sexta-feira, 17 de abril de 2015

De cristão não sobra nem Jesus

Era mais um dia comum. Eu chegara cansado da faculdade e estava pronto para tomar um banho quente, ver algum video engraçadinho na internet e dormir. Cumprimentei minha vó, que como sempre, estava deitada no sofá como enferma assistindo algum programa sensacionalista, seja da vida alheia ou de crimes banalizados. Direcionei-me para meu quarto, mas antes resolvi dar um 'alô' para minha tia, enfurnada no quarto em uma conexão eterna cibernética. Só que desta vez fui surpreendido.
- Estou muito chateada com você. Eu vi seus videos. - ela começou falando. Minha primeira reação foi de espanto, pois primeiramente os videos são algo pessoal que tento não envolver família, tanto que nas redes sociais uso um pseudônimo e minimizo a presença familiar - no Facebook apenas alguns mais chegados e que entendem o que digo, no Twitter, blog e etc, ninguém. Motivo? É simples: a base da minha família como um todo, seja por parte de pai ou mãe, é bastante humilde. E claro, isso é algo que respeito muito, porém, muitos deles são ignorantes - e não ignorantes do tipo, vamos ter uma conversa; ignorantes do tipo, fazem 40 anos que acredito em determinada coisa e nada pode me mudar.
Quem me conhece pela internet pode me achar bem diferente na vida real. Apesar de 24 horas estar fazendo piada, aprendi à duras penas respeitar o outro, então quando sei que a coisa não tem jeito, não tento me estressar. Pois bem, adicione nesse meu lindo lar famíliar, além da ignorancia e o extremismo, a religião.É assim que fui criado.
Quando pequeno, os conceitos morais passados pelas histórias dos Irmãos Grimm eram secundários. Noé, Abraão, Jesus e cia, estes sim eram meus heróis. O grande problema de Deus comigo foi a curiosidade. Eu não queria saber como Eva e Adão pecaram contra Jeová, mas sim como uma cobra conseguira falar e por que aquilo deveria fazer sentido, se o próprio Deus foi quem colocou a árvore no Jardim do Éden. Ponto. Aqui já era o demônio agindo na minha vida e quaisquer perguntas que eu fizesse, era sempre rebatido com, "vá orar, isso é coisa do Diabo na sua cabeça".
Minha posição frente a religião é a mesma para todas as pessoas, mas altera-se no modo em que se apresenta. Por exemplo, se estou em um diálogo com um amigo cristão tolerante, coloco em pauta todos os argumentos que tenho, não para converte-lo a seguir o que penso, mas para fazê-lo refletir (o mesmo conceito que Jesus e Sócrates usavam). Agora, se estou frente a uma pessoa que há mais de 20 anos é cristã e eu sei que tudo o que eu falar vai ser fortemente refutado, resultando em uma discussão calorosa em que possivelmente, o outro não vai saber diferenciar e entenderá como briga, nem tento. E é o que acontece desde sempre em minha casa.
"não acredito no seu Deus e nem na religião. Cada um no seu canto", essa é a minha resposta prática e automática, que pelos fiéis é interpretada como um simples, "está desviado dos caminhos de Cristo". Porém, essa minha família adentrou o outro lado, em que uso argumentos, coloco em pauta discussões mais avançadas, como se Jesus era santo ou um filósofo e com toda minha liberdade de ser, brinco com os conceitos religiosos - uma pedrinha comparado à um soco. Ou melhor dizendo, comparado a quem julga, exorciza, extermina e também brinca, com homossexuais. Jesus estaria chorando nesse parágrafo.
Não vou entrar em detalhes, mas posso dar algum panorama do que aconteceu no momento em que viram meu video sobre religião (uma critica ferrenha) e, quando passei por aquela porta: perca de respeito. O menino que só estava desviado, mas provavelmente acreditava no nosso Deus, agora era o verdadeiro demônio. Sem exagerar, fui comparado a Judas, Pedro (que negou Jesus 3 vezes) , ao próprio Diabo e por fim, à algo pior que todos estes: meu pai bêbado que abandonou sua casa, sua família e hoje vive de forma precária devassamente com diversas mulheres. Enfim, eu, Maeister, adolescente simples e cidadão, que não causa mal a ninguém e tenta de todo modo ajudar as pessoas ao meu redor, virei um completo rebelde e marginal frente a minha família, que acima de tudo me ama. Imaginei o que aconteceria se eu fosse homossexual ou convictamente ateu; minha mãe deve dar graças a Deus por eu, com meu jeitinho diferente e contrário às "coisas de homem", amar uma mulher.

E sabe o que é mais incrivel disso tudo? Que essas pessoas sempre se esconderam na capa do respeito. Nas conversas, enquanto eu era neutro e para elas só estava um pouco "desviado", sempre diziam respeitar os gays, ateus, outras religiões e etc, assim como Jesus, mas no momento em que viram minha faceta na qual eu demonstro livremente meus argumentos e critico ferrenhamente os conceitos da religião, fui dado como imoral, demoníaco e rebelde. É sempre a mesma coisa, "respeito homossexuais, até tenho amigos, porém", é esse porém que muda tudo e cria uma hipocrisia com o discurso de respeito e até com o próprio Cristo.
Só para deixar claro, não sou a favor de ateísmo e o caramba. Sou contra qualquer tipo de extremismo, você botar sua mão no fogo por algo incerto é a pior besteira que um ser humano pode fazer. Mas, fico abismado com tamanha mania de perseguição entre os cristãos, principalmente os evangélicos: parece que estão sempre em guerra, que o mundo vai acabar, que todos estão contra eles e etc, quando são maioria esmagadora no país. Ou seja, chiam quando uma minoria fala. Coisa mais estranha.
Chegaram a me mostar versículos da Bíblia, os quais eu conheço muito bem e muitas vezes estudei e, disseram que o que eu estava fazendo era culpa do pecado dos meus pais. Peraí, a minha decisão consciente e racional, é culpa dos meus pais?

Mesmo diante de todas as panfletações e "ataques", pois eu dizia continuamente: "respeito a opinião de vocês, só acho que deveriam respeitar a minha. O video tá lá, clica quem quer. Cada um no seu canto. Nada do que eu disser vai mudar o pensamento de vocês e nada do que vocês disserem vai mudar o meu, então é melhor nem discutirmos", continuei sem me exaltar ou vomitar minhas considerações. Eu estava dando a outra face. Que ironia.

El Psy Congroo.
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