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Steven Universo: reflexões sobre o papel educacional de um desenho

Vivemos em um mundo de conflito, onde olhamos primeiro as diferenças e depois as semelhanças. Por essas e outras eu fico feliz de ter assistido quando criança desenhos que falavam sobre alguém excluído por ser diferente. E por causa disso acredito que Steven Universo, entre outros desenhos atuais, são mais do que recomendáveis para crianças e para qualquer um, pois eles possuem uma mensagem que pode potencialmente melhorar o caráter de alguém.

O romantismo exagerado de Bakuman

Mangá dos mesmos criadores de Death Note tem proposta inovadora, mas revela a dificuldade dos autores em criar personagens femininas

Bakuman é um mangá certamente diferente. A proposta inicial logo chama atenção: um mangá sobre mangás. A metalinguística não só é peça fundamental, como é muito bem usada durante todos os 20 volumes. Não estamos somente vendo como se faz um gibi, mas acompanhando a aventura de dois adolescentes frente aos desafios da vida adulta - mais uma vez Tsugumi Ohba e Takeshi Obata inovam na construção do shounen. Como o próprio Takagi diz durante a publicação de PCP: "uma batalha pode ser não só física, mas mental". E é exatamente o que vemos em cada página; a mesma proposta encontrada em Death Note, mas de forma cômica e dramática - uma revitalização e transformação do mesmo conceito.


Eu poderia passar horas rasgando elogios à Bakuman, mas algo diferente me chamou atenção: o papel feminino. Quando comecei a ler o mangá, lá com meus 14 anos, não percebi diversas nuances pela qual a própria obra se faz notável. Agora, em uma segunda lida, noto alguns problemas, já comentados por muitos fãs, mas que quero destacar. Uma grande ironia não é mesmo? O mangá é inocente em seu inicio, propondo uma obra sobre como fazer obras, mas ao mostrar como tudo é feito, capacita o leitor a criticar. Em síntese, estou criticando o mangá, que fala de como fazer mangás e critica outros mangás. Confuso? Bom, vamos lá.

O romantismo exagerado de Bakuman


Mashiro Moritaka é um garoto comum que encontra o sentido da vida no ato de desenhar. Mas não somente isso, sua carreira está envolta de uma singular promessa: se casar com Miho Azuki, sua colega de classe. Mashiro e Azuki nunca conversaram mais que cinco minutos e nem mesmo tinham qualquer coisa em comum que os levasse a uma relação profunda - mesmo assim, por meio de olhares, se apaixonaram loucamente ao ponto de se guardarem até o casamento.
Parece surreal? Sim, com certeza. Esse é o romance principal que move a trama. Inicialmente, nunca entendi seu sentido - em um primeiro momento, parecia uma brincadeira juvenil, mas aos poucos, conforme os capítulos avançavam, o conceito de amor foi se aprofundando e se levando a sério. Sempre foi uma ideia descartável, pelo menos para mim, mas que só agora pude entender o significado: o casamento é o que leva a trama adiante. Talvez um conceito infantil e meio estúpido, porém, analisando mercadologicamente, genial.
Pois veja bem: ao introduzir na trama uma promessa distante e fantasiosa, existe um pontapé; uma segurança que sustenta os posteriores capítulos. Por mais que determinado arco esteja ruim, você quer acompanhá-lo para saber como irá acrescentar naquela ideia inicial - qual será o desfecho? É o mesmo conceito usado em One Piece, Naruto e 90% dos shounens. Ou seja, Bakuman usa dos clichês e da estrutura principal da própria Shounen Jump, para formar sua história. Imagine um problema, sem monstros ou poderes, capaz de desafiar a vida real? Casamento me parece uma boa ideia. É uma das várias evoluções (ou desevolução?) da vida humana.
Então, temos uma problemática do dia-a-dia com toques de surrealidade em sua representação, para ganhar dinamismo e atenção. Sendo assim, querendo ou não, soa galhofa. Por se tratar de adolescentes, o ridículo é compreensível, mas a ideia como um todo, por mais explicada e envolvente, é infantil. Mesmo assim, compramos a ideia: "ok, Mashiro e Azuki com seu romance exagerado, levará a história para algum lugar".
Entretanto, apesar de ser uma proposta corajosa, escolher um romance como bote salva-vidas não é tão bom assim. A não ser que você seja um gênio que consegue mesclar drama, comédia e romance sem parecer forçado, dificilmente essa ideia terá retorno: este é o caso da dupla Ohba e Obata.

"momento em que os pombinhos se encaram"

Qual o elo fraco de Death Note?
Além da clara tentativa de alongamento desnecessário, o principal problema são as relações pessoais. Enquanto um mangá de mistério e ação, DN se sai muito bem, mas no momento em que existe a necessidade de abordar humanamente seus personagens, soa superficial e infantil. Este é o mesmo problema de Bakuman? Sim e não. Claro que é uma deficiência de Tsugumi Ohba, mas que ele consegue superar - apesar de certas vezes parecer surreal e forçado, as relações pessoais, se tratando da amizade, são muito bem desenvolvidas dentro da comédia e posterior drama. Uma grata surpresa, pois ninguém esperava que o roteirista conseguisse se sair tão bem em um gênero tão diferente. Mas aí que está o grande porém: tudo isso se dá dentro do estereótipo japonês; o bromance entre rivais.
Então, vamos voltar: qual o pontapé que sustenta a história? O relacionamento entre Mashiro e Azuki.
Não faz parte do estereótipo masculino, e agora?
É aí que surgem os problemas.


Devo enfatizar: o problema não é o conceito em si. Como já disse, ele é forçado, mas facilmente compramos a ideia. A deficiência está no desenvolvimento - de repente, falar sobre Miho e Moritaka se torna uma obrigação, que analisando o todo, torna-se descartável enquanto DEVE ser abordada. Agora some ao fato de Ohba não ter nenhum tato para representar essas situações "constrangedoras"; e para piorar, nenhuma noção sobre como abordar a personalidade feminina. Death Note é um reduto de homens batalhando mentalmente, enquanto no meio existe Misa Amane, uma garota que só serve como escrava de Raito.
Bom, isso é um problema de abordagem: Tsugumi não sabe falar daquilo que não lhe interessa ou não está em seu meio.
Porém, eu digo mais: é um empecilho consciente e optativo. Como assim?
A dupla sabe de suas limitações, mas também tem consciência daquilo que agrada. Em uma cena, quando Kaya, namorada de Takagi, tenta oferecer ajuda, ela diz mais ou menos isso: "eu posso ajudá-los a fazer a heroína, já que sou uma mulher", no que o roteirista imediatamente rebate: " não precisamos de uma heroín realista. É uma revista shounen. Só precisamos criar uma garota idealizada pelos garotos". Aqui fica perceptível: a ideia do romance de Mashiro e Azuki é consciente e calculada. Não há necessidade de se abordar coerentemente uma história de amor em uma revista shounen. É PARA MENINOS, basta usar a idealização masculina. Sendo assim, qual o sonho de qualquer otaku? Conhecer uma garota linda e maravilhosa, que tenha certa afinidade com as mesmas coisas que ele, seja totalmente fiel e goste somente dele, vivendo para ele.
É isso que atrai o público: soa deveras estranho para nós - ocidentais brasileiros. Mas não vamos esquecer que é para o público japonês e portanto, certas condutas, por mais distorcidas da realidade, tornam-se normais. Dentro disso, surge a tal dualidade que denigre a própria obra: há o desenvolvimento da jornada do herói na criação do mangá, enquanto obrigatoriamente precisa falar de um romance descartável.


Bakuman é machista. E muito. Por lidar com os clichês da estrutura do shounen, se prende a ideias antiquadas. Temos três tipos de personagens femininas: a enérgica moleca (Kaya), a bonita e bobinha (Azuki) e a inteligente (Iwase). Não preciso dizer que a construção delas se baseia em estereótipos, mas o problema em si está em suas representações: todas são muletas. Suas problemáticas então, revelam apenas a "frágil natureza feminina". Kaya é Misa em pessoa - personalidades diferentes, mas atitudes parecidas. A garota é ótima em esportes, mas seu sonho está em ajudar a realizar o sonho da dupla Ashirogi. Nada contra, porém não vejo nenhum personagem masculino agindo do mesmo jeito e se agisse, seria considerado totalmente infantil - até o mais "idiota" dos amigos, Nakai, mostra força de vontade para realizar os próprios objetivos.


Em suma, Bakuman é uma história de cavaleiros e princesas. Foco nas incríveis aventuras dos templários e depois, uma pincelada apenas para mostrar as neuroses femininas. Ohba poderia fazer muito melhor e até tenta, mas sempre volta para o derradeiro clichê. É extremamente interessante parte dos questionamentos da Miho: "Preciso realmente vender meu corpo para ser bem sucedida como dubladora?". Esse é um problema real que afronta a indústria japonesa e causa depressão em qualquer garota de 16 anos. Mas tudo é jogado fora em prol do grande romance - novamente, apenas muleta. Esse exemplo se estende várias vezes, irritando fortemente. E quando achamos que pode ser apenas indiferença, o mangá nos mostra a total consciência dos autores.

O final, evidencia essa confusão de abordagem. No último capítulo, o foco se dá no casal, e não nos diversos personagens e enredos. Como assim? A promessa sempre foi uma ideia para sustentar o mangá, nunca sendo devidamente desenvolvida, seja por razões mercadológicas ou apenas incapacidade de Ohba. Em certo ponto, ela se transforma em segundo, até terceiro, plano. Mas, como já dito, por obrigação, volta sendo protagonista e encerra a fantasia melosa. Quando Mashiro beija Azuki, apesar disso significar o desenvolvimento de ambos, sinto que só ele está ali. Se Miho fosse apagada e toda a obra fosse Takagi e Moritaka fazendo mangás, não faria diferença. A garota me soou vazia; assim como o carro, apenas um objeto de realização.
Ironicamente, um  dos sonhos dos garotos era criar uma heroína icônica. Em Bakuman não existe heroína, nem mesmo aquela típica dos shounens. Todas as mulheres são personagens bidimensionais com características e atitudes previsíveis. Qualquer profundidade é negligenciada, igualmente com a gloriosa ideia de mudar a Jump. Problema cultural? Dessa vez, acho que não.


El Psy Congroo.

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