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Destaques

Steven Universo: reflexões sobre o papel educacional de um desenho

Vivemos em um mundo de conflito, onde olhamos primeiro as diferenças e depois as semelhanças. Por essas e outras eu fico feliz de ter assistido quando criança desenhos que falavam sobre alguém excluído por ser diferente. E por causa disso acredito que Steven Universo, entre outros desenhos atuais, são mais do que recomendáveis para crianças e para qualquer um, pois eles possuem uma mensagem que pode potencialmente melhorar o caráter de alguém.

A profunda viagem aos confins do inconsciente de Aurora [NSFW]

Filme lituano usa das teorias freudianas para levar o espectador a uma experiência surreal sobre o conceito de consciência

A proposta de Vanishing Waves não é nenhum pouco inovadora. Desde o Gabinete do Dr. Caligari, a mente humana vem sendo abordada de forma surreal nos cinemas. Como se esquecer do clássico Um Cão Andaluz? Projeto idealizado por Salvador Dalí, que até hoje permanece perturbador. E claro, logo surge a comparação óbvia: Inception (A Origem). Os dois filmes tem a mesma proposta, mas abordagens completamente diferentes, que torna o desenrolar dos fatos em assuntos desconexos.

Enredo e personagens

Lukas é um cientista aparentemente bem sucedido que embarca em uma curiosa missão: adentrar a mente de Aurora. O objetivo que lhe é dado não é nenhum pouco heróico ou aventuresco - apenas deve realizar contato com a mulher e assim, relatar como observador o que presencia, gerando dados para a pesquisa. Aurora está em coma e por isso serve como perfeita cobaia, ao mesmo tempo empecilho, já que sua mente é bloqueada tanto pelo acidente que sofreu, quanto pelos traumas que carrega. 
Sendo assim, em um primeiro olhar, Vanishing Waves não é de todo estranho. Sua estrutura narrativa é direta e até previsível. Desde o começo, Lukas demonstra certos problemas relacionados ao seu casamento, estando sempre um tanto quanto distante. Essa distância, porém, se torna um grande problema, que cresce aos poucos na trama: se em um primeiro momento a intenção é dar lhe um aspecto de frieza,  posteriormente isso se torna incoerência e falta de tridimensionalidade. 

Okay, estou falando complicado, então deixa eu voltar para a descrição da trama, que logo  vocês vão entender:
Lukas se apaixona por sua paciente. Mas claro, não é uma paciente comum, ora bolas - é uma mulher em coma, que não consegue nem se expressar. Ao visitar o universo surreal do inconsciente da moça, o homem se torna viciado nessa interação e por isso, vira refém dos próprios sentimentos, planejando até mesmo salvá-la.














Esse conceito, para mim, já se torna o primeiro problema da história. É como se a ideia de adentrar a mente de um ser humano não fosse o bastante para sustentar o roteiro. Portanto, a discrepância com A Origem começa aqui: o filme de Christopher Nolan se foca na problemática de invadir a mente de outras pessoas, implantar ideias e como o protagonista será afetado. Dom quer fugir dessa louca aventura onírica que lhe tirou a pessoa que tanto amava. Lukas parte do princípio contrário: ele quer estar cada dia mais perto de Aurora. Mas ao invés do longa se focar no desenvolvimento e representação do inconsciente, prefere enfatizar um romance tedioso, sem pé nem cabeça, que estando nas loucuras da mente freudiana, faz certo sentido, contudo, quando é levado para o mundo real, torna o protagonista num psicopata.
É visível como o roteiro não tem objetivo. Em certo momento, podemos associar isso com o raciocínio humano, que realmente não tem pé nem cabeça ("o ser humano não é racional, mas racionalizante"), entretanto, o real se faz necessário para haver equilíbrio e contraste entre os dois mundos. Enquanto representação cinematográfica das ideias de Freud, o filme se sai muito bem e até mesmo genial, dando visão para coisas que dificilmente são expressadas. Porém, enquanto ficção e história, a obra é fraca, com uma clara confusão de ideias e forçações de barra. O problema não se encontra no conceito, nem na estrutura do enredo, mas nos personagens - estes que deveriam ser maior objeto de estudo, soam inconstantes e superficiais; como se não houvesse tempo suficiente para contar suas histórias.

Visual e representação do inconsciente

Levar as teorias de Freud como principal conduta acadêmica, é um tiro no pé para qualquer pesquisador que se preze. Entretanto, estando no âmbito artístico, as teorias do psicanalista se tornam totalmente viáveis por conta da interpretação em aberto. Ora, qual o princípio básico das relações humanas se não as necessidades?
E são essas necessidades que permeiam toda a representação do inconsciente durante o longa. O que é o amor? Dominação? Desejo? - ninguém sabe ao certo, mas Vanishing Waves tem a audácia de mostrar os confins mais obscuros da mente humana, com toda sua necessidade de contato - são os cinco sentidos e as percepções básicas, sempre em atrito com a conduta social, que formam o ser. Em determinados momentos, essa representação pode parecer maluca - como quando Aurora e Lukas se envolvem de forma agressiva enquanto comem. Analisando logicamente, faz todo sentido: as percepções de Aurora estão bloqueadas e assim, ela não consegue sentir nada. Lukas, por outro lado, sente tudo e está viciado nessa interação. Sem comedimento e estando na raiz dos traumas, o resultado não poderia ser outro: uma busca incessante por sentimentos e sensações, muitas vezes bizarras. Portanto, o filme usa o melhor exemplo - diferentes tipos de comida. Cada qual com sua própria textura, elas envolvem os personagens de forma quase hipnótica. Excluindo o ego e o superego (fases da consciência criadas principalmente pela interação com a sociedade), sobra um amontado de memórias e sensações, que vem e vão no louco mar de pensamentos.









Para completar essa ideia muito bem executada, sutilmente existe uma critica à racionalidade exacerbada - a tal lógica Cartesiana. Os neurocientistas apenas veem pontos na tela e números, enquanto Lukas tem uma incrível experiência, quase indescritível, que muda toda sua concepção de mundo. É esse lado, mais emotivo e inexplorado, que o filme tenta representar, sem parecer galhofa , conseguindo casar bem com a racionalidade, sem se perder da influência freudiana.
Nesse ponto, o longa se sai muito melhor que A Origem. Ao arquitetar uma trama de assalto peculiar, o filme de Christopher Nolan esquece dos problemas básicos da mente. Não é erro, mas apenas uma representação inverossímil do que realmente acontece (não que haja algum consenso e certeza de como é formada a consciência).

Outra relação pertinente, que notei a todo momento, foi com o filme Paprika (ótima animação da Madhouse, lançada em 2009). Com a mesma proposta, a obra também tenta unir esses dois lados, neurociência e psicanálise, de forma altamente conceitual e artística. A diferença é que Paprika tem um resultado muito melhor, por justamente não perder tempo com romances desnecessários, que não tem bases para qualquer desenvolvimento. Ao mesmo tempo que a relação de Lukas e Aurora é quem conduz o enredo, é ela quem descompassa tudo e destrói a importância dos personagens. Para ser mais exato, principalmente do protagonista, que acaba por não ter expressão suficiente, nem tridimensionalidade. Não sabemos em nenhum momento por que e com que objetivo Lukas está fazendo tudo aquilo. O relativismo e alta densidade do enredo, se tornam adversidades para a apreciação da obra, enquanto ressaltam em cada minuto a originalidade.


Esse conceito de incerteza funciona se há uma finalidade narrativa: como quando descobrimos no Gabinete do Dr. Caligari que tudo não passa das alucinações de um paciente preso num hospital psiquiátrico. Aqui, não há nenhuma reviravolta, fica tudo na base da interpretação. Essa abertura à interpretação é válida e genial se tratando dos traumas de Aurora - quem é o homem que está sempre observando? O grande empecilho é quando a louca simbolização confunde a narrativa e adentra a história acerca do real - aí não faz sentido nenhum as atitudes do protagonista e não há nenhuma ligação dele com o espectador. Não nos identificamos; não amamos e nem odiamos.
O principal exemplo dessas incoerências, é o simples fato do cara ser um renomado cientista, que está fazendo o projeto de sua vida, e preferir jogar tudo fora por uma aventura alucinótica que ele, como acadêmico, tem plena consciência da loucura que é. Sendo assim, diversas vezes lhe é dito para NÃO ENTRAR EM CONTATO com a paciente; e qual a primeira coisa que ele faz? Entra em contato com a paciente.


Atuações
Só pelo fato dos atores aceitarem realizar determinadas cenas, já merecem elogios e destaque. Aurora não é um filme fácil; é deveras denso, com a sexualidade salientada a todo momento. E para piorar, não é a sexualidade comum - mas aquela loucura onírica onde ninguém sabe exatamente do que se trata. Apesar do roteiro confuso que torna Lukas uma figura fria, Marius Jampolskis consegue maestralmente encarnar na persona de homem transtornado e carente, nos conduzindo à essa curiosa imersão, principalmente por meio de suas expressões. Mas o grande trunfo e maior destaque é Julga Jutaite, interprete de Aurora. A personagem tem pouquíssimas falas, contudo, basta suas ações e reações para entendermos quem é. Deste modo, a direção acaba casando muito bem e a boa execução do desenrolar dos acontecimentos, muitas vezes se deve não à narrativa em si, mas a toda ambientação que os atores conseguem passar em cena. Com isso, fica perceptível certos elementos que remetem ao teatro, principalmente na escolha de ambientes mais fechados e estáticos. O filme se torna uma reconstrução interessantíssima das memórias da paciente, lembrando Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, mas com uma densidade e simbolização radicalmente profunda.














Conclusão
Vanishing Waves é uma peculiar ficção cientifica com tons de thriller, que visa contar a história de um romance surreal., diretamente dos confins da mente humana. Sua densidade é tão profunda, que não existe resposta certa para nada: tudo é um convite à reflexão, resultando em uma experiência alucinótica e esclarecedora sobre quem somos. Porém, mesmo com todo esse relativismo, o filme não foge de problemas importantes de roteiro.
Ao todo, é uma boa obra, que poderia ser ótima, mas que não deixa de ter diversos aspectos geniais, que geralmente não vemos em nenhuma outra produção. A fotografia, talvez um dos melhores pontos junto das atuações, é minimalista e a trilha sonora, estupenda. Ao fim, quando toda essa jornada acaba, ficamos estarrecidos - é tudo muito corrido, sem fôlego para maiores construções. Isso se converte em um final tenso e impactante, entretanto, confuso. Enquanto narrativa, Aurora termina mediano, talvez fraco, mas enquanto exercício de direção, é um dos melhores longas que tive o prazer de assistir, fazendo referências claras e subjetivas a diversos conceitos, seja da arte ou da psicologia, sem deixar de ser original.

El Psy Congroo.


Nome: Aurora (Vanishing Waves)

Ano: 2013 

Direção: Kristina Buozyte

Roteiro: Kristina Buozyte e Bruno Samper

Gênero: ficção científica, drama

Elenco: Marius Jampolskis, Jurga Jutaite

Nota: ★ ★ ★ ★ ★ (80/100)

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