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Conversa Paralela #1: O amor e a diversidade de Steven Universo

Olá pessoas, bem-vindos ao primeiro Conversa Paralela!

Looper e a inovadora viagem no tempo

Filme com Bruce Willis e Joseph Gordon-Levitt surpreende por revitalizar a ficção científica
A viagem no tempo é um tema recorrente em muitas obras, sendo motivo de fascínio e admiração. Desde A Máquina do Tempo, de H.G. Wells, muitas possibilidades vieram a ser discutidas e mais obras realizadas. Porém, o tema foi saturizando-se e estereotipando-se. Looper: Assassinos do futuro, me surpreendeu logo de cara por ser um contraponto interessante - apesar de utilizar clichês, ele coloca a Viagem no Tempo novamente como objeto de análise, seja como bênção ou maldição. Um uso um tanto quanto inusitado, ainda mais com as liberdades em torno do tema; Looper é uma ficção científica, que tem seus problemas, mas que acima de tudo é original, não tendo medo de ousar e ser autoral.

O filme começa denso e lento, com simplicidade, estabelecendo fatos e nos entretendo com a ficção científica meio subliminar. É interessante notar isso: o longa não utiliza de aliens, super efeitos especiais, armas massivas e coisas do tipo; desde o início, tenta manter os pés no chão o máximo possível, utilizando mais da sugestão: não sabemos o que aconteceu com o mundo, o que mudou e nem tantos fatos peculiares - aquilo apenas existe e está ali na nossa frente. 

O enredo é o seguinte: em 2044 existem assassinos que matam pessoas enviadas do futuro por uma companhia da máfia. É o melhor jeito de sumir com alguém: no futuro ninguém encontra evidências e no passado, mesmo que encontrem o corpo, a pessoa se quer existe. Sendo assim, o personagem principal Joe é um Looper (o nome a qual são chamados esses assassinos). O único problema de um Looper é que em algum momento, você matará a si mesmo e seus serviços serão dispensados. Para quem não pensa muito no amanhã, é um ótimo trabalho - você ganha bastante dinheiro, se diverte e daqui uns 30 anos morre.     
Seguindo essa linha de raciocínio, Joe é mostrado como um jovem simples, perdido, egoísta e de bem com a vida. Não liga para o fato de logo morrer ou com todo o resto. Ele apenas quer viver a sua vida o máximo possível, sem pensar nas consequências. Nesse aspecto, o vemos de certo modo até mesmo melancólico: carente de atenção, seja pela mãe que o abandonou ou por não ter um papel relevante em sua própria existência. As drogas mostram o seu lado mais animado enquanto procura prazer. Em determinado momento, ao conversar com Suzie, uma prostituta, vemos o quão triste sua vida é - Joe quer apenas carinho. 

Indo um pouco além, podemos até observá-lo como fruto de seu tempo: em 2044, os Estados Unidos é definido como caótico. Há muita miséria, violência e desigualdade, criando um ar depressivo e oitentista. Enquanto alguns gozam da tecnologia, outros vivem sem coisas básicas. Nesse ponto, há fortes influências da ficção cientifica dos anos 80, para ser mais exato, Blade Runner. Uma estranha mistura do passado com o futuro, mas não ao ponto de ser cyberpunk, mas uma distopia sci-fi. Entretanto, como já dito, esses conceitos não são desenvolvidos, ficando apenas como sugestão para a imaginação do espectador.  
A construção inicial do personagem é importante, pois é ela quem dá sentido a todas as atitudes posteriores. O pontapé da trama se dá quando Seth, amigo de Joe, deixa escapar seu Looper. Esse acontecimento tem impacto e também é extremamente relevante, pois o enredo ruma ao assunto que quer tratar e acaba tendo alguma influência no personagem principal.

O filme segue desenvolvendo seu próprio universo com naturalidade, sem precisar explicar demais. Quando finalmente o Looper de Joe dá as caras, a obra acelera e vai ficado mais interessante. Bruce Willis com o seu conhecido jeito, cai como uma luva ao papel e a construção dos acontecimentos após 30 anos, é bem pensada. De um lado temos o jovem Joe – egoísta, apenas querendo viver sua vidinha – , e do outro o velho Joe – amargurado, querendo salvar quem ama.
O longa segue original, conseguindo reciclar diversos conceitos (como a telecinese), sem cair nos derradeiros clichês. Sendo assim, podemos dividir o filme em três partes: o início, monocromático e cinzento, evidenciando a solidão e os excessos de Joe. O meio ou segunda parte, onde conhecemos o Looper do personagem principal e de repente a ação toma foco, dando um ar clássudo. E por fim, a terceira parte.

Essa parte se dá quando Joe(jovem) começa a se envolver com a fazendeira Sara e tenta ajudar seu filho Cid, enquanto foge da máfia Looper e tenta impedir a si mesmo de matar três crianças – os possíveis “fazedores de chuva”. Até a metade desse “ato”, tudo permanece com a mesma qualidade, mas evidentemente o passo acelera, tendo que forçar algumas coisas, esquecendo a tal “simplicidade mágica” que se iniciou. O que sucede até o ato final, é que Looper sai um pouco do ritmo, ficando meio desafinado, mas não menos audível. A mudança de foco é repentina, sem a devida ponte, criando buracos. 
Não temos motivos para sentir tamanha empatia por Cid ou Sara, e isso é um problema. Vemos uma construção emocional interessante de ambos, mas tudo isso é cortado para dar lugar a uma ação frenética, que não deixa de ser boa, mas fica um pouco fora de contexto. O longa tem a decência de assumir-se, mas acaba diminuindo a expectativa e tensão, resultando em um final trágico, meio grego, que não impacta o necessário. 
Os "vilões" não são mal desenvolvidos e isso é um problema, pois fica uma certa caracterização genérica, quase Sessão da Tarde, em torno desses personagens secundários. É irônico: a todo momento Looper se preocupa com o emocional de suas personagens principais, cada qual com seus dramas e problemáticas. Todos são carentes e por mais duros que sejam, apenas lutam pela atenção uns dos outros. Já os vilões, são teimosos e decididos naquilo que se propõem a fazer, sem ter nenhum motivo para isso.

Parece uma coisa simples, mas que influencia na composição do final: mesmo Joe sendo a verdadeira ameaça, fica um vácuo de empatia para com a situação, resultando em correria e bastante confusão.

Todo o conceito formado em Looper é interessante, junto de sua originalidade, mas ele se perde e passa de uma inteligente história de ficção-cientifica, para um superficial drama. 
 O fim, apesar de bom, fica quebrado em partes, como se faltasse peças, deixando o espectador incompleto. Entretanto, o longa inspira, aguça as ideias e eleva a ficção-cientifica com uma boa história, que poderia ser ótima, mas que acaba apenas regular.
Entretanto, visto de longe, Looper é um filmaço de viagem no tempo. Um conto dramático, frenético e até mesmo cômico, sobre a moral e as mudanças que o tempo, talvez o maior vilão, pode causar nas pessoas.

El Psy Congroo. 

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