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Steven Universo: reflexões sobre o papel educacional de um desenho

Vivemos em um mundo de conflito, onde olhamos primeiro as diferenças e depois as semelhanças. Por essas e outras eu fico feliz de ter assistido quando criança desenhos que falavam sobre alguém excluído por ser diferente. E por causa disso acredito que Steven Universo, entre outros desenhos atuais, são mais do que recomendáveis para crianças e para qualquer um, pois eles possuem uma mensagem que pode potencialmente melhorar o caráter de alguém.

Teorias #1: A Metamorfose

"Numa manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Gregório Samsa deu por si na cama transformado num gigantesco inseto"
assim começa A Metamorfose, clássico livro escrito por Franz Kafka. A história, além de ser totalmente interpretativa, marcou a literatura como um todo: a escrita simples, porém pessimista, aborda o psicológico do personagem principal de forma crível em uma situação surreal nunca antes imaginada. Eis então que temos um prato cheio para teorias e suposições (conspirações?), que vou tentar elucidar. Desde já aviso que não há exatamente uma resposta certa para o real significado do livro, sendo este meu particular ponto de vista.
Qual será a mensagem por trás desta enigmática obra?

No início de A Metamorfose, o protagonista simplesmente está apressado, mas se sente estranho. Com a cabeça totalmente focada em suas responsabilidades, de repente Gregório não consegue sair da cama e parece que perdeu a hora. Em nenhum momento ele se importa consigo ou se questiona a respeito da condição em que se encontra, apenas tenta arrumar um jeito de resolver o problema e assim, continuar sua comum vida. Veja bem: o rapaz se preocupa mais com a própria família do que consigo mesmo, tendo uma postura um tanto quanto messiânica.
Vamos dar uma olhada em duas teorias e no final, desenvolverei a minha:
  • Atenção, o post tem spoilers. Você pode entendê-lo mesmo sem ter lido a obra, mas desde já estão avisados. 

1) Franz Kafka era marxista

Essa é uma teoria muito difundida. Nela, A Metamorfose ganha o aspecto de crítica social ao sistema capitalista e as interferências causadas na vida do ser humano. Como base, temos a vida de Kafka: um homem bastante inteligente, atlético e envolvido com a política. Parece imprescindível que um cara, com tantas qualidades, mas tão pessimista, não estivesse atento a isso. De alguma forma, suas considerações sobre o mundo transpareceriam em sua obra de qualquer jeito e relevar esse livro como uma crítica à exploração do trabalho, não é todo errado.
Ressaltando mais uma vez: em nenhum momento Gregório pensa em si mesmo, apenas no trabalho. Ele não entende o que é e muito menos se importa com isso, apenas quer voltar para sua simples vida, que foi interferida por este evento surreal. A família, diante da situação, passa por três estágios: surpresa, aceitação e por fim, repúdio. É como se Gregório, a partir do momento que não há mais capacidade para manter a casa, fosse apenas um peso. Virar inseto é apenas um pequeno problema que causa aversão, mas se pararmos para analisar, o problema está no fato do rapaz ser um inválido. Torna-se estranho e diferente, diante daquele sistema regrado e assim, não serve para nada.
O final denota bem isso: a morte de Gregório é um alívio para a família, mas a solução não poderia vir mesmo com ele vivo? A família Samsa está tão preocupada com sua imagem pessoal, que não se importa com mais nada. Ao final, a grande preocupação de todos é em arrumar um bom marido para a virtuosa Grete.
Se em algum momento Gregório demonstrasse alguma habilidade frutífera, provavelmente a situação seria outra. Mas não, ele se torna o ser mais asqueroso que existe: uma barata. O que faz uma barata? Nada, apenas come e existe. No mundo humano, não tem função - deve ser descartada.
Grete, por exemplo, antes era apenas uma menininha. De repente, ganha alta importância: vira o orgulho da família. Veja, o trabalho pode mudar tudo. Quantas vezes você não teve direito a dar opinião simplesmente por não ter emprego? Ninguém considera o ponto de vista de Gregório; acham que ele está morto e ali há apenas um fardo qualquer - uma maldição.

O problema com essa teoria é o radicalismo exacerbado. Ao afirmar o teor marxista, transforma-se a obra em um manifesto da luta de classes, quando não há indícios para tanto. Sim, ela é fruto de sua época, mas não deixa de lado a subjetividade. Traçar o paralelo com o comunismo, talvez seja limitar a visão demais e esquecer-se que acima de tudo, A Metamorfose é apenas um conto surreal; não necessariamente precisa levar sentido em tudo o que diz e muito menos ter por trás toda uma crítica embasada no ódio contra o liberalismo. Parece mais uma interpretação exagerada de algum leitor, não a intenção real do autor em si.


2) Na verdade se trata sobre depressão

Essa é uma teoria muito plausível, visto, mais uma vez, a vida pessoal de Kafka. É inerente para o depressivo se achar um peso e a família, que muitas vezes não entende o que se passa, esquecer de sua existência. É o famoso: "é frescura. Quando você vai voltar a trabalhar?". Entender a mente de uma pessoa com problemas psicológicos é quase impossível para alguém de fora, e talvez personificar essa dor, tenha sido a ideia do autor. Por mais que Gregório tente, ele não consegue sair da cama. Por mais que queira voltar a ser humano, não consegue deixar de lado os hábitos nojentos, mas que o caracterizam.
Em determinado momento, o rapaz não consegue mais comer e afirma: sua fome é de outra coisa. Inclusive, é essa carência que o motiva na conturbada cena onde invade a sala para ouvir a irmã tocar. O que lhe dá sentido, o que lhe torna um ser, é a compreensão e o amor que Grete ainda nutre por ele - alguém se importa. Entretanto, o que acontece? O protagonista irrita a adolescente, trazendo a tona seu egoísmo. É como se Kafka dissesse: "a bondade é uma mentira"; sendo assim, ao descobrir essa mentira, não sobra mais nada. A maçã, símbolo do desejo e do pecado, se instala nas costas de Gregório e aos poucos apodrece. Não existe mais surpresa, nem aceitação, apenas o repúdio.

3) Minha teoria

Acredito na junção das duas possibilidades. A ideia de somente depressão não coincide com a ironia kafkiana, nem com o retrato de Gregório, que não é nenhum coitado. E ideia de crítica ao capitalismo não se sustenta pelo fato de invocar uma posição parcial, coisa que não existe na obra - a ambiguidade e subjetividade são ferramentas principais. Mas e aí, do que se trata essa história?

Bom, preso em um sistema explorador, Gregório é um alienado (não só ele, como sua família).  
E se de repente tudo aquilo que você acredita sumisse num passe de mágica? É isso o que acontece. Ao virar um inseto, o protagonista percebe que tudo o que existe é passageiro - a existência é uma vegetação. O trabalho tira todo seu valor e suas vãs considerações sobre as pessoas e o mundo, se mostram uma mentira. Talvez, a barata em si demonstre como ele se sente e como acha que o veem. A reação de todos perante sua aparência está mais atrelada ao fato de ser diferente, pois se não fosse a opinião externa, a família provavelmente o aceitaria. 
Ele não questiona, apenas sente. É o mesmo, mas ninguém percebe seu interior; a forma como se apresenta é tudo o que importa, em uma sociedade pautada em imagens ilusórias. Quem visse Kafka, não diria que tanta coisa se passava em sua cabeça: bonito, atlético e sociável, sua obra como um todo é deveras pessimista acerca do existencialismo. Construir uma imagem é trabalhoso, mas basta um empurrão e de repente o castelo de cartas cai; não sobra nada. 
A Metamorfose é a personificação das questões existenciais. Nós somos matéria ou consciência? O que nos caracteriza é a nossa personalidade, mas no final, nada disso importa. Gregório não mais é um alienado por conta de sua peculiar nova perspectiva, entretanto sua família segue igual: ninguém sabe o que aconteceu e jamais entenderão. A vida continua e um fardo é deixado de lado. Talvez, só talvez, na visão de Kafka, nós todos somos baratas.

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