quinta-feira, 7 de julho de 2016

Os Livros da Magia e o universo fantástico da DC


Imagine que você é um garoto inglês de 13 anos, que descobre ser o potencial maior mago do universo. Ah, claro, também tem uma coruja!
Se você pensou em Harry Potter, se enganou completamente

Nunca havia entrado em contato com nenhuma obra de Neil Gaiman (nem mesmo Sandman). Ouvira falar bastante e muito bem no meio nerd sobre suas criações geniais e o quão foda esse cara é, por isso, fiquei deveras encucado, pois o estilo de Gaiman tem uma proposta que me identifico e me interesso bastante - sendo assim, resolvi finalmente começar a ler algo dele por meio de Os Livros da Magia. Mas minha descoberta de que ele é o autor dessa obra só veio posteriormente, meu interesse inicial veio por conta das comparações com Harry Potter. Há muito tempo, acredito desde que a obra-prima de J.K. Rowling foi lançada, se fala sobre essas inegáveis "semelhanças" entre as duas histórias e muito chegam a apontar o dedo e acusar como plágio. Enfim, para tirar qualquer conclusão sobre esse polêmico debate, eu teria que conferir por mim mesmo - e como um bom fã de Harry Potter, comecei a leitura "armado até os dentes"; pronto para criticar.

Um tipo de magia diferente

Primeira observação óbvia: Os Livros da Magia é adulto. Okay, isso todo mundo sabe, mas eu falo de outro tipo de maturidade. Uma obra pode conter sexo e problemáticas consideradas pesadas e mesmo assim, continuar sendo infantil ou superficial. A obra de Gaiman é profunda e extremamente complexa: os temas retratados são difíceis de serem abordados, pois são confusos demais - coisas como o bem e o mal, ganham uma nova faceta, típica do paganismo, exigindo do leitor uma cabeça aberta e nenhum compromisso com a linearidade. A magia é algo mais sombrio e psicológico, longe das demonstrações físicas características da literatura juvenil. Uma única ação que seja, exige uma importante reflexão sobre o valor de troca; a ação em si acontece mais nos vislumbres do futuro - a função da história é introduzir o leitor nas bases desse importante universo mágico, junto de Timothy Hunter.

Timothy é o arquétipo básico de aprendiz de mago - magro, franzino, com aparência nerd, um pouco deslocado e extremamente comum. Ele não tem noção de nada que está prestes a acontecer quando a "Brigada dos encapotados" lhe aborda na rua. A  Brigada é formada por notórios magos, tais como:  Vingador Fantasma, Doutor Oculto, Mister Io e o sucesso das gatinhas, John Constantine.
Tim é visado por estes, que percebem uma única coisa: seu potencial para ser o maior mago da era moderna. Entretanto, esse potencial provoca um embate: matá-lo ou arriscar orientá-lo? Para a sorte de Hunter, eles decidem orientá-lo, pois tamanho potencial não pode ser desperdiçado.


É nesse primeiro contato, dos magos com o garoto, que surge minha crítica: a personalidade de Tim é invisível. O garoto muitas vezes soa extremamente infantil e pouco aprofundado - temos uma aura sombria envolta do psicológico de cada mestre, mas o garoto mesmo é um "lousa branca". Em uma história juvenil, eu não veria grande problema, já que a função do protagonista não é necessariamente existir e se desenvolver, mas criar laços com o pequeno leitor, de modo que este possa se identificar. Mas, por se tratar de uma história madura para o público adulto, essa caracterização de Tim soa desconcertante e superficial, frente ao fantástico universo que nos é apresentado. O cuidado com os detalhes pormenores, visando juntar as diversas mitologias e usando muito bem das referências, tornam a história única em sua jornada para nos explicar "o que é magia?", mas o garoto, que deveria ter alguns problemas com isso tudo, se mostra um espectador; um boneco indiferente naquele contexto. Aos poucos essa situação muda bastante e, no último volume, o menino ganha novos contornos, finalmente "existindo" como ser independente - porém, quando essa independência chega, a história acaba.


História e muitas referências

Logo, diante dos magos e da aceitação do menino em partir na "jornada do conhecimento", a estrutura principal é apresentada: dividido em 4 volumes, o enredo tem como função levar um tipo de ensinamento em cada um. Assim, fica mais dinâmico compreender a história, pois, como já disse, o conceito em si já é deveras complexo, explicá-lo então, é uma tarefa quase impossível - mas Neil Gaiman é genial, pois deixa tudo claro sem abrir mão da subjetividade. Por exemplo, não é necessário explicitamente dizer qual o papel do bem e do mal, mas fica claro o tom cinza, principalmente durante as falas de Constantine: com seu característico sarcasmo, o inglês caçoa sobre ambos os lados - o céu e o inferno podem ser faces da mesma moeda.
O Vingador Fantasma é o primeiro mestre a dar aula. Sua intenção é puramente contar a história da magia, que se mistura de forma confundível com a humana. Passamos por diversos momentos, desde a época das cavernas à um jovem confuso mago, chamado Merlin. Fica claro mais ou menos como Gaiman trabalha - a mistura principal se baseia em três bases: magia, ciência e mitologia. O real, aquilo que conhecemos, facilmente tem uma explicação esotérica. Um grande exemplo é os primeiros momentos da história, quando vemos como o universo e a Terra foram formados, misturando a comum lenda judaico-cristã com a ciência - nenhum anula a outra, muito pelo contrário, se complementam de forma única.
Infelizmente, para a surpresa de Tim, todos os desfechos da história são trágicos. As forças do bem e do mal estão em contínuo embate e para que haja a sobreposição de uma sobre a outra, sacrifícios são necessários. Assim, temos o fim da misteriosa Atlântida ou o melancólico destino do jovem Merlin, que mesmo tendo consciência de seu futuro, nada pode fazer.

As ilustrações são estupendas, talvez um pouco estranhas, mas ainda sim incríveis. No primeiro volume, vemos um bom uso de páginas inteiras, principalmente para representar grandiosos momentos, como a queda dos anjos. Não sou apto a julgar desenhos, pois meu foco na maioria das vezes é roteiro (de vez em quando dou pitaco em outras coisas, mas o que tenho certa propriedade para falar é sobre a narrativa em si), entretanto, gostei muito da ideia de cada autor representar a mesma história. Assim, de acordo com cada tutor, temos emoções distintas, ainda que coerentes por conta do mesmo enredo.
A confusão se faz certa - Gaiman não é nenhum pouco didático e não acho que deveria ser; esse é um dos charmes da obra. Diversas informações são jogadas e aos poucos, você vai compreendendo qual a importância daquilo tudo - muitas vezes você acaba tendo que voltar e associar um conceito com outro para compreender melhor. Claro, é possível passar batido e fazer uma leitura superficial, mesmo assim tudo fará certo sentido. O importante é se deixar envolver, degustar cada página e fazer suas próprias teorias.


O Sarcasmo de Constantine

Se o primeiro volume é confuso, o segundo é uma loucura total. A primeira parte se faz "nonsense" por conta da quantidade de informações, mas com um pouco de calma, é possível ligar os fatos. O segundo ato é uma loucura, dessa vez não pela história da magia, mas pelo presente. Constantine surge como mestre da vez e com seu sarcasmo, apresenta a Tim os maiores magos da Terra. Passagens de tempo, como dia e noite, não fazem sentido nenhum, muito menos a aparição de certos personagens - o garoto chega a afirmar várias vezes como tudo aquilo é louco e confuso. Os desenhos nos permitem não só ver a história que decorre, mas entramos na pele de Timothy - se é  maluco para nós, imagina para ele?
Talvez a apreciação total da série como um todo, se dê mais para quem é fã do universo mágico da DC - até imagino como um dcnauta deve se sentir ao ver a união de tantos personagens e tantas referências, ali nas páginas. Mas essa indiretas, ainda que causem indagação, não atrapalham a magia da história, apenas restringem um pouco sua total apreciação.


O ponto alto se dá quando Tim encontra Zatana. Em certo momento, as viagens malucas de John cansam, mas é aí que surge a maga, para dar um pouco de "normalidade". Com mais paciência, ela apresenta alguns personagens e um pouco sobre a magia em si.
Boston Brad, um morto qualquer, surge a todo momento para alertar Tim dos perigos. Parece mais uma pegadinha e sinceramente não entendi bem sua função, mas mesmo este que não tem qualquer objetivo, soa coerente e para quem for mais detalhista, provavelmente notará alguma conexão - essa é a graça dos Livros da Magia; apesar de concreto, os acontecimentos e seus significados ficam todos em aberto, a mercê da interpretação do público.
Conclusão? Nunca confie em ninguém. Nem preciso repetir: bem e mal são a mesma coisa, depende do contexto e da situação. Isso fica bem claro na festa de dia das bruxas, onde mocinhos e vilões convivem juntos - mas todos ficam contra Tim, simplesmente por este ser um prêmio.

A Terra do Crepúsculo de Verão

O terceiro volume é mais conciso, ainda que aborde viagens malucas. Constantine sai de cena e entra o Doutor Oculto, um enigmático mago. Tá bom, todos são ~enigmáticos~, mas os dois últimos, em especial, tem até a faceta difícil de distinguir. Apesar de aparentemente parecer fechado, Oculto se revela um dos melhores professores, abordando em suas lições a dualidade do universo e apresentando os diversos mundos existentes. É por meio da Terra do Crepúsculo de Verão, Lar dos Elfos, Reino Encantado, Avalon ou o que seja, que Tim tem contato com outros mundos, totalmente diferentes do nosso, mas que mesmo assim podem nos influenciar. É uma antiga ideia da própria magia, que me lembrou As Crônicas de Nárnia - C.S. Lewis usa da fantasia para fazer alegorias ao cristianismo. Aqui, não temos nenhuma alegoria clara, mas a relação com a nossa realidade, principalmente quando o inferno é mostrado, se faz notável. Temos até uma pequena trama com reviravolta básica, nada de especial, entretanto, novamente, que traz importantes ensinamentos ao garoto. A estrutura da narrativa é previsível e acho que o próprio autor sabe disso, mas, o modo como as coisas acontecem é que dá o charme. A fragmentação não dá espaço para maiores desenvolvimentos, e isso é um pouco triste, pois muita coisa poderia ser melhor aproveitada - temos um picote para ir direto ao objetivo final, soando como um infanto-juvenil. Mesmo assim, isso não diminui a qualidade, apenas deixa um gosto de "quero mais" que não existe - talvez por isso posteriormente transformaram Os Livros da Magia em uma série gigante. Ainda não li essa continuação, mas deduzo que não deve ter metade da magia que há nesses 4 primeiros volumes - a personalidade do autor é única, por conta principalmente do modo que trabalha as referências; difícil reproduzir algo do tipo.


O desenho é simples, sendo também muito vívido, cheio de cores fortes e belas. Estamos diante de um universo puramente sombrio, mas há um lado mais bonito e fantasioso; digamos até  "puro" em toda sua luxúria.


Um vislumbre do futuro 


Por fim, depois de tantas viagens alucinóticas conhecendo a "real magia", sobra então conhecer o futuro. Mister Io, talvez o mais estranho dos quatro senhores, é quem conduzirá Timothy para o caminho do futuro. A diferença é que estes não são apenas espectadores, mas realmente podem participar e influenciar nos acontecimentos, dialogando com os diversos personagens que aparecem. A função é mostrar para Tim como suas ações podem influenciar e qual pode ser o destino dele e da Terra - vemos até mesmo sua versão mais velha do lado dos vilões. O mago deixa claro que o futuro em si é incerto, havendo dezenas de possibilidades e que aquela é só mais uma delas - não a mais provável, mas a que ele achou melhor mostrar para alertar. Hunter já havia visto coisas pesadas demais para uma criança, mas o impacto acaba sendo maior por se tratar de si mesmo, ali, orquestrando toda a carnificina.
Aos poucos, os dois vão avançando mais para o futuro. 10, 15 ou 20 anos? Que tal mil, um milhão e muito mais. De repente, surge uma mescla de ficção cientifica, principalmente pelo fato da própria explicação: a magia e a ciência se misturam como uma só e ninguém sabe mais distingui-las. A mágica primordial, aquela primitiva, deixa de existir, para dar lugar a total razão. O interessante é a semelhança com o passado: mesmo com tanto avanço, a humanidade parece repetir os mesmos erros, surgindo na HQ uma atmosfera melancólica. Não importa qual seja a época, guerras sempre serão o foco; o ser humano é curioso e ingênuo por natureza. No final dos tempos, as coisas vão desacelerando, a hipermetropia dominando e a tecnologia se esvaindo em nada. É irônico perceber o quão evoluído o ser humano se tornou, se autodestruindo e voltando para um aspecto primitivo e medieval.


Mister Io, em um primeiro momento, se mostra o mais "puro" de todos, defendendo abertamente apenas o lado da luz. O tom cinza mostra suas caras de novo quando o sujeito decide atacar Tim para transformá-lo no que ele acha certo - John e os outros tem suas loucuras e admitem as próprias imoralidades, mesmo assim, em nenhum momento pensam em fazer algum mal ao menino; muito pelo contrário. A ironia é o ser da luz, aquele que protege veementemente o "bem", ser o malvado - qualquer extremismo está atrelado à loucura, por isso o preto no branco inexiste na vida real.

Ao final, Timothy se vê diante de uma escolha e não sabe qual caminho seguir. Em um olhar superficial, a ideia pode soar manipuladora - não há "escolha", seria como se o universo decidisse por conta própria. Mas na verdade, a proposta é mais sutil e filosófica: o caminho do conhecimento é que não tem mais volta. O garoto se comprometeu no momento em que decidiu saber mais. Não é assim que funciona? No momento que você se questiona e decide pesquisar sobre determinado assunto, não há como voltar para a ignorância.

Conclusão

Os Livros da Magia é uma prazerosa leitura, cheia de referências, que não mede esforços para apresentar o universo mágico da DC. Poderia ser algo bem didático e chato, mostrando quem é quem na história, mas Neil usa da proposta para homenagear o arquétipo de aprendiz mago, nos imersando em um mundo onde a linha tênue entre o real e o metafísico não existe - basta acreditar para chegar lá.
A semelhança com Harry Potter fica apenas na aparência do protagonista, o resto é totalmente distinto. A crítica principal se volta para a pressa e confusão, que mesmo sendo benéficas na maior parte do tempo, construindo a subjetividade, deixa a história difícil de ser digerida em certos momentos. Ambiguidade em demasia atrapalha, mas isso não chega a ser um grande problema. Se tivesse mais paciência e claro, certas explicações além da ideia de apenas apresentar a magia, provavelmente seria uma obra genial. Em partes, a valorização dessa HQ é exagerada - ela é simples demais para cair nos derradeiros erros de narrativa e ao mesmo tempo, simples demais para ser maior ou importante.
Realmente, é uma boa porta de entrada para o universo de Neil Gaiman, contendo uma história única, ainda que exista a necessidade de ser mais extensa.

El Psy Congroo.
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