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Destaques

Steven Universo: reflexões sobre o papel educacional de um desenho

Vivemos em um mundo de conflito, onde olhamos primeiro as diferenças e depois as semelhanças. Por essas e outras eu fico feliz de ter assistido quando criança desenhos que falavam sobre alguém excluído por ser diferente. E por causa disso acredito que Steven Universo, entre outros desenhos atuais, são mais do que recomendáveis para crianças e para qualquer um, pois eles possuem uma mensagem que pode potencialmente melhorar o caráter de alguém.

Good Ending e o romance juvenil

Romance peculiar fala de assuntos que a maioria evita, mas infelizmente se afunda num abismo criado por decisões estranhas

Good Ending possui uma característica bastante peculiar: ele se parece com um romance ecchi, porém foi feito por uma mulher. Inicialmente é isso que me chamou a atenção nesta obra, os clichês idiotas de romance shounen ganham uma profundidade maior em suas mãos. Não posso afirmar que isso se dá graças a ela ser mulher, mas com certeza deve ter influenciado de alguma maneira.

Inicialmente a premissa de Good Ending é superficial como todo romance barato tem que ser. Seiji Utsumi se apaixona pela capitã do clube de tênis Shou Iketani, mas ele é um banana e não consegue nem conversar direito com uma mulher. Isso fica tão claro, que Yuki Kurokawa, outra membro do clube de tênis, percebe nitidamente a paixão do protagonista e decide ajudá-lo por capricho. Até aqui ainda estamos no terreno do ecchi idiota, o interessante é o que vem a seguir.



Através dos conselhos de Yuki, o banana Utsumi começa a aprender as melhores formas de interagir com uma mulher. O cara até que leva jeito, consegue se engraçar com a Sho e marcar encontros, até chegar num ponto em que eles estavam muito próximos de realmente começar alguma coisa - mas sempre tem um "porém". Essa é uma característica que eu gosto na escrita da autora, é raro ela mostrar as situações de uma perspectiva unilateral: Utsumi gosta de Sho, mas ela também tem a vida dela, a primeira vista já teve seus romances e suas dificuldades com eles. Para Utsumi, ela poderia ser prioridade, entretanto para Sho não funciona assim. A garota costumava amar seu senpai, foi seu primeiro amor e neste momento da história, ele volta querendo algo com ela. Por consequência, ela grosseiramente descarta o que tinha com Utsumi para ir com seu senpai. Temos então o primeiro vislumbre do maior ponto positivo dessa autora - ela constrói situações que passam uma sensação real, a atitude da Sho pode ter sido coisa de filha da puta, mas foi totalmente coerente, e a autora deixa claro que ela não se torna necessariamente alguém ruim por isso. Quem não faria o mesmo nessa situação? Mas o fato é: Utsumi fica arrasado e Yuki, que antes o ajudava por capricho, agora o estava consolando. Ela havia se tornado sua amiga e já tinha um certo apreço por ele, e isso o comoveu, fazendo-o ver Yuki como algo além do seu cupido pessoal.


A partir daí o mangá teve vários altos e baixos, situações muito superficiais e totalmente descartáveis e outras muito bem feitas. Yuki é conhecida como uma das mulheres mais bonitas da escola, enquanto Utsumi tem noção que ele era até há um tempo atrás nada mais que um frangote. Ele se sente inferior nessa relação e pra tentar fazer se colocar em igualdade com ela, Utsumi tenta mudar. Muita gente fala que não se deve alterar seu modo de ser pelos outros, principalmente no amor, mas nem todo caso em que isso acontece a mudança é ruim, principalmente com o nosso protagonista em questão. Ele se tornou um homem confiante, sem todo aquele embaraço sem sentido de não conseguir nem tocar em uma mulher, além de começar a refletir e decidir o que fazer no seu futuro, o que ele via como a coisa mais importante, pois sabia que Yuki iria fazer faculdade de medicina. Depois de tanto amadurecimento, Yuki cai na dele. Gosto de pensar que os conselhos de Yuki transformaram Utsumi num homem atraente para ela, é quase impossível você definir um bom parceiro sem colocar seu gosto pessoal no meio.



Mas sempre existe um "porém"... não tenho a intenção de ser ofensivo, porém Sasuga Kei ao meu ver é uma escritora covarde. Ela cria um contexto detalhado e coerente, leva ele para situações adultas e complexas e depois corre dele para voltar com um contexto infantil e sem sentido. O namoro dos dois já estava num nível com uma tensão sexual alta e o rala e rola iria acontecer, só que para entrar de obstáculo na sua relação, a autora inseriu uma espécie de trauma no passado da Yuki. Se fosse algo como um estupro eu até entenderia, mas não. Ela tinha um namorado que também era seu amigo de infância, eles viviam juntos e felizes, tanto que meninos com inveja plantaram uma insegurança nele acerca de relações sexuais, coisas idiotas como "se ela gosta de você tem que liberar!" e falaram pra ele usar uma sala vazia da escola para perder a virgindade. Ele foi lá e convenceu Yuki a fazer  o ato, mal sabia ele que os meninos filmaram de longe a coisa acontecendo, o que gerou um escândalo na escola. Imagino que uma coisa dessas acontecendo com você seja horrível, gere aversão social, desconfiança com todos e outros problemas sociais, porém Yuki não tinha nada disso, ela era uma pessoa normal, só que quando ela tirava a roupa pra iniciar o coito, por alguma razão ela reagia como se fosse uma vítima de estupro, entrando em choque e ficando em posição defensiva - basicamente, perdia a razão momentaneamente. Utsumi, como já era um homem de respeito, disse a ela que tudo bem, juntos eles conseguiriam superar isso, e que ele conseguiria segurar sua libido porque a relação deles era mais importante que isso - o problema é a reação da Yuki: ela se sente tão culpada por não poder transar com o cara, que decide terminar o namoro para que Utsumi possa achar uma parceira melhor. Ela fez a escolha mais imbecil dada a situação, levando em conta que ela ainda gostava do Utsumi. Quando uma pessoa diz que se esforçaria por você a pontos inimagináveis e você corta relações com ela porque se sente como um estorvo, é como se você estivesse ignorando o que essa pessoa sente por ti. Eu entendo isso numa relação superficial, mas a porra da narrativa mostrava toda hora que eles se gostavam de verdade, não era um amor idiota a primeira vista, eles foram amigos antes de namorados, se conheciam bem, estavam bem juntos. É uma situação muito bagunçada que Sasuga Kei criou para esses dois, e eu entenderia a reação de Yuki se ela fosse uma personagem estabanada, que seu psicológico girasse em torno de sua falta de compreensão social ou algo assim, mas não, Yuki sempre é retratada como a personagem mais inteligente de toda a história, e aí você quer que eu leve a sério uma decisão burra dessas?

Menina que porra é essa?

Após esse circo sem sentido, o mangá entra na vibe inicial de parecer com um romance mais bobinho e clichê. Utsumi estava logicamente correto nessa situação e fica muito tempo tentando convencer Yuki de que ele é um homem capaz de lidar com qualquer bagagem emocional que ela trouxer ao relacionamento. Essa parte parece que existe mais para mostrar situações fofas e desenvolver uma personagem bastante forçada no enredo. Existe uma terceira menina que não mencionei até agora por a considerar dispensável. Ela gosta do Utsumi, mas ele nunca da bola, então ela fica correndo atrás dele igual uma idiota a história toda.
Voltando ao que importa, após todos seus esforços, Yuki ainda estava inflexível. A razão que os levou a essa situação foi imbecil, mas nesse momento a reação do Utsumi ficou profunda. Podemos argumentar que foi exagerada e muito surreal, mas eu prefiro dizer que foi uma exceção a forma como as pessoas reagem a isso. Até um tempo atrás ele era um cara que não sabia de nada e agora já foi deixado de lado por duas meninas que ele pensou gostar bastante. Utsumi sofre bastante com isso, porque ele é incapaz de culpar elas. Isso é um mal de pessoas inexperientes, relacionamentos são feitos por duas pessoas, difícil a culpa de algo ser só de um, e nesse caso ele tentou fazer tudo que pode pra evitar, mas Yuki preferiu dessa forma.



O emocional dele fica todo quebrado, construindo terreno pra melhor parte de todo o enredo. Lembram da Sho? Ele a encontrou várias vezes enquanto namorava Yuki, não tinha ressentimento e até se preocupava com ela, pois o senpai com quem ela foi namorar não a tratava muito bem. Para ele, a Sho era só uma diversão, um estepe pra brincar porque sua namorada oficial estava o traindo. Ela acabou entrando em depressão e se culpava muito pelo que fez com Utsumi, e o garoto foi muito importante para essa recuperação dela, dizendo que não a culpava, que apesar de tudo ela era uma mulher boa. O que ela não esperava é que a pessoa que ela conheceu como um garoto, voltasse pra ela como um homem, o que a fez se encantar mais ainda do que no início do mangá. Mas a culpa não a deixava expressar nenhum desses sentimentos, ela não se sentia no direito de tentar algo com o homem que uma vez arrasou, entretanto, quando outra mulher arrasou ele, Sho não conseguiu ficar parada e tentou ajudar. Nesse momento, ela oferecia algo que pra ele nessa história toda lhe foi privado: conforto. Pela primeira vez parecia que Utsumi poderia começar uma relação estável sem todo esse teatro que o fez sofrer até agora.

 No momento mais instável, sua primeira paixão aparece

Tudo isso pode parecer uma puta duma novela mexicana, mas é justamente pela complexidade na construção desse contexto que faz essa história ser interessante. O motivo pela separação com Yuki poderia ser mil vezes melhor, mas o resultado disso tudo estava compensando aquele trauma fuleiro e eu me sentia olhando para uma história mais próxima da realidade do que a maioria dos mangás sobre o assunto que já li. Ainda mais porque a relação dos dois tinha problemas, o que ajudava a reforçar um realismo para a situação; problemas cujo Utsumi se dispunha a discutir para os dois superarem juntos e Sho ouvia. Ela, que era a menina estabanada da história, estava agindo com maturidade por causa de suas experiências até esse ponto, e depois de tantos problemas, Utsumi continuava num desenvolvimento vertiginoso de suas atitudes como adulto. Se me falassem que aquele banana seria o namorado atual da Sho, no momento eu ficaria muito surpreso.

Reconciliação

A relação dos dois possuiu uma retratação muito mais detalhada e extensa do que com a Yuki. Sua primeira vez nos é mostrada, o ciúme da Sho é nítido, afinal ela sente que o fantasma da ex ainda está no relacionamento, os dois saindo juntos para ver um jogo de baseball, discutindo sobre o futuro, Sho quer ser professora e Utsumi um fotógrafo, ela indo pra faculdade, pois é um ano mais velha que ele, situações comuns do cotidiano formam a figura de um casal funcional, algo que não existe na maioria dos romances japoneses.

Mas sempre existe um "porém"... (sim, de novo)



Aqui é a parte que eu fico puto pra caralho, a autora se acovarda de novo e dessa vez o estrago é pior. Veja bem, durante todo esse tempo Yuki escondeu que ainda gostava de Utsumi, mas com o passar do enredo isso foi ficando cada vez mais claro, então a autora do nada resgata o tal do namorado amigo de infância, que aparece como um cara muito doido obcecado por ela, deixando-a extremamente desconfortável e fazendo o protagonista perceber como ela estava se sentindo sozinha. Assim, é escrito uma das reviravoltas mais imbecis que já li: Sasuga Kei diz que o protagonista ama as duas e decide voltar com a Yuki porque a Sho é mais estável e conseguiria viver sozinha, enquanto só alguém como ele poderia ajudar a sua ex. A escolha foi dela de terminar a relação, mas o Utsumi é Jesus e decide ajudar. Por conta desse retrocesso gigante no Utsumi, que até o momento era o personagem mais desenvolvido de todo o enredo, fica impregnado em todo o resto da história uma impressão amarga que tudo o que ele teve com a Sho, após finalmente conseguir se resolver, foi  jogado no lixo por um motivo imbecil.
É por conta disso que eu vejo essa autora como covarde; não consigo entender isso como algo além de medo, talvez estava ficando muito complexo e adulto pra ela continuar escrevendo, redigir a história num tom mais simples e infantil é mais fácil, ou os editores aconselharam-na por livre e espontânea pressão a tomar uma decisão dessas. De qualquer jeito, rola um drama idiota com o ex da Yuki, que por alguma razão virou um maníaco, Utsumi vira o herói clichê salvando a menina perseguida por um stalker, os dois superam a oposição da família e ficam juntos, o senpai otário da Sho se arrepende e decide se casar com ela e virar um homem melhor, e então todos conseguem seu "Good Ending".


Conclusão
Apesar de toda minha indignação, não consigo chamar Good Ending de ruim. Ele tem partes boas e partes ruins, e as boas isoladamente foram excelentes. O problema é elas estarem na mesma história com desfecho infantil e sem sentido. Recomendaria Good Ending mais no sentido de apresentar uma experiência interessante a alguém, um ecchi que não é ecchi feito por uma mulher, uma história com relações profundas e uma retratação relativamente boa do que é aprender a amar. O problema são as decisões "covardes", se não fosse por elas, o mangá no geral seria mais profundo e interessante.

Only Darkness Will Remain.

Imagens ilustrativas






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