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O terror como punchline humorística em Get Out

O cinema tem como principal função apenas entreter, assim como qualquer outra forma de arte. Você pode dar "n" motivos para uma obra ser boa, mas se ela não entretêm, ela não serve para nada. Tendo isso em mente, eu sinto falta de um cinema um pouco mais descompromissado; eu sinto falta de contos e crônicas sinceras, coisas que só vemos em produções independentes que em sua maioria se quer chegam por essas bandas. Portanto, ver um filme como Corra fazendo sucesso tanto entre o público de nicho e o público geral, acabando por ser exibido com certa relevância, chega a emocionar. Não que isso automaticamente torne o longa bom, mas é que a sua proposta é tão simples e ao mesmo tempo tão cheia de nuances e propósitos, que é difícil não torcer para que dê certo. Corra deu certo e não só isso, é um respiro no gênero tanto de terror quanto de comédia. Ele não é inovador, mas a sua exótica combinação de gêneros culmina em uma história bem executada, sem a necessidade de ser megaloma…

Teorias #1: A Metamorfose

"Numa manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Gregório Samsa deu por si na cama transformado num gigantesco inseto"
assim começa A Metamorfose, clássico livro escrito por Franz Kafka. A história, além de ser totalmente interpretativa, marcou a literatura como um todo: a escrita simples, porém pessimista, aborda o psicológico do personagem principal de forma crível em uma situação surreal nunca antes imaginada. Eis então que temos um prato cheio para teorias e suposições (conspirações?), que vou tentar elucidar. Desde já aviso que não há exatamente uma resposta certa para o real significado do livro, sendo este meu particular ponto de vista.
Qual será a mensagem por trás desta enigmática obra?

No início de A Metamorfose, o protagonista simplesmente está apressado, mas se sente estranho. Com a cabeça totalmente focada em suas responsabilidades, de repente Gregório não consegue sair da cama e parece que perdeu a hora. Em nenhum momento ele se importa consigo ou se questiona a respeito da condição em que se encontra, apenas tenta arrumar um jeito de resolver o problema e assim, continuar sua comum vida. Veja bem: o rapaz se preocupa mais com a própria família do que consigo mesmo, tendo uma postura um tanto quanto messiânica.
Vamos dar uma olhada em duas teorias e no final, desenvolverei a minha:
  • Atenção, o post tem spoilers. Você pode entendê-lo mesmo sem ter lido a obra, mas desde já estão avisados. 

1) Franz Kafka era marxista

Essa é uma teoria muito difundida. Nela, A Metamorfose ganha o aspecto de crítica social ao sistema capitalista e as interferências causadas na vida do ser humano. Como base, temos a vida de Kafka: um homem bastante inteligente, atlético e envolvido com a política. Parece imprescindível que um cara, com tantas qualidades, mas tão pessimista, não estivesse atento a isso. De alguma forma, suas considerações sobre o mundo transpareceriam em sua obra de qualquer jeito e relevar esse livro como uma crítica à exploração do trabalho, não é todo errado.
Ressaltando mais uma vez: em nenhum momento Gregório pensa em si mesmo, apenas no trabalho. Ele não entende o que é e muito menos se importa com isso, apenas quer voltar para sua simples vida, que foi interferida por este evento surreal. A família, diante da situação, passa por três estágios: surpresa, aceitação e por fim, repúdio. É como se Gregório, a partir do momento que não há mais capacidade para manter a casa, fosse apenas um peso. Virar inseto é apenas um pequeno problema que causa aversão, mas se pararmos para analisar, o problema está no fato do rapaz ser um inválido. Torna-se estranho e diferente, diante daquele sistema regrado e assim, não serve para nada.
O final denota bem isso: a morte de Gregório é um alívio para a família, mas a solução não poderia vir mesmo com ele vivo? A família Samsa está tão preocupada com sua imagem pessoal, que não se importa com mais nada. Ao final, a grande preocupação de todos é em arrumar um bom marido para a virtuosa Grete.
Se em algum momento Gregório demonstrasse alguma habilidade frutífera, provavelmente a situação seria outra. Mas não, ele se torna o ser mais asqueroso que existe: uma barata. O que faz uma barata? Nada, apenas come e existe. No mundo humano, não tem função - deve ser descartada.
Grete, por exemplo, antes era apenas uma menininha. De repente, ganha alta importância: vira o orgulho da família. Veja, o trabalho pode mudar tudo. Quantas vezes você não teve direito a dar opinião simplesmente por não ter emprego? Ninguém considera o ponto de vista de Gregório; acham que ele está morto e ali há apenas um fardo qualquer - uma maldição.

O problema com essa teoria é o radicalismo exacerbado. Ao afirmar o teor marxista, transforma-se a obra em um manifesto da luta de classes, quando não há indícios para tanto. Sim, ela é fruto de sua época, mas não deixa de lado a subjetividade. Traçar o paralelo com o comunismo, talvez seja limitar a visão demais e esquecer-se que acima de tudo, A Metamorfose é apenas um conto surreal; não necessariamente precisa levar sentido em tudo o que diz e muito menos ter por trás toda uma crítica embasada no ódio contra o liberalismo. Parece mais uma interpretação exagerada de algum leitor, não a intenção real do autor em si.


2) Na verdade se trata sobre depressão

Essa é uma teoria muito plausível, visto, mais uma vez, a vida pessoal de Kafka. É inerente para o depressivo se achar um peso e a família, que muitas vezes não entende o que se passa, esquecer de sua existência. É o famoso: "é frescura. Quando você vai voltar a trabalhar?". Entender a mente de uma pessoa com problemas psicológicos é quase impossível para alguém de fora, e talvez personificar essa dor, tenha sido a ideia do autor. Por mais que Gregório tente, ele não consegue sair da cama. Por mais que queira voltar a ser humano, não consegue deixar de lado os hábitos nojentos, mas que o caracterizam.
Em determinado momento, o rapaz não consegue mais comer e afirma: sua fome é de outra coisa. Inclusive, é essa carência que o motiva na conturbada cena onde invade a sala para ouvir a irmã tocar. O que lhe dá sentido, o que lhe torna um ser, é a compreensão e o amor que Grete ainda nutre por ele - alguém se importa. Entretanto, o que acontece? O protagonista irrita a adolescente, trazendo a tona seu egoísmo. É como se Kafka dissesse: "a bondade é uma mentira"; sendo assim, ao descobrir essa mentira, não sobra mais nada. A maçã, símbolo do desejo e do pecado, se instala nas costas de Gregório e aos poucos apodrece. Não existe mais surpresa, nem aceitação, apenas o repúdio.

3) Minha teoria

Acredito na junção das duas possibilidades. A ideia de somente depressão não coincide com a ironia kafkiana, nem com o retrato de Gregório, que não é nenhum coitado. E ideia de crítica ao capitalismo não se sustenta pelo fato de invocar uma posição parcial, coisa que não existe na obra - a ambiguidade e subjetividade são ferramentas principais. Mas e aí, do que se trata essa história?

Bom, preso em um sistema explorador, Gregório é um alienado (não só ele, como sua família).  
E se de repente tudo aquilo que você acredita sumisse num passe de mágica? É isso o que acontece. Ao virar um inseto, o protagonista percebe que tudo o que existe é passageiro - a existência é uma vegetação. O trabalho tira todo seu valor e suas vãs considerações sobre as pessoas e o mundo, se mostram uma mentira. Talvez, a barata em si demonstre como ele se sente e como acha que o veem. A reação de todos perante sua aparência está mais atrelada ao fato de ser diferente, pois se não fosse a opinião externa, a família provavelmente o aceitaria. 
Ele não questiona, apenas sente. É o mesmo, mas ninguém percebe seu interior; a forma como se apresenta é tudo o que importa, em uma sociedade pautada em imagens ilusórias. Quem visse Kafka, não diria que tanta coisa se passava em sua cabeça: bonito, atlético e sociável, sua obra como um todo é deveras pessimista acerca do existencialismo. Construir uma imagem é trabalhoso, mas basta um empurrão e de repente o castelo de cartas cai; não sobra nada. 
A Metamorfose é a personificação das questões existenciais. Nós somos matéria ou consciência? O que nos caracteriza é a nossa personalidade, mas no final, nada disso importa. Gregório não mais é um alienado por conta de sua peculiar nova perspectiva, entretanto sua família segue igual: ninguém sabe o que aconteceu e jamais entenderão. A vida continua e um fardo é deixado de lado. Talvez, só talvez, na visão de Kafka, nós todos somos baratas.

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