sábado, 5 de setembro de 2015

Guerra Civil e o embate ideológico

Guerra Civil é uma HQ da Marvel publicada originalmente em 2006/2007. Foi a primeira que acabou sendo usada como conversão para uma mídia tão diferente: os livros. Já tivemos adaptações para animações, cinema e jogos - mas livros? Parecia-me uma coisa um tanto quanto peculiar, já que a grande graça das HQ's são as ilustrações tão impactantes, que nos envolvem naquele universo surreal de super-heróis.
Bom, se gibis tem desenhos, livros tem outra coisa que pode ser tão poderoso quanto: narrativa. Dizem que uma imagem representa mil palavras. Eu diria o contrário: mil imagens podem representar uma frase.
Dezenas e mais dezenas de artistas poderiam abordar (assim como muitos abordaram) Guerra Civil sob um aspecto diferente - Homem-Aranha mais forte? Mais magro? Design de roupa diferente?
Pode até parecer besteira, mas pequenas coisas como essa, no meio visual importam e muito. O grande trunfo, que eu só pude perceber ao ler, de uma adaptação dessas, é poder lidar mais com o interior do que com o exterior. Cada qual forma sua própria imagem do Homem-Aranha, Capitão América, Homem de Ferro e etc, de acordo com as próprias influências e referências. Já sabemos como eles estavam e onde estavam, resta o por que.
Guerra Civil, de Stuart Moore, vem para mostrar uma nova faceta, não tão conhecida, dos nossos heróis. Os conflitos e poderes, são meras consequências de atitudes advindas da personalidade particular de cada um. Muito mais do que transformar em palavras aquilo que era imagem, esse livro vêm para agregar à uma história que toma proporções pessoais, tendo mais força por lidar com o psicológico das personagens.

HISTÓRIA

Namorita, Radical, Micróbio e Speedball estão viajando por todo o país para combater super vilões. Porém, heróis, antes de tudo, necessitam ganhar por isso - apesar das boas intenções, todos são seres humanos e precisam pagar suas contas. Sendo assim, os Novos Guerreiros decidem criar um reality show - quer algo mais interessante que super heróis trucidando caras maus por vários lugares? É a ideia perfeita!
Mas em um mundo saturado de gente explodindo coisas, onde qualquer um pode combater o crime (baste ter poderes ou dinheiro), heróis passam de algo exótico para mais um programa qualquer. A realidade não é tão agradável assim: os quatro amigos não conseguem encontrar grandes vilões e a audiência, distante do real, só liga para coisas grandiosas que lhes causem surpresa. Apesar de uma boa ideia, aos poucos um programa pautado na realidade começa a perder criatividade, se tornando enfadonho. Consequentemente, a audiência cai drasticamente.

Parece mais um dia qualquer em Stamford (Connecticut). As crianças cuidam de seus afazeres e brincam entre si. O dia aparenta estar ótimo, bonito, ensolarado. A tarde decorre tranquilamente, como todas as outras. Entretanto, para os Novos Guerreiros, é a chance de recuperar a audiência.
Escondidos em uma casinha simples, quatro dos vilões mais procurados dos Estados Unidos simplesmente não tem ideia de que uma emboscada está sendo preparada. Um deles, Speedfreak, quase derrotou o Hulk.
Micróbio vai contra a ideia, "eles são demais pra gente", no que Speedball reluta, "pense no ibope, esse pode ser o melhor episódio de toda a segunda temporada!"
Coldheart rapidamente identifica que alguém está prestes a atacá-los. A ação então decorre rapidamente - de um lado a freneticidade por audiência, fazendo poses bonitas; do outro, gente má tentando não ser encontrada.
É óbvio que os mocinhos ganham. Mais um dia comum no universo Marvel.
Mas espere... Algo está errado...
Ao fazerem a contagem dos derrotados, o resultado dá 3. "Falta mais um", eles pensam. "Nitro."
Rapidamente, Namorita voa e o encontra perto de um ônibus escolar, em frente a uma escola. Desesperado, o vilão é colocado contra o automóvel.
"De pé, e não tente nenhuma das suas explosões idiotas!", ela diz em posição de combate. Ele, apenas tira sarro. "Namorita, não é?"
Os olhos de Nitro acendem-se e brilham fortemente, assim como o Sol. Suas últimas palavras são, "... Cê tá brincando com gente grande agora."
Aquele dia, enfim, deixou de ser comum e ficou marcado na memória de todos.

Nitro explodiu praticamente o quarteirão inteiro, matando centenas de pessoas, inclusive crianças e os próprios heróis que tentavam prendê-lo. O ocorrido gerou na população muita revolta. Como deixam adolescentes inexperientes correrem atrás de terroristas poderosos? A opinião pública a partir desse ocorrido, se voltou contra os mascarados. Quem são? Por que se dizem heróis? Como posso deixar minha vida a mercê destes?
O mundo se tornou um duelo ideológico entre civis e poderosos. Uma população aterrorizada pode fazer besteiras...
É nesse ponto que entra Homem de Ferro. Playboy, gênio, filantropo, ele se sente culpado pelo o que aconteceu - mesmo que indiretamente. Tony Stark quer ser o herói que a população imagina e, acima de tudo, proteger aqueles que estão ao seu lado. Pense bem: uma opinião pública fragilizada e contra todo o tipo de mascarado, pode gerar uma segregação inconsequente, como em tantos outros períodos da história. O que Stark quer, já que deve ser assim, é estar a frente para representar a categoria. Deste modo, é criada a lei de registro de super-humanos.

No que consiste essa lei?
Digamos que eu, Maeister Atsok, queira andar por aí com uma fantasia colorida protegendo as pessoas. Primeiro, teria que me registrar no governo, preenchendo coisas como: quais os meus poderes, meus pontos fracos, meu nome real, minha família, endereço e etc. Depois, seria feita uma avaliação, na qual eu poderia talvez começar a atuar ou muito provavelmente, seria direcionado à um centro de treinamento da S.H.I.E.L.D. Assim que fosse treinado, poderia salvar pessoas normalmente e mais, ser remunerado por isso, como um funcionário público ou algo do tipo.
Até aqui, tudo bem. Uma atitude ótima, benéfica tanto para heróis quanto para a população.

Bom, agora vamos para os problemas:
1- pessoas que tem poderes, sejam mutantes ou bilionários humanistas, são cidadãos também. Ou seja, eu posso escolher se quero ou não me registrar - faz parte daquela coisa chamada liberdade. Uma lei do tipo, ainda mais com uma população aterrorizada, pode causar o cerceamento das liberdades individuais, até mesmo dos próprios civis.
2- você confia no governo? Ao ponto de deixar nas mãos dele a vida de toda a sua família? Pois é isso o que acontece. Se você é um herói, como o Homem-Aranha e tantos outros, que preza pelas pessoas que estão ao seu redor, simplesmente não pode dizer quem é. Do contrário, deverá acreditar que o Estado vai garantir a segurança de todos. Mas, um país que está tão focado em acabar com os vilões, tendo que fazer tantas coisas, entre centros de treinamento e equipes de operações, vai ter tempo ou investimento para proteger os próprios heróis? E se, o vilão for o próprio governo?
3- cria-se um divisão. Todos sabemos bem como é difícil a luta dos Mutantes para serem reconhecidos e aceitos pela a sociedade; agora imagine com uma lei dessas, que em suma, sendo redundante, vem de uma população aterrorizada que aponta dedos para julgar, pode operar.

É com esses e mais pontos em mente, que a Resistência é criada. Se Tony Stark decide ser o messias, Steve Rogers se torna o diabo. Ele é contra a lei de registro, pois melhor do que ninguém, viu de perto atitudes como essas causarem o genocídio de todo um povo. Nesse ponto, os dois amigos, que passaram por tantas dificuldades e derrotaram tantas ameaças inimagináveis juntos, se separam radicalmente, iniciando uma guerra poderosa, de heróis contra heróis.

Personagens e ambiente

Toda a história, desde motivações, passando por desenvolvimento e conclusão, é bem orquestrada, de modo que nos imprime o panorama da situação. Temos alguns personagens centrais, que a partir deles vão sendo impulsionados os acontecimentos, resultando nos embates - não basta ter Mulher Invisível contra Tony. O autor nos narra detalhadamente o que ela sente e por que ela é contra tudo isso.
Sendo assim, todos tem uma dualidade, onde um lado pode se sobressair: apesar da tentativa messiânica de ajuda do Homem de Ferro, o herói se mostra totalmente egocêntrico. As experiências contam e influenciam nas atitudes - Tony não passou por uma guerra, não tem filhos ou necessita se virar pra pagar o aluguel. Mesmo pensando em ajudar todas essas pessoas, ele não é uma delas. Sendo assim, o bilionário tenta entendê-las, impondo o que acha certo.
Já Steve Rogers, tem uma visão honrável, mas aos poucos, sem perceber, começa a causar tudo aquilo ao qual foi contra. Em determinado momento, O Justiceiro mata vilões que entraram na Resistência para ajudar. Capitão América o pressiona contra a parede, claramente nervoso. E aí nos perguntamos, será que o sanguinolento Justiceiro não estava certo? A credibilidade e crenças de todos são colocadas em xeque.

Em meio a isso, aos dois decididos personagens catalisadores do caos, temos os simplesmente indecisos. Eles tem que tomar uma decisão, mesmo que não queiram - cada qual tem seus motivos, mas todos igualmente almejam paz. O problema dessa disputa é abrir o palco para a vilania que tanto juraram combater e acabar colocando em risco a população. Os tais neutros, são quem mais ao fim determinam o rumo das situações.
A ambientalização é incrível. Sentimos como se realmente estivéssemos vivendo em uma metrópole como Nova York. Não é só a crença, direita ou esquerda, que está em juízo - toda uma vida depende disso. O único problema de Guerra Civil é não ter tempo para desenvolver mais personagens, que passam rapidamente sob o foco da narrativa e, optar pela não descrição. Ou seja, se você não é um fã árduo da Marvel (como eu), pode ficar boiando em algumas situações, principalmente no que remete à caracterização. O autor não preza por dizer claramente quem é aquela pessoa ou como se veste, só o nome basta. Isso obviamente é uma opção, já que Stuart Moore em muitos momentos detalha tão bem o ambiente, a ação e o psicológico dos heróis, que chega a espantar. Sendo assim, essa escolha se transforma em um defeito para um leitor comum - desculpa, mas a maioria das pessoas não consegue acompanhar o ritmo de produções infinitas que se confundem; quanto mais saber de cara quem é tal herói que nem se quer tem uma revista própria.

Considerações Finais


Guerra Civil de Stuart Moore não faz juz à obra original - ela é tão boa quanto ou mais. É um acréscimo estupendo, que nos dá um novo panorama dessa guerra, que visualmente pode se apresentar de um jeito, mas internamente, no psicológico de cada um, muda toda a visão que podemos ter de uma batalha. A narrativa de Moore é simples e direta, mas profunda nas descrições e coerente com aquilo e quem está retratando. Passar as emoções e vivências de tantos heróis não é fácil, ainda mais quando esses já estão estabelecidos na memória dos fãs - ainda bem que o livro consegue retratar fielmente, chegando a brincar com os conceitos e criando algo novo.
A HQ já foi sensacional por dar um aprofundamento e realidade ao universo Marvel nunca antes visto - esse livro serve para acrescentar humanidade. O único defeito fica para as referências, já que uma obra como essa deveria ser porta para o grande público conhecer melhor tantos heróis que estão fora dos holofotes cinematográficos.
Enfim, democracia, política, ideologia e muito mais, são questionados, reavivando os temas abordados anteriormente e aquecendo-os para os filmes que virão. A ironia, é esse livro cair como uma luva para a situação política brasileira atual. Mas de certo, Moore recriou uma história que deverá servir para tantos outros momentos de embates ideológicos.
Fica em aberto a moral.

El Psy Congroo.

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