segunda-feira, 16 de novembro de 2015

[Analisando Mangás] Teppu, um shounen não convencional


Devido a popularização do movimento feminista, eu comecei a reparar mais em certos aspectos das mídias artísticas. Por mais que dentro do feminismo existam diversas interpretações errôneas, vitimismo e mal uso de ativismo social, eu não consigo deixar de pensar que em alguns aspectos as reclamações dos simpatizantes estão totalmente corretas. E aquilo que é relevante para essa análise é um assunto que vem sendo debatido já há algum tempo, a famosa idealização e sexualização da mulher nas mídias. Muitas vezes, as personagens femininas apesar de serem lutadores possuem sex appeal de atriz porno, e no pior dos casos são usadas só para dar apoio a um personagem masculino, carecem de uma profundidade maior e muitas vezes estão presas nos mesmo clichês utilizados para alimentar a perversão dos fãs, principalmente quando o assunto é Japão. Justamente por estas coisas que quando eu li a sinopse de Teppu me surpreendi muito, conhecer uma história que vai contra a corrente num país que está tão impregnado com o machismo em suas mídias, é com certeza algo que vale a leitura.

Do que se trata?


Teppu é uma história sobre a categoria feminina de artes marciais, tendo o MMA como foco. A protagonista Natsuo Ishido é uma pessoa dotada com um talento físico excepcional, ela consegue se dar bem em qualquer esporte e aprender movimentos só de observá-los. O que para a maioria das pessoas seria um presente, para ela é algo ruim - ser boa em tudo gera um tremendo tédio e desânimo, os olhares invejosos de seus companheiros e o rosto abalado de seus adversários desistentes faz ela se sentir como se fosse uma aberração e por ser boa demais, não se esforça para nada, não leva os esportes a sério e só vai tocando a vida de qualquer jeito.
Até que um dia conhece Yuzuko Mawatari. Natsuo perde totalmente para Yuzuko em uma partida de MMA, percebendo que existe um lugar onde há pessoas melhores, onde sem esforço, ela só vai conhecer a derrota - um lugar onde as pessoas não lhe olhariam com aqueles olhos; como se ela fosse uma aberração. Com esse pensamento, decide treinar para vencer Yuzuko em um campeonato oficial de MMA.

Enredo

Natsuo e Yuzuko se encontram pela primeira vez.
Teppu fala sobre artes marciais de verdade, ele não usa do efeito shounen para criar poderes mirabolantes transformando um soco num super poder destruidor de paredes. Moare Oota tenta retratar ao seu jeito da melhor forma possível esse mundo de treino, frustração e orgulho. Aliás, parece que o autor é um grande entusiasta, afinal são descritos vários termos técnicos, explicam a situação da categoria feminina de MMA no Japão, como é quando uma pessoa tenta entrar nesse mundo e como o treinamento é duro e importante, afinal ninguém fica forte do nada, nem a Natsuo que é extremamente talentosa. Só tenho uma ressalva, o autor muitas vezes não consegue representar com clareza lutas no chão, o jiu-jitsu fica muito confuso por causa do desenho dele, você não entende onde está o braço de uma e onde termina a perna da outra, o que prejudica bastante alguns momentos, pois existe toda uma explicação técnica do que está acontecendo, mas quando você olha pra luta não entende nada, felizmente os estilos de luta que não usam golpes de submissão ficaram muito bem representados.

E por ser uma história sobre esporte, os personagens tem um físico de acordo, uma coisa que me irrita é ver em um jogo de luta uma lutadora de wrestling ser tão macia quanto uma pluma, sem ter um único músculo definido no corpo todo (Dead or Alive to falando de você), nem todo esportista é o Leo Stronda, mas atletas que se prezem possuem um corpo atlético para poderem competir. O treinamento físico molda o corpo de formas diferentes, por que vocês acham que ginastas sempre são baixinhos? O impacto nos músculos desde a infância proporciona um desenvolvimento na flexibilidade das juntas, mas prejudica o crescimento do corpo. Entretanto, o autor não deixa morrer totalmente a feminilidade das personagens, a própria Natsuo muitas vezes é descrita como bonita, mas essa representação sofre um contraste muito grande principalmente com algumas lutadoras mais velhas, mais especificamente quando vi uma delas pela primeira vez pensei que era um homem, o que difere totalmente das novatas da história que estão no nível da Natsuo, estas quase sempre retratadas com um rosto bonito.


Então basicamente, o objetivo da Natsuo é vencer sua rival enquanto cumpre o objetivo clichê de ser a melhor lutadora, certo? Errado, a protagonista desse mangá é algo totalmente fora do habitual, ela não quer vencer Yuzuko por que ela gosta de competir ou quer ser a melhor, é porque ela inveja sua rival. Natsuo é uma pessoa descrita como possuidora de uma personalidade deturpada, distorcida e solitária, enquanto Yuzuko é alegre, dedicada e possui amigos. A irrita profundamente ver que uma pessoa totalmente diferente dela consegue superá-la; a protagonista passa a história toda se perguntando como sua adversária consegue, por que Yuzuko é melhor, por que ela tem amigos e uma família amorosa, enquanto ela não tem. A jornada do herói acontece por puro egoísmo e egocentrismo, o que não é ruim, na verdade é ótimo poder ver uma história assim, pois é um tipo de desenvolvimento que é evitado pelos autores em todo tipo de mídia. Existe uma mania que é aceita inconscientemente de que o protagonista tem que ter uma motivação correta para suas ações. Natsuo se torna tão humana justamente por ser cheia de características ruins do ser humano, ela não é necessariamente uma pessoa ruim, mas muito menos ela é uma pessoa boa, e pense comigo, no mundo real não somos todos assim?


Não sei até que ponto a representação do esporte é coerente, mas para um leigo como eu ela pareceu muito bem construída. Um dos assuntos mais abordados em histórias sobre esporte é a frustração da derrota, achei interessante ver que em Teppu as vezes isso é o suficiente para abalar profundamente alguns personagens, afetando até seu desempenho.


E é mais interessante ainda reparar também que menções ao Brasil e personagens brasileiros estão presentes na história, nosso país é reconhecido mundialmente por proezas em artes marciais. A própria Yuzuko treinava no Brasil sob a tutela de Mario Cordeiro junto de Ringi Cordeiro, esta sendo uma prodígio, filha do homem que nunca perdeu em sua carreira. A representação do Brasil em mídias estrangeiras quase sempre é horrível, porém aqui considerei satisfatória. Ringi e Mario são personagens interessantes e creio que fizeram uma boa representação do Brasil, eles falam em português ao longo da história e agem de forma que para os japoneses não faz sentido nenhum, entretanto infelizmente não tiveram tempo na tela para mostrarem todo seu potencial, afinal Teppu é um mangá de 34 capítulos que não foi planejado para ser tão pequeno. É notável a forma ambiciosa como a história se desenvolve, sub-plots são inseridos, mas nunca desenvolvidos. Ao final da história duas lutadores veteranas são introduzidas, porém não houve tempo para abordá-las de forma decente, o potencial para ser um mangá de centenas de capítulos de qualidade existe, mas até imagino porque isso não aconteceu, duvido muito que esse estilo de representação das personagens femininas tenha feito sucesso no Japão, o que infelizmente já é de esperar, por mais que a história seja interessante, a arte seja muito boa e os personagens não sejam convencionais, o que falou mais alto provavelmente foi o preconceito. Em um país que é mais do que normal personagens totalmente sexualizadas, será que lutadoras de verdade fariam sucesso? 
Eu arrisco dizer que se Natsuo e todas as lutadoras fossem homens o mangá teria tido outro final, porque atrairia a atenção dos fãs masculinos e femininos, afinal mangás de artes marciais não é algo tão raro assim e muitos homens gostam do gênero. E quando eu disse fãs femininos, na verdade eu quis dizer fujoshi: um monte de homem sarado lutando daria um ótimo material para suas fantasias yaoi, mas Teppu não é nada disso, ele queria ir contra a corrente. No Japão provavelmente não quiseram saber de MMA feminino, afinal tem um ecchi de fábrica ali na esquina esperando pra ser lido.


Mas ainda vale a pena dar uma chance, nem que seja para observar todo o potencial e características interessantes desta história. O autor fez um trabalho competente para a limitação de capítulos, como grande parte do enredo não poderia ser desenvolvido ele decidiu focar os capítulos restantes no psicológico de Natsuo e em sua rivalidade com Yuzuko, culminando em uma luta emocionante ao término do mangá, que serviu não só para fechar a história mas também para dar um vislumbre do caminho que o autor gostaria de seguir caso ela não tivesse sido cancelada. E por último e não menos importante: a arte. Moare Oota evoluiu tanto ao longo da serialização, que ele até refez uma das primeiras páginas da história, como se dissesse para nós o quanto Teppu ainda poderia crescer se não tivesse sido cancelado.















Imagens meramente ilustrativas







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