segunda-feira, 15 de junho de 2015

[Analisando Animes] Gosick

Lançado em 2011 pelo o estúdio Bones, Gosick é um anime de mistério baseado em uma light novel, que conta a história de Kazuya Kujo, um estudante por intercâmbio na Academia Santa Margarida, no Reino de Saubure (Europa). Kujo acaba adentrando em uma escola peculiar, onde as lendas urbanas são levadas bem à serio.
O personagem desde o começo é apresentando como uma novidade ou algo que vai de contra tudo aquilo já estabelecido. Tipicamente japonês, o "shinigami negro" e para piorar, tão ingênuo que chega a ser idiota, Kazuya encontra conforto ao conhecer Victorique de Blois, uma garotinha que parece uma fada, passando a maior parte do tempo devorando livros na biblioteca. Não demora muito para ambos começarem a se meter em enrascadas.
O trunfo de Gosick em toda a sua empreitada de 24 episódios, é conseguir mesclar três pontos importantes: o sobrenatural, a dedução e a emoção. Pautado no sistema de, cada episódio é um mistério novo e no final esses mistérios dão pistas para um maior ainda, o anime é muito original em tudo que apresenta, mas sem deixar de levar influências: a maior delas, clara para qualquer um, é Sherlock Holmes. Kujo faz o papel braçal, muitas vezes estúpido, emotivo e corajoso de Dr Watson. Já Victorique, toma até mesmo o cachimbo de Holmes. Porém, a influência tão clara, termina nessa composição básica dos personagens: ao serem desenvolvidos, Gosick busca trazer para si suas próprias problemáticas e conhecimentos, criando uma ficção surpreendente, cheia de ação e inteligência.


Enredo e personagens

A história de Gosick brinca com clichês. Estamos em um ambiente fervilhante de pré-segunda guerra mundial e ao mesmo tempo conhecemos um reino fictício com todas as suas peculiaridades. A trama em si é bem simples, e como já dito, pautada nos mistérios, porém, diferente de Sherlock, nesta obra o importante não é a resolução em si, mas como se desenvolve. Apesar de ser muito inteligente, o anime pode soar previsível e caricato - contudo, a magia de sua história não está aí, sim na ambientação e no decorrer de cada história. Se tratando de ousar em criar e surpreender, agrada muito, já que temos diversos personagens e esses personagens, por sua vez, se interligam, cada qual com um drama diferente. O papel de Victorique e Kujo não é só resolver crimes, mas desvendar pessoas.

Podemos separar o anime em dois momentos: mistérios, ao qual somos introduzidos superficialmente sobre as duas personagens principais e conhecemos outras; e história principal, onde a história de Kazuya e Victorique se desenvolve e todas aquelas pistas ocultas jogadas no inicio, são resolvidas.


  • Parte 1

Victorique é uma garotinha excêntrica: parece uma boneca, toda delicada, com seus lindos cabelos dourados. Porém, ao abrir a boca, a visão muda - Victorique se torna fria, calculista e inteligente. Mais à frente, já com esta visão temerosa, conhecemos um outro lado da menininha - um lado mais humano, infantil e totalmente emotivo.

O que me agradou inicialmente em Gosick foi seu enredo descompromissado, sincero, sofisticado e profundo sem a necessidade de ser: aquele mundo existe, todos estão preocupados com a guerra e duas crianças ficam por aí resolvendo mistérios que adultos não conseguem. A relação de Kazuya com Victorique é direta, sem uma forçação para crescer: Kujo é diferente de todo mundo, a menina também, ambos vivem a se estranhar, mas gostam um do outro pela coragem e interesse por ajudar. O menino arranja problemas, ela os resolve. Qualquer coisa que surgisse entre eles, fosse amor ou ódio, seria algo bem natural, em segundo plano, que influenciaria suas ações, mas ainda concentrado na ideia de que são crianças e de certo modo, desconhecidos.

Os crimes ou mistérios são clichês da literatura policial: o navio fantasma, o alquimista e lendas urbanas em geral (como a dos lobos cinzentos). Porém, assim como Madoka Magica, o anime se diverte com esse clichê, entretendo o telespectador com o sobrenatural, para ao fim trazer para o magnífico realístico fim. Em cada episódio, pessoas entram e saem da história, Victorique e Kujo se conhecem um pouco mais e o mundo se prepara para a guerra. Acompanhar esse momento é confortante, pois a primeira parte é descompromissada, rica em referências, inteligente e acima de tudo, verossímil com as emoções das personagens. A ideia é desenvolver principalmente os adultos, que tem tanto para contar.

  • Parte 2

A segunda parte de Gosick se caracteriza pelo o foco principalmente em Victorique e seu passado. Mas que história? Fica difícil assimilar tantos fatos para uma garota de 15 anos. Bom, o interessante é o teor filosófico que se expande aqui e tem um lado positivo e negativo: as reflexões são interessantes e de uma beleza sublime, porém muitas vezes se perdem e soam confusas e isso é ruim, pois o que era profundo se torna superficial, em uma história que sempre prezou pela a racionalidade. Eu vejo também uma mensagem por trás desse momento: há muito mais do que a nossa simples existência; há muito mais além da razão ou do que a nossa mente pode nos dizer. Mas enfim, para desenvolver e mostrar todo esse conceito, o anime precisa mexer com seus personagens, atiçando-os seja criando problemáticas absurdas ou tentando de todo o jeito uni-los. Não sei se o problema foi a adaptação, mas aqui, de repente o enredo muda o ar descompromissado, para um thriller eletrizante, onde Kazuya ama com toda a força Victorique. É essa força o problema - de repente, a dedução é deixada de lado e o irracional toma conta. E isso sucede-se não só no desenvolvimento em si, mas na composição da história. Parece haver uma necessidade de mostrar um lado humano.
Eu adoro ver esse lado humano, mas quando ele vai de acordo com a personalidade dos personagens e tem um estruturação - que é o que acontece na primeira parte, onde aos poucos os elementos vão sendo definidos. Na segunda parte, tudo explode como uma bomba, parecendo haver um tempo definido para o fim. É um corre corre cheio de dilemas e filosofias, que tenta voltar para a dedução, mas precisa a todo custo contar histórias com as quais o telespectador se identifique.

Enfim, Gosick vai se diferenciando muito, até ao ponto que praticamente é outro anime. A cena final, com Victorique de cabelo cinza, é bela, mas um foda-se para o tom realístico que foi estabelecido no inicio. Isso me entristeceu, pois a obra era diferente por conseguir misturar harmoniosamente aqueles três elementos: sobrenatural, dedução e emoção. Não ligo para mudanças, na verdade até acho preciso, ainda mais em um anime que não conseguia se definir entre ação ou slice of life - o segundo gênero se escolhido, estaria fadado à pacatização e fracasso - porém, acredito que nem tudo deveria ser jogado fora. Veja Bakemonogatari: a história é totalmente simples, cheia de diálogos e problemáticas; mas, de repente o enredo fica eletrizante e cheio de ação, nunca esquecendo da paciência e descompromisso para poder se desenvolver.
Ao final, Gosick é uma experiência satisfatória, mas com um gosto comum.


Visual

O visual do anime é belo. Dá para identificar o orçamento baixo pela reciclagem de conteúdo, mas isso não atrapalha em nada a composição visual, muito pelo o contrário. Em semelhança, eu compararia à Mawaru Penguindrum: ambos tem um limite, mas ultrapassam esse limite e por conta das circunstâncias, ousam e surpreendem. As cores na primeira parte são bonitas e variadas,  com um tom de verão. Na segunda, as cores ficam sombrias e fortes, sem uma aparência tão "bonitinha" quanto antes
O design dos personagens também é bonito. Todos tem suas roupas e expressões, apesar de seguirem um modelo parecido (confundi umas mil vezes as professoras). Tudo preza em criar uma relação com o presente, mas levando aquele ar classudo dos anos 20: a Belle Époque confusa em sua modernização, dando alas para um novo mundo.

Conclusão

Gosick como um todo é um ótimo anime. A mitologia e enredo mirabolantes da obra, são geniais e bem construídos, mas pena que em determinados momentos acabem se perdendo. Enquanto Victorique e Kujo andam por aí conhecendo pessoas e resolvendo mistérios, o maior prazer para o telespectador é desvendar esses dois personagens tão diferentes, mas que se completam tanto. Por mais que os personagens secundários sejam totalmente esquecidos (vulgo Avril), a trama final consegue se sustentar, mesmo que forçadamente. É um bom anime de mistério, que poderia ser melhor; em suma, mesmo com personagens cativantes e uma fantástica história de amor, Gosick não soube crescer.
Às vezes menos é mais.

El Psy Congroo.

Opening:


Endings:





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