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Destaques

O terror como punchline humorística em Get Out

O cinema tem como principal função apenas entreter, assim como qualquer outra forma de arte. Você pode dar "n" motivos para uma obra ser boa, mas se ela não entretêm, ela não serve para nada. Tendo isso em mente, eu sinto falta de um cinema um pouco mais descompromissado; eu sinto falta de contos e crônicas sinceras, coisas que só vemos em produções independentes que em sua maioria se quer chegam por essas bandas. Portanto, ver um filme como Corra fazendo sucesso tanto entre o público de nicho e o público geral, acabando por ser exibido com certa relevância, chega a emocionar. Não que isso automaticamente torne o longa bom, mas é que a sua proposta é tão simples e ao mesmo tempo tão cheia de nuances e propósitos, que é difícil não torcer para que dê certo. Corra deu certo e não só isso, é um respiro no gênero tanto de terror quanto de comédia. Ele não é inovador, mas a sua exótica combinação de gêneros culmina em uma história bem executada, sem a necessidade de ser megaloma…

O lado sombrio de Star Wars

Como uma série de filmes conseguiu se tornar símbolo da cultura pop
Recentemente estreou Star Wars: O Despertar da Força, um filme com expectativas gigantes, tendo como principal função revitalizar a franquia lançada em 1977, por George Lucas. Em torno disso, muito se discute sobre a qualidade da série, principalmente a respeito do embate entre a nostalgia e a qualidade real. Sendo assim, estamos falando não somente de uma obra, mas de uma marca. O fanatismo percorre diferentes momentos e lugares, e quando menos se espera, ele adentra para se fazer presente. Algumas questões devem ser colocadas em xeque e analisadas com cuidado. Portanto, desde já aviso: este post vai lidar com radicalismo e se você não tem uma mente aberta ou é um fã ardoroso, provavelmente não irá entender. Pois bem, esta é uma dissertação sobre o monopólio, símbolos, indústria cultural e fanatismo - caso você discorde ou tenha algo a acrescentar, os comentários estão aí para debate.



Primeiramente, devo ressaltar que estarei abordando Star Wars como um todo, colocando uma ressalva aqui ou ali, seja no filme novo ou na trilogia prequel. Assim, o post fica mais dinâmico e de fácil entendimento.

"Star Wars é incrível!"
Uma pergunta que sempre me fiz foi: por que Star Wars é tão aclamado?
Lá fui eu assistir a trilogia clássica para descobrir. O que encontrei foram filmes comuns, muito bons, mas longe de serem obra-primas.
Para começarmos a tentar entender esse fascínio em torno dessa ópera espacial, devemos separar o lado pessoal do lado crítico. Por exemplo: eu sou fã de Doctor Who. E quando digo fã, é fã mesmo - para mim é uma das melhores séries já criadas. Entretanto, isso não anula meu olhar crítico: em DW é perceptível diversos defeitos, muitas vezes relacionados ao roteiro. Enquanto para mim a série como um todo soa incrível, para outra pessoa pode soar como uma aventura infantil , forçada e sem o menor sentido. Ponto. Aqui, eu e essa pessoa imaginária discordamos.
Porém, ao fazer uma análise, devemos olhar criticamente, por meio de fatos. Por mais que o Joãozinho xingue Doctor Who, ele deverá reconhecer que há tramas bem amarradas, mirabolantes e bem construídas. E por mais que eu ame a série, devo reconhecer que há episódios sem sentido, mal desenvolvidos e superficiais. Tendo isso em mente, jogo a questão: Star Wars é tão bom assim?
E eu respondo: não.

"Ah Maeister, mas como assim? Star Wars é um filme épico!"
Isso depende muito e muito mesmo. A qualidade de Star Wars está intrinsecamente ligada à nostalgia. Como assim?
Quando o primeiro filme foi lançado, não havia nada igual nos cinemas. Era um momento único, fruto de uma época única. Quem viveu aquilo, provavelmente tem uma referência diferente de Star Wars.
Claro que há sempre exceções, como por exemplo um garoto de 12 anos atualmente assistir os filmes antigos e acha-los incríveis. Mas, se você não viveu aquela época e não teve influências exteriores, como família e amigos, dificilmente olhará os filmes do mesmo jeito.
O que eu quero dizer é: a qualidade total do produto é relativa. Essa emoção vem da criação do símbolo (que falaremos mais adiante), e não necessariamente do desenvolvimento da obra.

Aqui não estou dizendo que os filmes não são ótimos, apenas que eles dependem muito do emocional e do imaginário pessoal para ter toda essa qualidade. Garanto para você que Star Wars: O Despertar da Força, deve ter sido incrível para um trintão e, talvez nem tanto para um adolescente de 15 anos.

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"Star Wars é horrível!"

Provavelmente alguém que diga isso nunca assistiu nenhum dos filmes e deve estar apenas hateando para parecer mais inteligente e hipster.
É inegável a qualidade dessa franquia. Mesmo em seu pior momento (a trilogia prequel), vimos coisas ótimas. O mundo é muito mágico e imersivo; os efeitos visuais são estonteantes, seja em 1977 ou 2015; e a estrutura principal do enredo é bem construída. Star Wars desenvolve símbolos como ninguém e isso é incrível: seus personagens são cativantes e bem estilizados. Os diálogos são marcantes e as cenas tem um impacto forte, mesmo fora de contexto - estamos falando de uma história épica no melhor molde grego e sendo assim, não é coincidência ser tão dramática. A junção de elementos é muito interessante, pois temos uma porção de temas, desde espacial, faroeste, ficção científica, romântico e até mesmo religioso. É difícil haver solidez com tudo isso em sua composição.
Então, nesse ponto temos uma mudança radical no modo de contar histórias por meio dos filmes. Isso já acontecia nos livros, mas nos longa-metragens ainda não havia nada tão novo e pop.

"É muito original e tem personagens ótimos"

Calma lá. Star Wars tem suas inegáveis qualidades, mas entretanto, isso não o torna isento de defeitos. Ao contrário, essas qualidades acabam levando à alguns defeitos. Uma delas é a originalidade: por mais que tenha conseguido fazer uma junção de elementos, Star Wars não é original. Na verdade, o considero uma lambança de conceitos clichês. De um lado temos um mundo muito interessante, mas que não é desenvolvido, em prol da Jornada do Herói. Essa jornada, por sua vez, torna os personagens muitas vezes rasos e sem sentido. Do outro, se o universo cativa, a composição dele difere: é uma junção de conceitos que já deram certo e, até mesmo uma interessante tentativa de criar uma história mitológica, com elementos tão comuns das lendas antigas. Entretanto, em alguma momento você precisa estabelecer o mundo em si e os personagens, pois diferente das histórias contadas, ali na tela surge a necessidade de ser crível. O que acontece? Temos um universo mal explorado, conceitos ótimos, mas jogados de lado, e personagens bidimensionais.

Bom, não sei se esse conceito de tridimensionalidade dos personagens já existe, mas eu acabei criando com base nas minhas análises de diferentes obras literárias, usando o conceito de símbolo e interpretação do pensamento, de Ferdinand Saussure e Immanuel Kant .
Em minha percepção, o personagens funcionam em três dimensões (algo parecido com altura, largura e comprimento): psicológico, contexto e relacionamento. O psicológico se refere, logicamente, ao interior do personagem. Ou seja, os pensamentos, dúvidas, anseios, considerações, personalidade e etc. Coisas que demonstram quem realmente a pessoa é e o que ela realmente acha do mundo.
O contexto está relacionado à história deste ser. O que o levou a chegar ali? Por que está fazendo determinada coisa? Quem é a sua família? De onde veio? - Tudo aquilo que está a sua volta e acaba influenciando-o. O contexto se aplica também ao mundo que este ser vive e como afeta sua vida.
E por fim, o relacionamento. Essa seria a parte ligada muitas vezes ao emocional, mas corresponde também ao modo de agir diante dos outros. Sendo direto, esse é o modo como ele se apresenta. Os diálogos e ações são muito importantes.
Sendo assim, já devem imaginar que esses três conceitos não são fechados e se relacionam quase sempre, pois influenciam uns aos outros.

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Okay, agora vamos para Star Wars.
Os personagens tem psicológico?
Resposta: não e talvez esse seja o maior problema da saga. Claro que há o fato de ser um filme e ser mais difícil passar o interior dos personagens, mas Star Wars realmente falha nesse quesito. Muitas vezes sinto que os personagens não pensam, tendo reações inesperadas que podem não condizer com quem realmente são.
Vamos usar por exemplo Finn, personagem do filme recente: o rapaz é um ex-Stormtropper, criado basicamente para servir e matar. Entretanto, sem muitas considerações, ele decide que é errado fazer o que faz, repudiando totalmente o tal lado "negro da força". Mas isso é um problema: por mais que uma pessoa acabe ficando deste jeito, concluindo que matar é errado, ela vai ser diferente de alguém que cresceu normalmente. Não só isso, Finn foi criado para matar e nisso se insere um aspecto frio e calculista - mas não, talvez ele seja um dos personagens mais emocionais. Automaticamente ele deveria pelo menos estranhar qualquer afeto, por não ter crescido nesse contexto onde "ações boas" são consideradas a regra social. Entretanto, ele não estranha e facilmente adere o lado bom da força. Em determinado momento, o rapaz tenta fugir da tal Primeira Ordem, mas rapidamente cai nos derradeiros clichês.
Veja bem, o problema não são os clichês, mas o modo como são usados: em Star Wars é tudo em demasia, dando um aspecto de preto no branco infantil. Outro grave problema que este, mesmo se baseando em mitologias, não aprendeu: o mundo é todo colorido, tendo diversas tonalidades. Na saga, ou é bem ou é mal e pronto. Acabou. Vemos esse problema claramente em Finn, que tem de seguir obrigatoriamente o lado bom. Isso tira parte da emoção. O pior é você poder ver isso em tantos outros personagens, como o próprio Darth Vader - na trilogia clássica soa épico, mas ao ter um contexto, na trilogia seguinte, soa galhofa, pois os filmes não sabem trabalhar com meio-termo ou ambiguidade moral.

Mas e aí, por que parece incrivelmente épico?

Primeiramente, vamos entender o que é um símbolo: de acordo com Ferdinand Saussure, é uma junção de signos usadas para significar algo de forma estilizada. Como assim?
Signo é tudo aquilo estabelecido como norma para dar nome. Por exemplo: casa é um signo, que remete à um edifício usado para abrigo. Mas ao pensar em tantos outros signos e conceitos, como comodidade, paz, segurança e comida, colocando-os juntos, casa se torna um símbolo. Porém, o que concretiza isso é seu aspecto visual estilizado: o desenho de uma casa acaba significando mil coisas.
Sendo assim, Star Wars funciona utilizando diversos signos e símbolos, para formar um símbolo maior. A marca Star Wars, seja pela trilha sonora ou estrutura do roteiro, te lembra automaticamente algo épico, e épico facilmente se torna sinônimo de qualidade. Mas não é bem assim, épico pode ser simplesmente o modo adotado para conduzir a história. Logo em sua mente vem a intensa da batalha do bem contra mal e portanto, Luke surge como o messias.

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Você conhece a Jornada do Herói? Se não, saiba que Star Wars usa e abusa dela de modo exagerado, criando os tais problemas citados da bidimensionalidade do enredo: de novo, nada é tão preto no branco e assim, tudo se torna superficial. Esse é um grave problema, pois ao usar o método das mitologias, George Lucas se esquece que, por exemplo, Hércules viveu seus conflitos e cometeu diversos erros, podendo ser considerado até um anti-herói. Mas ao adotar uma postura cristã, Star Wars fica nessa luta infantil dos dois lados da força. Porém, como a sociedade atual funciona? Por mais que sejamos "cinzas", o lado claro é sempre valorizado. E tendo isso em mente, a função da saga é criar um símbolo, para ser eficazmente inserida na cultura popular. O problema é: se analisarmos a fundo, veremos diversos furos no roteiro,  tirando o efeito da qualidade "épica".



Indústria cultural
Recentemente, Quentin Tarantino criou polêmica ao acusar a Disney de prejudicar o lançamento de Os Oito Odiados. Em uma entrevista ao The Howard Stern Show, o diretor falou sobre o caso:

"Nós iríamos exibir no Cinerama Dome no dia 25 de dezembro, e ficar em exibição lá exclusivamente durante duas semanas. E Star Wars ía ficar nas duas semanas anteriores. Eu cresci em Los Angeles, então eu acho que o Cinerama Dome é importante, e queria ver [Os Oito Odiados] lá. Então o que aconteceu foi que a Disney, que detém os direitos de Star Wars, decidiu: 'Bom, quer saber? Talvez nós queiramos ficar em exibição lá durante todo o feriado. Então vamos até o Cinerama Dome dizer que eles não podem honrar o contrato de exibir Os Oito Odiados’.

E o pessoal da Arclight, que é dono do Cinerama Dome, disse: 'Não, não, vocês não podem fazer isso. Temos um contrato com o pessoal de Os Oito Odiados, de exibir em 70[mm]. É isso que a gente faz’. Então, ontem, a Disney foi até a Arclight e disse 'Não, vocês vão exibir Star Wars no Cinerama Dome durante todo o feriado, e se vocês não fizerem isso, se vocês honrarem o contrato com Os Oito Odiados, nós não vamos deixar vocês terem Stars Wars, o maior filme do mundo; nós não vamos deixar vocês o exibirem em nenhum cinema da Arclight'

O Cinerama Dome é um dos mais conceituados cinemas de Hollywood. O caso denota o modo como a indústria cultural trabalha. Se em uma coisa simples dessas a Disney age assim, imagine o que não deve haver por trás?
Mas você sabe o que é indústria cultural?
É a designação para a indústria artística da sociedade capitalista, criada por Theodor Adorno e Max Horkheimer. Mas o que isso tem a ver? Tudo.
Essa teoria fala de como a comunicação pode alienar, em prol da venda para as massas. Star Wars deu tão certo justamente por isso: sua superficialidade não é percebida pela grande massa  e isso faz com que símbolos sejam melhor enraizados. Darth Vader se torna sinônimo de mal, tanto quanto o demônio - esta aí a grande genialidade de George Lucas. A partir disso, cria-se objetos de consumo, para personificar os anseios das pessoas: em 2014, a fortuna de George Lucas foi estimada em 4, 3 bilhões de dólares.
Você já parou para pensar por que o Império ou agora, a Primeira Ordem, é do mal? Não existe resposta. É algo vazio.
Ou já se perguntou de onde vem a força? Okay, isso é para ser uma analogia a fé ou algo do tipo, porém não há nenhuma racionalização disso, soando algumas vezes uma desculpa de roteiro. Não faz sentido Jedis lutarem com sabres de luz, se podem usar essa tal força. Okay, eles são do bem, mas então por que os Sith ou o próprio Vader, nunca usaram essa força direito? Um exemplo claro disso, mais uma vez, é no recente episódio VII, quando Kylo Ren está lutando com Rey. Em nenhum momento, ele considera levitar alguma coisa ou algo parecido, prefere usar sabres de luz.
Provavelmente há alguma explicação, mas para entender você precisa comprar as mídias derivadas (livros, jogos, séries e etc). Entendeu como funciona? O símbolo principal é criado em uma mídia para todos os públicos, não necessitando haver profundidade na obra. Nos outros meios as coisas são melhores exploradas, principalmente para quem quer saber a fundo. E a coerência? Bom, é tão visível quanto a força.

Em suma, dizer que Star Wars é uma franquia criada para "vender boneco" não é exagero nenhum. Seria como um Mc Donald's: é gostoso? Sim. Existem coisas melhores? Sim. Em demasia pode fazer mal? Sim. Porém, de que modo tudo isso é vendido? Como a melhor comida do mundo.
E por mais que você tente pensar diferente, seus amigos vão estar comendo Big Macs, você vai andar e verá cartazes de Big Macs, na TV haverá Big Macs, seu artista preferido fará propaganda do Big Mac e no final, você também comerá um Big Mac.
Então veja bem, não basta revitalizar uma franquia de sucesso, que já está na memória nostálgica de muitas pessoas: você precisa criar essa nostalgia até em quem não a tem. O melhor? Todos vão aplaudir de pé e se transformarão em produtos humanos. Sim, querendo ou não, isso é Star Wars.


Conclusão

Wilson Tucker, em um artigo publicado em 1941, definiu o termo "space opera" como: todo tipo de ficção científica aventuresca meio esgotada e cheia de clichês.
Soa familiar?
Star Wars tem inegáveis qualidades, entretanto o seu posto como marca pode alienar e cegar, principalmente em torno de seus defeitos. Os problemas da trilogia prequel sempre existiram na franquia (aliás, ainda existem), só que ali alcançaram um novo patamar. Não me importo com qualquer pessoa que se diga fanático por Guerra nas Estrelas, porém um verdadeiro fã sabe olhar os defeitos daquilo que ama, pois do contrário é só paixão doentia, conhecida como fanatismo.

Não quero fazer papel de advogado do diabo, nem nada do tipo. Não estou aqui para hatear, pois como já dito, negar as qualidades dessa saga é idiotice. Mas o que é pouco abordado, até por quem diz não gostar, são suas superficialidades, falhas e reais intenções.
Visto tudo isso, devo dizer: Star Wars é uma das franquias mais hypadas. Não há problema nenhum nisso. O grande porém está quando automaticamente é altamente reconhecida e renomada, fazendo os fãs confundirem o pessoal com o crítico: se você não gostar, não é nerd ou não entendeu os reais conceitos.

Sinceramente, espero que a Disney explore melhor esse fantástico universo e não fique presa no autoplágio. Vamos com calma, pois o saudosismo pode limitar o olhar para coisas melhores. A força já está pronta, resta saber se o público vai despertar.

El Psy Congroo.

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