domingo, 23 de agosto de 2015

Extremismo é uma droga

E das fortes
"imagem de uma senhora que, de acordo com um relato do facebook, foi agredida verbalmente enquanto tentava trazer um pouco de lucidez à população. Meu medo? Esse relato ser usado e distorcido - se já não foi ao ser postado."

Nos anos 70, o mundo passava por uma separação bipolar entre comunismo e capitalismo - de um lado, gente defendendo o sonho utópico, do outro, pessoas defendendo o liberalismo ferrenho. Apesar de ter sido um embate sem contato, como ensinam as escolas, a parte da briga só não ocorreu entre os dois blocos econômicos principais - Estados Unidos e União Soviética. A guerra ocorreu sim e pode-se apontar como vítima o oriente médio, principalmente o Afeganistão; nesses lugares, ao contrário do que as escolas repassam, houve contato físico para defender um dos lados: esquerda ou direita. Enfim, passado esse período, União soviética caiu, liberalismo ganhou - ou quase isso -, aos poucos o capitalismo, apesar de ter maior liberdade para se desenvolver, teve que adaptar-se para com a esquerda. Isso é a tal chamada democracia. O conceito de direita e esquerda já não é tão preto no branco há bastante tempo, sendo que alterou-se fortemente ao longo dos anos, se tornando muito complexo. Menos no Brasil.
Sabemos que o nosso país é bem atrasado e isso não é novidade nenhuma, não vou dar uma de tiozão do bar que bota a culpa de tudo na Dilma, no povo burro e no quanto qualquer coisa é atrasada (as vezes parece que o Brasil é uma fenda temporal, onde o tempo passa devagar. A resposta é sempre o atraso. "ai a roupa no varal não seca logo" "culpa desse país atrasado. Não tem política pra Sol"). Ok, até aí nenhuma novidade. A surpresa surge nas ideologias: estamos em um país ideologicamente atrasado e isso me estarrece muito; sei que filosofia não é assunto de relevância pro povão, mas nunca imaginei que estaríamos reproduzindo períodos históricos, que de algum jeito, fomos espectadores. Não sei se é por que nos anos 70 estávamos tão fechados e imersos em uma ditadura inescrupulosa e por isso, não tivemos a chance de vivenciar esse momento único no mundo (que foi a bipolaridade ideológica), ou se simplesmente a população enlouqueceu.

Extremismo é uma droga, e das pesadas. Te faz achar que o mundo é quadrado e lutar por isso. E o pior, é ver gente aparentemente "inteligente", estudado e que até certo ponto tem razão, apelar para uma conduta de guerra. "Vermelho tem tudo que apanhar", "Burguês capitalista tem tudo que morrer!"
Em suma, você tem que tomar uma posição! Não importa. Se você fica no meio termo, tá em cima do muro e sua opinião não é válida - por que ter o senso critico de pegar o melhor de ambas as partes é errado, não existe, tem que pegar um caminho e seguir até o final. Nem Bilbo quando teve que atravessar a floresta sombria seguiu a trilha, imagina eu (sim, estou usando Senhor dos Anéis como metáfora, por que Jesus já virou clichê).

Acompanhe a situação para entender melhor e vejamos o que podemos tirar dela:

João é um homem respeitado, que tem um ótimo emprego e ama sua família. Porém, tem um lado um pouco mais forte: ele quer o impeachment da Dilma. De algum jeito, ele quer que ela saia do poder logo, não importa como nem por que. Existem diversos argumentos que João pode usar, mas basta uma faísca qualquer que logo grita: "essa vaca tem que sair!".
Em um jantar, fiz a besteira de comentar sobre o caso das pessoas que estavam passando em meio ao protesto contra o governo. Seria mais um dia normal, se não fosse um simples fato: elas estavam de vermelho e vermelho, uma das cores primárias, não pode ser usado de jeito nenhum. Resultado? Elas sofreram agressões verbais e físicas.
Pois bem, coloquei pra fora minha opinião, esquecendo-me que estava lidando com um extremista. Nunca tomei partido, apenas achei ridículo uma cor ser motivo para pessoas apanharem na rua - ainda mais em um país dito livre. Será que ninguém vê a hipocrisia dessas pessoas estarem agredindo outras, enquanto protestam teoricamente por um país melhor?

João então respondeu direto, sem nem pensar:
- É, mas quem mandou elas estarem ali? É óbvio que iam apanhar. Culpa delas.
Sabe aquele momento que o sangue sobe e vem milhões de argumentos em sua cabeça, mas você não pode falar nenhum? Então... Eu estava nessa situação. Peguei aquele meu argumento inicial, que vinha com algumas criticas ácidas (ou muitas) e o moldei de forma bonita. Pronto, vamos ver o que João responderia:
- Como assim? Então quer dizer que ninguém pode sair de vermelho agora? Imagine se fosse uma filha sua que tivesse apanhado de graça só por estar com um vestido vermelho. O que você faria?

João ficou em silêncio. Eu continuei.
- Então quer dizer que se uma mulher tá andando com uma roupa mais decotada, se ela for estuprada, a culpa é dela?
O homem do outro lado abriu os olhos com uma nova resposta, novamente na ponta da língua:
- Claro! Se a mulher quer ser vista como vadia a culpa é dela. Estupro não é certo, mas ela de algum jeito tá pedindo quando anda com roupas desse tipo. - dizendo isto, a mulher ao seu lado, sua esposa, lhe deu um tapinha nas costas e concordou dizendo, "é verdade".
Novamente, mil argumentos, dessa vez alguns com palavrões sinceros e merecidos. Não podia falar nenhum deles. Peguei um discurso mais simples de ser entendido, arrumei com cuidado e respondi com a maior calma do mundo.
- Eu quero entender melhor. Desculpa, é que sou difícil de entender, me ajuda por favor: se você está andando na rua com um celular em mãos  - que é seu e você pode fazer o que quiser com ele, em um país que DEVE te dar segurança para que possa ir e vir livremente, em um país onde você paga impostos altíssimos para ter no mínimo transporte e segurança de qualidade, daí surge um assaltante e rouba o aparelho, a culpa é sua?

Silêncio total. As moscas faziam mais barulho que nós naquele momento.
João, não satisfeito, emendou com um novo discurso, que não fazia muito sentido e não respondia a minha pergunta.
- MAS FORAM OS VERMELHOS QUE COMEÇARAM! - aqui ele já estava gritando. - O MST invadiu casa de família. Você viu o que o presidente da CUT disse? Incitou a violência falando pro pessoal pegar em armas! Ele devia ser preso por incitação à violência e a Dilma tava do lado dele, devia ser presa também.
Respira. Lembrei do prézinho, quando eu disse que queria ser professor quando crescesse - entendi por que depois de pouco tempo desisti.
- Olha João... - eu comecei respondendo. - Não sou a favor disso. Aliás, acho ridículo um presidente da CUT falar esse tipo de coisa, é óbvio que incita a violência. - ele balançava a cabeça afirmativamente sorrindo. - MAS, nos protestos de direita houve uma grande parcela da população pedindo ditadura de volta e pra matar todo mundo que fosse contra. Se isso não é incitar a violência, eu não sei o que é. Ninguém foi preso. - a cabeça tinha parado de balançar e o sorriso fora embora.
- Não importa! ELES COMEÇARAM! Agora vão ter de volta. ELES roubaram milhões!
- Eles inclui a dita direita que também está envolvida no escândalo de corrupção. E me desculpa, revidar na mesma moeda só te faz igual ou pior, pois você tem consciência do que houve e ainda sim o faz. Imagina se um mata e o outro revida, tipo olho por olho dente por dente? Esse país vai virar um caos. Voltaremos à Idade Média! Ladrão que rouba ladrão é ladrão. Criticar algo e querer revidar fazendo o mesmo é a pior besteira e hipocrisia que alguém pode fazer. - nesse ponto eu já estava esquecendo de podar os argumentos. - Sou contra qualquer extremismo de ambos os lados, quem tem consciência estuda e fica no meio pegando o melhor de ambos.
O silêncio docemente voltou à mesa, deixando o salmão com um gosto amargo.

Conclusão que podemos tirar disso? O POVO TÁ MALUCO DE PEDRA. Pior que fã de Game of Thrones esperando o sexto livro.
Tá bom, tá bom, podemos relevar que o Brasil só tem 25 anos de democracia, mas gente, 2+2 são 4, quando dá 5 é claramente hipocrisia ou féladaputagem. Tenho muito medo do que pode acontecer. Muito medo de um "bem intencionado" político surgir, ao melhor estilho Adolfinho, pronto para mudar todo o país para melhor. Ódio só gera ódio, e se você acha isso discurso infantil que ensinam na escolinha do seu filho, olha, boa sorte com a vida em sociedade.

El Psy Congroo.

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