sábado, 4 de abril de 2015

O demônio e a srta. Prym

O bruxo autor conhecido por sua atmosfera mistifica cheia de significados, junto do espiritismo enigmático, em meio às obras que pendem entre a auto-ajuda e misticismo, calcados principalmente em uma experiência: a retratada no livro O Diário de Um Mago. O Demônio e a Senhorita Prym não foge dessa experiência, ou melhor, fórmula de dinheiro arquitetada, que até tenta dar uma complicada no enredo, mas que acaba caindo no mesmo discurso com conceitos que seus leitores leram tantas vezes, resultando no bom e velho "... e viveram felizes para sempre".

Chantal Prym é uma jovem como outra qualquer, só que presa em uma cidade pacata em que seus desejos jamais serão realizados. Aqui, a moça claramente faz o papel do leitor, que acaba correspondendo aos mesmos anseios de coisas como: viajar, ter dinheiro, um amor para depositar a confiança e etc. 
Mas então Paulo Coelho engenhosamente dá partida no movimento das engrenagens. Se Chantal Prym representa de certo modo o leitor, que tal brincar com suas atitudes? É aí que entra as diversas questões dentro do que foi estabelecido. A tarefa é clara e cumprida (munido da massante repetição): fazer o leitor refletir sobre o bem e o mal.

Viscos é a típica cidade interiorana, com suas lendas e curiosidades peculiares. Tudo parece mudar quando o demônio finalmente chega. Para acabar com ela? Não, apenas corrompê-la. 
O viajante que o carrega traz consigo enigmas, mas do que adianta enigmas se não há quem desafiar? É claro que o homem tem uma cidade inteira para isso, mas antes precisa de um contato. E é aí que entra Chantal.
Enquanto o homem faz papel principal, Prym é apenas um mero objeto para impulsionar a história. Até que de repente a situação inverte, e o homem passa a ser um qualquer e Prym cresce, tomando o lugar de personagem principal.
O erro de Paulo Coelho está aí - em não conseguir sustentar suas personagens. É como se estas servissem apenas para diálogos bastante artificias que em suma, tem uma mensagem filosófica, sendo que ao fim da captação, somem como se não fossem nada ou são citadas, apenas para dizerem: "estamos aqui"

Talento o Sr. Coelho tem e isso é indiscutível. A linguagem simples e convidativa é um belo atrativo que ensina aos intelectuais que uma história é feita de mais do que belas palavras: uma história é feita do uso adequado dessas palavras.
É difícil definir o Demônio e a Senhorita Prym. As personagens soam interessantes e ao mesmo tempo patéticas. Hora o assunto é denso e profundo, hora ele tenta fazer a mesma coisa anterior mas falha, infantilizando-se.
Consegue em partes triunfar por dividir-se em assuntos: primeiro estamos falando sobre vingança, depois de sacrífico e noutra hora corrupção. O problema é quando estes assuntos são meras figuras, usadas apenas para falarem da mesma coisa. Ao inicio, a proposta parece ser interessante, mas já em seu final, soa pastelona e cansativa.

Enquanto plots twists são usados para surpreenderem o leitor, Paulo Coelho consegue fazer uma reviravolta inversa: a história caminha primeiramente para um destino difícil de imaginar, com seu jeito peculiar. Mas aí, um plot twist acontece e a história acaba rumando para o inevitável que poderia ser evitado, de um jeito comum sem mais as suas "estranhezas".
Além da senhorita Prym e o viajante misterioso, temos Berta, uma senhora que ganha sua importância, entrando por fim naquilo que eu disse: aparece, manda uma mensagem e some, perdendo toda a grandiosidade que teve.



CONCLUSÃO

O Demônio e a Senhorita Prym não chega a ser um livro ruim, apenas mal desenvolvido. 
Suas personagens são interessantes, mas se perdem no discurso filosófico do autor, que acaba soando massante, denegrindo a história. Isso me lembrou um outro livro que li recentemente: O Monge e o Executivo. A obra sofre dos mesmos problemas que O Demônio e a Srta Prym. A diferença é que este é assumidamente uma auto-ajuda, enquanto a obra de Prym acaba sendo uma tentativa falha de desenvolvimento grandioso de história.

Outro dia li num blog uma entrevista em que Paulo Coelho diz: "escrevo um livro em uma semana", talvez isso explique muita coisa. Não que ele tenha sido afobado, mas já diz o ditado: "apressado come cru".

El Psy Congroo.
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