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Conversa Paralela #1: O amor e a diversidade de Steven Universo

Olá pessoas, bem-vindos ao primeiro Conversa Paralela!

As semelhanças entre Madoka e Fausto

Apesar de completamente distintas, as duas obras apresentam semelhanças inacreditáveis

A história de Fausto é uma conhecida lenda alemã, que ganhou atenção ao ser transformada em drama trágico por Goethe, no século 19. Puella Magi Madoka Mágica, entretanto, é um anime recente, lançado em 2011, roteirizado por Gen Urobochi (Saya no Uta, Fate/Zero, Psycho Pass). Em um primeiro momento, as duas histórias são completamente distintas: de um lado temos um clássico da literatura alemã, todo complexo, com diversas nuances e peculiaridades. Do outro, uma comum animação nipônica sobre garotas mágicas e suas eletrizantes lutas para combater o mal. Porém, ao analisar as duas histórias, percebemos significativas semelhanças, principalmente influências da obra-prima de Goethe em Madoka, resultando em um produto único, com certa singularidade.

Sempre soube da inspiração de Gen Urobochi em Fausto, mas nunca havia notado o quão parecida é sua história. Até por que, nunca havia assistido o filme ou lido o livro e sendo assim, somente recentemente pude apreciá-lo. Pensando nisso, decidi elaborar alguns tópicos básicos para traçar paralelos entre as duas obras.

As semelhanças entre Fausto e Madoka

1- Desconstrução de gênero

A lenda de Fausto por si só já evoca uma desconstrução da comum ideia cristã acerca de heróis e vilões. Agora, some isso à profunda poesia de Goethe - temos uma obra ambígua, com alta dualidade moral, mesmo que ainda enfatize o caminho do bem. Quando li a história, fiquei surpreso, pois essa desconstrução continua impactante; não é sempre que a decadência ou pessimismo social são enfatizados. Sendo assim, Fausto trás um personagem ingênuo, mas nenhum pouco santo e suscetível a se deixar levar pelos próprios erros. A influência principal é a história bíblica de Jó, porém, diferente deste, Fausto não tem Deus acima de tudo - apenas a si mesmo.
Madoka segue a mesma linha de estrutura narrativa. Do mesmo jeito que a obra alemã é permeada por clichês da época, o anime se concretiza usando das características básicas do Mahou Shoujo (garotas e roupas bonitinhas; amizade; capacidades sobre-humanas; a luta contra o mal; e etc), para subverter as expectativas do espectador, transformando o enredo em uma história realista. Mas realista não no sentido de ser crível (o conceito em si já é uma loucura), apenas da reação e atitudes das personagens serem coerentes com a nossa realidade.


E levando a trama adiante, temos como protagonista Madoka, uma ingênua menina que por mais que queira ajudar os outros (assim como Fausto), se vê maravilhada com a ideia de ser uma garota mágica. A diferença é que Fausto tem uma propensão à vaidade desmedida; o tal egocentrismo. Madoka, por outro lado, é simples e humilde demais, soando realmente como uma santa. O embate entre a vaidade e o desejo de ajudar o próximo, acaba então por se fazer presente nas outras personagens, que aos poucos invariavelmente se perdem, rumando para a própria destruição.

2- Mefistófeles e Kyubey
Talvez a semelhança mais óbvia seja entre o demônio Mephisto e o alienígena Kyubey. Ambos tem os próprios objetivos em mente e querem simplesmente corromper os personagens, utilizando até do mesmo artificio: contratos. É a assinatura, a aceitação, o nome dado como valor, que concretiza a relação. Temos também o sistema básico de realização de desejos: como um gênio da lampada, os dois fazem uma tentadora oferta, quase inacreditável, mas com um "porém" extremamente aterrador - a moeda de troca é a alma do indivíduo. Já dizia Aleister Crowley, "faça o que tu queres será o todo da lei", mas esse "querer" tem uma consequência. É o princípio básico da alquimia: as trocas só podem ser entre coisas de mesmo valor.
o demônio Mephisto
Sendo assim, com ideias fantasiosas em mente, os personagens inconsequentemente fazem os contratos e aos poucos vão se corrompendo. É dessa corrupção, essa maldade inerente do ser, que Kyubey e Mephisto se alimentam.
A diferença é clara: Kyubey tem toda uma explicação científica e apenas realiza as coisas de forma lógica, já que não tem nenhum sentimento. Mefistófeles é uma caricatura do diabo, se alimentando das problemáticas apenas por puro prazer. A corrupção moral e social de Madoka é o mal do século, a depressão, enquanto Fausto se preocupa com a libertinagem e os novos rumos que a humanidade irá tomar.

3- Margaret e Homura
Em um primeiro momento, Homura seria o equivalente a Margaret, ganhando sempre o ódio do demônio (ou Kyubey). Mas aqui, acredito que os papeis se invertam, pois por vezes, a garota se transmuta em Fausto, principalmente em relação a tentativa de retificar os próprios erros. Madoka é quem seria Gretchen, a moça pura, que está além de qualquer outro poder sobrenatural. Mas, como eu disse, os papéis se invertem bastante, principalmente depois da revelação de que Homura é uma viajante do tempo.
No começo, não só pelo fato de serem protagonistas, mas principalmente pela visão "cansada" que têm do mundo, Madoka e Fausto se assemelham. A melancolia e a ambição de uma vida melhor, fazem seus ideais.
Enfim, independente qual seria o papel de quem, o próximo tópico acaba evidenciando essa relação de erros e santidade, que eleva o "casal principal".

4- Salvação divina
O teor lésbico de Madoka não é a toa. Fica bem explícito como o final é parecido com o do casal Fausto e Margaret - ao se redimir, a jovem camponesa mostra sua pureza e é salva por Deus. Fausto, posteriormente, por conta do amor, se livra do contrato com satã e ascende para encontrar a amada. O que acontece no final do anime? Madoka consegue ir além das expectativas de Kyubey, se tornando uma deusa. A cena com Homura, depois de tantos problemas enfrentados, evidencia: enfim, elas encontraram a paz divina.


5- Trechos de Fausto
Por fim, para corroborar todas as suspeitas, grande foi a minha surpresa ao saber que existem referências diretas à Fausto no anime. Como assim diretas? - ora, diretas mesmo, do tipo, trechos do épico poema escondidos em paredes, falas e runas.
Isso me faz reavaliar sobre qual foi a intenção de Gen Urobochi. Alguns diriam que foi "plágio", mas isso, pelo menos para mim, só tornou a ideia da obra mais foda. Não tiveram medo de deixar explícito essa influência e é como se dissessem: "olha, a nossa ideia foi: e se a história de Fausto fosse um Mahou Shoujo?". É um conceito de outro mundo, totalmente maluco, mas que deu super certo. Deste modo conseguiram readaptar para a atualidade a lenda alemã, sem deixar de ser original. O problema é que o livro de Goethe tem uma resolução maniqueísta, típica de uma história da época - ao seguir essa resolução, Puella Magi desvaloriza e suaviza parte do enredo profundo que criou. Veja bem, Fausto é genial, mas levando em conta o contexto onde foi lançado. Salvação divina é tão manjado (em termos narrativo), que ninguém esperava algo do tipo em uma história tão cinza quanto Madoka. Mas enfim, ainda sim, não deixa de ser uma bela homenagem.
Você tinha notado todas essas semelhanças?
Segue abaixo um pouco das referências visuais contidas no anime:

- logo no inicio, aparece uma enigmática imagem escrita com runas. Essas runas, ao serem decodificadas, revelam a frase: "Prolog im himmel", basicamente a mesma que dá incio ao livro Fausto (seria algo como, "prólogo no céu").

- Quando Madoka e Sayaka escapam de Homura, os "Anthonies" (aqueles bichinhos estranhos de bigode que ficam voando) começam a falar ou cantar as runas mágicas, que são frases de "Hexeneinmaleins". Esse é o feitiço que uma das bruxas mostra a Fausto quando este a visita.


-  No episódio 2, citações de Fausto são encontradas na parede de um prédio abandonado.

- O Hexeneinmaleins é um dos documentos apresentados na casa de Homura.

- No episódio 10, é revelado o nome bruxa de Madoka: Kriemhild Gretchen. Isso, novamente, corrobora a ideia de que ela seja Gretchen e Homura, Fausto. Mas, como eu disse, esses papéis sempre estão se invertendo.

Bom, tem muito mais indicações, muitas mesmo. Algumas óbvias e outras subliminares, fazendo uma mistureba de conceitos. Sinceramente, não esperava que Madoka seguisse tão a risca a estrutura narrativa de Fausto, mas é interessante essa reimaginação de uma clássica história alemã, em um gênero tipicamente "bonitinho" e oriental.

El Psy Congroo.

Referências:
http://wiki.puella-magi.net/Puella_Magi_Madoka_Magica_Official_Guidebook_%22You_Are_Not_Alone%22
https://wiki.puella-magi.net/Speculah:Madoka_Magica_and_Faust
https://en.wikipedia.org/wiki/Works_based_on_Faust
- The Truth about Madoka
http://es.madokamagica.wikia.com/wiki/Teor%C3%ADas/Madoka_Magica_y_Fausto
- As Runas de Madoka Mágica
https://pt.wikipedia.org/wiki/Fausto
https://pt.wikipedia.org/wiki/A_Tr%C3%A1gica_Hist%C3%B3ria_do_Doutor_Fausto
http://apsiqueeomundo.blogspot.com.br/2012/05/o-drama-alquimico-do-fausto-de-goethe.html
https://felipepimenta.com/2014/08/03/resenha-fausto-i-e-ii-de-goethe/
https://pt.wikipedia.org/wiki/Fausto_(Goethe)

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