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Conversa Paralela #1: O amor e a diversidade de Steven Universo

Olá pessoas, bem-vindos ao primeiro Conversa Paralela!

V de Vingança e os símbolos


V de Vingança (ou no original, V for Vendetta) é um filme americano de ação, lançado no ano de 2005. Sendo uma adaptação de uma Graphic Novel, escrita por Alan Moore e desenhada por David Lloyd, a história contada se passa em um futuro distópico no Reino Unido, onde um mascarado justiceiro surge como terrorista em um governo totalitarista. Enquanto a trama original da história em quadrinhos aborda questões mais reflexivas e diversificadas, o filme busca uma centralização do enredo, modernização e conexão com a atualidade. 
Tanto a história quanto o filme tiveram grande impacto no mundo e na cultura como um todo, onde a figura de Guy Fawkes se tornou referência em protestos e reivindicações do povo frente ao governo. V, o personagem principal da trama, se tornou um símbolo não só para a sociedade descrita na obra. Esta análise busca trazer à tona, esclarecer e refletir sobre as diversas questões e problemáticas inseridas no longa-metragem, de modo a contextualiza-las com a contemporaneidade. 
Visto que o filme se baseia em uma HQ, é possível haver comparações.

1. ENREDO

1.1 Personagens e Acontecimentos

A trama de V de Vingança se passa em um futuro distópico, onde um partido totalitário, O Fogo Nórdico, tomou o poder da nação por meios ilícitos, que mais adiante adentraremos a fundo. Neste contexto de liberdade contida, somos introduzidos na vida de Evey Hammond, uma mulher comum que trabalha na rede estatal de televisão britânica. Logo no início, nos deparamos com homens estranhos com intenções maliciosas a rondá-la; estes homens, em um olhar superficial, podem ser identificados como bandidos, bêbados e até mesmo estupradores. A surpresa é grande ao percebermos que são policiais - e mais que isso, da polícia secreta, conhecidos como "Homens-Dedo".
Somente nesta cena inicial, é possível notar que há algo de errado no mundo em que Evey vive. O lugar, ainda que bastante "protegido", é sombrio e a tal polícia, ou seja, a própria justiça, não se difere da imoralidade. Deste modo, fica claro o papel da moça na história: Evey é a conexão que há com o telespectador; ela faz parte do povo, assim como todos nós, porém se sente fraca, oprimida e insatisfeita, muitas vezes sem nem mesmo saber o porquê.
Nesta mesma cena, conhecemos o nosso protagonista e anti-herói: V.

V é um completo anarquista, criado por Alan Moore (escritor da obra original) para ser o reflexo do leitor, onde nós decidimos se ele é um legítimo justiceiro ou apenas lunático terrorista. Bastante perspicaz e inteligente, é a personificação da vingança. Ele é um herói (ou anti-herói) realista, buscando a verdade como caminho para realizar seus feitos, de modo a ser duramente direto em suas ações. V ao começo soa totalmente irreal, um símbolo imutável, quase um conto; mas conforme adentramos na mente desta personagem, vemos a humanidade que há contida e que o impulsiona a ser o que é. Em contraponto ao ser milagroso, messias e salvador, conhecemos uma dura realidade: o fardo que há em se carregar. Uma dura jornada para conscientizar e libertar a sociedade de suas próprias criações. 
O anarquista é uma irregularidade não só como pessoa, mas visualmente: enquanto a paisagem é monótona, mesmo colorida, V ostenta a todo momento sua marca em vermelho e roupas sombrias que destoam de todo o resto.
Seu primeiro ato, logo na primeira cena, é justamente destruir um símbolo: a estátua da justiça. Portanto, o início do filme é emblemático e já nos mostra o tom que deverá tomar. A justiça no mundo de Evey e V não existe mais e é simplesmente uma alegoria do que foi um dia. Quantos símbolos e signos passam por nós no dia-a-dia e se quer sabemos seus objetivos e fundamentos? É fácil encontrar pelas ruas de São Paulo, estátuas e casas, que outrora tiveram grade significado, mas que atualmente se banalizaram frente a ignorância popular - não só isso, até mesmo palavras. É com essa ideia em mente, que V destrói a Rainha da Justiça. O povo daquele país não sabe o que foi nem o que é a verdadeira justiça, seu significado já se perdeu há muito tempo diante de tanta opressão do governo; é preciso destruir essa inverdade, para então reconstruí-la, - dessa vez com bases mais sólidas. 

Paralelamente, Eric Finch, um investigador da Scotland Yard, fica encarregado de descobrir quem é o mascarado. Se Evey é a parte da massa insatisfeita, Finch é o povo contido por meio da manipulação. Ele não tem ideia do quanto vende sua liberdade para um Estado corrupto todos os dias, até que ao conhecer V, indiretamente por meio da investigação, ele se depara com as falhas do próprio país que protege. Ele é a moral em um mundo corrupto, onde até quem quer justiça, se vale da ilegalidade. E aí, por meio dele entra a questão: o que é justiça? Seria o mesmo que vingança? - é preciso delinear bem a diferença, que posteriormente falaremos sobre.

Pois bem, o primeiro alvo do justiceiro mascarado é Prothero, um influente apresentador de televisão. É ele a voz e Londres e, portanto, representa o quarto poder: a mídia. A manipulação nesta distópica Inglaterra se faz principalmente pelos meios de comunicação, onde o Estado aliena a todos e conta mentiras. A sobreposição da falácia contra a realidade se faz quando o governo anuncia que o edifício, destruído por V, foi na verdade uma detonação de emergência, sendo logo desmentido pelo o próprio V, que entra ao vivo clandestinamente para contar a verdade e convidar a todos para celebrarem o dia 5 de novembro.
Nesta sequência de fatos, em que há a invasão à rede de televisão e Evey vai para o esconderijo de V, vemos os conflitos com o totalitarismo, inicialmente não sendo aceito pela a nova companheira do protagonista. Ela fica estarrecida com o mundo que lhe é apresentado, os meios que o mascarado usa para se vingar e que rumos aquilo pode tomar: Evey, diferente de V, é inocente e não um terrorista, ao qual ele se tornou. Sem contar a dificuldade que há para aceitar algo que lhe diz totalmente o contrário daquilo que lhe foi imposto por tantos anos.

Outro assassinato muito importante é o de Anthony James, o bispo. A religião é presente na credibilidade de grande parte do povo e por isso, é relevante pois demonstra o modo como V trabalha, destruindo os diversos aspectos estereotipados e importantes da sociedade, nas quais todos se apoiam e alienam-se. Aos poucos, entra a dúvida que permeia todo o filme indiretamente: o que ele está fazendo é justiça ou simplesmente está se vingando por si mesmo? Para muitos, talvez fique a impressão de que V é bonzinho, mas na verdade é ao contrário: V é um monstro fruto de outros monstros que busca realizar vingança por seus objetivos, o povo acaba sendo apenas um meio em toda aquela fúria. Porém, ao final a personagem muda, unicamente por Evey, que lhe faz repensar diversos conceitos.
Gordon Deitrich é amigo de Evey e demonstra, ou melhor complementa fortemente, as demonstrações de censura desse Estado totalitário.
Homossexual, Deitrich diferente da garota ingênua, sabe bem o que acontece em seu país. Ele é um intelectual, mas não sabe como reagir, tendo muito medo. É Evey quem lhe dá esperança e coragem para fazer o que um comunicador melhor sabe: criticar. São por essas críticas que ele é morto, mas não sem antes deixar uma mensagem e impactar a população. O estrago já estava feito.
Sendo assim, o governo perde todos os meios que tem para acomodar e assentar as massas, sobrando somente uma única carta na manga: a força física. É por ela que eles tentam a todo momento impedir os acontecimentos, mas diante de tamanha perseguição, V diz a emblemática frase: “Ideias são à prova de balas”. No momento em que máscaras são espalhadas pelo o país e o mascarado é baleado, a ideia permanece e segue resistente a qualquer força. Força esta que em um momento crucial, quando usada, acaba por agravar os problemas. A morte de uma garotinha por estar usando uma máscara de Guy Fawkes, é o ponto chave para a rebelião começar.

O Alto Chanceler Adam Sutler é um típico ditador expressivo, quase como um pai para o mundo em que vive, mas que não mede esforços para alcançar seus objetivos. Sua aparência e ações lembram Adolf Hitler, principalmente diante do fato de ter criado uma arma biológica para criar um inimigo em comum, se apresentando como salvador da pátria. 
A Dra. Delia Surridge representa a ciência. A razão quando usada cegamente, apenas em busca de fatos, ocasiona desastres: e é exatamente o que acontece. Delia está a todo tempo focada em sua pesquisa, sem se perguntar o que é tudo aquilo. Quando percebe, o estrago já está feito. A ciência foi usada como arma por outros homens, que provavelmente nem devem saber as propriedades de um átomo, mas sabem muito bem as propriedades da manipulação.


2. VISUAL, SÍMBOLOS E REFERÊNCIAS


O visual do filme V de Vingança é bastante estilizado, e monótono. Todas as cores têm um tom de cinza, para demonstrar a apatia da sociedade. Porém, quando V adentra, vemos um personagem sombrio, sem aquele comum tom colorido triste, e claro, levando sempre consigo uma cor forte: o vermelho. Sua máscara acaba denotando ironia, pois a todo momento está sorrindo, justo perante a todo um contexto de opressão, destoando de todo o resto.
A busca pela a verdade se encontra por todo o longa, por meio de referências. Duas delas muito importantes: a obra de Fausto, uma peça de teatro que conta a história de um homem, Fausto, que vende sua alma para o diabo em troca de conhecimento. A busca e os empreendimentos de Fausto causam dor a outros, temos como exemplo a expropriação de um casal inocente que se recusam a abandonar o lar para abrir caminho ao “progresso”. Na Inglaterra de V, o partido que governa criou uma arma biológica e atacou a própria população para que no momento de crise, se elegesse – algo parecido com o incêndio provocado pelos nazistas no parlamento alemão, que atribuíram a culpa aos comunistas e assim assumiram o poder. É possível ver uma frase da obra no espelho de V: “Pelo o poder da verdade, enquanto vivo, eu conquistarei o universo”.
Outra referência é Edmond Dantes, personagem principal do livro de Alexandre Dumas, O Conde de Monte Cristo. A história contada neste livro, é sobre um pobre pescador que é injustamente preso. A partir daí, Edmond busca uma incessante vingança, se assemelhando bastante à V. É possível ver Evey e V assistindo uma versão cinematográfica antiga da obra. No final do filme, Evey é questionada sobre quem era V, ela responde:
  
“Ele era Edmond Dantes, ele era meu pai e minha mãe. Meu irmão, meu amigo. Ele era você e eu. Ele era todos nós! Ninguém jamais esquecerá aquela noite e o que aquilo significou para este país, mas eu nunca esquecerei o homem e o que ele significou para mim”

O Fantasma da Ópera e 1984 também são referências claras, mas não tão diretas, apenas conceituais. V é um mascarado quase sobrenatural, que aparece para assombrar os inimigos. A Inglaterra ditatorial é 24 horas vigiada, tendo um sistema muito semelhante ao descrito por George Orwell. Campos de concentração e perseguição à diferentes etnias e opções sexuais, remetem ao período nazista e o fascismo de adoração quase messiânica ao ditador.
O filme também faz alusão a situações mais recentes, como a guerra do Iraque. As críticas ao período do governo Bush e a guerra ao terror ficam implícitas, mas sem deixar de serem universais a qualquer outro país. Entre os temas, há uma forte diferenciação da obra original, pois o longa muda conceitos do anarquismo, para uma adaptação mais capitalista da idealização, mas mesmo assim ainda é um grande trunfo, visto ser um produto hollywoodiano.
Por último, outra referência importante é o próprio V. A letra é transformada em símbolo, permeando todo o filme, desde o número de adagas que o protagonista usa, músicas usadas e padrões dos trens, à ponteiros dos relógios e fogos de artificio. Ou seja, o personagem principal não está somente fisicamente, mas em todos os momentos, até mesmo em outros personagens.


CONCLUSÃO


V de Vingança é um filme que usa dos simbolismos para criar um totalmente novo, levantando questões importantes e destruindo todos aqueles estereótipos criados pelo Estado. Apesar de diferenciar da obra original, a mensagem que fica e deve ser levada é a do anti-conformismo e poder para o povo, o cuidado que se deve ter e atenção para com atitudes demasiadamente benéficas. Ao final, temos como resultado um longa-metragem satisfatório, ainda que destoe do tom realístico que deveria ter, mas que se esforça para ser inteligente, seja na parte superficial ou nas referências. É incrível que um produto de hollywood tenha tamanha audácia, ainda mais em se referir ao próprio local de produção e principal público. O interessante é que, enquanto a Graphic Novel é densa e bastante longa, cheia de textos, ou seja, de difícil leitura, aqui temos uma ambiguidade: de um lado, a trama frenética e superficial, do outro um romance poético sobre liberdade.
O longa metragem levou as ideias de Guy Fawkes a todo um novo público, enraizando de vez V como um símbolo. Guy Fawkes é hoje visto como um herói, uma deturpação em uma sociedade que escolhe mocinhos e vilões, assim como no filme. Não existe bem nem mal, apenas caminhos diferentes a seguir: o filme deixa de enfatizar isso, mas não perde sua magia e maestria como uma obra dotada de inteligência, trazendo a referência anarquista de Fawkes, para um futuro incerto que interligamos com o presente.

El Psy Congroo.

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