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Steven Universo: reflexões sobre o papel educacional de um desenho

Vivemos em um mundo de conflito, onde olhamos primeiro as diferenças e depois as semelhanças. Por essas e outras eu fico feliz de ter assistido quando criança desenhos que falavam sobre alguém excluído por ser diferente. E por causa disso acredito que Steven Universo, entre outros desenhos atuais, são mais do que recomendáveis para crianças e para qualquer um, pois eles possuem uma mensagem que pode potencialmente melhorar o caráter de alguém.

O bem de se sentir inteligente lendo Harry Potter e Guerra dos Tronos

Ontem eu estava navegando pelas interwebs, quando me deparei com um artigo curiosíssimo sobre o mal de se sentir inteligente lendo Harry Potter e Game of Thrones. Não vou nem postar link aqui, pois já sei que só pelo fato de eu estar citando já é motivo para vocês procurarem.
Pois então, adentrei a página com bastante interesse em busca de um texto que esclarecesse por que as pessoas se tornam ignorantes quando empacadas somente nessas duas leituras . Ledo engano meu, o que encontrei foi uma opinião estereótipada de alguém que não acompanhou as mudanças da nova geração.

Vamos lá com calma. Primeiramente, o tal autor do texto criava uma linha de pensamento razoável ao alertar os leitores do perigo de se tornar ignorante e achar-se inteligente somente por ler, digamos, as leituras do momento. Ponto; aí, ele já adentra com uma diferença discrepante: a culpa dessa ignorância seria do autor, não do leitor. Ele cria a imagem de uma literatura de entretenimento, mas vazia e, que claro, não se compara com as literaturas clássicas, como Meu Pé de Laranja Lima ou Coleção Vagalume.
Ele, com muitas suposições e poucos argumentos, diz que as viúvas de Harry Potter são agora o público de Game of Thrones.
Em certos momentos, o post do cara fica coeso quando ele busca criticar o leitor "médio", mas ele se perde num ódio estranho caracteristico de alguém que mal sabe do que está falando, ou parece estar perdendo lugar para as "novas literaturas".

Então vim aqui desconstruir isso tudo e ver se tiramos algum proveito.
Primeiramente, toda literatura ficção, seja ela um romance ou terror, é entretenimento. Todo livro que busque criar algo ficcional, uma história na qual o leitor possa adentrar, é entretenimento e isso é simples de entender - por mais que o autor seja o mestre da escrita, se ele não entreter o leitor simplesmente ninguém vai se interessar pelo o que ele escreve.
Segundo ponto: cada livro tem seu público e sua época. O aclamado William Shakespeare era considerado de segunda linha - um teatro feito para as massas. Esse mesmo William Shakespeare hoje é usado como imã de geladeira pelos críticos do cházinho com dedo levantado. William levava a mesma caracterização que o autor do artigo deu para Martin - não estou comparando a literatura dos dois nem nada disso, apenas desenvolvendo a ideia de que cada livro tem sua época, e nem sempre o que agrada a maioria é ruim.
Terceiro ponto: tudo o que faz sucesso e arrebata diversos fãs, tem sua cota de gente débil mental que vai além da conta. Será que se Martin não fizesse tanto sucesso, ele estaria sendo criticado assim? Muitos podem ler Game of Thrones no modo automático, assim como a igreja católica leu Aristóteles e tirou coisas absurdas dali: tudo depende de cada ser. Em contraparte, alguém pode ler aquilo e com o minimo de estudo histórico, poderá perceber as milhares de referências e retrato da idade média de modo fiel, muitas vezes mais que as leituras que não são ficcionais. Ao ler a série inteira, a pessoa pode acabar se interessando e indo em busca de obras parecidas, como a Guerra das Rosas.
Harry Potter diferente de As Crônicas de Gelo e Fogo, é infanto-juvenil. Porém, temos também nele tantas referências e tanta maturidade social, que é difícil classificá-lo como meramente para crianças. A empreitada toda de Voldemort, por exemplo, contra os sangues-ruins, é claramente uma referência ao nazismo e tantas outras guerras que sucederam-se por diferenças físicas minimas (a missão de evangelizar os selvagens da América do Sul).

Ao ler Guerra dos Tronos nos sentimos sim inteligentes, por ser uma trama altamente elaborada e complexa - conseguir compreendê-la nos dá o sentimento de vitória, de que somos espertos. Mas agora, viver uma vida disso é uma tremenda ignorância. Aliás, se sentir superior e inteligente por qualquer coisa é ignorância (já dizia Sócrates, só sei que nada sei). Então, o cara do texto cai numa armadilha contra si mesmo, pois ele critica quem se sente inteligente lendo Guerra dos Tronos e Harry Potter, mas se vangloria por conhecer obras clássicas e coloca a fantasia num patamar inferior.
Nunca fui muito fã de Machado de Assis. Li, acredito eu pelo o que me lembro agora, uns dois livros dele e alguns contos. Mesmo assim, conheço gente que leu o Machadinho de cabo a rabo, sabe todas as obras e é uma anta para escrever - quer dizer, escreve bem, mas naquele modo comum e automático.

Quarto ponto: o autor do texto utiliza de uma linda manobra que faz você se sentir culpado. Você lê o texto e toda vez que ele cita algo contraditório à opinião dele, acaba menosprezando isso. Então ele fala algum absurdo sobre Guerra dos Tronos e Harry Potter e completa: provavelmente os fanboys que nunca leram determinada coisa devem estar me odiando agora. Aí você para e pensa - será que estou sendo irracional e sou mais um fanboy por isso? Não, não está, (ou pode estar, não sei hue) apenas sentiu uma discordância. Eu, por exemplo, confesso que fiquei muito puto - não por ser uma viúva de Harry Potter ou me sentir inteligente lendo Guerra dos Tronos, mas sim por que ambas fizeram, de certo modo, parte da minha formação como leitor.
Não quero ser o coitadinho ou o caramba, mas vou me usar como exemplo pois acho necessário: cresci num bairro pobre/classe média, com minha mãe passando dificuldades e um pai ausente. Na minha família quase ninguém tem ensino superior, tendo o conhecimento como base apenas a vivência. Estudei a vida inteira em escola pública; em lugares precários. Foi Harry Potter que abriu alas para que eu iniciasse nesse mundo dos livros - foi a partir dele que decidi o que queria fazer para a vida toda. Será que sou uma exceção? Acho que não. É fácil usar a massa como exemplo - sempre vão ter ignorantes, assim como na tv, rádio e etc. Sempre. Só pelo fato da massa estar lendo, ter algo ao seu alcance, visto a história, já é um grande avanço.
Agora, realmente deve-se alertar sobre os perigos de se sentir inteligente lendo somente isto. Mas, ao invés do autor do texto buscar bases como a educação pública que minimiza as áreas humanas, essenciais para a leitura de mundo de cada individuo, ele decide atacar os "fãs". E o pior, se iguala à tal massa de adolescentes e se mostra mais ignorante, pois o dito tem ensino superior e leu milhões de "obras clássicas" - e continua na estaca de se achar inteligente por que leu determinada coisa e compreendeu.
Não sei todos os usos dos por que's. Não sei todos os usos da crase. Será que por isso sou um mal escritor? Não sei, julguem vocês.

E por último, mais um ponto interessante de abordar: Stephen King. Na sua obra A Coisa, King por meio de William (como sempre um escritor), exemplifica bem as criticas. Não me recordo muito bem, mas vou reproduzir aqui mais ou menos o que li e um pouco da minha opinião misturados: na faculdade, se não me engano (e devo estar enganado), George se irrita com toda aquela firula critica de se escrever um livro. Tudo precisa ser alguma coisa, uma critica, uma visão e etc - aí ele questiona: por que não podemos simplesmente escrever histórias?
Ou seja, por que não podemos criar lugares, personagens e etc, sem a necessidade disso ser algo maior? Deixemos as personagens falarem por si. Isso é algo vazio? Não, pois conforme a história cresce, e frente aos próprios conhecimentos do autor, os temas surgem. No Iluminado temos o alcoolismo e ausência parental; na Coisa temos bullying, diferenças sociais e o retrato fiel dos anos 70, com todas suas particularidades e preconceitos; No Zona Morta a ignorância; e assim por diante. Retratar a vida comum com tamanha observação e transformar isso em algo interessante e com tantos significados, para mim é genial. Stephen King tem sim obras ruins e obras muito boas - mas um autor que consegue permanecer atual, escrevendo para adultos e crianças, seja uma ficção cientifica, terror e até drama, merece meu respeito.

A ignorância pode atingir qualquer pessoa e não importa quantos livros você tenha lido, sem a filosofia você está fadado à mesmice.
Na Grécia antiga, havia quem julgasse os filósofos dizendo que diziam muitas coisas diferentes e de nada importava a busca pela verdade: o que importava era o que cada um achava. Nisso, se especializaram na arte do convencimento, de distorcer o real para convencer as pessoas, mesmo sem terem conhecimento pleno daquilo que falavam. Os sofistas não morreram na antiguidade, aliás, se adaptaram.

No dia que as pessoas pararem de pensar no que acontece e focarem-se em por que acontece, talvez a humanidade caminhe para um mundo melhor. Veremos daqui cinquenta anos os críticos de monóculo vangloriando a fantasia e quem sabe dessa vez, qual será o tipo de obra usada para escárnio.

El Psy Congroo. 

Comentários

  1. Li o texto no qual você se referiu e achei muito interessante sua analise. Essa coisa de achar que somente escritores não comerciais tem valor como literatura de qualidade não passa de um preconceito seco e deveras defasado, muito defendido pelos tantos críticos que temos por ai.

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    Respostas
    1. Neutralidade não existe, mas acredito que críticos, assim como jornalistas, devam tentar sempre atingir esse equilíbrio. O que acontece é que existe muito "intelectual" saudosista. Como você critica um livro atual se não acompanha as transformações do mundo? No caso, a nova geração.

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