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Steven Universo: reflexões sobre o papel educacional de um desenho

Vivemos em um mundo de conflito, onde olhamos primeiro as diferenças e depois as semelhanças. Por essas e outras eu fico feliz de ter assistido quando criança desenhos que falavam sobre alguém excluído por ser diferente. E por causa disso acredito que Steven Universo, entre outros desenhos atuais, são mais do que recomendáveis para crianças e para qualquer um, pois eles possuem uma mensagem que pode potencialmente melhorar o caráter de alguém.

Millennium e os personagens usados como símbolo

“Millennium: Os Homens Que Não Amavam as Mulheres” já vendeu cerca de 80 milhões de exemplares no mundo todo. A trilogia sueca se tornou uma febre em muitos países, por conta de seu clima noir e mistério envolvente. Com o seu conhecido estilo sombrio, em 2011 David Fincher levou para as telas essa incrível história, dando um novo olhar, dessa vez mais visual, à obra original.
Esta dissertação busca compreender as nuances que formam o enredo do longa, abordando principalmente o signo criado com base nas duas personagens principais. Mesmo para um leigo, Millennium soa uma ótima obra, porém tem muito mais a se contar, principalmente referente às ideias levadas adiante. Quais são as intenções? Como essas ideias são embutidas e desenvolvidas?
De acordo com Aristóteles, a retórica é neutra, mas o uso desta é que se faz persuasivo. Este texto não é diferente: aqui está o nosso ponto de vista, utilizando-se das ferramentas necessárias para análise, indiferente o que é moral ou imoral. 

Mas antes de falarmos do filme em si, vamos entender melhor o que é linguagem e seus discursos.



A Linguagem e seus discursos

A linguagem, seja ela escrita ou falada, é formada por signos e símbolos que permeiam o nosso cotidiano. Signo é o conceito usado para designar determinada coisa. Como assim? Por exemplo, o nome "cadeira". Já pensou por que esse objeto se chama assim? Geralmente, esse conceito é arbitrário, não tendo uma ideia de formação - não existiu alguém que apontou e disse: "vai se chamar cadeira. Por que? Por que sim!". Foi necessário a influência de diversas culturas e assim, conforme a humanidade evoluiu, foi sendo estabelecido que aquilo deveria ser chamado desse jeito.
De acordo com Ferdinand de Saussure, linguista e filósofo suíço, forma-se então uma relação imparcial entre significante e significado. O significante é o aspecto físico da palavra - a grafia mais o som. Antes de qualquer coisa, nós identificamos a palavra CADEIRA pela ordem e letras usadas. Depois, ao falar ou ler mentalmente, o som que transmite. 
Já o significado, é o conceito a ser transmitido. A palavra cadeira é usada para designar um objeto, geralmente com quatro pernas, usado para sentar. Nisso, podemos até mesmo remontar à Platão: o conceito em si não existe; não é físico. Podemos ficar horas e horas tentando designar uma cadeira, mas isso pode ser relativo: um alienígena, de acordo com o conceito que eu dei, poderá achar que um cavalo é uma cadeira. Na transfiguração direta, sem conotação, para o real, se torna impossível demonstrar o que é. Então como sabemos o que é uma cadeira? Pela ideia. Essa ideia tem forma imutável e está de acordo com a sociedade de cada um. Porém, um significante pode ter mais de um significado, como por exemplo: Manga e manga. Um pode designar a fruta e o outro a parte especifica da camiseta.
A junção de signos em torno de um mesmo ideal, forma um símbolo. O símbolo, diferente do signo que é imparcial, leva uma mensagem direta, muitas vezes com opiniões e sentimentos, sendo um sinal gráfico estilizado. A bandeira nazista, por exemplo, é um símbolo: somente este sinal gráfico já nos remete à diversas coisas, desde ideias à histórias.

Os discursos então operam usando de signos e símbolos, para montarem sua mensagem persuasiva. De acordo com Adilson Citelli, no livro Linguagem e Persuasão, existem três grandes modos organizacionais do discurso: o autoritário, o polêmico e o lúdico. 
"(...) convém lembrar que não estamos diante de categorias autônomas, mas de dominância. Ou seja, não são formas puras e sim híbridas, existindo, porém, sempre, a preponderância de uma sobre a outra." (Linguagem e Persuasão, pg. 37)

Nada é preto no branco, mas há sempre a sobreposição de um sobre o outro. No discurso autoritário, estamos diante de uma mensagem sem comunicação, por não haver resposta - é direta, fechada e hiperativa. O discurso religioso pode ser caracterizado como autoritário. Não há perguntas, apenas ordens do que se deve ou não fazer. Deste modo, a persuasão é clara e se faz presente por conta da coerção.

"Na foto Datena, apresentador de um
dos mais reconhecidos programas
sensacionalistas, o Brasil Urgente"
O discurso polêmico já opera de um modo diferente: usa o debate ou embate como apoio para se mostrar como aberto, mas a todo momento domina seu referente (o público). Novamente, temos como exemplo o nazismo. Os discursos de Hitler buscavam persuadir as pessoas, mas sem lhes dizer diretamente o que fazer - apenas usava de artíficos, seja um inimigo imaginário ou conceitos populares, para ganhar atenção. Mas perceba, em nenhum momento há resposta do referente ou questionamento. O discurso polêmico basicamente é um lado tentando se sobrepor sob o outro (direita x esquerda,biscoito x bolacha).

Por último, temos o discurso lúdico. Este discurso se encontra geralmente em formas de arte, como a literatura e a pintura, tendo um grau de persuasão menor. Sua função enquanto persuasão, é fazer o referente refletir sobre o assunto em pauta. Entretanto, não interfere na concepção do publico, cada um pode entender uma mensagem diferente, de acordo com seus conceitos e bases.

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1. DISSERTAÇÃO
1.1 História
Antes de tudo, é preciso começar definindo o discurso da obra em si. Millennium, por se tratar de uma adaptação, portanto uma obra de arte, utiliza-se do discurso lúdico. Esse tipo de discurso, diferente da grande maioria a qual estamos acostumados, não tenta passar definidamente uma mensagem clara, trabalhando muitas vezes por diversas dinâmicas a respeito do “eu”. Ou seja, existem vários pontos de vista ao longo do filme, fazendo com que o espectador se identifique e extraia dali sua própria mensagem. Entretanto, mesmo com um grau de persuasão menor, “Os Homens Que Não Amavam as Mulheres” não deixa de tentar convencer e passar sua própria mensagem e, sendo assim, precisamos destrinchar um pouco o longa para entendermos melhor que conceitos são abordados e quais as reais intenções do autor e do diretor.
"Mikael Blomkvist,
interpretado por Daniel Craig"
Com a trama baseada no romance de Stieg Larsson e dirigido por David Fincher, Millenium pode ser considerado um dos melhores filmes sobre abuso sexual contra mulheres e misoginia.  O filme relata a história de um jornalista chamado Mikael Blomkvist, que recebe um processo por calúnia e difamação, sendo fortemente perseguido após publicar um texto com acusações a um suspeito empresário. No meio de toda essa confusão, Mikael recebe uma ligação de Henrik Vanger com propostas tentadoras para que largue sua vida de frustrações para trás, e aceite trabalhar como jornalista investigativo no caso da sobrinha neta do empresário, que desapareceu há 40 anos. E para o ajudar nesta busca terrível, Blomkvist acaba contando com a presença de Lisbeth Salander, uma hacker sob tutela do Estado por não ter condições mentais de se manter sozinha.
Além de relatar fortes críticas sobre maus-tratos às mulheres, o filme também relata a visão preconceituosa que as pessoas impõem em alguém, pelo simples fato de como essa pessoa se veste. Lisbeth no começo do filme, é extremamente subestimada por seu tutor sobre o que é capaz de fazer para se defender, e o quão inteligente e forte é. Nas cenas em que é obrigada a passar por abusos, não perde a postura e continua firme e forte, demonstrando extrema inteligência e conseguindo uma doce vingança satisfatória.
A cena em que Lisbeth vai até o apartamento de seu tutor e o prende, usando a chantagem e se vingando, se encaixa no discurso persuasivo autoritário. Ao fazer fortes ameaças ao seu tutor, ele a obedece por estar amedrontando. Uma situação inversa, pois este fez o mesmo com ela.
Ao ser chamada por Henrik, Lisbeth se torna um ícone entre as mulheres, pois soube como calculadamente contornar muito bem os abusos que sofreu, se empenhando e trabalhando arduamente na busca do serial killer (suposto assassino de Harriet Vanger, sobrinha desaparecida de Henrik Vanger). As personagens Mikael e Lisbeth, conseguem juntos reformar o discurso persuasivo a partir do momento em que não se conformam apenas com aquilo que estão vendo e se dispõem a correr atrás de outras informações.
O trabalho em equipe entre Blomkvist e Salander acaba tornando-os muito próximos, criando assim uma relação profissional e pessoal. E mais uma vez, Lisbeth demonstra que não é apenas aquela andrógena, insensível e louca, como o estereótipo social diz, provando que se baixar a guarda, pode sim se apegar a alguém e cuidar dessa pessoa. Ao salvar Mikael da morte, ela se apresenta como uma pessoa de forte moral, diferente de tantas outras pessoas que aparentemente eram boas.

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1.2 Entendendo os personagens e símbolos
Millennium tem em si a exaltação do referente na forma individual. Quem cria a linguagem do conteúdo não aparece, mas sim os personagens com suas próprias problemáticas. Deste modo, para entendermos o discurso do todo, é preciso estudarmos o discurso dos personagens e o contexto criado ao redor deles.
Fica claro que o enunciador não está tentando convencer o espectador, porém conforme a história se desenvolve, percebemos certas mensagens intrínsecas – basta analisar o modo como cada momento é construído. Se um romance sobre um apaixonante casal enfatiza as diversas tragédias ao redor dos “pombinhos”, entende-se que a obra tem por objetivo emocionar o leitor. No cinema não é diferente, tanto por conter aspectos textuais de construção de enredo, quanto visuais para estilização dos símbolos.
Mikael Blomkvist é um sagaz jornalista, a frente de uma importante revista investigativa. Precisamos logo de início entender que ele é a porta de entrada para o mundo criado. Esse é um modo bastante comum na literatura, principalmente em fantasia e ficção científica: existe todo um mundo complexo e o personagem principal é a conexão entre o leitor e aquele lugar; o ser que questiona e responde as perguntas para dar sentido a tudo o que vê. Sob esse olhar, Mikael não foge disso.
Porém, estamos falando de uma adaptação cinematográfica. Enquanto nos livros você tem em mãos o discurso textual, que pode criar cenas, descrever, sensações, ambientes e etc, o discurso visual já lhe apresenta tudo isso, mas necessita de outros meios para enfatizar determinados conceitos. Millennium aborda um envolvente mistério a respeito de um serial killer misógino e assim, Blomkvist surge como questionador, diferente do livro, onde ele está em busca de respostas. Não podemos saber seu pensamento, então ele se torna uma representação do nosso “eu” em lugares inimagináveis e fazendo questões acerca do real. O que existe ali, enquanto filme, é apenas a ação, então essa ação definirá o que pensamos e como nos relacionamos com esse personagem.
A constituição de Mikael é simples. Ele é um típico europeu e suas roupas quase sempre são uma camiseta de tom claro, calça jeans e tênis. Observando sua moral, percebemos um sentido justiceiro: apesar de se envolver na investigação de um caso de assassinato, ele não está ali exatamente pelos frutos que a resolução daquilo pode dar, mas por querer ajudar o próximo. Qualquer pessoa que saia do raio dessa moral, provavelmente não conseguirá criar vínculos com Mikael e, portanto, talvez não entenda a obra. Mas diferente do livro, onde Blomkvist é mais humano, com muitos defeitos e opiniões questionáveis, aqui não há lugar para esses defeitos, por estar lidando com um outro tipo de audiência. A persuasão a respeito da mensagem sobre questões sociais, como a violência contra a mulher, precisa se envolver com o público; o espectador precisa se sentir inserido ali e quanto mais o personagem principal (a conexão entre nós e aquele mundo) for individual, com opiniões que não concordamos, haverá uma dificuldade em criarmos empatia com o enredo. 

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Mikael é o lado claro da história. Estão ali inseridas nele todas perspectivas boas, a qual a sociedade como um todo apoia. Basta atentar-se para, por exemplo, o momento em que o personagem é pego pelo serial killer – mesmo frente a morte, Mikael ainda quer fazer as coisas do jeito certo, nos melhores moldes da justiça.
Entretanto, se fosse apenas isso, Millennium seria apenas mais um filme qualquer. O seu diferencial está no contraponto criado: Lisbeth Salander.
Lisbeth é uma geniosa hacker com problemas sociais. Em um primeiro momento, tudo a respeito dela é um completo mistério. Visualmente, a garota é o mais impactante possível, com sua maquiagem gótica e cabelo punk. Sua simples presença, já nos intriga a respeito de quem ela é e o que faz. Suas atitudes soam desconcertantes e questionáveis: ela é um enorme contraponto a Mikael. Enquanto o jornalista se veste de forma padronizada e comum, ela ostenta tons fortes e segue uma moral totalmente duvidosa. Salander é tudo aquilo que em um primeiro momento repudiamos: estranha, drogada e antissocial. Os mais puristas a definiriam como um lixo social (o que de fato acontece no filme).  Mas, mesmo não compartilhando com sua perspectiva, nos envolvemos na busca para entender o mistério ao redor dela.   
O interessante do filme, é enquanto superficialmente temos uma visão preconceituosa para com Lisbeth, aos poucos vamos conhecendo um pouco de seus problemas, na maior normalidade possível. Até que de repente, como um baque forte de realidade, a moça é violentamente estuprada: não de um modo caricato, mas grotescamente crível. Com toda aquela nossa moral básica embutida, a mesma que consta em Mikael, ficamos horrorizados e sentimos pena da pobre moça – nesse momento, simpatizamos com ela e passamos a sentir empatia por sua pessoa. Ela não mais é uma hacker antissocial e louca, mas uma vítima de um abuso sexual. Perceba a função desse enredo: Lisbeth é criada propositalmente para ser diferente de Mikael e nos causar uma impressão impactante. Entretanto, no momento da dificuldade, fica perceptível que ela é tão humana quanto nós, independente de suas ideologias. Por usar uma personagem tão extremamente oposta ao estereotipo “bom”, cria-se no espectador uma consciência a respeito das igualdades. Ali, assistindo o brutal estupro da garota, inicia-se um vínculo de solidariedade e a obra passa assumir claramente sua mensagem, ao qual o espectador aceita por se comover e se ver inserido nela.
De um jeito peculiar, Lisbeth Salander percorre a jornada do herói. Ela se torna o símbolo feminino na luta contra o machismo. Para completar sua aceitação frente ao grande público, Mikael se interessa fortemente por ela e tenta ajuda-la de todo jeito. Porém, quem acaba ajudando mais Blomkvist é a própria mulher. Sendo assim, o espectador passa pelo sentimento de estranheza, indignação, solidariedade, expectativa e respeito. A moça, com sua aparência punk gótica, se transforma em um signo. O ser “bom”, no caso Mikael, é apenas um questionador e trampolim, para que o “lado negro da força” revele: nem tudo é tão preto no branco quanto mostram os estereótipos. É interessante notar a oposição entre significante e significado, para o significante se transformar de acordo com o significado. Até o final do filme, a aparência de Lisbeth não choca mais e na verdade, se não existisse, talvez parte do respeito não fosse desenvolvido.

 CONCLUSÃO
“Millennium: os homens que não amavam as mulheres” é um filme dramático, de tom sombrio e triste. Com personagens comuns e críveis, cria um envolvente mistério acerca de problemas reais, que mesmo em uma ficção, soam plausíveis e interessantes. Por meio da jornada do herói, conhecemos a exótica Lisbeth e o questionador Mikael. Não à toa, Millennium foi aclamado por conseguir transpor as nuances do romance para um aspecto visual, que maestralmente consegue utilizar-se dos signos, levando assim sua mensagem. A persuasão, ou melhor, intenção, fica por conta da reflexão acerca do papel da mulher frente a sociedade. Entender os personagens de Millennium é essencial para conseguir transcender a camada do simples mistério policial e compreender as reais intenções dos autores. 

El Psy Congroo.

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