sábado, 6 de junho de 2015

Magnífica 70 e a Boca do Lixo

Entre a censura e a liberdade
Magnífica 70 é a mais nova produção da HBO em âmbito nacional, o que já surpreende muito, tanto por se tratar da HBO, quanto na parte nacional. Meu primeiro olhar para isso foi de certa confusão: o canal americano tem fama de produzir série ótimas, porém, o Brasil tem fama de soar meio galhofa quando tenta seguir uma produção fora dos padrões novelísticos. Mas fui atraído pela parte visual da série e por sua ambientação intrigante: a ditadura militar.
O enredo principal é bem simples: Vicente é um entediado censor que trabalha no departamento de censura do governo de São Paulo. Tudo em sua vida é regrado e repetitivo, até mesmo o sexo, fadado à obrigação de conceber um filho. Em paralelo, conhecemos Dora e Manolo, um casal forjado por interesses diversos, ambos focados em alcançar o sucesso com produções cinematográficas. E é esses tais filmes que adentramos e entendemos um pouco mais - além do seriado ser ambientado em plena ditadura militar, época de repressão, seu foco se dá na chanchada.
Talvez os mais velhos conheçam, mas a mulecada mal deve saber o que foi a chanchada: esse gênero nasceu na década 30 e basicamente eram filmes brasileiros de baixo orçamento - em comparação, seriam mais ou menos os tais longas indies - e, que por falta de estrutura, tinham muitas vezes atuações caricatas, enredos extremamente bizarros e visual do jeitinho brasileiro. A Boca do Lixo, região no bairro da Luz em São Paulo, foi caracterizada por essa peculiar indústria cinematográfica. Porém, muita coisa boa saiu da chanchada, surgindo dali até mesmo estrelas que faziam grande sucesso com o público e filmes geniais. Ganhou um alto caráter de erotização, principalmente na década de 70, aonde surgiram as pornochanchadas. Manja Cine Privé? Então sabe bem do que to falando.
É exatamente nesse universo, em uma época conturbada de repressão, ganância e criatividade, que Magnífica 70 adentra.

Personagens

Vicente é o personagem principal e é interessante notá-lo. Basicamente, é mediano, ou melhor, o cidadão brasileiro comum. Não liga para nada, só segue o fluxo das coisas; parece a todo momento imerso em pensamentos, sem saber exatamente onde está, - a maior parte de seus movimentos é mecânico. A ideia de usar alguém assim, tão simples, tão comum, mas com tantos sonhos perdidos, parece-me genial: Vicente é um censor que toma gosto pelo o cinema, ou seja, ele se sente atraído pelos os próprios filmes que ajuda a censurar.
Dora Dumar já é um contraponto excruciante. Enquanto Vicente é o bom moço, a personagem visualmente é quase uma prostituta: sempre atiçando qualquer um, seja com os gestos e olhares maliciosos. Uma venenosa Cleópatra tentadora, que tem seus próprios objetivos.

Vicente talvez se apaixone por ela justamente por isso: o tal perigo. Por meio de flashbacks, percebemos que não é a primeira vez que o homem se sente inclinado ao lado carnal.
Enquanto pressionado, o personagem não sabe bem o que fazer e até releva as obrigações que deve seguir, mas parece que seu coração não é facilmente dominado; acima de tudo, Vicente é curioso, e é essa curiosidade que o leva até o cinema e claro, de volta às aventuras amorosas; aliás, traumas.
Manolo é o terceiro integrante desse estranho triângulo. Ele diz que não é gay, mas não tem interesse nenhum por Dora. A única referência que temos sobre sua vida é o fato de ter sido um contrabandeador que trabalhava na fronteira com o Paraguai, coisa a qual não sabemos o por que. Para mim, muito além de Dora ou Vicente, o maior mistério é ele, pois suas atitudes, apesar de caricatas, focando-se só no dinheiro, não tem um motivo exato de realização. Cada um tem uma dupla personalidade nessa história: a primeira frente aos outros, a segunda na intimidade do próprio ser - o mais próximo que vimos de Manolo sendo ele mesmo, foi no momento que procura a mãe de santo para um trabalho. Superficialmente, ele parece ignorante e desleixado, porém é bem mais esperto do que aparenta - parece que o jogo dele vai se cruzar com o de Dora, que também deseja fervorosamente o dinheiro.
Todos são movidos pela ganância, menos Vicente, que parece perdido em uma terapia para se livrar dos próprios terrores e desejos. Ou seja, o personagem principal é o gênio que gera dinheiro, mas não se importa com recompensas.

Ambientação

Além do visual lindo, o que mais me surpreendeu foi o ambiente, todo bem cuidado, típico dos anos 70, seja nas roupas dos personagens ou nos carros banheira que circulam por São Paulo. Geralmente, quase sempre em novelas de época galhofas, usam um filme antigo e logo após colocam a cena em questão, que destoa de todo o resto - aqui, o que acontece é diferente: fica difícil separar o passado da produção, havendo essa divisão apenas pela qualidade da imagem. Há também um cuidado especial com o texto, que apesar de se tratar do nosso português, aparece carregado de gírias e entonações típicas.
Outro quesito que devo ressaltar são as atuações. Todas estão incríveis, em um padrão bem alto. O legal é tudo casar tão bem, desde o visual, o texto, o áudio e por fim, as interpretações. Cada personagem tem seus trejeitos, que ficam evidentes na ideologia - Dora é inconsequente para com o perigo, Vicente relutante em toda sua tradição.

Conclusão

Magnífica 70 é uma grata surpresa para o telespectador brasileiro. Ficamos tão ávidos por produções americanas de alta qualidade, que esquecemos do que somos capazes - a HBO nos mostra e prova que o Brasil tem muito a se contar. Este primeiro episódio já denota todo o tom que deverá decorrer a temporada, com muitos mistérios, surpresas, suspense e acima de tudo, originalidade - aqui não há a necessidade de pegar um determinado personagem histórico para chamar a atenção. A ficção se mistura à realidade, de um modo simples, sem parecer forçado ou caricato. Parece-me que os problemas de Vicente só estão começando.

El Psy Congroo.

Veja o primeiro episódio online, disponibilizado pela própria HBO:
Seja o primeiro a comentar.

Postar um comentário