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Destaques

O terror como punchline humorística em Get Out

O cinema tem como principal função apenas entreter, assim como qualquer outra forma de arte. Você pode dar "n" motivos para uma obra ser boa, mas se ela não entretêm, ela não serve para nada. Tendo isso em mente, eu sinto falta de um cinema um pouco mais descompromissado; eu sinto falta de contos e crônicas sinceras, coisas que só vemos em produções independentes que em sua maioria se quer chegam por essas bandas. Portanto, ver um filme como Corra fazendo sucesso tanto entre o público de nicho e o público geral, acabando por ser exibido com certa relevância, chega a emocionar. Não que isso automaticamente torne o longa bom, mas é que a sua proposta é tão simples e ao mesmo tempo tão cheia de nuances e propósitos, que é difícil não torcer para que dê certo. Corra deu certo e não só isso, é um respiro no gênero tanto de terror quanto de comédia. Ele não é inovador, mas a sua exótica combinação de gêneros culmina em uma história bem executada, sem a necessidade de ser megaloma…

[Recomendação] Horimiya

Desconstruindo clichês estudantis


Horimiya ou Hori-san to Miyamura-kun, começou originalmente como um 4koma independente publicado na internet. Posteriormente, a obra foi publicada oficialmente na revista GFantasy. A premissa é a de que, os dois protagonistas que dão nome a história, escondem algo da sociedade - o garoto Miyamura que na escola aparenta ser um nerd estranho com cabelo grande, na verdade possui várias tatuagens e piercings e de nerd não tem nada, e a menina Hori que é admirada como uma beldade e detentora de ótimas notas, em seu lar com a ausência de seus pais que vivem no trabalho, ela é uma dona de casa que em grande parte do tempo não se importa muito com as aparências e toma conta sozinha de seu irmão mais novo. Justamente pelos dois descobrirem seus segredos, eles começam uma estranha relação de amizade e amor.


A primeira vista, Horimiya está dentro do padrão japonês de comédia escolar romântica, e nesse quesito a obra é muito boa, diversas situações engraçadas e bonitinhas vão acontecendo, e por meio delas nos são apresentados praticamente todos os personagens da obra. Muitos que inicialmente seriam hostis ao casal, mas na verdade são boas pessoas, se tornam seus amigos. Outra característica de romance japonês padrão, pois em histórias mais inocentes e bobinhas ninguém pode ser odiável, o psicológico dos personagens parece o de uma criança de 10 anos, e a maioria dos problemas são tão bobos que nem parecem problemas. Parece que os editores quando tem na mão uma obra dessas, acreditam que um tom mais adulto estragaria toda a caracterização inocente e fofa da coisa, mas esse não é o caso de Horimiya.


Por que vocês acham que o Miyamura é excluído como um cara estranho e tem tantas tatuagens e piercings? Mesmo sendo contra as normas da escola, no Japão dependendo do lugar você não pode nem pintar o cabelo, por isso ele mantém em segredo. Enfim, ele é assim porque durante toda sua vida ele foi excluído como o cara estranho, aquele que não tem amigos, a piada da classe, o bode expiatório do estresse - já vi isso acontecer inclusive no Brasil e sem motivo aparente. A conclusão que pude chegar é que, jovens em grupos sociais onde eles mesmos policiam as relações, tendem a achar uma pessoa que menos conexão com o grupo e começam a afastá-la ainda mais, mesmo que ela seja totalmente normal e nunca tendo feito nada de errado. Se isso já é ruim no Brasil, imagina como é no Japão, um dos países mais fodidos emocionalmente.
As tatuagens e piercings do rapaz eram um meio de escapar da realidade e se rebelar contra sua solidão, todos os seus colegas o faziam se sentir mal, então ele chegou a conclusão que deveria arrumar uma maneira de trazer a si próprio uma sensação boa. O porquê dele escolher um estilo punk para isso não é bem explicado, parece que é só por um gosto que ele tem por essas coisas.


O passado e o presente

Ao perceber a história diferente de Miyamura, eu já notei que existia algo de estranho em Horimiya. Por conta desse desenvolvimento do personagem, ele acaba roubando a cena, sendo como protagonista até mais importante do que Hori, pois grande parte da história e do clima gira em torno de como Miyamura supera essa situação, faz amigos, fica bem com si mesmo e esquece de como era estar sozinho, com a ajuda principalmente da garota. Entretanto, mesmo com todo esse foco em um único personagem, os outros não são ofuscados a ponto de serem irrelevantes, Hori também tem seus problemas, ela é o tipo de pessoa que tem que ser tão perfeita que acaba sacrificando coisas como vida social. Ela tem que cuidar da casa e de seu irmão enquanto tira as melhores notas; a melhor amiga de Hori é a "cabeça de vento" e as vezes se martiriza por conta disso; Sakura é a menina bonita cheia de qualidades, mas que não tem auto-estima, então as pessoas não reparam nela; Remi é a patricinha que sofre preconceito por ser burrinha, mas na verdade é uma pessoa atenciosa; Ishikawa é o cara extrovertido e um ótimo amigo; e não menos importante, Miyamura é aquele que sofre bullying e é excluído. Percebe-se que os personagens da histórias são estereótipos comuns em adolescentes que frequentam a escola, e quando eu digo estereótipo eu não quis dizer algo ruim, a ideia do clichê é usada pra fazer piadas, explicar situações, te passar um pouco de interpretação um tanto quanto profunda para o estilo da obra. E mais importante: se você frequentou a escola, é quase impossível não se identificar um pouco com esses personagens, pois um dia você foi ou ainda é um desses estereótipos.

O elenco principal.

Romance e superação da solidão é algo extremamente comum em slice of life, o que difere é como isso acontece em Hormiya, pois inicialmente Miyamura não tem nenhuma intenção desse tipo. Ele começa a frequentar a casa de Hori para brincar com Sota, irmãozinho dela que também foi o responsável pelos dois se conhecerem e assim, praticamente se torna uma membro da família mesmo antes de ser namorado. Cozinha com eles, janta com eles, brinca com o irmão mais novo e age como irmão mais velho, vai as compras com ela e a ajuda a cuidar da casa - eles se tornam amigos de verdade antes de serem algo a mais, e não existe nenhum drama meloso em cima disso como é comum nesse tipo de história. Pegue Kimi ni Todoke por exemplo, desde o primeiro episódio o casal já se gosta, mas em duas temporadas de anime eles são tão infantis e fazem tanta tempestade em copo d'agua com isso que nada acontece, logo a relação não se desenvolve, em Horimiya ao simplesmente perceberem que se gostavam a relação evolui naturalmente. É claro que aconteceu um problema ali e aqui, afinal nenhum dos dois namorou antes e Miyamura sequer tinha amigos, mas as coisas se resolvem de forma mais "orgânica", e isso é algo que sinto muita falta na maioria das histórias japonesas - para chegar a uma resolução, geralmente é preciso passar por três arcos de flashback, quatro cenas de choro, 50 capítulos de desenvolvimento e 5 rivais amorosos que criam uma desconfiança enorme no casal.


Após eles assumirem o romance, a história começa a tratar sutilmente de temas comuns a casais, fazendo piadas com ciúme e desenvolvendo a relação até um nível que eu não esperava ver, culminando em uma cena de sexo.

"SEXO?! Mas não era uma história INOCENTE?!"

E então é possível compreender a verdadeira essência de Horimiya, quem disse que sexo tem que ser tão sujo assim? E não mostraram nada tão pesado para se tornar algo tarado, aqui a fornicação foi usada para mostrar como o casal se gosta, para deixar bem claro que por mais que não existem beijos a todo segundo, eles como casal estão sempre se tornando mais próximos. Foi uma expressão de amor que não acaba com a inocência característica da coisa, e essa é outra coisa que falta em histórias japonesas, os autores tem muito medo de demonstrar afeto direto entre os personagens, como se fosse algum tabu horroroso que não pode ser mencionando nem em particular, quando na verdade é algo comum, além do mais, a arte do autor não combina nem um pouco com uma cena de sexo explícito. Ela não é a mais detalhada do mundo, mas o character design do mangá é bom, principalmente nos rostos, as expressões dos personagens são a coisa mais bonita do mangá, cumprindo seu papel de passar bem a emoção.
Hormiya é um mangá slice of life que realmente tem o sentimento de uma vida comum, pois as coisas se resolvem de forma mais coerente em relação aos outros mangás do mesmo gênero. Problemas de depressão não são resolvidos se abrindo para todos os seus amigos, passando por coisas trágicas e as superando ao se tornar uma pessoa exemplar que todos admiram. Ou chorando por isso a todo momento, enquanto sequelas dos traumas afetam totalmente seu desempenho social; geralmente os problemas se resolvem ao conhecer pessoas que você realmente gosta, que te dão apoio mesmo que não seja intencional, mostrando que você merece viver uma vida que não lhe era conhecida até aquele momento, que você é bom e as outras pessoas que diziam o contrário não te conheciam - não é preciso fazer drama melodramático sobre isso, nem basear todo o enredo em cima da superação, porque a vida não é só momentos ruins. Existem tantas situações comuns ao cotidiano em Horimiya, desde a preparação de um jantar familiar até ir à piscina, viagens, ciúme, saudade, rancor e até compartilhar um filme com a pessoa que você gosta. Permanece um sentimento de que as coisas que acontecem no mangá poderiam acontecer com qualquer um, tirando os absurdos cômicos, é claro. É uma ótima obra para quem quer algo leve de ler, descompromissado, bonitinho e com conteúdo.

Imagens Aleatórias:













 

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