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Destaques

Conversa Paralela #1: O amor e a diversidade de Steven Universo

Olá pessoas, bem-vindos ao primeiro Conversa Paralela!

Demolidor e o debate moral

Matt Murdock vs Frank Castle: quem está certo?
Diferente da maioria das pessoas, eu não tinha nenhuma expectativa quanto a segunda temporada de Demolidor. A primeira já havia sido suficientemente boa e pelo visto, não havia como repetir a mesma qualidade. Não, eles não repetiram - e nem teria como, cada coisa é única ao seu modo. Entretanto, continuaram em um patamar elevado, seguindo o próprio universo de forma bastante original, ao mesmo tempo fiel às HQ's.
Bom, isso aqui não é uma análise, pois acredito já ter abordado o necessário quando falei sobre a primeira temporada e sinceramente, não acho que eu tenha muito a acrescentar nesse âmbito - é uma coisa que você pode ler em qualquer Omelete da vida ou algo assim. Quero atentar para certos aspectos, que estão envolta de uma proposta bastante desenvolvida nessa segunda temporada: o debate moral.


Antes de tudo, devemos começar definindo os principais termos, dando embasamento para discutirmos a famosa treta: Demolidor vs Justiceiro.
Você sabe o que é moral?

"Moral é o conjunto de regras adquiridas através da cultura, da educação, da tradição e do cotidiano, e que orientam o comportamento humano dentro de uma sociedade"

Veja bem, moral é diferente de ética. 
Ética são leis pré-estabelecidas em conjunto para formar a boa convivência social. Com Sócrates temos essa diferença clara: é a reflexão da moral, sendo o costume elevado embasado em teorias. A moral, por outro lado, não tem uma reflexão, partindo apenas dos costumes adquiridos do ambiente. Em uma definição básica, podemos caracterizar uma como sendo o lado racional e a outra como o lado emocional.
Porém, certas atitudes podem infringir tanto a ética quanto a moral - como por exemplo, matar. Eticamente é uma transgressão, pois logicamente falando, se todos pudessem matar sem nenhuma punição, o mundo seria um caos - vai contra o contrato social, atentando contra a liberdade do outro (ler Thomas Hobbes e Rousseau). Moralmente, principalmente por vivermos em uma sociedade que tem por base o cristianismo, vai contra os costumes. Veja o Estado Islâmico: além de ser uma atrocidade o que fazem, matar, dependendo das circunstâncias, é moralmente aceito. Eticamente, como um todo, é um problema para quem vive ali, mas dentro da religião e de todo os ensinamentos passados de geração para geração, há um envolvimento emocional, quase ritual, em regras de cunho moral.

Tá, mas o que isso tem a ver com Demolidor?
Tudo.

Matt Murdock e Frank Castle estão à margem da ética. Ambos já transgrediram o limite do contrato social, se colocando, de certo modo, acima da justiça. Por mais que Matt se imponha certos termos e tente embasar seu comportamento (ou seja, tente transformar em ética), ao bater em bandidos, se coloca acima da justiça comum e de qualquer regra estabelecida pela maioria das pessoas. Daí surge o grande debate: qual a moral certa?
A situação dos justiceiros é uma faca de dois gumes: todos sabem que os heróis são necessários, porém a sociedade não concordou com nada disso - e nem deveria, o anonimato e a independência é o que faz o combate ao crime dar certo; como uma espécie de juiz do juiz. Mas quem capacitou essas pessoas à julgarem?


Ou seja, a conduta dos mascarados e consequentemente suas ações perante a sociedade, está à mercê da moral de cada um, não da ética. As impressões de mundo são relativas: Murdock apenas ilude a si mesmo em sua fantasia ética. É dessa premissa que surge o embate não só com Frank, mas com Nelson: se sair batendo em bandidos é mais eficiente, qual a necessidade de ter um escritório de advocacia? Não a toa, Elektra facilmente se confunde:

"não é assim que você age? Se você não consegue o que quer de dia, então você pega à força durante a noite"

Sendo assim, dentro dessa transgressão, a função é fazer o que a justiça não consegue. O argumento do Justiceiro é mais do que válido - é uma realidade.

Quando você bate, eles levantam. Quando eu bato, eles ficam no chão"

Então temos um sistema legal totalmente falho e um modo de combater o crime questionável. O que todos não vêem, incluindo a própria Karen, é que Matt está a frente - ele pensa na sociedade como um todo. A sua moral cristã o impulsiona (assim como a moral vingativa impulsiona Castle), mas existe ali uma reflexão além do que a maioria percebe - Page não está errada em achar que a culpa de surgirem loucos com armas é, em parte, das pessoas por aplaudirem o Diabo de Hell's Kitchen; entretanto, se não fosse Matt, seria qualquer outro: naquele universo, seria inevitável surgir alguém inconformado com tantas injustiças. Mas e aí, quem está certo?


Não sei se tem alguém certo. Mais uma vez, não houve nenhum contrato social e portanto, qualquer pessoa que se ache no direito de sair que nem um palhaço saltitante batendo em bandidos, está invalidando a democracia. Porém, podemos analisar logicamente e ver qual funciona melhor: a conduta de Matt ou de Castle?
De um lado, temos o combate heróico e limpo, que tem por objetivo servir a justiça legal. Do outro, o combate anti-heróico e sujo, que tem por objetivo acabar de vez com a criminalidade.

Coloquemos em uma lista para entendermos melhor:

MODO DEMOLIDOR

Vantagem
estar de acordo com a moral
Desvantagem
ciclo vicioso de combate
   

MODO JUSTICEIRO

Vantagem
os bandidos não voltam

Desvantagem
estar contra a moral (no caso, a moral social, não a dele)

Percebam, os dois são inversamente proporcionais e em uma análise superficial, o modo Justiceiro faz muito mais sentido. Que importa a moral se os bandidos continuarão livres?
Vendo por este ângulo, Matt se torna deveras egoísta, pois não tem capacidade de fazer o necessário. A sua moral pessoal vale mais que a vida de qualquer pessoa? É apenas um fraco!

Calma lá, que as coisas não são bem assim. Enquanto no presente, a coisa toda pode tomar essa conotação, mas observando com certa perspectiva, o bom samaritanismo faz total sentido. 
Por mais que os justiceiros estejam acima da lei, se tornaram produtos inevitáveis da sociedade violenta em que se inserem. Corresponder essa violência é fomentar a balburdia e agir de acordo com aquilo que se luta. 

"Aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não tornar-se também um monstro. Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você."
- Friedrich Nietzsche


A curto prazo, matar bandidos resolve certos problemas, mas a longo prazo, constrói uma sociedade pautada no código de Hamurabi ("olho por olho, dente por dente"). Essa conduta se baseia em pré-conceitos, absorvendo a violência ao invés de reprimi-la. Agir como Matt, exige muita paciência e dedicação, pois enquanto se vive no presente, a sensação é de estar preso a um ciclo vicioso; sem contar a fé gigantesca na humanidade, para que esta tenha noção de aproveitar todo o progresso formado. Em nenhum momento as ações de Frank Castle trouxeram paz, muito pelo contrário: conduziram à mais tragédias e violência. Porém, se existe um código moral no Justiceiro, esse código está atrelado aos próprios traumas: ele virou o monstro que tanto odiava e o pior, nem percebeu. 
É essa noção, as vezes confusa, que torna o Demolidor especial. O diabo de hell's kitchen é a pessoa que mais tem medo, principalmente por achar que pode virar a fantasia criada por si mesmo. Assim, temos uma segunda temporada excepcional, a todo momento testando limites: por mais que Matt tenha uma perspectiva maior, o presente exige certas atitudes e cria necessidades difíceis de recusar - como pensar no todo, quando a pessoa amada está prestes a ser morta?


Em determinado momento, Murdock dá uma trégua: "Frank, dessa vez será do seu jeito". O insano atirador apenas dá risada: "dessa vez? Vermelho, quando você vem para o meu lado não tem mais volta" - aqui, ele já tem consciência de suas ações; não existe mais lógica, apenas emoções. 
O abismo não só olhou, mas piscou de volta.

El Psy Congroo.

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