quinta-feira, 3 de março de 2016

Análise Retrô: Lenny (1974)

Como um comediante impactou a história americana
Lenny é um filme um tanto quanto peculiar. Aparentemente é a história simples e comum de um comediante dos anos 60, que impactou a sociedade com piadas sinceras. Mas o que me agrada tanto nele não é a história em si, mas o modo como é contada: com aspecto de documentário, o longa é sublime, de uma sutileza penetrante. Facilmente somos imersos em uma Nova York meio noir, toda em preto branco, onde a vida era bem diferente da atual: temos ali nos anos 60 o Jazz, o boom do Stand-Up e aquele ambiente adulto convidativo, cheio de bebidas e mulheres bonitas.
Apesar de nunca assumir partido, Lenny é um filme crítico. Assim como seu protagonista, em essência é totalmente irônico e sarcástico. Porém, em um primeiro olhar, pode parecer apenas mais uma historinha de um drogado autodestrutivo. Mas aos poucos, vamos percebendo todas as sutilezas que compõe a obra, tornando este um dos melhores dramas biográficos.

A ideia principal é óbvia: traçar um paralelo entre a vida profissional e pessoal de Lenny Bruce. Lenny foi um dos maiores comediantes americanos, sendo referência para qualquer artista do meio. Entretanto, sua vida se desdobra em uma época complicada: o governo americano, preocupado com a guerra fria, vivia um momento de alta censura. Em contraparte, a nova geração se rebelava e buscava trilhar novos caminhos - temos por exemplo o movimento hippie/beatnik. Bruce vivia nesse turbilhão de mudanças e era um completo rebelde: mas não sem causa. Apesar desse paralelismo na sociedade, entre a moral comum e a rebeldia, a mídia como sempre era durona e tudo aquilo que acontecia, podia ser visto meramente como as loucuras de uma geração ociosa. Lenny foi um dos primeiros que penetrou tudo isso e de forma escancarada, sem medo das punições, tirando sarro de tudo e todos. Mesmo muitos o apontando como um rebelde vazio, ao longo dos anos ficou claro que não era bem isso: ele foi perseguido justamente por falar a verdade e influenciar tantas pessoas. Sendo assim, temos aqui mais um caso do circo dos horrores midiático, onde a opinião pública é facilmente influenciada.


Visto tudo isso, o filme tem maestria por tentar trazer vários ângulos de uma mesma visão. Temos Lenny Bruce das manchetes (alcóolatra e falando qualquer baboseira), da geração fanática que via embasamento em cada uma de suas palavras, da população comum que simplesmente vai de acordo com a maré da opinião massiva e do idealismo liberal, em prol da liberdade de expressão. Mas, acima de tudo, temos Lenny do dia-a-dia: o cara que chorava e pagava por cada decisão. Em síntese, temos mais uma história de um orador incompreendido, entretanto dessa vez um pouco diferente: em nenhum momento ele é glamourizado. O que fica é a sede de um homem em compartilhar sua visão e assim, passar por todas as provações. O engraçado é inicialmente ser tão aceito pela sociedade, e a mesma que o alavancou, o jogar na lama. Mesmo abismadas com todo seu palavreado, as pessoas continuam concordando - elas sabem que ele estava certo, mas por alguma razão estranha (conhecida como moral ou honra), o renegaram completamente. Sem tornar Lenny uma vítima, o longa mostra tudo isso - um feito admirável, que parte da ideologia e conceitos de quem realizou a produção. Um filme comum hollywoodiano facilmente tornaria Bruce no novo messias do humor.
No inicio temos uma separação clara entre comediante e pessoa. O personagem principal é somente um rapaz em busca de sucesso com seu humor enfadonho. Aos poucos vemos tudo se misturar e até o final, não há mais divisória. O médico é o monstro, e o monstro é o médico.
Há um recurso usado muito interessante, que podemos ver por exemplo em Seinfield. Geralmente a série de comédia começa com seu protagonista realizando uma apresentação, depois o episódio em si realmente se inicia, mostrando de onde vieram aquelas ideias. Em Lenny é parecido, porém o inverso: primeiro acontecem os problemas, muitas vezes simples e comuns, mas completamente dramáticos; após, vem a banalização do próprio comediante - toda aquela loucura que ele viveu, todo aquele drama sombrio, se transforma em piadas acerca do cotidiano, dialogando com qualquer pessoa.

Essa forma de conduzir a história é mesclada maestralmente com o visual. Tive a impressão de estar vendo uma peça teatral sobre os bastidores de uma peça teatral - não a toa, o filme foi adaptado de uma peça. Portanto, temos uma direção mais bidimensional; chapada, como se houvessem cenários. A vida comum toma cores mais sombrias dentro do preto e branco; para Lenny, talvez seja cinza demais a vida comum. Já em todo seu glamour, nos palcos ou simplesmente enlouquecendo, a claridade toma conta e aquele american dream da década de 60 fica visível nas telas.


Claro que eu não poderia terminar esse post sem falar das atuações, que estão sensacionais. Dustin Hoffman é Lenny Bruce, tanto em aparência quanto em personalidade. Apesar de todas essas composições e escolhas acertadas, o ator carrega o filme nas costas. São seus trejeitos que tornam cada momento diferente e fora da passividade. Bruce tem consciência de quem é e de sua época, e mesmo na perdição, é um personagem colorido em um mundo preto e branco. Os coadjuvantes também não ficam atrás, levando de forma coerente o teatro para as telas. Valerie Perrine (Honey Bruce), encaixa perfeitamente com Hoffman, e a química do casal torna essa aventura amorosa em um relacionamento ambíguo - tão belo e apaixonante, mas ao mesmo tempo tão problemático e de certo modo doentio.

Conclusão

Lenny é um filme expressivo em sua essência, sem a necessidade de ensinar qualquer coisa ou criticar alguma moral - a sua própria história faz isso, sem exageros ou dramaticidade demais, de forma irônica e tocante. Temos na tela um personagem humano, cheio de defeitos, mas com um ideal simples de liberdade - apesar de mutável, Lenny tem a mesma concepção desde o começo do filme. O problema é ele ser o estranho no ninho, e essa estranheza ficar cada vez mais evidente conforme a sociedade o despreza. Um filme simples, mas com diversas camadas abertas para interpretações, não do irreal, apenas daquilo que nos rodeia. Já dizia Voltaire: "Deus é um comediante entretendo uma platéia com medo demais para rir". O quanto vale nossa moral?

Ao final, Honey olha para a câmera com os olhos marejados e não sabe responder qualquer pergunta acerca das complicações legais de Lenny. Ela apenas sabe que algo deu errado e não consegue acreditar aonde aquele mundo promiscuo os levou. Sua única resposta, diante daqueles inebriantes fantasmas do passado é: "... ele era tão engraçado"

El Psy Congroo.

Nome: Lenny

Ano: 1974

Direção: Bob Fosse

Roteiro: Julian Barry

Gênero: drama, comédia, biografia

Elenco: Dustin Hoffman, Valerie Perrine

Nota:  ★ ★ ★ ★ ★ (100/100)
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