tem a explicação dessa informação", e assim por diante.
Outro grande exemplo é Scar. O ishivaliano surge como vilão aleatório, sem muitos porque's de sua atitude. Chega a provocar raiva em quem assiste, por que ele importuna a todos, apenas por que pode. Rapidamente o associamos como o "malvadão", o que nos faz torcer para que os Elric o mate. Porém, quando a dosagem do contexto fica mais forte, ele surge com grande parte das "respostas". É por ele que criamos o laço afetivo com o que acontece na guerra de Ishival. Ele não é um vilão, mas também não é um herói - talvez, nem mesmo os dois irmãos sejam heróis, apenas tem uma moral exacerbada e estão em um contexto que não escolheram. Conforme o enredo decorre, chegamos a sentir pena de Scar e até simpatizamos com a sua causa. A raiva vai embora e quando chega o momento em que este pode morrer, torcemos para que o golpe final não aconteça.


Para completar, além da subversão de expectativa, há o embate de diferentes psicológicos e contextos. Após conhecermos profundamente os conflitos de Scar, é colocado em tela um erro seu, inadmissível, contra personagens bondosos - e esse erro influencia na formação de Winry Rockbell, que é a melhor amiga dos Elric e claro, consequentemente os influencia. Percebe como a história amarra a tridimensionalidade não só dentro de cada ser, mas no todo?
Então, Fullmetal primeiro apresenta o problema ou o personagem, lhe dá apenas o desenvolvimento básico, para depois conhecermos seu contexto e psicológico, resultando em uma compreensão de suas ações anteriores, quando não sabíamos nada.
A história poderia muito bem ficar presa apenas no conceito fechado, desenvolvendo cada dimensão separadamente, mas resolve não se limitar e consegue misturar tudo com maestria, criando algo único. O universo de tal pessoa, influencia no universo da outra e vice-versa. Não existe preto no branco, tudo é bastante cinza, aliás, colorido, com tonalidades diferentes e fortes. As coisas funcionam por meio de pequenas transações, que no final, vão formando um enredo maior e mais complexo. O melhor é essa complexidade ser exponencial, ao invés de pretensiosa. Fullmetal Alchemist é o perfeito exemplo de como criar bons personagens, não só objetos de condução narrativa, mas humanos - tão vivos quanto qualquer um de nós.

El Psy Congroo.

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