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Destaques

O terror como punchline humorística em Get Out

O cinema tem como principal função apenas entreter, assim como qualquer outra forma de arte. Você pode dar "n" motivos para uma obra ser boa, mas se ela não entretêm, ela não serve para nada. Tendo isso em mente, eu sinto falta de um cinema um pouco mais descompromissado; eu sinto falta de contos e crônicas sinceras, coisas que só vemos em produções independentes que em sua maioria se quer chegam por essas bandas. Portanto, ver um filme como Corra fazendo sucesso tanto entre o público de nicho e o público geral, acabando por ser exibido com certa relevância, chega a emocionar. Não que isso automaticamente torne o longa bom, mas é que a sua proposta é tão simples e ao mesmo tempo tão cheia de nuances e propósitos, que é difícil não torcer para que dê certo. Corra deu certo e não só isso, é um respiro no gênero tanto de terror quanto de comédia. Ele não é inovador, mas a sua exótica combinação de gêneros culmina em uma história bem executada, sem a necessidade de ser megaloma…

[Impressões] Gyakuten Saiban (Ace Attorney) episódio 1

OBJECTION!
Ace Attorney ou Gyakuten Saiban, é uma série de jogos de aventura e investigação (visual novel), que tem como ideia principal fazer com que o jogador assuma o papel de advogado de defesa no sistema legal japonês, com o objetivo de inocentar seu cliente. A grande sacada dos jogos, é tratar a história de forma dinâmica, muitas vezes divertida, com toques de suspense e reviravoltas alucinantes. Sendo assim, transpor esse enredo para outra mídia não seria fácil, já que está tão atrelado aos adereços e dinamismos que as escolhas proporcionam - ainda mais com uma história policial, onde existem trocentos caminhos a se fazer e informações a serem analisadas. Visual Novel's não são fáceis de adaptar por conta da complexidade, pendendo algumas vezes para banalização. Será que Ace Attorney conseguiu fazer um bom trabalho logo no primeiro episódio?

Desde já, aviso que não joguei nenhum dos jogos. Então não haverá comparações e muito menos críticas ao anime como adaptação, pois não tenho base para opinar. Ou seja, minhas impressões se focarão no episódio apenas como anime, comparando-o ao gênero policial/investigação em si. E claro haverá spoilers


Bom, o anime começa mostrando o crime em si, algo normal em qualquer CSI da vida - a diferença está em explicitamente revelar o assassino. Geralmente, essa conduta de mostrar quem matou a vítima é usada para complicar a situação; mas não aqui: saber logo de cara quem é o "vilão" tira parte da graça do episódio, que é bem construído, mas soa muitas vezes deveras ingênuo. A função do autor, em qualquer obra de investigação, é ludibriar o leitor/espectador o máximo possível dentro da lógica do mundo criado (sem usar cheats ilógicos). Quando já sabemos como aconteceu quase tudo, o tesão em acompanhar diminui: as reações de Phoenix Wright e cia ficam inverossímeis, pois não compartilhamos da surpresa. A descoberta, assim como no jogo, deveria ser um caminho compartilhado com o espectador, para este formar suas próprias teorias. A função da literatura policial, desde seus primórdios com Edgar Allan Poe, sempre foi subverter o comum: a vida cotidiana é agitada; fulano é assassinado, quem o matou e por que?
Depois, com Conan Doyle e Agatha Christie, temos a subversão do crime enquanto crime: a surpresa principal não mais é a transgressão moral em si, mas as implicações que podem levar a outro crime maior. Tendo isso em mente, podemos considerar que não há nenhuma função em revelar o assassino - a não ser dar-lhe caricaturas exageradas, que, mais uma vez, poderiam ser melhor empregadas se estivessem inseridas dentro de um suspense maior.


A construção do personagem Phoenix Wright é totalmente genérica, com direito a flashback narutesco. Mas não vi como problema: dentro do contexto, meio escrachado e exagerado, combina perfeitamente, conseguindo levar o episódio decentemente. Yahari como réu é lastimável, totalmente vazio e sem qualquer coerência: entendo sua função cômica, mas em demasia acaba sendo enfadonho e sem sentido. Poderia facilmente ser substituído por uma boneca inflável com frases prontas.





Agora vamos falar do julgamento em si: é o ponto alto do episódio. Eles guardaram tudo para esse momento. As inserções (seja de sonzinhos ou formas de embate), acredito eu, vieram do jogo, combinando perfeitamente. Quando se adapta game design para qualquer outra mídia, tende a não funcionar, pois, como eu já disse, a complexidade é outra: enquanto no jogo você tem a paciência de ler centenas de diálogos, analisar provas, pessoas e etc, aqui o que reina é o movimento: sendo assim, talvez não encaixasse, mas o jeito caricato, meio louco, dá emoção a algo que teoricamente seria chato.





Entretanto, o problema de Gyakuten Saiban está no contexto, não tanto na representação. Não há uma boa base de história, muito menos de mistério, para causar tanto impacto. Somos surpreendidos mais pelo jeito que as coisas surgem na tela, do que pelo conteúdo em si. Sem contar na resolução, que é clichê e posso até dizer, ignorante. Admiro a estrutura bem organizada do episódio, e acho que deve ser levada adiante - porém, com mais cuidado. Se torna deveras fraco focar-se apenas no embate judicial, se não há um contorno para delinear melhor o drama.

Considerações Finais


O primeiro episódio de Ace Attorney não é ruim, mas também não é lá essas coisas. Aos tropeços, consegue cumprir sua função de nos inserir no universo de Phoenix Wright, ainda que tudo seja um tanto quanto superficial. A animação está boa, mas deve se desenvolver melhor no decorrer dos próximos episódios, com as inserções cartunescas.
Calcado na comédia, com toques de suspense e mistério, esse início até que faz uma boa combinação, mas não tem paciência, muito menos coragem de ser denso. O que realmente falta é desafio: olhar na cara do espectador e desafiá-lo a resolver o mistério e não apenas acompanhar uma resolução qualquer. Há muito potencial escondido, mas que pode se perder na representação genérica.
Não é bom, não é ruim, apenas ok.

El Psy Congroo.

★ ★ ★ ★ ★ (60/100)

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