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Destaques

Steven Universo: reflexões sobre o papel educacional de um desenho

Vivemos em um mundo de conflito, onde olhamos primeiro as diferenças e depois as semelhanças. Por essas e outras eu fico feliz de ter assistido quando criança desenhos que falavam sobre alguém excluído por ser diferente. E por causa disso acredito que Steven Universo, entre outros desenhos atuais, são mais do que recomendáveis para crianças e para qualquer um, pois eles possuem uma mensagem que pode potencialmente melhorar o caráter de alguém.

Conheça The Magicians, a aposta do SyFy na fantasia

Série usa de diversas referências para criar universo mágico, mas não tem tempo para desenvolver a própria história

É difícil definir The Magicians. Uma série de comédia? Ação? Mistério? Ocultismo? Talvez todas essas coisas e muito mais, formando um enredo único pelo modo que costura as ideias, ao mesmo tempo extremamente clichê.

Na história acompanhamos Quentin Coldwater, um jovem adulto deslocado de seu próprio tempo - o rapaz é nerd, fascinado por uma série de livros infantis chamada 'Os Livros de Fillory'. Esse fascínio começa a lhe causar problemas, quando durante a passagem para a vida adulta, a sociedade exige mais responsabilidades - aquela coisa, você deve deixar de lado certas ideias do passado para poder seguir em frente. O problema de Coldwater é que ele não consegue: mesmo que seja uma série infantil, esses livros o formaram como pessoa. Mesmo assim, se vê disposto a dar uma chance a toda pressão social e familiar.
O primeiro problema de The Magicians já começa aqui: nos atores e personagens. Eu não li a série de livros a qual foi baseado, porém fica nítido essa discrepância da idade: decidiram aumentar a idade de todos, entretanto, as atitudes continuam as mesmas. Ainda que hora e outra tenhamos um vislumbre 'do que é ser um adulto', as reações e comportamentos das personagens são estritamente adolescentes. Talvez fosse pesado demais colocar temáticas sexuais (e ainda mágicas) envolta de garotos com 17 ou 19 anos? Não sei, mas a coisa ficou estranha. Sendo assim, temos em tela um protagonista barbado, tendo que lidar com problemáticas adultas, mas extremamente infantil - não por que é o estereótipo do nerd, mas por que não souberam adaptar coerentemente suas atitudes. É galhofa ver atores na casa dos 30 anos, interpretando personagens bem mais novos. Mas enfim, basta comprar a ideia e seguir em frente.


O pontapé inicial da série gira em torno da escola de magia Brakebills - qualquer semelhança com Hogwarts não é mera coincidência. As ideias abordadas são extremamente superficiais e clichês, mas funcionam muito bem quando se apresentam como sátira. Enquanto história séria, Magicians não sabe criar conceitos originais, muito menso aprofundá-los. Veja por exemplo:
Quentin logo faz alguns amigos e conhece Alice Quinn filha do Oliver Queen , uma nerd extremamente fechada que sabe muito de magia. A história envolta dos dois personagens funciona enquanto se baseia na tiração de sarro - teoricamente o protagonista deveria ser o escolhido e ganhar um status ao entrar no mundo mágico, mas continua o introvertido chato e deslocado que sempre foi. Alice é a moça inteligente e durona do grupo, que tem certas problemáticas que a fizeram ficar assim. Os moldes da amizade e como essa união vai ajudar a combater o mal, são arquétipos básicos da literatura juvenil e o grande trunfo de Magicians é quando faz piada com tudo isso. Mas aos poucos, a história começa a se levar a sério demais e aí, temos uma estranha relação entre Alice e Quentin, envolta de muita bebedeira e sexo. Veja bem, não sou contra esses elementos serem fatores principais em uma história (aliás, sou a favor), mas quando se tornam estereótipos para trazerem reviravoltas surreais, aí sim a coisa fica estranha. A tentativa de dar uma visão realista a juventude, sem medo de abordar as drogas e o sexo, é interessante, mas cai na própria gozação que a série fazia.
Se em um primeiro momento a putaria é caricata por conta dos elementos mágicos e por fazer referência a diversas obras, como True Blood, depois, ao tirar o humor, fica cafona e superficial. É obvio demais qual o público-alvo e qual o objetivo, quando se tem um protagonista extremamente mediano (para haver identificação com o espectador) e moças gostosas a todo lado - até a reitora é sinônimo de sexualidade. Mas esse não é o problema, o problema é querer dar uma profundidade artificial, que soa galhofa e deveras "vergonha alheia". A série tem tantos conceitos bons, que depois de um tempo você só pensa: "foda-se os problemas da Alice e do Quentin".


Então, se de um lado temos uma tentativa coerente de retratar a transformação de adolescente para adulto, do outro, o sexo é banalizado. Não que eu não ache que putaria seja tema principal entre rodas de amigos e isso gere insegurança nas pessoas, mas vamos ser sinceros: um dia você transa com um amigo e no outro ou no mesmo dia, transa com outro parça por que ficou nervosa com o anterior? Não existe construção para esses momentos - é tudo meio jogado, como "normal". Okay, é normal as pessoas transarem, mas não assim, tão aleatoriamente e ainda mais se tratando de adolescentes inseguros. Ou seja, a série acaba pendendo entre abordagens interessantes por meio da magia e retratação da juventude como os sonhos molhados de um adolescente de 13 anos.





A iminente ameaça do vilãozão, um ser chamado de A Besta, não faz tanta diferença, tirando nos momentos finais. Há uma intercalação com o rumo principal e as histórias paralelas, que precisam ser contadas, mas se confundem por não haver ritmo. Em um episódio estão todos preocupados com o 'demônio', no seguinte estão curtindo uma festa de iniciação. Claro, a função do vilão é segurar as pontas para que fiquemos vidrados até o final, mas não acho que haja tanta importância assim - o enredo sobre quem é 'a coisa' e o que ele quer, poderia ser resolvido, enxutando as partes desnecessárias, em três episódios.

Muitos questionamentos


Em síntese, eu definiria The Magicians como uma colagem de diversos conceitos. Todavia, essa colagem pode ser muito boa ou muito ruim, por conta dos questionamentos. Já falei como a série fica boa quando resolve ser uma sátira, pois rola perguntas básicas sobre o universo fantástico juvenil que ninguém faz. Mas, não é só nesses momentos que temos uma boa qualidade - em certos arcos sérios há um bom desenvolvimento. Esse é o problema de dissertar sobre essa série: todos os momentos podem ser muito bons tanto quanto ruins. Enquanto ocorre, sei lá, o desenvolvimento fodástico de determinado personagem, rapidamente há cortes para uma trama irrelevante - ou essa mesma trama que está tendo um ótimo desenvolvimento, de repente vira um clichezão vergonhoso.


Bom, se há como definir o ponto alto da série, eu diria que é Julia Wicker. Entendo que a função é desenvolver ela e o Quentin, porém, o personagem principal não cresce - ele fica o mesmo desde o começo e só no final, talvez, é que ele amadureça. Julia, por outro lado, está a todo momento experimentando coisas, errando e aprendendo. Ela e Penny são, provavelmente, os únicos personagens tridimensionais dessa trama. Claro que sua narrativa também tem diversos problemas, como a pressa, que faz com que muitas informações sejam jogadas sem tempo para absorção, forçando assim certas atitudes incoerentes - sua obsessão com a magia, por exemplo, não é bem trabalhada, apenas surge exageradamente para atender aos objetivos da trama. Entretanto, logo depois, depois de aceitarmos essa conduta estranha, vemos um interessante desenvolvimento de uma personagem totalmente perdida, que quer apenas descobrir a si mesma. Os roteiristas dessa série não são os melhores do mundo e sendo assim, a passagem de tempo é falha, totalmente fragmentada para dar freneticidade ao enredo. Mas Julia representa o que há de melhor no seriado - está ali a mitologia mesclada com mil culturas, o psicológico abalado, um pouco de problemática adolescente e acertos e erros que tem consequências. Não entendo qual o sentido de dar protagonismo ao Quentin - a ideia dele continuar sendo um merda, mesmo no mundo mágico, é ótima, pois trás realismo, mas não desenvolvê-lo é um problema sério. Julia está sempre questionando tudo, enquanto o rapaz fica perdido em seu próprio "mundo mágico".


Há muitas coisas corajosas na história, mas que estão sempre envolta de fanservice. É como se os criadores dissessem: "okay, precisamos nos sustentar de algum jeito na primeira temporada, tramas tão cinzas e profundas não dão tanta audiência", não é a toa que já foi confirmada uma segunda temporada. Talvez a pressão da TV acaba resultando em certos caminhos duvidosos, mesmo em um canal como o SyFy. É a tentativa de mostrar: temos nossa própria série sexual, adolescente e sobrenatural.
Isso resulta em um vai e vem de conceitos, que intercalam em algo meramente "ok" ou realmente ótimo. A história sobre Fillory é pesada e problemática, coisa que eu não esperava ver - o final do arco da Julia também - aí fico me perguntando, será que o mesmo público que tava a fim de ver umas gostosas e gostosos transando magicamente vai se interessar por isso? Talvez The Magicians não saiba ainda para quem está falando: o gênero "young adult" é confuso para se estabelecer na televisão, onde o público é massivo.

Lógica e sistema de combate


Lógica e sistema de combate não existem. Sendo redundante, Magicians começa como uma sátira, mas isso não é desculpa para não criar um sistema de batalha digno. Veja One Punch Man (meu exemplo eterno nessas questões): é uma loucura total e mesmo assim, tem um sistema de batalha coerente que te faz entender como os personagens são fortes. Aqui não existe isso, a magia funciona aleatoriamente, as vezes meio cafona por conta das alternativas (não é em todo episódio que é possível usar CGI).

É um problema quando você não entende qual a diferença de poder entre o vilão e os "mocinhos". Temos um vislumbre de coerência de batalha, novamente, com Julia. Mas é muito rápido e a trama dela é mais focada no "combate" psicológico - os feitiços causam sofrimento e devem ser revertidos; não é um jogo de explosões. Com Quentin, há mais a atmosfera fantasiosa, de poderes explosivos, mas nada é explicado direito. O foco em si são as ações, não dando explicações decentes. Em suma, é uma fantasia que não tem mitologia.
Brakebills é ridícula, parece que foi criada por uma criança de 5 anos e seus personagens, como o diretor, são estúpidos. Tem todo aquele típico mistério, ao qual o próprio enredo as vezes tira sarro, mas que não faz sentido nenhum.

Eliot e Margot até dão uma refrescada como alívios cômicos e posterior foco de drama, mas são subaproveitados. Eliot principalmente - junto de Julia, é um dos meus personagens preferidos, porém, representado caricatamente. Tem muitas coisas boas nele que não se desenvolvem; é usado de acordo com as necessidades do enredo.


Penny também carece de atenção, mas consegue ser mais importante que os dois anteriores. Sua personalidade também varia, assim como a de Eliot, de acordo com a situação. No começo ele não existe, é um estereótipo qualquer de machão sarcástico, depois ganha foco e junto de Kady, vai crescendo, até que de repente, do nada, ele volta a ser o esterótipo. O foda disso, é que não é algo estático e delineado, do tipo: aqui o personagem é ruim, aqui ele fica bom. É uma montanha-russa - em certos momentos há profundidade, em outros as coisas continuam como se nada tivesse acontecido.
Nem preciso falar da Alice: uma personagem unidimensional e vazia.


Conclusão


The Magicians é uma série confusa demais, até mesmo para avaliar sua qualidade. Eu posso dizer: "essa série é infantil e superficial", que vai fazer total sentido; há fatos para tanto. Ao mesmo tempo, posso dizer: "essa série tem profundidade e é adulta", que também vai ser coerente.
Sendo assim, qualifico como 'decepção parcial'. Tem muitos conceitos bons, mas mal desenvolvidos por conta do fanservice. Cada vez que eu pensava: "isso é incrível, nossa que interessante", o arco era drasticamente cortado para dar enfoque a outra coisa, de forma caricata e humorística. É uma série que tem tudo para crescer nas próximas temporadas e se conseguir encontrar o próprio caminho, mostrar uma história de alta qualidade - mas por enquanto é isso; ótimas ideias, desenvolvimento escasso, superficial, apressado e clichê. Depois, temos o uso da viagem no tempo, coisa que sempre complica mais e é o arquétipo básico para dar "dinamismo" e fôlego ao enredo.
As atuações são medianas, vez ou outra tem alguém que se sobressaia, mas no geral são todas "ok", com aquela frieza típica de personagens montados e sem muito o que fazer.
Se você tiver tempo livre, recomendo que assista. É uma produção interessante para se acompanhar. Mas vá totalmente descontraído, com as expectativas baixas, que será muito melhor - qualquer surpresa é lucro.
No final, acaba  tudo com um Cliffhanger para causar ansiedade e jogar os problemas para a próxima temporada. Veremos se os roteiristas conseguirão perceber o potencial da própria história.

El Psy Congroo.

Nome: The Magicians (temp. 1)

Ano: 2016

Criado por: Sera Gamble, John McNamara

Episódios: 13

Gênero: fantasia, magia, comédia, young adult,

Elenco: Jason Ralph, Stella Maeve, Olivia Taylor, Hale Appleman, Arjun Gupta, Summer Bishill

Nota: ★ ★ ★ ★ (60/100)

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