Pular para o conteúdo principal

Destaques

Steven Universo: reflexões sobre o papel educacional de um desenho

Vivemos em um mundo de conflito, onde olhamos primeiro as diferenças e depois as semelhanças. Por essas e outras eu fico feliz de ter assistido quando criança desenhos que falavam sobre alguém excluído por ser diferente. E por causa disso acredito que Steven Universo, entre outros desenhos atuais, são mais do que recomendáveis para crianças e para qualquer um, pois eles possuem uma mensagem que pode potencialmente melhorar o caráter de alguém.

Guia de Manipulação na TV


          O que é liberdade? Sempre me perguntei isso. Muitas pessoas certamente diriam que o simples fato de poder fazer o que quiser lhe dá a certeza de ser livre. Discordo. É impossível algo tão complexo ser tão simples.
Vamos analisar: vivemos em sociedade, logo ao nascermos somos induzidos a aprender as regras dessa sociedade; a tal moral e ética. A maioria vive a vida conforme lhes disseram e nem se questiona o porquê daquilo tudo.
“Mamãe, por que não posso andar pelado?”; “mamãe, por que não posso comer com as mãos?”, “mamãe, por que tenho que tomar banho?” - Essas são as questões diretas de alguém observador, atento ao que acontece no mundo em que vive: uma criança. Rapidamente os pais tratam de repudiá-la, e solenemente respondem no modo automático: “por que é feio”. Claro que é feio ver um monte de velhos enrugados andando na rua pelados, pensaria a criança, mas por que não posso correr por aí nu? Em teoria, a total liberdade seria poder fazer o que quiséssemos, isso inclui comer com as mãos, andar pelado, não tomar banho, matar, roubar e etc, claro, sem sermos punidos com uma semana de castigo. Mas, e quando essa liberdade individual atenta contra a liberdade do outro? É aí que entram as regras sociais.
Thomas Hobbes, filósofo inglês do século XVII, é quem explica: de acordo com ele, para se construir uma sociedade é necessário que cada individuo renuncie a uma parte de seus desejos e chegue a um acordo de não destruição uns com os outros: o contrato social.  Ou seja, ao comer com as mãos, eu talvez possa estar sujeito a pegar doenças - isso explica por que a prática de comer com garfos só se tornou normal para os brasileiros no século XIX, com maiores campanhas a respeito do saneamento (anteriormente, diversas doenças infestavam nossa população, principalmente no Rio de Janeiro). Logo, acabamos adentrando em outra questão importante: quem cria essas regras?
Até aqui, já percebemos que a liberdade individual cem por cento, não existe e devemos agradecer por isso: o mundo seria um caos. Mas quem dita essas regras? O governo? Os políticos? Os famosos?
– eu respondo: você.
Antigamente, quem ditava as regras eram os reis e rainhas. Como se vestir, como se portar, o que fazer e até mesmo o que pensar. O maior exemplo disso é nossa constituição, uma das mais bem elaboradas e liberais do mundo: mas obra de um homem só, D. Pedro I. Todos tiveram que engolir e seguir aquilo proposto. Porém, vejamos e questionemos mais uma vez: por que esses reis e rainhas exerciam tanto poder? Se eles eram absolutos, não seria por conta própria ou pelo simples querer que algum dia se tornaram donos de países. A resposta novamente é você. Quer dizer, não exatamente você, a não ser que vampiros existam, mas a figura de ser humano ou cidadão comum. Se houve império no Brasil, é por que as pessoas apoiaram. Em troca de proteção doaram sua liberdade – contrato social. Foi assim que durante séculos famílias governaram os mesmos países: em algum momento, esse contrato, mesmo que indiretamente, foi firmado; as pessoas se acostumaram e logo se esqueceram da razão de viverem naquela situação, enquanto já estavam em um contexto completamente diferente. Claro, que manter o conhecimento em segredo, ajudou nisso tudo - vulgo, igreja católica como maior força política. Se ninguém sabe o que lhes levou a chegar ali e muito menos o que se passa no lugar onde estão, logo não poderão ter capacidades intelectuais para arquitetarem a mudança.
Estranho isso ter acontecido há tanto tempo e permanecer tão atual... Qualquer semelhança com o presente não é mera coincidência.
Agora vamos viajar alguns séculos no futuro e vislumbrar a criação de uma caixinha mágica: a TV. Estamos diante de um “boom” na tecnologia, o modo como a informação chega nunca mais será o mesmo. Os seres humanos não mais estão fadados à leitura para saberem o que acontece no mundo, a ouvirem sem entenderem completamente ou ao simples conhecimento de cada um; não mais, com a tv não é necessário imaginar as descrições de coisas que nunca vimos nem sabemos, e muito menos ler: está tudo ali, na tela em nossas salas.
É perceptível que o contrato social, sendo redundante, é formado pela sociedade. Então, foi por isso que o homem soberano, seja um empresário ou presidente, se especializou em aprender como controlar a massa de pessoas, que no caso, deveria controlá-lo: isso se chama manipulação.
Quando a Bruna Marquezine usa um produto completamente desconhecido, passa o algodão na pele e diz, “eu uso e isso faz tão bem”, a situação se desenrola mais ou menos assim: Dona Judite (personagem fictício) fica fascinada com tamanho rejuvenescimento de pele na atriz (sem notar o fato de que, a atriz tem metade da sua idade e provavelmente deve estar entupida de maquiagem e edição de vídeo) e resolve comprar o produto. A Dona Judite o usa e não vê qualquer mudança significativa no rosto, a não ser o sumiço de um cravo ou outro (coisa a qual um produto bem mais barato faria) – “mas isso tem de ser bom”, diz para si mesma, “a Marquezine diz que usa todo dia”. Sem perceber, centenas de Judites, Otelias, Antonias, Olgas e quaisquer nomes que parecem terem sido escolhidos para serem de vós, usam o mesmo produto e constatam a mesma coisa. Continuam a usar o creme caríssimo, sempre pensando na Marquezine, na Fátima Bernardes ou na Eliana, com suas peles lindas e sedosas – o efeito é mínimo, mas o dinheiro tem que valer.
Todas as senhoras, ao se encontrarem no bingo do mês, encaram umas às outras e, no estágio da vida em que as novidades são bolos que dão errado, dizem: “menina, to usando um creme novo. É tão bom, olha como tá minha pele” - Vó genérica tira um lindíssimo pote da bolsa cheia de tralhas e o coloca ao lado do rosto. Na realidade, ninguém nota nada, mas concordam e acrescentam: “também to usando, acabou com meus cravos rapidinho...”, fica implícito que acabara com as rugas. Ninguém sabe exatamente os efeitos do santo remédio, mas as outras notaram, então deve fazer alguma diferença. Judite conclui olhando para as amigas totalmente enrugadas, “esse creme é bom mesmo”.
Ninguém sabe e ninguém percebe, mas acabaram de ser manipulados. Vamos ao nosso guia básico de manipulação na TV, com base em um período onde isso começou a ser desenvolvido, mesmo sem tv: o nazismo. Você, contando que tenha lido os outros artigos antes de chegar nesse, já deve estar careca de saber o quão malvado e o quão aceito Adolf Hitler foi pela Alemanha. Agora, vamos explicar um pouco sobre como acontece a manipulação da massa (não basta ser padeiro):


FATOS

FATO 1
Jornais, revistas, rádio e etc, são mídias fixas. O que isso quer dizer? Essas mídias são imutáveis no sentido de escolha da informação. Diferente da internet, no rádio, por exemplo, você não pode pesquisar sobre determinadas coisa específica ou opinar, é um caminho de mão única: a informação vai para o mundo, porém não volta. Na TV não é diferente.

FATO 2
Existe uma coisa chamada ideologia. Cada ser humano ao expor seu pensamento, segue determinada ideologia - todo discurso é ideológico. Sendo assim, quando uma matéria vai ao ar na Globo ou Record, por ser a visão de determinadas pessoas e logo de uma empresa, ela segue uma ideologia.


FATO 3
Omissão. Se eu sigo determinada ideologia, não irei revelar fatos que vão contra ela. Se eu amo Coca-Cola, não vou alertar explicitamente os outros sobre o perigo que há em tomar a bebida.


FATO 4
A omissão ocorre diante de outros fatores, vulgo publicidade. Você não vai falar mal de quem lhe sustenta. Se o creme da Marquezine patrocina sua novela, não é legal fazer um programa falando o quão prejudicial à saúde usar creme pode ser.


FATO 5
a TV influencia e é influenciada. Não podemos negar que a sociedade deve ser seguida quando criamos um programa televisivo. O papel da TV é pegar esse bruto que são os hábitos e desejos populares e adaptá-los de acordo com a sua ideologia.


DICAS

DICA 1
O show. Como sabemos, a Alemanha foi responsável por mudar o modo com que se controlava o país – não mais pela força. As pessoas precisam de um atestado de veracidade do que estão fazendo por ela, principalmente se você for um político – e além de tudo, precisam se sentir únicas, como parte maior de um todo que lhes assegura a certeza. Então, seu papel é ter em mente o fato 1, de que a TV é uma via de mão única, e o fato 5, para pegar todo esse desejo popular e moldar, de forma magnífica.
O povo quer mudança? Já diria o pequeno príncipe, adultos adoram números. Mostre números e logo a mudança, alguém que seja facilmente identificável pela a massa falando os efeitos que suas ações tiveram na vida dele. Depois, por mais simples que determinados feitos sejam, os mostre de forma grandiosa. Por fim, o apoio popular, todo ali, junto de você; o sentimento de unidade pela sua causa.
As pessoas verão aquilo e mesmo que discordem, terão um sentimento. Esse é o papel da TV, levar emoções. Os olhos são a prova viva da verdade, claro, isso para a massa, e o som a ambientação para o coração.


DICA 2 
As vezes a omissão não é a melhor alternativa, sim o inverso, o contraste dos fatos. Metrópolis, filme alemão lançado em 1927, falava sobre a luta entre os ricos contra os operários, lidando com a alienação e a manipulação das atrocidades; – era o filme favorito de Hitler e foi veiculado diversas vezes no cinema alemão e claro, possivelmente vinha logo após com um pomposo discurso do ditador sobre as mudanças que estavam acontecendo na Alemanha. Percebe?
Um fato completamente contraditório, o filme que criticava essa mesma sociedade, foi trazido à luz, para que alguém lhe desse um sentido diferente para a massa.


DICA 3
A credibilidade é muito importante, seja na imagem ou no assunto falado. Você nunca verá um jornalista conhecido por ter determinada opinião, falando o contrário em uma bancada de jornal. Então, quem vai falar é importante, e também o que vai falar. Como já dito, números são importantes, junto de cenas exatas.


DICA 4 
O humor leva grande mensagens. Aqui saímos um pouco do ramo jornalístico e vamos para o entretenimento ou sensacionalismo. O modo como as coisas são ditas, faz com que algo absurdo tenha sentido. Quando Datena mostra um crime e grita de um jeito caricato, “me dá ibagens! Pena de morte!”, isso tem uma influencia enorme na população, que começa a temer e odiar mais ainda qualquer criminoso, sem se ligar ao contexto. Nem preciso falar sobre os judeus, né? Foi daí que se iniciou a arte da retórica televisiva. Na década de 40 não tinha TV, mas o cinema era base para a construção de toda a propaganda. Tudo isso faz parte da Dica 1.


DICA 5
Jogo de interesses. A ingenuidade é a morte para qualquer comunicador, ainda mais televisivo. Se você tem um canal de TV, tem de ter plena consciência do que pode lhe levar à ruína e do que lhe trazer grandes benefícios. Falar sobre a democratização dos meios de comunicação na Globo, parece algo bonito, mas nunca deve ser feito (Fato 3). Muito menos enfatizar a situação do professor brasileiro, isso vai de contra à interesses dos empresários, que por sua vez patrocinam certos programas. Então, devo saber bem o rumo que as coisas podem tomar. Porém, nunca devo me atrelar à algo fielmente: lembre-se, você segue o próprio rumo. Talvez seja por isso, que muitos governos, como a China, ou mesmo aqui no Brasil, na época da Ditadura Militar, tomam a comunicação para si, para haver um único interesse: o do Estado. Nesse aspecto, é preciso ter cuidado; você quer alienar os espectadores, mas não ao ponto de se tornaram confusos. Pensar na mente como um recipiente a ser preenchido com as coisas certas é importante, ainda mais quando se lida com tantas cabeças.
Essas são algumas dicas para você, iniciante na comunicação, estar ligado no que deve ou não fazer. O resultado você verá por conta própria no dia a dia. Logo você estará pronto para entender completamente o contrato social e enfim, manipulá-lo. Quando você perceber que, sendo outra vez redundante, a sociedade quem faz o contrato e logo, ver que tem armas para mudar essa sociedade, todos os seus desejos serão realizados.


Enfim, depois desse guia básico, volto à pergunta inicial: o que é liberdade?

El Psy Congroo.

Comentários

Postagens mais visitadas