quinta-feira, 28 de abril de 2016

Boku Dake Ga Inai Machi e o dramatismo japonês

Produção da A1-Pictures surpreende na execução, mas se perde na própria narrativa e cria um drama desnecessário, ainda que cativante

Animes de viagem no tempo me fascinam; aliás, obras de viagem no tempo em geral me fascinam. A problemática toda de ir e voltar, resolver diversos empecilhos e depois acompanhar como aquilo pode influenciar o futuro, é por si só um grande atrativo e oportunidade para uma história se desenvolver. Boku Dake Ga Inai Machi (ou ERASED), é um anime lançado em janeiro de 2016, baseado em um mangá publicado em 2012, tendo justamente essa proposta. Na trama, acompanhamos Satoru Fujinuma, um aspirante à mangaká de 29 anos, que tem uma rara habilidade que lhe permite voltar no tempo alguns minutos, chamada Revival. Entretanto, para sua surpresa, quando sua mãe é assassinada, ele acidentalmente volta 18 anos. A partir daí o rapaz se vê envolvido em uma trama de suspense e mistério, tendo que descobrir e impedir um serial killer.


História

Já percebemos que estamos diante de um mistério policial, misturado com drama. Sendo assim, a viagem no tempo não é exata, muito menos científica, é apenas impulso para o drama e os problemas surgirem. Nesse aspecto, é importante não haver lógica: ora bolas, se o estranho é o que dá o tom, não há necessidade de explicá-lo. De algum jeito, mesmo em toda sua pacaticidade, é estabelecido que Satoru é especial - ele tem essa habilidade estranha e impulsivamente tenta agir de acordo com a aparente missão que lhe é dada. É o estereótipo do herói japonês preso a uma vida comum, renegando qualquer contato social, mas com altos valores morais. Esses valores são afirmados e reafirmados a todo momento, em uma espécie de ficção autoajuda.

O conceito de Boku Dake é interessantíssimo. A ideia de viagem no tempo em si não é original, mas o contraste entre o ser adulto e o ser infantil, se mostra bastante inovador. Esse contraste inicialmente é o pontapé que dá a atmosfera: Satoru é um garoto com 29 anos, que percebe, em toda sua inexperiência, não passar de uma criança. 
Em um primeiro momento, o foco se dá no estabelecimento das relações entre as crianças e a estratégia para pegar o bandido. Talvez, o melhor jeito de resumir ERASED seja: crianças perdidas em meio a um drama exagerado. É esse drama desproporcional, o mesmo que podemos ver em cada episódio de Naruto, que torna a obra vazia: é tanta profundidade excessiva, que descaracteriza a ideia inicial. 
Veja bem: Hinazuki talvez seja a pessoa que mais sofre, mas mesmo assim, é a menos perturbada e coerente em sua posição emocional. Todo o resto fica em um moe de palavras e gestos, demonstrando uma masturbação mental imensa, levando o conceito freudiano de trauma a outro nível. É uma profundidade nem um pouco condizente com a proposta da obra; em certos momentos chegou a me lembrar Punpun (mangá bastante simbólico de Inio Asano). 













Enquanto no início essa dança entre as relações estabelecidas, o futuro iminente e o suspense policial, dá ânimo por estarmos vendo uma obra genuína, em certo ponto, mais ou menos um pouco depois da metade, ERASED perde o fio da meada e revela seu maior defeito: a narrativa preguiçosa. Todo aquele desenvolvimento excessivo e a poética com base nos altos valores morais, acabam rumando para uma verdade superficial. A resolução do mistério é totalmente fraca, para não dizer burra; a resolução do emocional carece de paciência e coerência; e por fim, a poética fica surrealmente piegas. 
Muitas obras se focam demais na estrutura geral e esquecem do lado humano: Bokumachi é justamente o contrário. Esquece qualquer lógica e fica preso em um ciclo vicioso sem sentido de emoções e aprendizados generalizados. A obra cria uma expectativa por conta de seu ótimo conceito, mas decide seguir um caminho previsível, que já vimos milhares de vezes, levando por fim uma "importante mensagem sobre a amizade e o quanto isso pode mudar o mundo" - o clichê do shounen japonês, mas com muita depressão pseudointelectual.

ERASED é um mistério, e mistérios alcançam sua função principal por conta do final. Ou seja, temos durante o anime diversos desenvolvimentos, mas todos devem estar de acordo com o desfecho e se este é superficial, acaba desvalidando vários momentos que dependiam disso.

Execução e animação

O ponto alto do anime é sua execução fenomenal. Esse é um embate entre a história e a execução que devemos salientar. O enredo, como já dito, é sem graça - tirando seu conceito principal, se torna apenas mais uma história sobre o poder da amizade. Entretanto, temos o diferencial: uma execução épica, que consegue transformar cenas simples em momentos emotivos. É o ritmo que dá o tom e nos imersa nessa aventura. A tocante postura de Satoru, frente aos acontecimentos, transforma o comum em novo. 
Há uma tonalidade meio cinza que traz certo aconchego; o monocromatismo do inverno, momento naturalmente introspectivo, se une ao fato de haver futuros assassinatos e constrata com a alegria e reações exageradas dos personagens. Sendo assim, nesse aspecto mais visual, parece que tudo foi pensado: desde a voz calma, direta e comum de Satoru, à evidente diferença ao seu modo de agir enquanto criança. São a mesma pessoa, mas em situações contrárias. Este é outro trunfo do anime: facilmente somos imersos sob a perspectiva do personagem principal, pois compartilhamos de seus conhecimentos e pensamentos, enquanto ficamos surpresos ou irritados com a reação externa. 
O visual de cada personagem também é bem planejado e os cenários, ainda que repetitivos, saltam aos olhos - existe ali uma junção de 2D com 3D que me agrada muito. Sem contar no desenvolvimento cinematográfico: os flashbacks, as mudanças de tonalidades e os arcos, são todos típicos do cinema americano, até mesmo noir.












Porém, essa construção de clima acaba se confundindo em meio ao tema da história. Parece que ERASED não sabe bem como seguir e muitos menos si definir: a importância do mistério é deixada de lado, tornando as coisas exacerbadamente psicológicas - o início dessa proposta, ali com Hinazuki e os amigos, é interessante, mas sejamos sinceros: Naruto contra Haku, ainda com suas forçações de barra, é incrível; depois da terceira vez batendo na mesma tecla, fica cansativo. 
É outro anime que não sabe lidar bem com as relações pessoais. Satoru tem seu diferencial por ser sincero e criar fácil identificação com o espectador, mas todo o resto são conceitos muito originais, que não conseguem desenvolvimento pleno por não saberem lidar crivelmente com o drama - problema cultural japonês? Didática para alcançar grande público? Não sei, mas é broxante pelo fato de visivelmente surgir algo em tela bastante corajoso. 
E haja coragem nisso! Não é pelo fato de Boku Dake se prender ao clichê dramático japonês, que não deixa de ter audácia. Tem muitas coisas ali que saltam aos olhos: desenvolvimentos de arcos, formas de executar cenas e propostas que geralmente não vemos. Há muita influência ocidental e isso é bom, pois as misturas de gênero criam um produto genuíno. Os enquadramentos, os efeitos, as reviravoltas, tudo lembra uma típica série americana, mas que só poderia ser feita no Japão, levando consigo as próprias características culturais, seja na timidez ou no bizarro relacionamento entre crianças e adultos.


Bokumachi é mais uma vítima do hype, entretanto, que ele mesmo criou. Os conceitos e a proposta são criativos, mas se perdem em um festival dramático desnecessário que não leva a lugar nenhum, resultando em um final fraco e sem coesão por estagnar nos mesmos recursos narrativos. É como se o mistério fosse personagem principal, dando pontapé para a história seguir; depois, não importa, as pessoas são sozinhas e foda-se; após, acaba por finalizar a histórinha principal; e por fim, o foco fica em dar um tom poeticamente forçado
A construção do tema principal, A Cidade Onde Eu Não Existo, é impactante, mas se torna inverossímil. Seria como um luxuoso carro com muita potência, mas que não sabe para onde ir. São tantas possibilidades.... Escolher a mais previsível é desmerecer a si mesmo e forçar uma qualidade inexistente diante da análise lógica. Uma pena, mas enfim, talvez seja emoção de quem esperou por mais e viu esse mais durante a execução - o comum nunca foi uma opção satisfatória; aliás, nem considerei.

El Psy Congroo.  

Nome: Boku Dake Ga Inai Machi (ERASED)

Ano: 2016 

Estúdio: A-1 Pictures

Gênero: suspense, drama, fantasia

Baseado: mangá

Direção: Tomohiko Ito

Roteiro: Taku Kishimoto


Nota: ★ ★ ★ ★ ★ (60/100) 


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