sexta-feira, 28 de agosto de 2015

O fantástico mundo de Tolkien e a traumatizante literatura clássica

Quando começamos a ler pelo o pior jeito possível: forçado

Nunca fui muito fã de Tolkien. Eu o admirava por tudo aquilo que haviam me falado e por todo o enredo que eu acompanhara assistindo os filmes de Peter Jackson. Porém, com 12 ou 13 anos, decidi me aventurar por seus livros, começando pelo tão famoso O Senhor dos Anéis - resultado? Decepção. Me deparei com um livro cansativo, sonolento e de linguagem difícil. Era como tentar explorar uma floresta de densas árvores - avançava na leitura, mas mesmo com muito esforço, depois de alguns minutos estava dormindo ou simplesmente pensando em qualquer outra coisa. Enfim, joguei o livro de lado, fiquei com trauma daquela festa do Bilbo e voltei para minha amada literatura policial.
Cerca de dois anos se passam e eu estou no Senai cursando Mecânica de Usinagem - detalhe: sou péssimo com tudo que envolva projetos manuais. Se me mandam grampear uma folha, grampeio o dedo junto. O que eu estava fazendo ali? Coisas de família, como: você tem que fazer algo, mesmo que não tenha nada a ver com você. Anyway, diante daquelas aulas que em nada acrescentavam em minha formação, busquei refúgio na biblioteca. Desse modo, acabei sem querer querendo, cursando uma outra formação: a literária. Lembro que eu lia cerca de 2 a 3 livros por semana, isso quando estava atarefado (hoje, isso é um número inalcançável e ainda bem. Aprendi a viver a vida). Naquele lugar, tão vivo, cheio de obras que me deliciavam, acabei outra vez paralisado frente aquela obra: Tolkien me desafiava. Novamente peguei O Senhor dos Anéis para ler, dessa vez com mais entusiasmo e maturidade. Infelizmente, o resultado foi o mesmo - decepção e muito sono.

Será que eu, um leitor tão voraz, simplesmente não conseguia ou não tinha conhecimento o bastante para ler Tolkien?
"O criador da Terra-média, antes de tudo, prezava por sua vida acadêmica como filólogo, tendo grande interesse pelas línguas antigas. Talvez seja daí que saiu sua escrita mais formal, detalhada e rebuscada."

Bom, antes de explicar, vamos conhecer uma singular, porém comum, personagem.

Jânio tem 16 anos. Seus pais trabalham bastante e ele passa a maior parte do tempo sozinho em casa. Seus hobbies são: ouvir música, navegar na internet e jogar videogame. Tem uma vida simples, sem muitas extravagâncias, mas ao mesmo tempo sem miséria. Nunca passou fome, no entanto sempre teve que batalhar para ter qualquer coisa a mais.
Neste momento, Jânio está sentado em frente ao computador, ouvindo música - ele gosta muito de rap. Que tal conversarmos com ele?
"Ei! Você aí!" - Jânio tira os fones e olha para todos os lados a procura da voz - "Eu estou aqui. Você tem um minutinho por favor?"
Ele me encara com um rosto indagante, como qualquer pessoa encararia um ser onipresente em sua sala. Mesmo assim, responde educadamente:
-  Claro. Tava aqui brisando no face mesmo. Pode falar.
Jânio não tem consciência que faz parte de uma postagem, claro, como poderia - é mais fácil acreditar que Deus criou o mundo, não um idiota escrevendo no computador. Vou tentar jeitosamente ver um pouco da opinião dele.
"Então, é que estou fazendo uma pesquisa e queria saber: qual a sua opinião sobre livros?"
Ele abaixa o olhar alguns segundos e fica pensativo.
- Acho legal os que tem figuras, mas a maioria é bem chato. Principalmente aqueles da aula.
"Quais são os da aula?"
- Ah, aqueles que falam sobre história, química, filosofia, essas coisas aí.
-"Você diz livros didáticos?"
- Isso! Eu acho...
Jânio não parece muito a vontade. Provavelmente deve estar pensando: "o que devo responder para esse cara. Sua voz parece inteligente" (já que não tenho corpo por aqui). Continuo perguntando:
- "Entendi. Mas e sobre livros? Livros mesmo, digo de ficção ou algo do tipo. Romance , terror, policial e etc. Sabe?"
Ele parece meio desnorteado. Talvez não saiba os gêneros.
- "Tipo Machado de Assis, Clarice Lispector, Lygia Fagundes Telles, Aluísio de Azevedo, Shakespeare..."
Seus olhos então brilham, como uma criança quando sabe a resposta para uma pergunta muito difícil.
- Sim! Eu conheço. Na escola mandam ler isso aí.
- "E o que você acha?"
- Muito chato. Tem umas palavras difíceis e é muito grande. A professora fala que sou preguiçoso, mas sei lá, eu olho pra aquilo e já desisto. Não consigo passar da primeira página. Quase sempre pego tudo na net, saca? Tipo um resumão e faço a prova.
Enfim, parece que chegou minha hora. Já tenho tudo o que preciso e dou adeus ao garoto, para não importuná-lo mais.
- "Acho que é só isso Jânio. Obrigado por ajudar na pesquisa. Não vou te incomodar mais, tenha uma boa tarde"
- Beleza,  valeu cara!
Vou embora, enquanto o menino volta para seus afazeres mundanos.

Sabe qual a semelhança de Jânio comigo aos quatorze anos? Ambos não tínhamos lido e nem queríamos saber de Senhor dos Anéis.

Para fins de curiosidade, daqui um ano Jânio arrumará um emprego em uma multinacional, começará trabalhando no chão de fábrica, fará técnico de Ferramentaria, depois de Administração, subirá de cargo, terá uma esposa e três filhos, provavelmente vai se divorciar, pagará pensão e morrerá sozinho, como qualquer outro ser humano. O legado de Jânio não existirá - ele será só mais um, em um pequenino espaço-tempo dentro de todo esse gigante universo.

Como eu me apaixonei pela a Terra-Média

"Rivendell ou Valfenda, último reduto dos elfos na Terra-Média"
Depois do trauma que Tolkien me causou, alguns anos depois decidi voltar para suas obras. Dessa vez, direcionei-me para outro livro: O Hobbit. Quem sabe não quebrasse meus temores? E a resposta, com grande prazer, é afirmativa. Mas por que será que tudo mudou com esse livro (pelo menos para mim)?
A diferença está clara: a escrita.
O Hobbit é um livro infanto-juvenil, voltado para o público jovem. Sua linguagem é mais simples e direta, sem tantas observações e construções de mundo. Bilbo existe, e ele está indo em uma aventura.
Sendo assim, aos poucos vamos conhecendo mais sobre a Terra-Média e ficamos entusiasmados. A leitura fica densa, até que ela está abordando temas complexos, como corrupção e guerra.
Ao iniciar O Senhor dos Anéis, me vi com um livro grande e com descrições detalhadas de coisas que não me interessavam. Quando devorei O Hobbit, estava sedento para saber mais sobre aquele mundo e os seres que o habitavam - corri para o próximo livro e dessa vez, para meu espanto, não houve sonolência nenhuma. Está aí, o problema de Jânio e de tantos outros brasileiros.
Tentam enfiar goela à baixo leituras complexas demais para um simples ser, que nunca foi incentivado a ler qualquer outra coisa, se não as notificações do facebook. Machado de Assis e cia (os tais autores clássicos brasileiros), são fruto de uma época específica que teve todo um contexto. Como você vai contar até 100, se nem sabe contar até 10?
Por que não começar ensinando os pequenos, que logo estarão grandes, com leituras feitas para sua idade? Por caralhos um menino do ensino médio, mesmo lendo com muito esforço, irá entender ou ter a empatia por sentimentos tão profundos, como de um cara que não sabe se foi traído?

Só depois de parar por um minuto e ler com calma - começando do começo -, foi que pude apreciar toda a geniosidade de Tolkien. Todos os meus traumas foram quebrados e consegui entender e acompanhar toda a complexidade daquela escrita, que agora me parece tão simples. Não sou mais inteligente por isso ou aquilo e não consegui ler antes por falta de maturidade: apenas não havia iniciado pelo o começo certo. Cada ser tem seu caminho para começar a trilhar e isso inclui a leitura. Garanto que não vai ser com Machado de Assis que um estudante vai entender as ironias da vida.

El Psy Congroo.
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