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Destaques

O terror como punchline humorística em Get Out

O cinema tem como principal função apenas entreter, assim como qualquer outra forma de arte. Você pode dar "n" motivos para uma obra ser boa, mas se ela não entretêm, ela não serve para nada. Tendo isso em mente, eu sinto falta de um cinema um pouco mais descompromissado; eu sinto falta de contos e crônicas sinceras, coisas que só vemos em produções independentes que em sua maioria se quer chegam por essas bandas. Portanto, ver um filme como Corra fazendo sucesso tanto entre o público de nicho e o público geral, acabando por ser exibido com certa relevância, chega a emocionar. Não que isso automaticamente torne o longa bom, mas é que a sua proposta é tão simples e ao mesmo tempo tão cheia de nuances e propósitos, que é difícil não torcer para que dê certo. Corra deu certo e não só isso, é um respiro no gênero tanto de terror quanto de comédia. Ele não é inovador, mas a sua exótica combinação de gêneros culmina em uma história bem executada, sem a necessidade de ser megaloma…

Guerra Civil e o embate ideológico

Guerra Civil é uma HQ da Marvel publicada originalmente em 2006/2007. Foi a primeira que acabou sendo usada como conversão para uma mídia tão diferente: os livros. Já tivemos adaptações para animações, cinema e jogos - mas livros? Parecia-me uma coisa um tanto quanto peculiar, já que a grande graça das HQ's são as ilustrações tão impactantes, que nos envolvem naquele universo surreal de super-heróis.
Bom, se gibis tem desenhos, livros tem outra coisa que pode ser tão poderoso quanto: narrativa. Dizem que uma imagem representa mil palavras. Eu diria o contrário: mil imagens podem representar uma frase.
Dezenas e mais dezenas de artistas poderiam abordar (assim como muitos abordaram) Guerra Civil sob um aspecto diferente - Homem-Aranha mais forte? Mais magro? Design de roupa diferente?
Pode até parecer besteira, mas pequenas coisas como essa, no meio visual importam e muito. O grande trunfo, que eu só pude perceber ao ler, de uma adaptação dessas, é poder lidar mais com o interior do que com o exterior. Cada qual forma sua própria imagem do Homem-Aranha, Capitão América, Homem de Ferro e etc, de acordo com as próprias influências e referências. Já sabemos como eles estavam e onde estavam, resta o por que.
Guerra Civil, de Stuart Moore, vem para mostrar uma nova faceta, não tão conhecida, dos nossos heróis. Os conflitos e poderes, são meras consequências de atitudes advindas da personalidade particular de cada um. Muito mais do que transformar em palavras aquilo que era imagem, esse livro vêm para agregar à uma história que toma proporções pessoais, tendo mais força por lidar com o psicológico das personagens.

HISTÓRIA

Namorita, Radical, Micróbio e Speedball estão viajando por todo o país para combater super vilões. Porém, heróis, antes de tudo, necessitam ganhar por isso - apesar das boas intenções, todos são seres humanos e precisam pagar suas contas. Sendo assim, os Novos Guerreiros decidem criar um reality show - quer algo mais interessante que super heróis trucidando caras maus por vários lugares? É a ideia perfeita!
Mas em um mundo saturado de gente explodindo coisas, onde qualquer um pode combater o crime (baste ter poderes ou dinheiro), heróis passam de algo exótico para mais um programa qualquer. A realidade não é tão agradável assim: os quatro amigos não conseguem encontrar grandes vilões e a audiência, distante do real, só liga para coisas grandiosas que lhes causem surpresa. Apesar de uma boa ideia, aos poucos um programa pautado na realidade começa a perder criatividade, se tornando enfadonho. Consequentemente, a audiência cai drasticamente.

Parece mais um dia qualquer em Stamford (Connecticut). As crianças cuidam de seus afazeres e brincam entre si. O dia aparenta estar ótimo, bonito, ensolarado. A tarde decorre tranquilamente, como todas as outras. Entretanto, para os Novos Guerreiros, é a chance de recuperar a audiência.
Escondidos em uma casinha simples, quatro dos vilões mais procurados dos Estados Unidos simplesmente não tem ideia de que uma emboscada está sendo preparada. Um deles, Speedfreak, quase derrotou o Hulk.
Micróbio vai contra a ideia, "eles são demais pra gente", no que Speedball reluta, "pense no ibope, esse pode ser o melhor episódio de toda a segunda temporada!"
Coldheart rapidamente identifica que alguém está prestes a atacá-los. A ação então decorre rapidamente - de um lado a freneticidade por audiência, fazendo poses bonitas; do outro, gente má tentando não ser encontrada.
É óbvio que os mocinhos ganham. Mais um dia comum no universo Marvel.
Mas espere... Algo está errado...
Ao fazerem a contagem dos derrotados, o resultado dá 3. "Falta mais um", eles pensam. "Nitro."
Rapidamente, Namorita voa e o encontra perto de um ônibus escolar, em frente a uma escola. Desesperado, o vilão é colocado contra o automóvel.
"De pé, e não tente nenhuma das suas explosões idiotas!", ela diz em posição de combate. Ele, apenas tira sarro. "Namorita, não é?"
Os olhos de Nitro acendem-se e brilham fortemente, assim como o Sol. Suas últimas palavras são, "... Cê tá brincando com gente grande agora."
Aquele dia, enfim, deixou de ser comum e ficou marcado na memória de todos.

Nitro explodiu praticamente o quarteirão inteiro, matando centenas de pessoas, inclusive crianças e os próprios heróis que tentavam prendê-lo. O ocorrido gerou na população muita revolta. Como deixam adolescentes inexperientes correrem atrás de terroristas poderosos? A opinião pública a partir desse ocorrido, se voltou contra os mascarados. Quem são? Por que se dizem heróis? Como posso deixar minha vida a mercê destes?
O mundo se tornou um duelo ideológico entre civis e poderosos. Uma população aterrorizada pode fazer besteiras...
É nesse ponto que entra Homem de Ferro. Playboy, gênio, filantropo, ele se sente culpado pelo o que aconteceu - mesmo que indiretamente. Tony Stark quer ser o herói que a população imagina e, acima de tudo, proteger aqueles que estão ao seu lado. Pense bem: uma opinião pública fragilizada e contra todo o tipo de mascarado, pode gerar uma segregação inconsequente, como em tantos outros períodos da história. O que Stark quer, já que deve ser assim, é estar a frente para representar a categoria. Deste modo, é criada a lei de registro de super-humanos.

No que consiste essa lei?
Digamos que eu, Maeister Atsok, queira andar por aí com uma fantasia colorida protegendo as pessoas. Primeiro, teria que me registrar no governo, preenchendo coisas como: quais os meus poderes, meus pontos fracos, meu nome real, minha família, endereço e etc. Depois, seria feita uma avaliação, na qual eu poderia talvez começar a atuar ou muito provavelmente, seria direcionado à um centro de treinamento da S.H.I.E.L.D. Assim que fosse treinado, poderia salvar pessoas normalmente e mais, ser remunerado por isso, como um funcionário público ou algo do tipo.
Até aqui, tudo bem. Uma atitude ótima, benéfica tanto para heróis quanto para a população.

Bom, agora vamos para os problemas:
1- pessoas que tem poderes, sejam mutantes ou bilionários humanistas, são cidadãos também. Ou seja, eu posso escolher se quero ou não me registrar - faz parte daquela coisa chamada liberdade. Uma lei do tipo, ainda mais com uma população aterrorizada, pode causar o cerceamento das liberdades individuais, até mesmo dos próprios civis.
2- você confia no governo? Ao ponto de deixar nas mãos dele a vida de toda a sua família? Pois é isso o que acontece. Se você é um herói, como o Homem-Aranha e tantos outros, que preza pelas pessoas que estão ao seu redor, simplesmente não pode dizer quem é. Do contrário, deverá acreditar que o Estado vai garantir a segurança de todos. Mas, um país que está tão focado em acabar com os vilões, tendo que fazer tantas coisas, entre centros de treinamento e equipes de operações, vai ter tempo ou investimento para proteger os próprios heróis? E se, o vilão for o próprio governo?
3- cria-se um divisão. Todos sabemos bem como é difícil a luta dos Mutantes para serem reconhecidos e aceitos pela a sociedade; agora imagine com uma lei dessas, que em suma, sendo redundante, vem de uma população aterrorizada que aponta dedos para julgar, pode operar.

É com esses e mais pontos em mente, que a Resistência é criada. Se Tony Stark decide ser o messias, Steve Rogers se torna o diabo. Ele é contra a lei de registro, pois melhor do que ninguém, viu de perto atitudes como essas causarem o genocídio de todo um povo. Nesse ponto, os dois amigos, que passaram por tantas dificuldades e derrotaram tantas ameaças inimagináveis juntos, se separam radicalmente, iniciando uma guerra poderosa, de heróis contra heróis.

Personagens e ambiente

Toda a história, desde motivações, passando por desenvolvimento e conclusão, é bem orquestrada, de modo que nos imprime o panorama da situação. Temos alguns personagens centrais, que a partir deles vão sendo impulsionados os acontecimentos, resultando nos embates - não basta ter Mulher Invisível contra Tony. O autor nos narra detalhadamente o que ela sente e por que ela é contra tudo isso.
Sendo assim, todos tem uma dualidade, onde um lado pode se sobressair: apesar da tentativa messiânica de ajuda do Homem de Ferro, o herói se mostra totalmente egocêntrico. As experiências contam e influenciam nas atitudes - Tony não passou por uma guerra, não tem filhos ou necessita se virar pra pagar o aluguel. Mesmo pensando em ajudar todas essas pessoas, ele não é uma delas. Sendo assim, o bilionário tenta entendê-las, impondo o que acha certo.
Já Steve Rogers, tem uma visão honrável, mas aos poucos, sem perceber, começa a causar tudo aquilo ao qual foi contra. Em determinado momento, O Justiceiro mata vilões que entraram na Resistência para ajudar. Capitão América o pressiona contra a parede, claramente nervoso. E aí nos perguntamos, será que o sanguinolento Justiceiro não estava certo? A credibilidade e crenças de todos são colocadas em xeque.

Em meio a isso, aos dois decididos personagens catalisadores do caos, temos os simplesmente indecisos. Eles tem que tomar uma decisão, mesmo que não queiram - cada qual tem seus motivos, mas todos igualmente almejam paz. O problema dessa disputa é abrir o palco para a vilania que tanto juraram combater e acabar colocando em risco a população. Os tais neutros, são quem mais ao fim determinam o rumo das situações.
A ambientalização é incrível. Sentimos como se realmente estivéssemos vivendo em uma metrópole como Nova York. Não é só a crença, direita ou esquerda, que está em juízo - toda uma vida depende disso. O único problema de Guerra Civil é não ter tempo para desenvolver mais personagens, que passam rapidamente sob o foco da narrativa e, optar pela não descrição. Ou seja, se você não é um fã árduo da Marvel (como eu), pode ficar boiando em algumas situações, principalmente no que remete à caracterização. O autor não preza por dizer claramente quem é aquela pessoa ou como se veste, só o nome basta. Isso obviamente é uma opção, já que Stuart Moore em muitos momentos detalha tão bem o ambiente, a ação e o psicológico dos heróis, que chega a espantar. Sendo assim, essa escolha se transforma em um defeito para um leitor comum - desculpa, mas a maioria das pessoas não consegue acompanhar o ritmo de produções infinitas que se confundem; quanto mais saber de cara quem é tal herói que nem se quer tem uma revista própria.

Considerações Finais


Guerra Civil de Stuart Moore não faz juz à obra original - ela é tão boa quanto ou mais. É um acréscimo estupendo, que nos dá um novo panorama dessa guerra, que visualmente pode se apresentar de um jeito, mas internamente, no psicológico de cada um, muda toda a visão que podemos ter de uma batalha. A narrativa de Moore é simples e direta, mas profunda nas descrições e coerente com aquilo e quem está retratando. Passar as emoções e vivências de tantos heróis não é fácil, ainda mais quando esses já estão estabelecidos na memória dos fãs - ainda bem que o livro consegue retratar fielmente, chegando a brincar com os conceitos e criando algo novo.
A HQ já foi sensacional por dar um aprofundamento e realidade ao universo Marvel nunca antes visto - esse livro serve para acrescentar humanidade. O único defeito fica para as referências, já que uma obra como essa deveria ser porta para o grande público conhecer melhor tantos heróis que estão fora dos holofotes cinematográficos.
Enfim, democracia, política, ideologia e muito mais, são questionados, reavivando os temas abordados anteriormente e aquecendo-os para os filmes que virão. A ironia, é esse livro cair como uma luva para a situação política brasileira atual. Mas de certo, Moore recriou uma história que deverá servir para tantos outros momentos de embates ideológicos.
Fica em aberto a moral.

El Psy Congroo.

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