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O terror como punchline humorística em Get Out

O cinema tem como principal função apenas entreter, assim como qualquer outra forma de arte. Você pode dar "n" motivos para uma obra ser boa, mas se ela não entretêm, ela não serve para nada. Tendo isso em mente, eu sinto falta de um cinema um pouco mais descompromissado; eu sinto falta de contos e crônicas sinceras, coisas que só vemos em produções independentes que em sua maioria se quer chegam por essas bandas. Portanto, ver um filme como Corra fazendo sucesso tanto entre o público de nicho e o público geral, acabando por ser exibido com certa relevância, chega a emocionar. Não que isso automaticamente torne o longa bom, mas é que a sua proposta é tão simples e ao mesmo tempo tão cheia de nuances e propósitos, que é difícil não torcer para que dê certo. Corra deu certo e não só isso, é um respiro no gênero tanto de terror quanto de comédia. Ele não é inovador, mas a sua exótica combinação de gêneros culmina em uma história bem executada, sem a necessidade de ser megaloma…

Análise Retrô: Lenny (1974)

Como um comediante impactou a história americana
Lenny é um filme um tanto quanto peculiar. Aparentemente é a história simples e comum de um comediante dos anos 60, que impactou a sociedade com piadas sinceras. Mas o que me agrada tanto nele não é a história em si, mas o modo como é contada: com aspecto de documentário, o longa é sublime, de uma sutileza penetrante. Facilmente somos imersos em uma Nova York meio noir, toda em preto branco, onde a vida era bem diferente da atual: temos ali nos anos 60 o Jazz, o boom do Stand-Up e aquele ambiente adulto convidativo, cheio de bebidas e mulheres bonitas.
Apesar de nunca assumir partido, Lenny é um filme crítico. Assim como seu protagonista, em essência é totalmente irônico e sarcástico. Porém, em um primeiro olhar, pode parecer apenas mais uma historinha de um drogado autodestrutivo. Mas aos poucos, vamos percebendo todas as sutilezas que compõe a obra, tornando este um dos melhores dramas biográficos.

A ideia principal é óbvia: traçar um paralelo entre a vida profissional e pessoal de Lenny Bruce. Lenny foi um dos maiores comediantes americanos, sendo referência para qualquer artista do meio. Entretanto, sua vida se desdobra em uma época complicada: o governo americano, preocupado com a guerra fria, vivia um momento de alta censura. Em contraparte, a nova geração se rebelava e buscava trilhar novos caminhos - temos por exemplo o movimento hippie/beatnik. Bruce vivia nesse turbilhão de mudanças e era um completo rebelde: mas não sem causa. Apesar desse paralelismo na sociedade, entre a moral comum e a rebeldia, a mídia como sempre era durona e tudo aquilo que acontecia, podia ser visto meramente como as loucuras de uma geração ociosa. Lenny foi um dos primeiros que penetrou tudo isso e de forma escancarada, sem medo das punições, tirando sarro de tudo e todos. Mesmo muitos o apontando como um rebelde vazio, ao longo dos anos ficou claro que não era bem isso: ele foi perseguido justamente por falar a verdade e influenciar tantas pessoas. Sendo assim, temos aqui mais um caso do circo dos horrores midiático, onde a opinião pública é facilmente influenciada.


Visto tudo isso, o filme tem maestria por tentar trazer vários ângulos de uma mesma visão. Temos Lenny Bruce das manchetes (alcóolatra e falando qualquer baboseira), da geração fanática que via embasamento em cada uma de suas palavras, da população comum que simplesmente vai de acordo com a maré da opinião massiva e do idealismo liberal, em prol da liberdade de expressão. Mas, acima de tudo, temos Lenny do dia-a-dia: o cara que chorava e pagava por cada decisão. Em síntese, temos mais uma história de um orador incompreendido, entretanto dessa vez um pouco diferente: em nenhum momento ele é glamourizado. O que fica é a sede de um homem em compartilhar sua visão e assim, passar por todas as provações. O engraçado é inicialmente ser tão aceito pela sociedade, e a mesma que o alavancou, o jogar na lama. Mesmo abismadas com todo seu palavreado, as pessoas continuam concordando - elas sabem que ele estava certo, mas por alguma razão estranha (conhecida como moral ou honra), o renegaram completamente. Sem tornar Lenny uma vítima, o longa mostra tudo isso - um feito admirável, que parte da ideologia e conceitos de quem realizou a produção. Um filme comum hollywoodiano facilmente tornaria Bruce no novo messias do humor.
No inicio temos uma separação clara entre comediante e pessoa. O personagem principal é somente um rapaz em busca de sucesso com seu humor enfadonho. Aos poucos vemos tudo se misturar e até o final, não há mais divisória. O médico é o monstro, e o monstro é o médico.
Há um recurso usado muito interessante, que podemos ver por exemplo em Seinfield. Geralmente a série de comédia começa com seu protagonista realizando uma apresentação, depois o episódio em si realmente se inicia, mostrando de onde vieram aquelas ideias. Em Lenny é parecido, porém o inverso: primeiro acontecem os problemas, muitas vezes simples e comuns, mas completamente dramáticos; após, vem a banalização do próprio comediante - toda aquela loucura que ele viveu, todo aquele drama sombrio, se transforma em piadas acerca do cotidiano, dialogando com qualquer pessoa.

Essa forma de conduzir a história é mesclada maestralmente com o visual. Tive a impressão de estar vendo uma peça teatral sobre os bastidores de uma peça teatral - não a toa, o filme foi adaptado de uma peça. Portanto, temos uma direção mais bidimensional; chapada, como se houvessem cenários. A vida comum toma cores mais sombrias dentro do preto e branco; para Lenny, talvez seja cinza demais a vida comum. Já em todo seu glamour, nos palcos ou simplesmente enlouquecendo, a claridade toma conta e aquele american dream da década de 60 fica visível nas telas.


Claro que eu não poderia terminar esse post sem falar das atuações, que estão sensacionais. Dustin Hoffman é Lenny Bruce, tanto em aparência quanto em personalidade. Apesar de todas essas composições e escolhas acertadas, o ator carrega o filme nas costas. São seus trejeitos que tornam cada momento diferente e fora da passividade. Bruce tem consciência de quem é e de sua época, e mesmo na perdição, é um personagem colorido em um mundo preto e branco. Os coadjuvantes também não ficam atrás, levando de forma coerente o teatro para as telas. Valerie Perrine (Honey Bruce), encaixa perfeitamente com Hoffman, e a química do casal torna essa aventura amorosa em um relacionamento ambíguo - tão belo e apaixonante, mas ao mesmo tempo tão problemático e de certo modo doentio.

Conclusão

Lenny é um filme expressivo em sua essência, sem a necessidade de ensinar qualquer coisa ou criticar alguma moral - a sua própria história faz isso, sem exageros ou dramaticidade demais, de forma irônica e tocante. Temos na tela um personagem humano, cheio de defeitos, mas com um ideal simples de liberdade - apesar de mutável, Lenny tem a mesma concepção desde o começo do filme. O problema é ele ser o estranho no ninho, e essa estranheza ficar cada vez mais evidente conforme a sociedade o despreza. Um filme simples, mas com diversas camadas abertas para interpretações, não do irreal, apenas daquilo que nos rodeia. Já dizia Voltaire: "Deus é um comediante entretendo uma platéia com medo demais para rir". O quanto vale nossa moral?

Ao final, Honey olha para a câmera com os olhos marejados e não sabe responder qualquer pergunta acerca das complicações legais de Lenny. Ela apenas sabe que algo deu errado e não consegue acreditar aonde aquele mundo promiscuo os levou. Sua única resposta, diante daqueles inebriantes fantasmas do passado é: "... ele era tão engraçado"

El Psy Congroo.

Nome: Lenny

Ano: 1974

Direção: Bob Fosse

Roteiro: Julian Barry

Gênero: drama, comédia, biografia

Elenco: Dustin Hoffman, Valerie Perrine

Nota:  ★ ★ ★ ★ ★ (100/100)

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