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Destaques

O terror como punchline humorística em Get Out

O cinema tem como principal função apenas entreter, assim como qualquer outra forma de arte. Você pode dar "n" motivos para uma obra ser boa, mas se ela não entretêm, ela não serve para nada. Tendo isso em mente, eu sinto falta de um cinema um pouco mais descompromissado; eu sinto falta de contos e crônicas sinceras, coisas que só vemos em produções independentes que em sua maioria se quer chegam por essas bandas. Portanto, ver um filme como Corra fazendo sucesso tanto entre o público de nicho e o público geral, acabando por ser exibido com certa relevância, chega a emocionar. Não que isso automaticamente torne o longa bom, mas é que a sua proposta é tão simples e ao mesmo tempo tão cheia de nuances e propósitos, que é difícil não torcer para que dê certo. Corra deu certo e não só isso, é um respiro no gênero tanto de terror quanto de comédia. Ele não é inovador, mas a sua exótica combinação de gêneros culmina em uma história bem executada, sem a necessidade de ser megaloma…

One Piece e o fanatismo dos shounens

O que mais surpreende quando se fala de One Piece é: como uma história estranha de um garoto bobão com poderes de borracha conseguiu várias vezes a alcunha de anime mais popular do Japão? É bom mesmo? A jornada infinita para a aventura é algo tão universal que consegue sucesso em qualquer país? Vamos falar sobre o que realmente é One Piece.

One Piece no Japão

Muito se fala sobre os problemas sociais do Japão. Que a taxa de suicídio deles é alta todo mundo já sabe, mas pouco se fala no Brasil de como é a vida adulta deles. Vocês fazem ideia quanto um japonês tem que estudar para conseguir um emprego bom? Ou quão estressante é o trabalho por lá? Mesmo se você não tiver nenhuma formação superior é possível arranjar empregos em fábricas, mas por alguns relatos eu soube o quanto é pesado trabalhar em um lugar desses. Em uma fábrica japonesa você ganha por hora, quem não trabalha não recebe, e é muito comum os funcionários fazerem inúmeras horas extras para encorpar os seus salários, já chegaram a me dizer que em média o trabalhador japonês sempre trabalha duas horas a mais por dia, e existem fontes que alegam que em muitos casos as horas extras sequer são remuneradas. Pelo menos em algumas situações é possível receber um salário de até R$ 6.000 com um emprego que não requer ensino superior, mas para isso eles trabalham como cavalos.


 Mesmo em escritórios, o estresse não é menor só por estar trabalhando atrás de uma mesa. Vocês já ouviram falar de karoshi? A tradução literal dessa palavra significa "morte por excesso de trabalho". 

"O Japão é um dos poucos países que relatam estes casos nas estatísticas em uma categoria separada. As principais causas médicas das mortes pelo karoshi são ataque do coração e derrame devido a estresse." (via wikipédia)

A história do Japão é longa e extensa, e não vou detalhar tudo aqui pois provavelmente eu cometeria diversos erros, porém posso dizer com certeza que as sequelas da Segunda Guerra Mundial geraram uma cultura imediatista, onde o trabalho é necessário não importando suas circunstâncias, sentimentos ou estado físico, afinal reconstruir o país era preciso. Algumas pessoas discutem que essa abordagem econômica gerou o que hoje são a maioria dos problemas sociais do Japão.


Mas o que diabos isso tem a ver com One Piece? Veja bem, uma obra que faz tanta alusão a infância em sua forma bruta, irá ser um fracasso numa sociedade onde crescer é algo muito mais pesado do que estamos acostumados no Brasil?

"É por isso que existem tantos animes sobre escola"Imagem do anime Toradora

One Piece é a história de um grupo de amigos que não está ligado a nenhum governo e possuem origens distintas, logo eles não são xenofóbicos, viajando o mundo fazendo o que querem, sem as responsabilidades da vida adulta, festejando e se divertindo em terras desconhecidas, onde o poder da amizade supera todos os desafios e une as pessoas para sempre - o que no mundo real não passaria de um sonho. É por isso também que o fenômeno lolicon é algo tão proeminente no Japão, esse culto a infância é um assunto que merece um post próprio de tão complexo. É aquela história de: os olhos são grandes porque eles tem olhos pequenos, os peitos são grandes porque as mulheres não tem peito, o mundo é livre porque a sociedade deles é rigorosa, as amizades são tão romantizadas porque é difícil se relacionar com as pessoas, e os romances são evitados porque a relação entre homem e mulher é praticamente um tabu, Você sabia que a mulher no Japão ganha em média R$1.000 a menos que um homem que está prestando o mesmo serviço? O tratamento de um sexo para o outro é muito mais divergente que no Brasil. Não só One Piece, mas diversos animes muito famosos fazem sucesso por estarem nessa categoria que trás conforto à mente dos japoneses; não que isso torne as obras necessariamente ruins, mas é algo intrínseco em sua essência Eu gosto de dizer que a arte é um reflexo da sociedade que a criou, e nesse caso faz muito sentido.

E o anime/mangá? Tem qualidade?

Vamos analisar a partir do principio estabelecido no post do broder Maeister sobre Star Wars: para criar conceitos profundos é preciso dar uma noção de tridimensionalidade, Os personagens precisam possuir psicológico, contexto e relacionamento. Respectivamente isso significa: a forma como os personagens pensam e refletem sobre o mundo, a série de acontecimentos que os leva a participarem de alguma ação que faz a história se mover, e a forma como eles se comportam com o mundo ao seu redor. One Piece falha nos três.


Psicológico

A motivação dos personagens é uma das mais genéricas possíveis, e vou deixar bem claro que ser genérico não é necessariamente o problema. A superficialidade na execução de uma ideia genérica é o que a transforma em algo ruim. Isso fica muito claro quando percebe-se que o Luffy do episódio 1 está mentalmente igual ao Luffy do episódio 700, as únicas coisas que realmente mudaram foram os novos power ups de shounen que ele conseguiu adquirir, o protagonista não pensou sequer uma vez no que significa se tornar o Rei dos Piratas, aliás NINGUÉM do grupo dos protagonistas reflete sobre seus objetivos. Não pensam na complexidade do mundo a sua volta, sobre si próprios e o papel que estão desempenhando no mundo! Isso acontece porque praticamente todos os personagens são desenvolvidos usando o mesmo modelo, salvo raras exceções. A maioria deles sofreu no passado, geralmente quando era criança, e teve uma experiência emocional forte que o fez ter um sonho de vida, para que crescesse e virasse um badass.
O desenvolvimento dos personagens se resume a isso, o psicológico deles no momento presente nunca é analisado fora do superficial. É como se o passado fosse a única coisa que definisse quem eles são. Após o flashback, eles geralmente passam por alguma crise para tentar aumentar sua profundidade, como o caso da Nico Robin não se considerar um membro do grupo e ter um arco inteiro dedicado a ela ou o conflito do Usopp com o Luffy. Mas no final das contas tudo é resolvido com o desfecho de "somos todos amigos e nada separará nossa amizade!". Situações que dão brecha para uma visão muito mais profunda são resolvidas de forma infantil e simplista. Salvar a Nico Robin implicou em um conflito com a maior organização política do planeta, após isso não é mostrado a Robin se culpando por arrastar seus amigos para esse problema - eles não pensam que agora vão ter que enfrentar inimigos ainda mais poderosos por procurarem briga com quem não deviam e não tentam se preparar melhor, conseguir mais poder aquisitivo e bélico para enfrentar o mundo.
Se a minha memória não falha, um arco que tem tanto contexto político é terminado em cenas de alívio cômico e com o grupo indo pro mar para achar a próxima ilha aleatoriamente. Também é possível dizer que após passarem por flashblacks e crises padrão, os personagens atingem um status quo, esse que é mantido pelo resto da obra, definindo quem ele é, o que ele faz e como ele se comporta, não se fala mais sobre seu passado ou o que eles querem fazer com suas vidas. O enredo segue para a próxima aventura a procura do próximo personagem a ser encaixado nesse modelo.


Já chegaram a me dar a desculpa de que eles não crescem mais porque já são adultos, afinal a faixa etária deles está em torno de vinte anos. Porém, quem me disse isso não fazia ideia do que significa ser um adulto. Já conheci pessoas com filhos tendo cerca de 30 anos que não se sentiam realmente responsáveis e crescidas, e com o tempo iam mudando a forma de interagir com o mundo. Nunca na vida se atinge um ponto onde você se torna uma pessoa imutável. E aliás, os personagens de One Piece não se comportam nem um pouco como adultos: o Luffy age como um pré-adolescente, e o Brook, um esqueleto com 98 anos, se mostra tão maduro quanto o protagonista. O que do ponto de vista crítico é um absurdo. O Brook deveria no mínimo ter alguns problemas psicológicos, ele era um humano que agora sobrevive numa forma sem carne, fora isso ele passou décadas preso em isolamento - quem assistiu OldBoy sabe do que eu estou falando.


Pra não falar só do Luffy, vamos falar de outro personagem que estava presente desde o começo: Zoro. Ele quer ser o maior espadachim do mundo, como ele faz isso? Ele treina, mas não é aquele treinamento complexo que envolve técnica, ele não vai estar sob a tutela de um mestre nem nada do tipo, o que se sabe do Zoro é que ele treinou quando era criança num dojo, e quando adulto foi mostrado fazendo treinamento físico dentro do navio, com alteres e coisas assim. Ele quer se tornar o melhor espadachim porque fez uma promessa que ninguém lembra a uma menina que conhece na infância, esta que todo mundo já esqueceu, porque nem o próprio Oda se da ao trabalho de colocar um psicológico no Zoro, mostrando que ele continuou treinando por conta dela, que ele sente falta dela, ou que ela influenciou tanto sua visão sobre a arte da espada que foi o caminho que ele seguiu pela vida. Há alguns anos atrás, ele percebeu que isso era bem fraco e decidiu dar um treinamento próprio para todos os membros do grupo em um arco forçado da história, e advinha quem ensina o Zoro? O cara que ele quer derrotar! No mundo de One Piece, Mihawk é o melhor espadachim. Derrotando ele, o Zoro se torna o melhor, daí ele chega e fala mais ou menos isso: "Você sabe que eu quero te derrotar, mas me treina aí tio! Necessidade é mais importante que orgulho". Então por que gostam tanto desses personagens? Pela mesma razão que existem os Gokuzetes, os fãs do Ichigo e de qualquer personagem vazio que perpetua ações impressionantes, pois ele é "foda". Bem comum te darem motivos como "Tal personagem é muito macho, fez tal coisa, quebrou a cara de outra pessoa de tal forma", isso serve muito bem como argumento pessoal, mas como argumento factual não possui valor, o senso crítico tem que se basear em fatos concretos, não no quanto você, ou até eu, acha muito boa as atitudes dos protagonistas da história.

Só vi fodice nessa guerra, e por isso gostei, mas depois quando fui analisar com mais calma, vi que os motivos e o desenvolvimento dessa guerra são tão vazios ou até infantis.

Ao longo de 700 episódios, Luffy e sua rapaziada chegaram a destruir a vida de muitas pessoas. Mesmo que o Oda não goste de mostrar pessoas morrendo, muita destruição já aconteceu no mundo de One Piece. Mas com a desculpa clichê de estar fazendo o certo, todas as ações do Luffy sempre passam impunes por mais inconsequente que sejam, afinal de contas o caráter da história é preto no branco, não existe debate moral, você sempre sabe quem é do bem e quem é do mal, não importa as ações ou os motivos. Em certas ocasiões talvez dê para colocar uma abordagem mais cinza da situação, pois houveram batalhas em que nem os piratas nem os marinheiros eram exatamente malvados durante o conflito mostrado acima, mas quanto aos personagens em si ficava muito claro quem era do bem e quem era do mal. O contexto na situação era propícia para uma análise mais profunda, mas os personagens permaneceram preto no branco. Seguindo no debate moral, o Luffy não se sente minimamente culpado por ter praticamente espancado centenas, talvez até milhares de pessoas, e provavelmente matou várias delas por uso excessivo de força, mas o Oda não gosta de mostrar mortes explicitas, ele disse que apesar de não matar, o Luffy destrói os sonhos das pessoas, e eu queria saber: como isso é mais infantil que a morte?! Você tem que ser um psicopata para se deleitar e sempre se fissurar em destruir os sonhos de quase todos os inimigos que você encontra durante sua vida. O Luffy é esse tipo de personagem profundo e interessante? Porra nenhuma, ele sai socando qualquer um que ele acha que fez coisas erradas sem se importar muito, nunca é mostrado uma visão do seu psicológico explicando o que ele realmente visa. O objetivo de quebrar os objetivos de seus inimigos é a desculpa que o Oda da para seu enredo superficial e existem muitas outras para os diversos furos e falhas na história de One Piece. Converse com um Piecetard, ele vai te arranjar motivos para One Piece ter um mundo mais bem construído que The Witcher 3.



Contexto

O mundo de One Piece é daqueles que não possui nenhuma lógica científica, os poderes por exemplo, podem ser literalmente qualquer coisa, existem frutas que dão efeitos infinitos, e isso gera alguns dos poderes mais bizarros que já vi, como um homem hormônios. Aliás essa escolha de poderes é bastante questionável, colocar algo tão chato quanto borracha num protagonista não parece uma boa escolha.

"MAS SÓ COISAS AFIADAS AFETAM BORRACHA! É UM PODER FODA SIM! SOCOS NÃO FAZEM EFEITO NELE!"

Meu rapaz, você faz ideia de que um tiro perfura o seu corpo tanto quanto uma faca? E que a resistência da borracha não é infinita? Aquela ligas leves usadas para amarrar cartas de baralho conseguem ser facilmente partidas com as mãos, então como uma cara que quebra parede no dedo não teria alguma vantagem contra tecidos de borracha? O Reed Richards, homem-borracha da Marvel, compensa sua falta de poder de luta com intelecto e máquinas que ele mesmo cria; ele nunca foi um grande lutador. Agora isso seria diferente se te explicassem que essa borracha na verdade é uma super borracha! Capaz de resistir a uma força absurda, mas isso não acontece, nenhum poder é explicado a fundo, aliás borracha é um negócio tão sem graça que o Oda inventou os gears para fazer o Luffy ficar mais legal. Basicamente seria algo assim: ele usa o corpo de borracha para reter sangue e depois liberá-lo numa velocidade maior, o que na lógica de One Piece deixa o Luffy super rápido. Já no mundo real, imagino uma coisa dessas rompendo várias artérias e fudendo o organismo de alguém. Essa é a mágica da suspensão exagerada da realidade nos animes, onde muita coisa maluca se torna possível e pra falar a verdade eu gosto desse tipo de coisa até certo ponto.
Eu adoro One Punch Man, mas preciso admitir que poderes aleatórios não constituem um mundo profundo, ele se torna menos crível do que qualquer história que se preocupa com um sistema lógico, como por exemplo Naruto: pelo menos em seu início, mesmo dando pequenos deslizes (o protagonista lê um pergaminho e ganha um super power up), Naruto conseguia apresentar um sistema de poderes consistente.


O que levou Luffy a ser forte são alguns dos clichês mais idiotas que as pessoas insistem em continuar utilizando, algo tão raso como dizer que a família dele é muito forte e logo está no sangue. O que é uma grande bobagem, pois já foi comprovado que a teoria de Lamarck estava errada: a força desenvolvida do pai não passa para o filho, a menos que os pais sejam membros de uma espécie monstruosa com fisionomia mais poderosa; mas não, o Luffy é um humano comum, na verdade grande parte da população em One Piece são humanos de aparência normal. Existem humanos anormais com mais de 5 metros de altura, e estes tem sua força justificada por isso - mas e o Luffy que é um dos que tem a estatura mais baixa e nem aparenta ter tanto músculo?
Novamente o Oda percebeu o quanto isso era vazio, e fez um flashback falando que quando era criança ele era jogado em florestas e lutava com monstros, mas como diabos ele sobreviveu a floresta em primeiro lugar? Aí vem o Lamarckismo dos animes mais uma vez: ele, um humano pequeno, tem uma força inata absurda que ninguém explica!


Em One Piece nada é impossível desde que você acredite nos seus amigos e é assim que grande parte do enredo se desenvolve: Luffy conhece alguém em alguma das ilhas que ele está visitando no mundo oceânico, tem algum problema muito sério ali, a pessoa é muito gente boa e tem uma boa relação com o Luffy, ele vai lá, resolve o problema derrotando inimigos muito mais experientes e fortes que ele, então acaba o arco. Eu não estou brincando, isso se aplica em praticamente todos os arcos, existem algumas exceções, mas no momento ainda são minoria.

Então porque existem pessoas que são crentes que One Piece se trata de uma história madura num universo complexo? Apesar da abordagem ser em grande parte superficial, o conteúdo apresentado em One Piece é muito diverso, interessante e realmente maduro até certo ponto, a ideia de não ter lógica não necessariamente é algo ruim, afeta a criação do mundo, porém as relações humanas podem ser profundas num mundo sem lógica!
No universo de OP existe uma coalização política que controla praticamente todos os países do mundo, ela se chama Governo Mundial e detém grande parte dos recursos mundiais, sendo a maior força bélica e influência política. Os países ainda tem sua soberania e exércitos próprios, mas apesar de reconhece-los, o Governo pode não respeitar esta suposta soberania se for de seu interesse. O exército a serviço do Governo se chama marinha e ela tem permissão para atuar em praticamente todos os países que estiverem sobre a influência deste sistema político, que não se trata de nada além de uma ditadura. Neste tipo de contexto são gerados indivíduos que não querem se afiliar a nenhuma nação, e é aí que se encaixam os piratas, a maior parte do mundo é água, então quem controla o mar controla o mundo. Logo, criminosos poderosos mexendo com as relações do oceano são um grande problema, daí nasce o grande antagonismo de One Piece entre marinha e piratas.



Mas as coisas não eram assim no começo, inicialmente a ideia de pirata em OP seria mais semelhante a um pirata de verdade. Tirando o Luffy que sempre foi um aventureiro estilo Goku, seus inimigos eram criminosos que roubavam, matavam, controlavam cidades e tinham portos próprios. Não havia profundidade no governo mundial e demoraram centenas de capítulos para metade das coisas que eu falei até agora serem apresentadas - tudo começou como um garoto de borracha se aventurando em lugares mágicos e aleatórios, aliás, a falta de lógica se aplica também a formação geológica e biológica do mundo: existem oceanos de nuvens, ilhas de gigantes e o clima dos lugares não faz muito sentido, existem lugares que sempre está nevando e outros que está sempre fazendo calor. Com o sucesso as coisas crescem; nem o Oda deve ter pensando que uma história tão simples faria sucesso, ao longo dos anos ele foi aos poucos tentando cobrir seus furos de enredo e por consequência, One Piece acabou possuindo temas interessantes como escravidão, censura, ditadura, relativização da justiça, preconceito e muitas outras coisas. Mas como a abordagem na maioria dos assuntos é superficial, a grande variedade de temas não consegue brilhar de verdade, você acaba sentindo uma ilusão de que a história é profunda quando na verdade a abordagem de tudo é simples demais para ser considerada boa escrita, sem falar que, diversos temas muito relevantes ao enredo do mundo são deixados de lado por CENTENAS de episódios e capítulos. Qual foi a última vez que a Robin leu um poneglyph por exemplo? O que é o século perdido? Quem foi Gold Roger? O Oda teve mais de 15 anos pra esclarecer seu enredo, e até agora ele permanece uma grande incógnita em vários assuntos.


Relacionamento

Luffy se deparou várias vezes com as tiranias do governo mundial e já viu a escravidão em primeira mão, mas nenhum personagem muda ou parece levar a bagagem desses acontecimentos consigo, ou sequer reflete de forma mais séria sobre as bases desses problemas.

Exemplo: a escravidão já enfureceu muito o grupo de protagonistas, mas não pela escravidão em si, um arco inteiro falando sobre isso e a posição deles sobre o assunto se torna automaticamente contra porque eles são do bem, mesmo eles nunca se pronunciando sobre o que realmente pensam em relação a escravidão. O que fez o grupo se enfurecer foi que um amigo deles iria ser escravizado, e aí vem a infantilidade e escrita rasa atacando de novo, o catalisador de um arco com um tema tão interessante é de novo, o amigo em problemas. E os personagens que realmente apresentavam uma visão mais profunda sobre o tema são figurantes na história, nunca mais apareceram após esse arco.

Os personagens não tem como objetivo derrotar o governo ou melhorar a situação do mundo, objetivo não existe, se eles tivessem um tanto de maturidade tentariam evitar diversas das situações nas quais eles se envolveram, pois muitas vezes causaram demasiadas feridas e não deram um retorno que compensasse o sofrimento que passaram. O objetivo de um pirata deveria ser acumular riquezas e poder, mas em OP o objetivo de Luffy e sua turma é se aventurar eternamente em uma história que parece não ter conclusão. Os outros piratas parecem querer isso, pra ser mais especifico os vilões tem um psicológico muito mais interessante e se encaixam muito melhor no contexto: eles tentam erguer exércitos de bandidos, conquistam ilhas e as protegem da influência do governo e de outros piratas. É um contexto político muito bem encorpado com muito potencial, aliás uma aliança desse tipo já foi proposta ao Luffy, mas ele com toda sua maturidade recusou porque os caras da aliança não "eram seus amigos". Os caras praticamente forçam lealdade ao Luffy - não lembro sua resposta exata, mas foi algo assim: "Eu não preciso de um exército, eu vou dominar o mundo com 10 pessoas e um monte de carne!".


Conclusão

One Piece é uma história com muito conteúdo, divertida e até certo ponto extremamente carismática. É justamente esse carisma que trás pessoas do mundo todo a essa obra, o contexto difere do Japão, mas diversão é algo universal: uma criança africana consegue gostar perfeitamente de Tom Jerry tanto quanto uma americana. Porém, a desculpa de ser uma história visando o publico infantil não exime One Piece da sua superficialidade e incapacidade de executar com maestria todos os sub-plots e temas que são tratados na história. Os personagens são imutáveis, não crescem, não mudam seu pensamento e não tem novos objetivos, essa é uma das razões de eu ter parado de assistir.
Eiichiro Oda disse que OP estava na metade lá pelo episódio 600, então quer dizer que teremos 1200 episódios nos quais os protagonistas não amadurecem, não crescem e nunca mudam sua relação com o mundo? Só no tempo de assistir esses 1200 episódios, que são horas pra caralho, da para uma pessoa mudar muitas formas, quem estuda filosofia sabe que a única coisa perfeita a ponto de ser verdadeiramente imutável são as ideias, mas uma história não pode almejar o ideal, quanto mais ideal ela for menos crível se torna.

Já passei muito tempo vendo One Piece, se você quer diversão descompromissada, num universo totalmente aleatório que talvez gere algum material que possa plantar reflexão na sua mente, One Piece pode ser bom para você. Mas lembre-se que a reflexão vai se limitar a sua mente, em grande parte vai depender do quanto você conhece o assunto. Eu já havia estudado muito sobre sociedade e ditadura enquanto assistia, imagino que para um leigo total o efeito seja diferente, pois o anime não se preocupa em te ensinar conceitos profundos, por mais que não ter preconceito e tratar todos da mesma forma sejam ótimas ideias, One Piece não é o sinônimo de história que retrata isso bem. Se você realmente estiver disposto a assistir OP, lembre-se que os personagens nunca vão crescer e você vai ficar anos preso em uma história com desenvolvimento deficiente, sendo um problema que assola uma grande fatia dos animes produzidos hoje em dia. Por isso eu acredito que é importante você tirar o mais aclamado do pedestal, assim da para melhorar o seu senso crítico e se tornar disposto a conhecer obras melhores.

Mande esse texto para aquele seu amigo chato que acha OP a melhor história do universo e enche seu saco pra assistir, eu não ligo de me xingarem, mas vai ser legal ver a reação de fanboy dele! Haha, eu mesmo adoro ver isso.

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